Minha vizinha tem preguiça das palavras. Coitada.

vizinha

“Tchau. Te amo.” disse a vizinha antes de bater a porta do apartamento. Um “te amo” tão mecânico que pensei talvez ter ouvido por engano. Devia ser palavra de despedida, não frase de declaração de amor.

Quando eu era adolescente era recorrente. Ele falava “tchau”, eu entedia “te amo”. Ele falava “te amo”, eu entendia “tchau”. Então eu sempre falava “tcham”, para parecer que eu respondi a mesma coisa que ele me disse e não ser melosa ou grossa na hora errada.

Mas, não, com certeza, a vizinha disse “Tchau. Te amo.” e bateu a porta do apartamento. Em seguida, saiu andando em direção ao elevador com a mesma vontade de viver que eu sinto quando estou com bronquite. Eu fui logo atrás – afinal, era esse mesmo o meu destino. Paramos lado a lado enquanto o mesmo ainda não se encontrava no nosso andar.

A vizinha, então, me olhou nos olhos e depois desviou. Preferiu olhar para a porta do elevador do que trocar um breve cumprimento. O que esperar, afinal, de uma pessoa que fala “te amo” por hábito e não por paixão, pensei. Eu, que só falo “eu te amo” por amor mesmo, não deixei por menos. Botei meu melhor sorriso na cara – mesmo que ela não estivesse mais me olhando – e falei “Bom dia!”. Em resposta, ela resmungou alguma coisa da mesma família do “tcham” que eu dizia na adolescência.

Que pessoa desnecessária! Eu refletia enquanto descíamos o elevador. Lembrei-me do dia que atravessei o nosso corredor e ouvi seu namorado – ou será marido? – cantando alegre no chuveiro. O banheiro deles dá para o nosso corredor e essa é a única impressão que eu tenho do rapaz. Meu vizinho é um cara que canta no chuveiro.

Já minha vizinha fala “eu te amo” no automático e não aprendeu que, quando o elevador chega no térreo, a gente segura a porta para a outra pessoa e se despede trocando sorrisos. Alguns, mais simpáticos, até arriscam um “tenha um bom dia!”. Mas ela não.

Minha vizinha sai reto e não se dá ao trabalho de agradecer nem quando o senhor idoso, também morador do nosso prédio, segura o portão com dificuldades para ela passar calada pela portaria. Grossa. Enfim dou bom dia para o porteiro e percebo: meu “bom dia, seu Mário” tem mais sinceridade que o “Tchau. Te amo.” dessa vizinha.

Pobre vizinho cantor de chuveiro. Pobre vizinha que tem preguiça das palavras. Desejo que as coisas melhorem para vocês em breve. De coração.