Voltar a mim

Por Clara

Lendo meus textos antigos, senti vontade de chorar. E essa vontade está entalada aqui no peito desde que comecei a tentar escrever sobre a nossa mágica capacidade de transformação. Sobre como nos tornamos outros, mesmo sendo os mesmos. Quis chorar porque me vi sendo outra e achei mais bonito ser como era antes. Agora seguro o choro do medo de isso ser um caminho sem volta. De não sermos capazes de sermos de novo quem já fomos. Seguro o choro porque agora sou assim, “mais centrada”.

Talvez seja temporário, talvez eu não tenha mesmo mudado, mas senti falta da sinceridade com que eu proclamava meus sentimentos. Seja nas metáforas, seja literalmente. Falta da sinceridade com que amei e do medo sincero que tive, e talvez ainda tenha, de não amar novamente.

Digo talvez, porque já não sei. Tenho levado tudo tão na brincadeira – buscado a leveza das relações superficiais – que não tenho tempo mais para fantasias. Propositalmente. E isso me faz bem por não me fazer mal, mas não preenche. Tenho medo de virar robô, de brincar de viver – uma vez que a vida sem sentimentos não é real e que não se arrisca o que não se tem.

Vem do risco as chances, as possibilidades. Se não nos arriscarmos a sentir, não ganhamos nada em troca. É necessário sentir para viver. Do contrário, só existimos. E apenas existir não me é suficiente, nunca foi. Sou acusada de não ter medo de ser feliz – não como denúncia, mas como indicação de quem sou – e disso não quero fugir.

Quero ter coragem para sentir, quero viver novamente do meu coração. A ingenuidade já não me é mais possível, que seja a capacidade de acreditar! Quero voltar a enxergar o mundo com os olhos doces da menina que sou. Não ganhei nada guardando meu coração na gaveta.