As três melhores serenatas da história do cinema

Todo mundo se acha sabichão. Um acredita que tem o direito de escolher as 10 melhores séries de TV de todos os tempos, outros se sentem especialistas dignos de selecionarem os 50 melhores restaurantes do mundo todo, tem gente até que se arrisca a publicar uma lista com as cinco melhores posições sexuais para engravidar. Já que é assim, eu também quis compartilhar meu conhecimento. Sou sabichona em comédia romântica e é isso que eu tenho a oferecer a vocês:

As três melhores serenatas da história do cinema

1.
Música “Can’t take my eyes of you”
Intérprete: Heath Ledger
Filme: “10 coisas que eu odeio em você”

10things

Durante a aula de educação física de Kate (Julia Stiles), uma voz misteriosa e maravilhosa surge dos alto-falantes do ginásio. “You are just too good to be true, caaan’t take my eeeeyes of you”. Todos param de jogar o que quer que estivessem jogando e olham ao redor à procura do responsável por esse momento sublime. “You’d be like heaven to touch”. E então surge Patrick (Heath Ledger) – “I wanna hoooold you so much” – descendo completamente seguro de si o cano que suporta os alto-falantes de onde saem a sua voz.

“At long last love has arrived”. Ele é lindo. “And I thank God I’m alive”. Ele usa o cabelo todo bagunçado. “You’re just too good to be true”. Ele é o maior bad boy da escola. “I can’t take my eeeeyes off you”. Ele aponta para Kate – que normalmente finge não estar nenhum pouco interessada nele – com a testa toda enrugada em sinceridade e um sorriso que dá vontade de subir a arquibancada e arrancar um beijo daquela boca linda.

“Pam nã, pam nã, pam ná, pam pam”. A banda da escola entra em ação. Trombones, pratos, flautas e boa vontade se unem na melodia da música originalmente interpretada por Frankie Valli. Enquanto isso, Patrick, que normalmente está muito ocupado tentando manter sua fama de mau, se esparrama pela arquibancada com uma dancinha não menos charmosa que seu sorriso.

E começa o refrão! “I looove you baaaaabyyyyy”. Patrick canta, Kate olha para os lados para ver se é com ela mesmo, Patrick corre pela arquibancada, Kate sorri, Patrick continua cantando, Kate continua sorrindo. Patick senta devagarzinho enquanto solta a frase final. “Let me looooove yoooooooou”.

Dois seguranças da escola aparecem. Ele tenta fugir enquanto é aplaudido por todos. A banda continua tocando. Os seguranças caem, ele corre cheio de graça, um segurança quase o alcança, ele dá um tapinha na bunda do outro, ele é pego. Patrick é levado para a detenção. Kate se apaixona de vez. E eu também.

2.
Música: “Guantanamera”
Intérprete: Rodrigo Santoro
Filme: “A Dona da História”

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Carolina (Débora Falabella) já está deitada de camisola, quando uma voz deliciosa, acompanhada por uma batida magnífica de violão, invade o seu quarto. “Yo soy un hombre sinceeeero, de donde crecen las palmaaas”. Ela se levanta e vai até a varanda – já sabendo de quem se trata – para também ouvir com os olhos. “Y antes de morir me quieeeeeero echar mis versos del aaaalma”.

Lá está seu amado Luís Cláudio (Rodrigo Santoro), todo vestido de branco, com cara de comunista sonhador, invadindo o seu quintal sem autorização. “Guantanamera, guajira guantanamera”. Carolina sorri apaixonada. “Guantanameeeeeera”. Luís Cláudio, aos seus olhos e ouvidos, se multiplica. “Guajira guantanamera”. Lá está Luís Cláudio tocando violão e cantando, lá está Luís Cláudio tocando atabaque, lá está Luís Cláudio tocando maracas.

“Cultivo una rosa blanca”. Surge um quarto Luís Cláudio logo atrás de Carolina. “En junio como en enero”. Ele começa a beijar o seu pescoço. “Cultivo una rosa blanca”. Ele passa a mão pela sua calcinha. “En junio como en enero”. E Luís Cláudio insiste no pescoço de Carolina com a boca mais cheia de vontade já vista no Rio de Janeiro.

A essa altura, Carolina já deve estar completamente molhada, porque, confesso, eu estou. Mas a cena continua. “Para el amigo sinceeeeeeero”. A mão de Luís Cláudio passeia por debaixo da camisola de Carolina. “Que me da su mano franca”. Carolina perde o ar. Eu já estava sem ar há muito tempo. A música segue para o fim. Guantanamera, guantanemera. E resta, a mim e a Carolina, acalmar nossos corações.

{Depois desse filme, eu nunca mais consegui esquecer o Rodrigo Santoro}

3.
Música: “I’ll be there for you”
Intérprete: Ashton Kutcher
Filme: “De repente é amor”

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Quando Oliver (Ashton Kutcher) resolve aparecer na porta de Emily (Amanda Peet) para, entre tantos encontros e desencontros, finalmente pedir que eles fiquem juntos, meu rosto já está tão cheio de lágrimas que não tenho como analisar, muito menos descrever, essa cena. Só gostaria deixar registrado que no momento em que ele larga a guitarra, abre os braços e aumenta a voz para a frase “I’ll pray to God to give me one more chance, girl”, a minha vontade é de pular de onde quer que eu esteja diretamente para seus braços e ser a Emily pelo resto da minha vida. Sem mais enrolação, sem mais saudades.

{“When you breathe I wanna be the air for you” é outra frase dessa música do Bon Jovi – que eu nunca havia parado para prestar atenção até assistir esse filme pela primeira vez – que ganhou destaque em meu coração}

Conexão

“A Dona da História” é meu filme favorito entre todos os filmes do mundo.

“Dez coisas que eu odeio em você” e “De repente é amor” são os filmes que eu assistia quase todo final de semana com a minha melhor amiga quando eu tinha uns 17 anos.

Eu nunca havia percebido essa conexão musical entre eles. Vai ver é por isso eu gosto tanto dos três!

E você veio assim

Quando você entrou, eu já estava lá, concentradinha no meu iPod. Mas seu sorriso me despertou para outra vida e a música passou a ser só um zumbido perto do incomodo que a sua presença me provocou. Precisava entrar daquele jeito? Todo descolado, como se o mundo fosse fácil demais?

Dei pause no zumbido e lhe acompanhei com o olhar. Agradeci pelo lugar ao meu lado estar ocupado. Assim eu já tinha uma desculpa pronta caso você não sentasse ao meu lado. Sentou duas fileiras à frente e deu umas olhadelas para trás. Eu tinha certeza que era pra me ver, eu tinha certeza… Ou pelo menos queria ter.

Cada olhada sua para trás era uma desviada que eu fazia, ora para a janela, ora para o teto. Tinha vezes que meu olhar não conseguia fugir do seu e nós nos encarávamos. Meu corpo tremia inteirinho e eu me perguntava o que diabos você devia estar sentindo. Sua cabeça voltava para frente e eu respirava aliviada.

Será que eu fiz cara de assustada? Será que meu cabelo está bonito? Será que ele gostou da minha blusa? Será? Será? Será? O lugar ao lado esvaziou! Será que ele vai sentar? Levantou. Veio. Sentou. Puts…

Voltei com a música disfarçadamente, tentei colocar em uma mais descolada, passar a mão no cabelo bem delicada e não alterar a minha respiração. Nossos braços se encostaram e eu não queria que eles descolassem. Você também pareceu não querer. Eu quis mesmo foi que estivemos juntos em outro lugar.

– “Licença” – Minha voz saiu mais baixa do que eu queria, mas você ouviu, atendeu ao meu pedido e me olhou descendo do ônibus. A porta fechou, olhei pelo vidro e você estava voltando a olhar para frente. Segui em direção contrária e nunca mais lembrei do seu rosto.

*Dedicado à todas as minhas paixões platônicas de ônibus