Água e cabeça erguida

Urubus no céu, em Crato - CE

Urubus no céu, em Crato – CE

Em 2014 trabalhei indiretamente para a campanha da Dilma nos quatro meses que precederam o primeiro turno. Trabalhei madrugadas, domingos e feriados. Seis dias por semana, com turnos que variavam entre 6 e chegaram a até 12 horas. Engordei uns bons quilos. Comia comida processada loucamente, madrugada adentro. Eu não tinha hora para dormir, mas sempre tinha para acordar. Um dia dirigia de volta para casa às 8h da manhã. Passei pela praça Raul Soares, vi as pessoas se preparando para o dia que começava. Chorei em silêncio.

Minha vida não tinha rotina, nem um ritmo saudável. Eu não fazia nenhum exercício físico e sequer lembrava que isso existia. Os amigos que encontrava eram os fiéis e queridos que aguentavam meus turnos estranhos. Um deles também estava sempre de plantão no jornal em que trabalhava, então vez ou outra uma cerveja casava. Minha irmã estava morando na minha casa, com meu sobrinho que acabava de nascer.  Bati pé no trabalho para acompanhar as 20 horas de trabalho de parto. Mas os dias seguintes foram da costumeira ausência: não troquei fralda, não dei banho, não sabia da dor de barriga ou do sono ou do riso. Não o entendia. Ou eu não estava presente, ou estava cansada demais para realmente participar de forma ativa de algo.

Fiz bons amigos e amigas, claro. Nos apoiávamos uns nos outros. Respiro, trocas, risos. Acho que a capacidade de rir e fazer rir e rir de novo salvou nossa sanidade. Era o que tínhamos, afinal.

Encarei esse trabalho porque quis, porque aceitei o desafio. Mas também porque eu acreditava muito nele. Ao monitorar o que as redes sociais falavam sobre Dilma, encontrávamos comentários machistas e misóginos diariamente. Piadas e memes cruéis, horríveis. Boatos infundados, difamação pura, a maldade materializada virtualmente.

Sabíamos que trabalhávamos para alguém que deveria estar cansada. Que era atacada por todos os lados, todos os dias. Pela oposição, sempre, mas por vezes também pelo próprio partido, por ser tão firme. Tão honesta. Tão certa de si (pode, afinal, uma mulher ser determinada e ter suas próprias convicções e modos de operar?).

Dilma ganhou o primeiro turno, eu larguei o trabalho, fiz as malas e fui rodar um filme no sertão nordestino. A campanha não havia acabado – nem para ela nem para mim. Nas conversas cotidianas com os sertanejos, eu nem precisava assuntar, o Governo logo era tema. Fosse pelo Brasil Alfabetizado, pelo Água para Todos, pelo Bolsa Família, pelo Brasil Sorridente, pelo Mais Médicos, ou só pelo Lula mesmo. Sua foto na parede de um restaurante em Monte Santo, na Bahia, onde comi bode pela primeira vez. Seu nome na boca das pessoas de todos os sete Estados que percorremos.

Monte Santo - BA

Em Monte Santo – BA

Era um prazer – talvez um dos maiores que tive e terei na minha vida – conversar com essas pessoas. Muito mais ouvir do que falar. Escutar o que eu não sabia e nunca saberia – porque era a vida deles, afinal. Aprender sobre as plantas no quintal e também sobre o tempo da seca; sobre a falta que filhos e netos fazem, mas também sobre como eles estavam estudando. Que a vida era dura, mas inevitavelmente bela, e inegavelmente melhor.

Estávamos numa estrada de terra no interior do Pernambuco. Era noite e o sinal das estações de rádio oscilava. Havíamos justificado nossos não-votos em Palmeira dos Índios, Alagoas, e seguido viagem. Eu não trabalhava mais na campanha pela reeleição da Dilma seis dias por semana. Agora eu testemunhava pela palavra das sertanejas e sertanejos a transformação que os governos petistas haviam levado para aquelas pessoas e lugares. Dilma não ser reeleita era agora muito pior – eu não via números, eu via vidas.

Paramos quando uma rádio pegou. Não sei em que ponto do mapa. A apuração dos votos estava quase completa. As ruas de não sei onde estavam vazias, serenas. Dentro das casas as TVs falavam. A pálida luz dos postes virou Sol quando ouvimos: Dilma vencera. Nós vencíamos! Eu, mulher, vencia! Dona Nêga vencia! Seu Fortunato vencia! A senhora analfabeta que, lá em 2010, quando fui mesária em Sete Lagoas, me pediu para ajudá-la a votar na “mulher do Lula”, vencia. As famílias atendidas pelo SUS e pelo Bolsa Família no leste de Minas que visitei em 2012 venciam. A cultura vencia. A educação pública viveria. Os negros e gays poderiam continuar respirando com alguma esperança. Quem sabe os índios? As travestis? Quem sabe a população de rua, a camponesa, quem sabe os quilombolas?

Minha mãe, dona de casa, nove irmãos, mãe e criadora de três filhos, vítima de diversas violências ao longo da vida, me disse: desde o dia em que Dilma ganhou, eles não sossegaram. Não aceitaram. Desde então, estão vivendo para tirá-la de lá.

Lixeira em Canindé de São Francisco - SE

Lixeira em Canindé de São Francisco – SE

Voltei a perder meu sono. Senti raiva e ódio verdadeiros. Me senti mal. Fiquei eufórica, revoltada, mau humorada, desanimada. Instável e impotente. De nada havia valido, então? Não o meu esforço, mas os votos de todas aquelas pessoas? O futuro que elas queriam, sonharam, votaram? Suas vontades, suas necessidades, sua cidadania? Será que nós, 54.501.118 pessoas, podíamos só deixar de existir assim?

Parece que perdi. Mas não perdi só. Perderam pessoas que precisam do Estado, da saúde pública, que só podem ter acesso à educação se ela for pública ou particular com bolsa ou financiada, que precisam de casas e terras, que precisam de nomes sociais, que precisam de água tratada, que precisam da previdência social, que precisam de incentivos para a agricultura familiar, que precisam não ser mortas pela polícia, que precisam comer e comprar gás. Eu perdi, mas, antes de tudo, isso não é sobre mim.

Mano Brown disse que “quem quer o impeachment não está preocupado com o país”. E eu adiciono: nunca esteve. Provavelmente nunca estará. Umbigos engolem olhos e ouvidos.

Fiz o que podia como cidadã, jogaram minha cidadania no lixo. Ouvi estórias com as quais eles não se importam nem vão se importar. A macropolítica do meu país me enche de nojo, da maior falta de empatia que já pude sentir.

Mas decidi voltar a dormir bem, comer bem, passar tempo com minha família, dar colo a minha sobrinha que tem um mês de vida, gostar de café, ler um livro de romance de uma nigeriana, tomar água, ler poesia. Não vou me destruir aos poucos porque eles decidiram que assim seria. Não vou perder meu bom humor, meu brilho, minha paz. Eu não vou perder a fé. Me desanimaram, me desrespeitaram, me diminuíram. Mas eu sou mulher e me refaço. As Mães de Maio estão de pé – como sempre estiveram. Dilma segue de cabeça erguida. A Cidade que Queremos BH é construída todos os dias. O TransENEM vai de vento em popa. Índios e estudantes ocupam vias e plenários. Amanhã, amanhã sempre vai ser outro dia. Que pode ser (mais) amargo para quem precisa do Estado e da democracia. Mas nunca vai ser sujo, vergonhoso, egoísta e nefasto como o amanhã dos golpistas.

Equipe caminhando com Dona Maricô até a casa de Dona Nêga, no povoado de Serra Vermelha

Equipe caminhando com Dona Maricô até a casa de Dona Nêga, no povoado de Serra Vermelha

 

 

A quem interessar possa, breve relato que fiz do Nordeste, em 2014, sobre por que votar em Dilma, com coração e responsabilidade: https://goo.gl/bt8Ig4