Aos meus pais: eu voo

aosmeuspaiseuvoo

Mãe e pai,

Há algum tempo venho ensaiando algumas palavras para dizer a vocês, até que me deparei com essa música. Ela expressa tudo o que eu quero dizer, mas infelizmente é em francês. Precisei, então, redigir minhas próprias palavras para lhes dizer o que eu mesma quero dizer. De qualquer forma, peço que apertem o play antes de prosseguirem a leitura.

Meus queridos pais,

O momento chegou. Aquele. O mais temido. O mais aguardado. O mais imaginado. Pela primeira vez, coloco os meus pés para fora de casa com a esperança de só voltar como visita. Eu cresci do tamanho dos meus sonhos e as montanhas de BH já não me são mais suficientes. Já faz tempo, é verdade, que o conforto da cidade natal não me traz mais alento nenhum. Cumpridas as obrigações estudantis, é hora de buscar mais. De sonhar mais, enquanto realizo muito. É tempo de aprender a andar sem o auxílio de suas mãos. Agora, começo a caminhar sozinha.

A coragem e a esperança necessárias para encarar esse momento herdei de vocês. Sem perceber, vocês me ensinaram que a gente é o que a gente quiser ser. Papai se formou em engenharia e logo viu que seu caminho era outro. Virou empresário, seríssimo, original de Ponte Nova. Mamãe foi administradora, professora de Yoga e, agora, confeiteira-empresária. Nunca ficou parada onde não mais queria estar. Do interior, vieram para a capital de Minas Gerais; da casa dos pais, dividida com vários irmãos, foram para os braços um do outro; de um apartamento modesto, se mudaram para uma casa enorme. Tudo realizado com muito suor no rosto, afinal não basta sonhar – nunca basta -, é preciso perseguir o sonho. E lá vou eu perseguir o meu.

Não pensem que vou porque vocês não me são suficientes. Ninguém é, mas vocês são mais que todo mundo. Só avanço porque sei que, caso leve um tombo, tenho o colo de vocês para me amparar. Só vou atrás do que quero, porque, ao longo desses 23 anos, vocês me mostraram que eu consigo tudo o que me for importante. Você, mãe, dizendo “engole o choro, filha, tenta de novo, de um jeito diferente” e, quando necessário, pegando a mochila para me acompanhar, onde quer que fosse. Você, pai, sem nunca negar fôlego, me auxiliando dentro das possibilidades, ao mesmo tempo em que me mostrava o valor da minha própria contribuição na realização dos meus objetivos. Aprendi direitinho.

O momento chegou. Tenho o espírito apegado nos laços afetivos, mas um coração que necessita viver o mundo todo. Minhas raízes são enormes, mas minhas asas maiores ainda. Preciso voar. Não é descaso, é destino. Uma jornada inédita e espetacular me aguarda, em que eu preciso contar principalmente comigo mesma para que tudo dê certo. Estou virando gente grande e minhas asas estão cada vez maiores. Chegou o momento. O caminho agora é para a frente. Vou voar. Graças a vocês, vou voar.

Com carinho,

Clarinha

Ps. A letra da música se traduz mais ou menos assim (reiniciem e apreciem):

Eu Voo

Meus queridos pais, eu vou embora
Eu os amo, mas eu vou embora
Vocês não teem mais filhos
Esta noite

Eu não fujo, eu voo
Entenda, eu voo
Sem fumar, sem álcool
Eu voo, eu voo

Ela me observou ontem
Preocupada, minha mãe
Como se ela senti-se, na verdade, ela suspeitou
Ouça

Eu disse que estava bem, com ar sereno
Ela fez como nada, e meu pai impotente
A sorrir.
Não se vire, se afastar um pouco mais
Há estação, outra estação e enfim, o atlântico

Meus queridos pais, eu vou embora
Eu os amo, mas eu vou embora
Vocês não teem mais filhos
Esta noite

Eu não fujo, eu voo
Entenda, eu voo
Sem fumar, sem álcool
Eu voo, eu voo

Eu me pergunto se no meu caminho
Se meus pais suspeitam
Minhas lágrimas escorriam
Minhas promessas e desejo
Avançar

Só acredito na minha vida
Tudo o que me é prometido
Por que, onde e como
Neste trem que se desvia
Cada momento

É estranho, esta gaiola
Bloqueio de meu peito
Eu não posso mais respirar
Isso me impede de cantar

Meus queridos pais, eu vou embora
Eu te amo, mas eu estou deixando
Você não vai ter filhos
Hoje à noite

Eu não fujo, eu voo
Entenda, eu voo
Sem fumar, sem álcool
Eu voo, eu voo

La la la la la la
La la la la
O
Eu voo

Sobrevivi a 2014, agora ninguém me segura

2014

2014 foi definitivamente um fim de ciclo na minha vida. Um ano louco, lotado, intenso, mas um cadinho solitário. Teve Carnaval inesquecível, finalização de TCC, lançamento de livro coletivo, apresentação de TCC, formatura, re-Buenos Aires, anivertura e seleção para o Curso Abril de Jornalismo (CAJ). Fez falta o recorrente bar de sexta-feira e o antigo ombro amigo de terça. Eu devia ter tido mais paciência para ficar só comigo mesma – os sentimentos teriam sido mais fáceis – mas o silêncio ensurdecedor do futuro estava mais forte do que nunca. Preferi ir ao cinema, ou reclamar no meu diário.

Em novembro, eu pensei que não teria forças para chegar até dezembro. O resultado mais esperado de toda a minha vida ia sair em breve e poderia não ser a guinada transformadora do meu destino. Quando ele saiu, positivo, consegui enxergar a grandeza do meu 2014. Foi um ano cansativo, mas necessário.

Da minha lista de (pelo menos) 67 promessas, cumpri algumas. Li os 12 livros, aprendi mais que 5 receitas, vi extremamente mais que 24 filmes, experimentei 5 dos 10 sabores de sorvetes, conheci 2 cidades novas ao invés de 3, não enviei nenhuma das 6 cartas, fiz apenas um novo amigo… Gostaria de ter observado mais o céu, mas colei estrelas no teto do meu quarto para me lembrar constantemente que o universo está repleto de magia e que eu nunca devo desistir de experenciá-las.

Magia como os infinitos dias de Carnaval vividos com muito glitter no côncavo do olho, muitos copos de catuaba, risadas incansáveis e eternos abraços de gratidão. Magia como a generosidade das palavras recebidas na apresentação de TCC, como a intensa alegria no lançamento do livro do BH nas Ruas, como as lágrimas contentes disfarçadas pela beca na colação. Magia de momentos que, como esses, me fizeram me sentir completa.

Vivi um romance (sem nenhuma gota de amor) de verão e uma paixonite (sem nenhum laço de saudade) de inverno, um caso que tinha tudo para dar em tudo finalmente não deu em nada, relacionamentos compridos que nunca tiveram futuro enfim chegaram ao fim. Ufa. Descobri a enorme força do companheirismo dos meus 4 melhores amigos da faculdade, senti muita falta dos amigos que foram de intercâmbio, e também dos que não foram. Mais. Vivi uma festa eterna durante a Copa, descobri novos lugares na minha amada Buenos Aires, comecei meu primeiro emprego como jornalista graduada, me apaixonei por Itatiaia, comi o melhor dogão, na Praça Espanha de Curitiba, mais uma vez.

Saio de 2014 com o que foi planejado para mim finalizado. Cresci, estudei, cresci, me formei, cresci, trabalhei, cresci. Em 2015, uma nova vida se inicia, uma vida planejada por mim, com muitas expectativas e pouca (ou nenhuma) previsão. Estou indo para São Paulo participar do CAJ e espero não voltar. Pelo menos, não tão cedo. Vou conhecer novos caminhos, trombar em novas pessoas, aprender uma linguagem completamente nova. Estou empolgadíssima. 2014, obrigada por me preparar.

A melhor decisão da minha vida

cursoabril

Eu tinha dezesseis anos quando me disseram que era hora de começar a decidir com o que eu gostaria de trabalhar pelo resto da minha vida. Eu tinha dezesseis anos, muitas paixões e pouquíssima noção de qual profissão poderia me fazer feliz. Minha irmã estudava engenharia química, meu pai era um ex-engenheiro civil dono de lojas e minha mãe havia acabado de fechar sua confecção de roupas para dar aulas de Yoga. Observando minha família eu percebi que, no fim, a faculdade nem sempre define todo o nosso futuro. Percebi também que eu não queria ser nem engenheira, nem empresária, nem professora de Yoga. Eu precisava encontrar o meu próprio caminho.

Com o vestibular à vista, passei tardes e tardes refletindo sobre quais atividades me atraíam. Na escola, eu adorava as aulas de história, redação e artes. Fora dela, eu já havia feito diversos cursos. Canto e guitarra eram as aulas extras da época, mas, apesar da clave de sol tatuada no ombro direito e da minha enorme força de vontade, eu sabia que não tinha talento para música. Tentei olhar mais para trás e pensei nos meus dez anos de balé e jazz. Eu adorava! Mas, realmente, para mim a dança não passava de um hobby.

Indo mais fundo, lembrei das minhas aulas de teatro e do meu antigo sonho de ser atriz. Mais que atuar, eu adorava teatro, cinema e televisão. Cinema e televisão! Boa! Seria o máximo estudar cinema ou algo relacionado à TV. Eu também adorava fotografia e sonhava secretamente em ser escritora. Finalmente! Agora eu tinha possibilidades um pouco mais concretas.

Enquanto essas ideias rondavam minha cabeça e meu coração, dei de cara com a página que – eu ainda não sabia – mudaria a minha história. “Quer fazer parte da Galera Capricho?”, dizia o anúncio estampado na Revista Capricho, minha favorita na época. “Por que não?”, pensei. Preenchi o formulário sem botar muita fé e acabei me esquecendo do assunto.

Um tempo depois, recebi um telefonema da Karol Pinheiro, na época estagiária da revista e “mãe” da Galera. Eu e outras noventa e nove meninas havíamos sido selecionadas entre mais de 12 mil candidatas para talvez ser umas das 30 integrantes da Galera Capricho. No fim, depois de conversar com todas por telefone, ela acabou se decidindo não por 30 meninas, mas por 33, e uma delas era eu! E foi assim, entrando para a Galera Capricho, que começou o meu encanto pelo jornalismo.

Ajudar os repórteres da Revista nas mais diversas atividades me fez perceber que, como jornalista, eu não precisava abandonar o cinema, a televisão e a fotografia. Melhor: eu poderia escrever sobre eles. E também sobre muitos outros temas. A cada matéria, um mundo novo a descobrir.

Ingressei, então, no curso de Comunicação Social da UFMG e meu entusiasmo pelo jornalismo aumentou ainda mais. Quanto mais eu conhecia sobre a profissão, mais eu queria fazer parte dela. Ser jornalista, afinal, não se tratava apenas de conhecer mais sobre o mundo, mas de fazer o mundo se conhecer melhor.

Porém o golpe fatal da paixão veio mesmo durante as “Jornadas de junho”. Percebendo a dificuldade em acompanhar as manifestações no Rio e em São Paulo e imaginando que o mesmo aconteceria em Belo Horizonte, eu e alguns amigos criamos uma página no Facebook para centralizar as informações de quem estava nas ruas presenciando tudo, a “BH nas Ruas”.

A página hoje tem quase 95 mil seguidores e foi modelo para muitos outros coletivos de cobertura colaborativa surgirem ao redor do Brasil. Chamamos a atenção não só do público, mas também de profissionais e estudiosos da área que ficaram curiosos para entender como a nossa cobertura funcionava. Nós também ficamos maravilhados com a nossa criação e a experiência acabou virando livro.

E foi assim, dormindo pouco, mas fazendo um trabalho de extrema relevância para a minha cidade, para o meu país e para a minha formação, que eu percebi que não poderia mais viver de outra forma: eu seria jornalista pelo resto da minha vida. Essa foi a melhor decisão que já tomei.

* Texto aprovado na primeira fase de seleção do CAJ 2015 (Curso Abril de Jornalismo). Selecionada, fui entrevistada e definitivamente aprovada. Em janeiro, estou indo para São Paulo vivenciar 45 dias intensos de muito aprendizado e alegria.