Tiro ao Álvaro

por Camila

Seu primeiro choro ecoou num bairro simples entre Belo Horizonte e Contagem. O último filho de um casal com tantos outros filhos de tantos outros relacionamentos. Finalmente, ele. Fadado a se ser desde que se sabe.

Álvaro fumou seu primeiro cigarro aos 9 anos. Aos 8, já desenvolvia sua sexualidade junto às primas. Sua primeira transa real, com barulho e gozo, foi aos 12. Na escola liderava, todo dia e não sem luta, os Brunos e Wellingtons e Diegos. Ainda hoje, se gaba de não ter aprendido nada dentro da sala de aula. Foram incontáveis as brigas nos arredores da quadra. Sangue, soco e suor.

Aos poucos, os irmãos foram saindo de casa. Aos 14 ou 8 ou 16. Álvaro seguia se sendo, foi motoboy, motorista de caminhão, garçom, ladrão de tequila, desvirginou inúmeras, passou raríssimos dias sem beber ou fumar. Ia no forró pra se sentir o rei do salão, das moças, das bundas. Parecia ter nascido em um altar. Desde que era Álvaro, gostava de estar um palmo acima das coisas e pessoas. As ganhava pela esperteza, pela desenvoltura ou pela imposição de seus gestos e palavras carregados da vaidade de quem necessita ser. Ou até pelo cansaço. Álvaro se manifestava à exaustão. E de tanto falar, se contradizia. De tanto se cercar, não aceitava ser só. De tanto se ser, se transbordava. Se esparramava e já não cabia.

As vagas nas universidades públicas aumentaram e Álvaro decidiu que podia ser. Ia fazer ensino superior, ganhar muito dinheiro e ser mais, sempre mais. Superar as expectativas que existiam para alguém da sua origem, da sua cor, com seus hábitos. Ele conseguiu e, como sempre, tudo seguia conforme o plano que traçava pra si.

Mas, no meio do caminho, o imprevisto. Álvaro se olhou no espelho e se viu grande demais para só ganhar dinheiro. Ele queria angariar almas, verdades, destinos. Se armou com suas palavras, usou sua cor e origem de escudo, e se jogou na batalha. Não largou a cerveja, a catuaba, a cachaça, a maconha, o tabaco ou as bundas, nunca. Mas esquadrinhou um mundo de injustiças, desigualdades, manipulações e hipocrisias e decidiu que era seu dever combatê-lo. Se viu vítima de todo o sistema. Se fez vítima de todas as circunstâncias. Concluiu que tudo ia contra ele: sua cor, sua origem, a insistência de suas palavras. A veemência, o orgulho e o potencial do seu ser.

Para Álvaro, de repente só havia uma saída: com suas mãos, voz e suor, vir com o mundo inteiro a pó.