“13 reasons why” é pesada, mas necessária

*contém spoilers

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Eu não sou especialista. Não estudei psicologia, nem tenho a menor noção de psiquiatria. Então o texto que se segue são apenas impressões de uma garota que já sentiu sentimentos parecidos com os de Hannah Baker, mas, definitivamente, nunca pensou em se matar.

Minha primeira reação ao começar a assistir 13 reasons why foi “cara, que menina mandona”. Peguei bode da Hannah dando ordens e culpando seus colegas por ter se matado. Porém, ainda no primeiro episódio, o quadro mudou de figura.

Hannah deu seu primeiro beijo e, no dia seguinte, já era chamada de vadia pela escola. Foi só um beijo. Ela e o cara haviam tido uma paquera legal, o dia foi divertido e terminou com um beijo rápido no parquinho. Mas a vontade de se encaixar fez com que o menino espalhasse boatos sobre aquela tarde – e isso desencadeou em uma série de outras mentiras que trouxeram consequências graves para a vida da garota.

Continuei a série pensando “legal, muito disso realmente acontece na escola, é importante falar, mas por que a galera está tão chocada?”, até que cheguei na parte pesada. Os relatos de Hannah são doídos de acompanhar, porque são reais. Todas as semanas, garotas bêbadas são estupradas nas escolas e universidades, todos os meses, garotas sóbrias também. No entanto, esses acontecimentos – presenciados e vividos – são apenas a gota d’água final em um mar de desgraça e solidão na história da protagonista da série.

Não sei se você se lembra como se sentia quando era adolescente. Nem sei se, por acaso, seus sentimentos se pareciam com os meus. Mas eu era bem sozinha. Estava sempre rodeada de amigos, entretanto era completamente solitária. Não faço ideia se minha mãe se recorda: em muitas noites, eu chorava pedindo para nos mudarmos de cidade, pois eu não era feliz na minha escola e porque as minhas amizades nunca mais seriam como as que tive na infância.

Isso não quer dizer que eu não fui feliz na adolescência. Eu fui. E muito. Tive momentos inesquecíveis, vivi experiências as quais daria tudo para repetir. Mas eu também sofria. A sensação de me sentir deslocada doía mais do que as piadinhas imbecis dos meus colegas playboys. Em casa, era chamada de mal-humorada e dramática. Na escola, a minha fama era de efusiva, porém o “dramática” continuava me acompanhando.

Por essa razão, cada vez que alguém na série dizia “a Hannah era muito drama e eu não estava afim de lidar com aquilo naquele dia”, eu pensava em mim e nos meus amigos. Certamente, a maioria já teve esse sentimento em relação a mim. Se estou um pouquinho triste, resolvo sozinha. Vejo filmes, como brigadeiro, me maquio de palhaça. Entretanto, quando estou na merda, transbordo. Ninguém dá muita bola, só minha mãe. Quando as crises de choro não passam, ela insiste para que eu ligue para a minha terapeuta. Quatro sessões depois, estou novinha em folha.

Por isso, repito: jamais pensei em me matar. Nunca fui diagnosticada com depressão. No entanto, eu já tive momentos em minha vida em que me senti no fundo o poço, sem esperança – e foi justamente nesses momentos que as pessoas queridas mais se afastaram de mim. Lembro-me apenas de uma vez em que minhas amigas interviram e instistiram para que eu procurasse ajuda. E, de novo, quatro sessões de terapia depois, eu já estava forte novamente.

O problema é que algumas pessoas não conseguem recuperar suas forças da mesma forma que eu consigo. Elas chegam ao fundo do poço e por lá ficam. A reação de quem está por perto, normalmente, é não dar bola. “Isso é drama, já passa”. Não passa. Nem sempre passa. Quem está assim não tem forças nem mesmo para pedir ajuda, quanto mais para se salvar por conta própria. E os amigos se afastarem só torna tudo pior.

Apesar de, inicialmente, não ter gostado da atitude de Hannah de culpar os amigos por seu suicídio, no fim, eu compreendi a importância da forma como a narrativa foi construída. A adolescente fictícia não se matou por causa deles, ela se matou porque muita merda aconteceu enquanto ela passava pela fase mais solitária e insegura da sua vida. Ela se matou porque não dava conta de suportar tudo aquilo sozinha.

É por isso que eu acredito na importância de 13 reasons why ter virado série. Assustou muita gente, não assustou? As linhas de atendimento do CVV foram descobertas por muitas pessoas que precisam de ajuda, enquanto uma galera se atentou para a importância de se estender a mão – o ombro, os ouvidos, o colo e os dois braços – para quem precisa.

Repito: não sou especialista, não sei falar sobre as implicações que a série pode trazer para quem está na beira do abismo. O que sei é que muita gente agora vai pensar duas vezes antes de dizer que um amigo “é muito drama” e simplesmente dar as costas. Os sentimentos negativos não tendem a melhorar. É preciso de um empurrãozinho – e, às vezes, mais do que isso – para que quem está no fundo do poço consiga olhar para cima e reúna forças para retornar ao topo.

Para mim, esta é a mensagem de 13 reasons why: seja um estímulo positivo na vida das pessoas, não o contrário; seus amigos precisam de você. Espero que ninguém se esqueça dela quando o hype chegar ao fim.

O especial de ‘Gilmore Girls’ era exatamente o que eu precisava neste fim de ano

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Hoje acordei às 14 horas, preparei um bom café e me sentei em frete à televisão. Pedi um delivery de comida chinesa, já que – por algum motivo que desconheço, mas desaprovo profundamente – as pizzarias de SP só fazem entregas a partir das 18 horas. Café e delivery, esse era o único jeito possível de iniciar a minha maratona de Gilmore Girls: Um Ano Para Recordar.

Sou fã da série há três meses e as lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto logo no momento em que apertei o play na Netflix – imagino como deve ter sido para quem se apaixonou pelas mulheres Gilmore há 16 anos. É inverno em Stars Hollow e Lorelai sorri para a neve com a mesma alegria tranquila que eu sorrio quando reúno vários amigos no mesmo programa. Logo chega Rory e as duas começam aquele diálogo veloz, cheio de referências pops e irônia, que tornam a história delas tão gostosa de acompanhar.

Passaram-se 9 anos desde que Luke deu um beijão de reconciliação em Lorelai e Rory saiu para cobrir a campanha do Obama para presidente. A ansiedade em saber o que aconteceu com elas desde então é tão grande quanto a vontade de os quatro episódios do especial durarem para sempre. A história vai se desenrolando e está tudo ali, não falta nada. Parece que é Natal, mas sou apenas eu assistindo TV sozinha em casa enquanto devoro uma caixa de yakissoba e outra de frango empanado. E isso é perfeito.

Lorelai e Rory estão passando por situações que se encaixam perfeitamente com os questionamentos que tenho me feito neste fim de ano. A filha principalmente. Ela entrou para o mundo do jornalismo com os mesmos sonhos que a maioria de nós entra quando embarcamos na profissão. Contar histórias relevantes! Fazer a diferença!! Mudar o mundo!!! Mas é 2016 e as pessoas preferem fazer testes do BuzzFeed e assistir a vídeos de desconhecidos falando sobre a própria vida no YouTube do que ler um bom artigo ou um livro reportagem.

Sou jornalista e não trocaria a minha profissão por nada. Porém, com as redações cada vez menores, morro de medo ser obrigada a encarar um plano B para me sustentar. Eu não tenho um plano B. Além disso, sempre sinto que deveria estar fazendo mais. Trabalhar com produção de conteúdo online é cruel. As pessoas só clicam nas notinhas e listas mais bobas que você faz. Quando, finalmente, tem tempo para produzir uma reportagem relevante, os poucos leitores encontram algum jeito muito cruel de lhe criticar por não ter escrito sobre o tema da forma que elas escreveriam.

Ver a Rory procurando emprego em uma redação aos 32 anos é angustiante. Ela leu todos os livros imagináveis, conhece tudo de cultura pop, é uma mulher curiosa sempre em busca de aperfeiçoamento e sabe escrever um artigo de opinião como ninguém. Desempregada. E não é porque ela não é boa o suficiente, mas porque, hoje em dia, é mais fácil virar uma blogueira mundialmente famosa do que conseguir um emprego na área editorial.

Vê-la nessa situação, me faz questionar ainda mais sobre a minha carreira. Estou no caminho certo? Por que não escrevo um livro? Será que começo a produzir reportagens por conta própria no meu tempo livre? Se me organizar melhor, eu consigo fazer toda a parte gerencial do meu trabalho e ainda produzir matérias relevantes no horário de serviço? E aos 32 anos? Será que, até lá, já terei influenciado positivamente a vida de alguém com minhas palavras? Onde estarei trabalhando? Em que cargo? Já vou ter lançado um livro?

Outro aspecto da vida de Rory é que ela segue enrolada nas questões amorosas. A sociedade nos faz acreditar que, se você não tiver encontrado alguém para passar o resto de sua vida até os 28 anos, você é uma fracassada. Rory – assim como eu – sabe que existem coisas mais importantes que isso. Inclusive, é bom ver sua independência sexual. Ela tem um namorado nos EUA, pega o regularmente ex em Londres e, finalmente, faz sexo casual pela primeira vez. Porém – assim como eu –, Rory fica carente da segurança que um relacionamento estável e cheio de companheirismo trás.

E esse é um ponto que, pelo meu histórico, eu não imagino sendo resolvido na minha vida. Nunca namorei, tive alguns rolos que se estenderam por mais de três anos e sempre me dei muito mal quando me envolvi sentimentalmente com alguém. Porém, quando vejo Lorelai, sei que há esperança. Aquele amor firme e intenso que quase toda menina sonha desde a adolescência – por mais feminista que seja – pode chegar depois dos 32. Para ela chegou. Ver o quanto Luke e Lorelai são companheiros é acalentador. No entanto, a série mostra que, após o casal se beijar no “fim”, por melhor que seja a relação deles, os conflitos nunca acabam. Isso é bom. Estabilidade demais é entediante. Mulheres como eu e as Gilmore não gostam de tédio, afinal.

Já passava das 22 horas quando, depois de muitas lágrimas de alegria e melancolia e alguns aplausos de empolgação, chegou o momento das quatro palavras finais. Aquelas que a criadora Amy Sherman-Palladino guardava há anos – e não aconteceram antes porque ela e o marido não participaram da sétima temporada da série.

(agora é a hora que você para de ler se não tiver assistido ao especial ainda, porque eu não quero ser a pessoa terrível que conta lhe conta isso. você precisa assistir!! – sério, segure a ansiedade)

Rory, enfim, tem um foco profissional: está escrevendo o livro da sua vida. Também colocou um ponto final nos relacionamentos que, claramente, não têm futuro. Lorelai está casada com Luke e bem resolvida com Emily, sua mãe (o momento atual dela é outro que rende um post inteiro!). As duas estão sentadas no coreto na praça central de Stars Hollow e Rory solta: “mãe, eu estou grávida”. Fim.

Eu sorrio. Consigo, finalmente, secar as lágrimas que escorreram ao longo dos quatro episódios. Rory está grávida! Assim como na vida real, ainda tem mais por vir na história das Gilmore. Os desafios nunca acabam. Sinto certo alívio. Não cheguei a nenhuma conclusão sobre minha carreira, muito menos sobre a minha vida amorosa. Gilmore Girls, afinal, não é sobre respostas. Nunca foi. Gilmore Girls é sobre viver, encarar desafios, se decepcionar e, principalmente, aproveitar a sua jornada da melhor maneira possível.

Meu sorriso é o mesmo que Lorelai sorria no início do primeiro episódio do especial, o mesmo que sorrio quando reúno vários amigos. Amanhã a vida continua com todos os seus desafios e questionamentos. As perguntas que, algum dia, tiverem respostas serão prontamente substituídas por mais dúvidas, outras serão mistério para sempre. O importante, enfim, é nunca esquecer de apreciar e curtir os detalhes do percurso. Hoje, por exemplo, foi um dia inteiro de contentamento: delivery, Gilmore Girls e minha própria companhia. Nunca vou me esquecer deste sábado especial.

Finalmente terminei “Gilmore Girls” e posso fazer este desabafo que estava entalado há um tempão

*contém spoilers

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A primeira vez que vi “Gilmore Girls” foi no SBT. Eu não sei ao certo quantos anos eu tinha, mas adorava quando ligava a TV e estava passando. Por muitos anos carreguei um carinho pela série, mesmo sem me lembrar de muito mais do que o nome de uns cinco ou seis personagens de destaque. Sempre foi uma história a qual eu quis muito ter visto toda, mas nunca rolou. Até que a Netflix disponibilizou todas as sete temporadas em julho deste ano.

Após diversos sábados e madrugadas de maratona, noites e noites estirada no sofá vidrada na televisão enquanto comia brigadeiro, hoje, enfim, terminei os 152 episódios da história de Rory e Lorelai Gilmore. Ao longo desses três meses, precisei lidar paralelamente com as notícias e boatos gerados pelo revival da série – com estreia no fim deste mês. Logo me chamou a atenção a disputa que o público começou a fazer sobre com qual namorado Rory deveria ficar no especial. Afinal, eu havia acabado de conhecer o Dean e já precisava lidar com o fato de que esse romance adolescente, a qualquer momento, chegaria ao fim e ainda viriam Jess e Logan.

Confesso que, devido às circunstâncias, analisei a ação de cada um dos rapazes ao longo dessas sete temporadas. Foi inevitável! Vocês torciam tanto por eles! Em alguns momentos me perguntava “mas já se passaram nove anos, será que a Rory não conheceu alguém melhor?”, porém, por toda a pressão ao redor, eu sentia como se também precisasse escolher um time – e escolhi. No entanto, quando descobri que a garota recém-formada terminava sozinha porque preferiu se dedicar ao início da sua carreira de jornalismo antes de se prender a alguém, a única coisa que eu consegui pensar foi “sério mesmo pessoal?”.

Uma menina de vinte e dois anos se forma, vai cobrir a campanha completa do Barack Obama para a presidência – todos sabemos o resultado político e jornalístico disso – e vocês estão preocupados em descobrir com qual ex-namorado de mais de nove anos atrás ela vai ficar? É isso mesmo? Não sei como foi a vida amorosa de vocês até o fim da faculdade, mas eu espero imensamente que, daqui uns anos, eu não precise escolher entre nenhum dos meus exs desse período para as pessoas ficarem felizes por mim.

Assim como Rory, sou jornalista. Assim como a maioria dos seres humanos, sonho, sim, em encontrar, algum dia, isso que a sociedade vende como amor. Não tive muita sorte nos meus casos amorosos e sei que são tempos difíceis para os apaixonados por fatos do cotidiano e por grandes histórias do mundo real. Porém, sinceramente, se eu pudesse escolher entre consertar o jornalismo ou o meu coração, eu escolheria mil vezes o jornalismo.

Não sei se vocês acompanharam a mesma Rory que eu, mas tenho certeza que aquela menina que vimos crescer ao longo de sete temporadas também escolheria o jornalismo. Ela termina a série a caminho de uma das maiores coberturas da história do jornalismo americano. O que acontece depois? Ela é contratada por algum jornal impresso, como sempre sonhou? Segue em publicações online? Tenta outras mídias? Quais assuntos ela cobre? Já fez reportagens premiadas? Definitivamente, foi essa a história que ficou em aberto.

É claro que tenho interesse em saber como fica seu coração. Eu sou uma das maiores fã de histórias românticas do mundo. Sei que, em algumas noites e finais de semanas, faz a maior falta ter quem te dê afeto e que, só de olhar nos seus olhos, mostre o quanto você é importante. Tenho consciência: por mais bonito que soe, nossas batalhas e vitórias pessoais não enchem o nosso coração por completo. No fim, todo mundo sonha em ser feliz no amor – e torce para que seus personagens favoritos também sejam. Só fiquei preocupada de, durante os últimos meses, os únicos spoilers de “Gilmore Girls” que recebi terem sido sobre Dean, o Jess e o Logan. A série fala sobre tanta coisa a mais!

Espero que a Rory, agora com 32 anos, tenha encontrado um companheiro ou, então, acabe conhecendo alguém bacana nesse revival. Pode até ser algum dos caras do passado, vai saber! Meu ponto é: as pessoas precisam lembrar que o mundo é mais do que encontrar a metade da sua laranja ou não morrer sozinho.  Colocar a felicidade toda de alguém nas mãos de outra pessoa não é justo. Nunca é demais lembrar que você consegue conquistar valiosas alegrias por conta própria. E eu não estou falando de ser consagrado na profissão ou de encher o bolso de dinheiro, mas de correr atrás dos seus sonhos. Seja eles quais forem.