Não preciso que você esteja em casa para que eu me sinta novamente ao seu lado

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Eram cinco da manhã, eu não fazia a menor ideia do que estava fazendo, mas fiz. Entrei no seu apartamento como quem entra na casa dos pais que moram em outra cidade. Em momento nenhum me senti uma intrusa. Afinal, mesmo oito meses após o fim do nosso namoro, eu ainda tinha a chave. Bastou destrancar as fechaduras e, voilá, seu universo estava de volta à minha frente.

A parede da sala continuava verde esmeralda do jeitinho que a gente pintou. Seu sofá se manteve com o mesmo tecido desgastado de sempre. Suas revistas espalhadas pela mesa de centro, aquele poster minimalista do Homem Aranha pregado perto da cozinha, seus sapatos usados amontoados no canto esquerdo à porta de entrada para não contaminar o resto do apartamento com a sujeira da rua. Tudo continuava igual.

Você não estava em casa, mas isso não me pareceu ser um problema. Tomei um copo d’água, escovei os dentes com a sua escova e me joguei na sua cama. Na cama que quase foi nossa, que praticamente tem a marca do meu corpo no lado direito do colchão por termos passado tanto tempo deitados nela. Adormeci.

Na manhã seguinte, acordei com um sorriso no rosto. Alegria de quem acorda com cheiro de café espalhado pela casa, apesar de não ter aroma algum realmente vindo da cozinha. Só aquele cheiro de sempre pairando pelo ar, aquele cheiro todo seu. Bálsamo. O meu cheiro favorito no mundo todo durante seis anos. Quer dizer, talvez ele ainda seja meu predileto até hoje. Nunca inspirei nada tão alegre.

Olhei ao meu redor, observei cada canto do seu quarto e fiquei pensando sobre nós. Não sei como passei tanto tempo sem contato com sua vida. Notícias suas sempre chegam, é claro. Acho que minha lista de amizades não se renovou muito desde o nosso término. Parece que a sua também não. Alguém sempre comenta que esteve com você “outro dia”. Só eu nunca mais vi você.

Por quê? Não entendo o motivo de estarmos tão afastados. Nós éramos deliciosamente compatíveis. Nosso fim não foi dramático. Você decidiu que precisava focar no fim da sua dissertação de mestrado. Eu decidi que não tinha mais paciência para assistir Netflix quase todas as noites do final de semana. Sentia falta do barulho das pessoas conversando no bar, de dançar até minhas pernas bambearem, de observar o dia chegando enquanto a cidade se iluminava.

Você precisava ficar mais quieto. Isso eu compreendi. Eu só não quis ficar te assistindo concentrado no computador, quando meu corpo e minha mente estavam cheios de energias ansiosas para serem dispersas pelo mundo. Eu precisava vivenciar esse meu momento. Você precisava se focar no seu. Decidimos que o jeito mais tranquilo disso não nos desgastar era pararmos de nos ver. E paramos.

Sua dissertação foi um sucesso, ouvi dizer. Parabéns. Muitos parabéns! Não mandei recado, presente ou mensagem, porque, assim que fiquei sabendo, minha vontade foi de vir correndo até seu apartamento. Quis te encher de beijos, dizer “eu sabia!”, chorar de felicidade, te abraçar tão apertado, mas tão apertado, que eu nunca mais ia querer soltar. Então não vim.

Guardei minhas vontades de um jeito que não fui capaz de armazenar os desejos que senti 5 meses antes, quando te deixei ali, parado em frente à porta aberta desse apartamento, me olhando como se nunca mais fosse me ver, mas com um semblante de quem preferia me contemplar sempre quando quisesse. Quase o tempo todo, como sempre foi. Saí, não olhei para trás. Porém, essa imagem nunca saiu da minha cabeça.

Enfim, cá estou, às 14 horas e quarenta e três minutos, do domingo de hoje, escrevendo esta carta de dentro da sua cozinha enquanto tomo uma caneca de café com um pouquinho de leite. (A propósito, estou usando aquela azul com desenhos de nuvens que sempre me encantou por sua imensidão)

Não sei onde você está, com quem passou a noite e quais atividades você normalmente tem feito aos domingos à tarde. Isso não importa. O que eu sei é que a porta se manteve aberta para mim. Você não trocou a fechadura e seu apartamento continua tendo cara de nosso — o meu também não perdeu muito esse aspecto. Talvez as coisas entre nós nunca mais sejam como foram, talvez elas nunca tenham deixado de ser.

Eu continuo a mesma menina que gosta de ler com a perna enroscada na sua, aprecia flores encontradas na calçada e sente saudades de morar em Madrid. Pelo que comentam sem prestar muita atenção na minha presença, você não abandonou o hábito de preparar, todas as sextas-feiras, café da manhã para o porteiro, e continua adorando comprar CDs dos seus artistas favoritos, mesmo não tendo aparelho para reproduzi-los.

Até onde eu sei, são grandes as chances de que a gente continue sendo inebriante compatíveis. Seria perfeito se você me desse a chance de conferir se isso é verdade. A chave do meu apartamento você ainda tem, notei que continua dependurada no mesmo lugar na sala, então é só aparecer por lá quando der na telha. Caso sinta vontade.

Estarei involuntariamente te esperando.

Sobrevivi a 2014, agora ninguém me segura

2014

2014 foi definitivamente um fim de ciclo na minha vida. Um ano louco, lotado, intenso, mas um cadinho solitário. Teve Carnaval inesquecível, finalização de TCC, lançamento de livro coletivo, apresentação de TCC, formatura, re-Buenos Aires, anivertura e seleção para o Curso Abril de Jornalismo (CAJ). Fez falta o recorrente bar de sexta-feira e o antigo ombro amigo de terça. Eu devia ter tido mais paciência para ficar só comigo mesma – os sentimentos teriam sido mais fáceis – mas o silêncio ensurdecedor do futuro estava mais forte do que nunca. Preferi ir ao cinema, ou reclamar no meu diário.

Em novembro, eu pensei que não teria forças para chegar até dezembro. O resultado mais esperado de toda a minha vida ia sair em breve e poderia não ser a guinada transformadora do meu destino. Quando ele saiu, positivo, consegui enxergar a grandeza do meu 2014. Foi um ano cansativo, mas necessário.

Da minha lista de (pelo menos) 67 promessas, cumpri algumas. Li os 12 livros, aprendi mais que 5 receitas, vi extremamente mais que 24 filmes, experimentei 5 dos 10 sabores de sorvetes, conheci 2 cidades novas ao invés de 3, não enviei nenhuma das 6 cartas, fiz apenas um novo amigo… Gostaria de ter observado mais o céu, mas colei estrelas no teto do meu quarto para me lembrar constantemente que o universo está repleto de magia e que eu nunca devo desistir de experenciá-las.

Magia como os infinitos dias de Carnaval vividos com muito glitter no côncavo do olho, muitos copos de catuaba, risadas incansáveis e eternos abraços de gratidão. Magia como a generosidade das palavras recebidas na apresentação de TCC, como a intensa alegria no lançamento do livro do BH nas Ruas, como as lágrimas contentes disfarçadas pela beca na colação. Magia de momentos que, como esses, me fizeram me sentir completa.

Vivi um romance (sem nenhuma gota de amor) de verão e uma paixonite (sem nenhum laço de saudade) de inverno, um caso que tinha tudo para dar em tudo finalmente não deu em nada, relacionamentos compridos que nunca tiveram futuro enfim chegaram ao fim. Ufa. Descobri a enorme força do companheirismo dos meus 4 melhores amigos da faculdade, senti muita falta dos amigos que foram de intercâmbio, e também dos que não foram. Mais. Vivi uma festa eterna durante a Copa, descobri novos lugares na minha amada Buenos Aires, comecei meu primeiro emprego como jornalista graduada, me apaixonei por Itatiaia, comi o melhor dogão, na Praça Espanha de Curitiba, mais uma vez.

Saio de 2014 com o que foi planejado para mim finalizado. Cresci, estudei, cresci, me formei, cresci, trabalhei, cresci. Em 2015, uma nova vida se inicia, uma vida planejada por mim, com muitas expectativas e pouca (ou nenhuma) previsão. Estou indo para São Paulo participar do CAJ e espero não voltar. Pelo menos, não tão cedo. Vou conhecer novos caminhos, trombar em novas pessoas, aprender uma linguagem completamente nova. Estou empolgadíssima. 2014, obrigada por me preparar.

O WhatsApp está me afastando dos meus amigos

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Em janeiro de 2012 eu realizei um sonho: ter WhatsApp. Finalmente eu poderia conversar de graça pelo celular. Com os grupos, matei uma saudade antiga: a dos chats em grupo do MSN. Eles foram a melhor parte da minha adolescência. Eu passava as madrugadas rindo das bobagens provocadas pela falta de sono às 4 da manhã. Também foi nesses chats que me apresentaram algumas das minhas bandas favoritas, bem como aconselhei muitos corações partidos e tive, várias vezes, o meu coração consolado.

Lá em 2012, os grupos do WhatsApp funcionavam quase assim como os do MSN. A diferença é que a conversa rolava a qualquer hora do dia. Eles eram o meu consolo por não poder ver a maior parte dos meus amigos todos os dias. Eu podia estar com eles mesmo sem estar e a gente continuava se conhecendo diariamente. Era até chato quando alguém ainda não tinha smartphone. A pessoa ficava de fora de todas as decisões do grupo e era sempre a última a saber que fulano de tal passou no concurso, conheceu o amor da vida ou estava há uma semana sem falar com os pais.

No WhatsApp de 2012, os amigos conversavam. Falavam e ouviam. Aconselhavam. Comemoravam. Conviviam. Hoje, no WhatsApp de 2014, em que todos os meus amigos estão finalmente conectados, sinto-me cada vez mais sozinha em meio a tanto blá blá blá. Uns só aparecem para pedir conselhos e falar da própria vida (a esses dei o apelido de “egochatos”), outros parecem ter seus preferidos para interagir e só respondem quando eles aparecem. É muito comum o grupo estar parado há 12 horas, então você fala alguma coisa e, um minuto depois, alguém puxa um assunto completamente diferente ignorando e fazendo todos ignorarem o que foi dito por você. E isso não é pessoal. Acontece com todo mundo.

Ainda – raramente – acontecem algumas conversas como as de 2 anos atrás. Todo mundo interagindo, se ouvindo, se gostando. Tento responder a todos e fico triste pra danar quando entro e tem 200 mensagens não lidas por eu não ter participado da conversa. Mas, na maioria das vezes, me arrependo de ter dito qualquer coisa. Já que, na maioria das vezes, quase ninguém dá bola. Uma fala entra depois da outra e ninguém se ouve.

A sensação que me dá, quando a gente finalmente se encontra, é de que não nos conhecemos mais. E talvez não se conheça mesmo. Pelo menos ao vivo fica claro que a gente ainda se gosta de verdade e que esse amor tem grandes chances de durar para sempre. Mesmo que no WhatsApp eu não goste mais tanto de vocês.

A cama da Tamires é o melhor lugar de Londres

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Se me perguntarem em qual lugar eu passei mais tempo quando morei em Londres, vou responder sem sombra de dúvidas: na cama da Tamires. Eram finais de semanas inteiros passados naqueles lençóis, dormindo apertadas, comendo donuts, enrolando para a aula.

Quando eu cheguei em Londres, morei com uma família, em Brixton, sem um pingo de hospitalidade. Meu quarto tinha 2m²: ou eu ficava deitada, ou eu entrava dentro do armário. Depois me trocaram para uma sala macabra cheia de porta retratos antigos, onde chorei de medo dos riots de 2011 depois de ver a vizinhança toda quebrada.

Acabado o tempo na casa de família – um mês jogando o jantar fora porque a host mother colocava feijão enlatado doce por cima dos congelados e do purê de batata, estragando aquilo tudo que já era muito ruim – me mudei para o sofá de uma amiga polonesa da amiga da minha irmã. Acomodação temporária grat’s. Só que a amiga polonesa foi viajar e me largou dividindo o quarto com o namorado polonês dela que não gostava de falar inglês. Foram mais duas semanas chegando em casa só na hora de dormir e saindo cedinho para não atrapalhar ninguém.

Aí finalmente encontrei minha própria casa: uma antiguidade de quatro quartos, dois banheiros, uma cozinha imunda e 12 pessoas morando juntas. Pelo menos, era bem localizada: Portobello Road {to the sound of reggae}. Eu dividia o quarto com uma italiana lésbica virgem de 17 anos que queria ser atriz da Broadway e passava dia e noite assistindo Glee pelo computador e com outra italiana que falava menos inglês que o polonês. Lá aprendi a não acordar com luz na cara e barulho alheio e que minha bagunça definitivamente cabe em 2m². Meu único amigo de verdade era um português simpático – apesar de tentar forçar a pose de durão – que às vezes se arriscava a fazer jantares deliciosos na nossa cozinha frequentada por ratos. Fiz xixi sem sentar na privada durante os quatro meses que lá morei.

No meio disso tudo, conheci a Tamires. Eu não queria ter amigos brasileiros, mas ela adorava dubstep e cachorro quente de rua, não deu para fugir. Ainda mais depois que obrigamos nossa amiga russa a roubar uma caneca do Starbucks como souvenir. Éramos cúmplices em um crime internacional, como abandoná-la? Já na nossa primeira saída, dormi na casa dela. Era um quarto montado em uma garagem, nada muito diferente das bagunças que eu estava acostumada. Mas da segunda vez que voltamos de festa juntas… Oh Lord! QUE CAMA!

Tamires agora ocupava um quarto de verdade todinho só para ela. Um quarto de fêmeazinha emancipada com cama enorme de casal, escrivaninha e um armário monstro. Além disso, esse quarto fazia parte de uma casa com cara de casa! Quintal gramado com macieiras, uma cozinha minimamente bem cuidada vigiada por seus housemates turcos, banheiros sentáveis… Um paraíso! A Maíra – colega da Tamires e, mais tarde, minha roomie -, assim como eu, morava em um cafofo e também se apaixonou por aquele lugar que só tinha um defeito: era afastado de tudo. Ficava em Lewisham, no fim do mundo. Mais uma desculpa para não saírmos de lá. Se tínhamos chegado tão longe, para que irmos embora?

Uma vez na cama da Tamires, não levantávamos. Teve um final de semana que passamos dois dias deitadas, as três, nos revezando para ir ao banheiro ou cozinhar jaked potatoes. No Halloween, arranjamos espaço para a Aline e dividimos a cama por quatro. Quando era dia de semana, sempre combinávamos de ir comer British Breakfast perto do metrô, mas não conseguíamos levantar. Perdíamos o café da manhã e a aula. Até que eu e a Maíra fomos morar juntas e a Tamires achou que nunca mais voltaríamos à sua casa. Até parece, aquela cama era o nosso verdadeiro lar. Nosso único aconchego na cidade que é um mundo.

O (des)encontro perfeito

badAlgumas pessoas nos são suficiente por três dias, assim como você na minha vida. Não por cansaço, mas porque tem felicidade que cumpre seu ciclo muito rápido.  Duas noites e dois dias. Noites longas, dias curtos. Muitos passos e salgadinhos da lanchonete da esquina. Uma alegria enorme em te ter no mesmo colchão, no mesmo chuveiro, na mesma estação. Uma alegria de três dias, que não faz falta, mas fez história. História de dois pedaços que nunca mais se encontrarão. Pelo menos, não no mesmo endereço. Nem na mesma sintonia.

Sensacional

O agora e as lembranças são tudo o que temos. Nada mais é nosso. Nada. Não adianta nem escrever o nome e ter a partitura. O que nos resta é usar disso com intensidade. Colorir com amor a vida e se jogar na loucura que este mundo é!

Sortudo é quem tem amigos como os meus, de uma corrente de pensamento liberal livre de amarras e pudores que luta contra a tradicional família mineira. Gente de peito aberto e cabeça sem barreiras. Gente que gosta de viver.

Tenho pena de quem se solta pouco e gargalha menos. Pena de quem gasta muito tempo agindo para os outros e travado para si. Estão perdendo o que o mundo tem de melhor, desgastando a própria vida.

Viver a infância eternamente, chorar alto e ralar os joelhos. Agir antes de pensar e usar de suas duas posses com intensidade. Ter a felicidade como meio, não como fim e fazer a vida de todo mundo um pouco melhor. Aproveitar.

Sou nostálgica do presente.
Eu nunca vou me esquecer deste mundo.

Só agora

Não era outono, nem fazia frio, mas eu fiquei carente de você. Fiquei carente da sua mão quente na minha nuca, da sua risada descontrolada e do tanto que você fica lindo quando tenta ficar sério. Fiquei carente de você e só de você. Como naquela terça-feira que você invadiu a minha casa, sedento de mim, e eu estava interessada mesmo era em assistir televisão.

Não houve mão que me esquentasse, risada que me encantasse e rosto tão bonito quanto que me satisfizesse. Quis você de um jeito tão nosso que chegou até a doer. Quis chegar perto, te encher de beijos e ganhar cafuné como se fosse domingo à tarde. Mas era segunda e não tinha você. Não tinha como já há muito tempo. Amor velho, saudade nova.

O pior é saber que nunca mais terá. Não terá você nas minhas fotos de aniversário, muito menos nos finais de semana sem programação. Não terá você como tanto já tive. Nunca mais. Nem por um segundo extra, nem como recordação. Nosso tempo já se foi por completo. Faz tempo, mas eu só notei agora. Só senti agora.

Vai ver é porque só agora me permiti sentir. Só agora me abri para o que já se foi. Involuntariamente. De uma maneira que chega a ser ensandecidamente enlouquecedora. Quando o verão já não é mais colorido e a vontade que dá é de passar o dia trancada no quarto. Com ou sem você.

Tarde demais, mais uma vez.