Eu só queria chegar em casa e dormir, mas esbarrei com você no meio do caminho

Depois de uma segunda-feira pesada, daquelas que o tempo passa tão rápido quanto discursos de colação de grau e as obrigações são tão divertidas quanto arrancar o siso, tudo o que eu queria era me teletransportar para casa. Estalar os dedos na redação e – plim! – surgir deitada na minha cama. Contudo, como mera mortal que sou, precisei pegar o metrô e suas baldeações para chegar ao meu apartamento.

Foi então que, como se o dia já não tivesse sido desgastante o suficiente, no meio do caminho, esbarrei com você. Ou melhor, com uma lembrança sua. Te vi ali, na plataforma da Consolação, com a blusa social toda amarrotada, me esperando com a maior cara de sono do mundo. Mesmo visivelmente cansado, seu rosto abriu um sorriso enorme ao me ver. Essa cena poderia salvar o meu dia, se não fosse apenas uma recordação da última vez que você sorriu com sinceridade pra mim. Quatro meses atrás.

Logo o metrô chegou e eu, enfim, voltei para casa sem mais fortes emoções. A noite correu bem, até meu corpo exausto finalmente cair na cama e minha mente resolver, outra vez, te visitar no passado. Naquele dia, o meu plano original era ir a uma festa com meus amigos. Eu nem estava com tanta vontade, queria mesmo era passar a última noite em sua companhia antes de ficarmos duas semanas separados por causa das festas de fim de ano. Porém, você sabe, não sou do tipo que desmarca compromissos.

Então, imagine a minha alegria quando, em comum acordo, eu e meus amigos decidimos cancelar a balada. A primeira coisa que fiz foi te mandar uma mensagem pedindo para me encontrar. Você nem hesitou. Saiu na mesma hora de onde estava e foi me ver. E essa foi a última vez que você me encontrou de imediato, sem se questionar se realmente deveria ir.

Se eu tivesse consciência que aquela seria uma noite de últimas vezes tão importante, com certeza teria te aproveitado melhor. Ao invés disso, passamos a noite discutindo por bobagem, dormimos emburrados um com o outro e, assim, destruímos de vez qualquer possibilidade de sermos felizes juntos. Nós nem percebemos isso, mas foi naquele dia que tudo mudou.

Eu viajei, você viajou. O tempo afastados só piorou tudo. Depois disso, você nunca mais aceitou os meus convites com prontidão. Eu, desesperada, tentei tapar os buracos que cavamos tão profundamente dentro de nós com as nossas inseguranças durante aquelas duas semanas separados. Não funcionou. Eles já estavam entranhados demais e, com o passar das semanas, só se multiplicaram.

Lembrar de tudo isso não faz sentido nenhum agora que, depois de doloridas idas e vindas, o “eu e você” enfim acabou. É bem provável a gente nunca mais se encontre e, toda vez que penso nisso, eu choro um pouquinho. Sua ausência ainda me machuca. Já você, imagino, conseguiu seguir em frente. Nunca mais me ligou de madrugada, nem respondeu às últimas mensagens que mandei.

Eu venho tentando fazer o mesmo, virar a página. Alguns dias são melhores que outros, confesso. E sei que daqui a quatro anos esse sofrimento provavelmente não fará o menor sentido. No entanto, em uma segunda-feira desestimulante como esta, tudo o que eu queria era me encontrar com você na plataforma da Consolação e te dar um abraço tão intenso e demorado quanto as nossas ansiedades. Daquele jeito que fizemos tantas vezes em dias de semana atribulados.

Você não faz ideia de quantos dias ruins foram salvos por noites alegres em sua companhia. No momento, porém, só depende de mim me fazer feliz. Sempre foi assim, afinal. Seu cabelo comprido e suas camisas sociais fazem tanta falta quanto eu imaginava, mas vai passar, eu sei. Toda vez passa. Agora é melhor eu dormir que já são quase três da madruga e essas reflexões não vão me levar a nada. A boa notícia é: amanhã é um novo dia. Melhor que hoje, eu espero. Um pouco mais sonolento, talvez. Definitivamente, sem você.

Shine on you

lucy

Tem dias que a gente sabe que irão chegar. Todos os dias irão chegar, inevitavelmente – mas há aqueles que a gente espia do começo da curva, espichando o pescoço, e já fazem doer.

Eu nunca ouvi “o cão e a ciência” sem sofrer. Sempre soube que um dia ouviria sentindo a dor que antes eu só supunha, que um dia o medo viraria verdade e seria meu o vazio de não mais te ter nesse mundo.

Eu nunca te dei um tchau sem sentir o coração apertado, sem te olhar no fundo do olho, sem dar um beijo na ponta do seu focinho. Meu olhar no seu sempre teve metade de culpa. Desculpa não te carregar comigo, desculpa ter te separado da gente, desculpa só aparecer para te dar banho, desculpa cada frio ou fome ou sede ou saudade ou solidão, desculpa esses foguetes irritantes do futebol, desculpa a minha ação nunca ter conseguido fazer jus ao meu amor. Eu queria te colocar pra dormir comigo, queria todas aquelas tardes da gente deitada juntas ao sol enquanto eu lia. Queria seu rabo abanando pra sempre. Queria o castanho dos seus olhos, sua barba branca, seu peito ultimamente acaju. Sua calma, sua paz, seu corpo respirando leve.

Mas eu também te queria alegre de novo. Trotando como nas nossas tardes em praças. Em Pouso Alegre, com os vizinhos te chamando de ‘moussie’, em Sete Lagoas, com você livre da coleira, em Beagá, com um chão de folhas secas. As pessoas sempre elogiando seu pelo, seu porte, sua doçura. Sua amabilidade infinita. Te queria forte e iluminada e viva e um tiquinho lerda, como não poderia nunca deixar de ser.

Mas você se foi. Nesse domingo chuvoso, em que meu coração também se afoga. No dia 22 de dezembro de 2013, lembrando que um outro amor nascia há 5 anos. Lembrando que há dias que a gente sabe que irão chegar – ainda que nunca estejamos exatamente preparados para eles. Que o ciclo da vida pede começos e fins e são todos eles certos, inevitáveis e [des]humanamente dolorosos. Porque hoje chegou e é muito ruim encará-lo. O coração pesa e a gente insiste em repassar o que poderia ter sido feito, o quanto eu poderia ter te esmagado em um abraço a mais, por um instante a mais. E só é muito triste que hoje tenha chegado.

Era você que estava no carro comigo, há três dias, quando minha irmã me contou que eu vou ser tia e eu gritei e chorei como se fosse enlouquecer. Foi você que, lá do banco de trás, testemunhou a notícia mais feliz que eu me lembro de ter recebido. A nova vida que se anuncia. Foi com você que eu compartilhei aquela manhã linda de quinta-feira, em que o sol brilhou, o céu azulou, a gente viu as flores e a lagoa e eu escolhi o CD da Adriana Calcanhotto porque achei que seria o que você mais gostaria. Que bom cada afago que me virei para te dar. Que boa aquela nossa manhã colorida, minha neguinha.

‘Últimos’ são tão cruéis quanto ‘primeiros’ são mágicos. O dia em que você chegou lá em casa, no colo do meu pai. A gente escolhendo seu nome. Seus primeiros passos, trôpegos. Suas primeiras gracinhas. O primeiro amor. Meu primeiro sobrinho, minha primeira sobrinha. O nosso último tchau. Meu último beijo no seu focinho. Meu último ‘eu te amo, preta’, ainda que eu nunca vá deixar de te amar, por toda a minha vida.

Descanse em paz, meu anjo. No céu, com diamantes.