quantos filmes sobre natal existem e por quê não estamos falando mal deles

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a praça da liberdade tinha algo de alienígena com a noite e com todas as luzes. eu não tinha cachorro nem filho nem idoso pra desfilar. eu não tinha par. na ida, ainda era dia e consegui desviar – dos sorrisos, das fezes, dos brinquedos, da água, de ser atropelada pelo carrinho de pipoca ou de bebê ou pelo trenzinho. à noite, num segundo pensar, a alienígena era eu. não se deve fumar na frente das crianças. não se deve dar esse desgosto aos mais velhos. não se deve correr assim em tempos de férias. não se deve fumar.

uma faixa de pedestre e informações demais ao meu redor. família, natal, ano novo, cachorro quente, bumerangue de laser. só mais uma faixa de pedestre e eu estaria livre.

“você tá esperando alguém?”, ela perguntou. “não”, respondi. “e você?”, eu deveria ter perguntado. “não se deve ser assim tão sozinha”, ela deve ter pensado.

“moça, é que faz muito tempo que eu não fico sozinha, sem primo, sem coca-cola, sem cloro, sabe? e eu só tô gostando”, eu quis falar. mas enchi a boca de rúcula e brie e mate e brownie. e a cabeça de pensar. será que eu e minhas amigas nos encontraremos na meia idade no cinema num domingo de fim de ano? será que eu vou ser a única sem plástica? a gente vai ter bom humor? ou bom humor-forçado? uma delas inventava uma história para me justificar. “ela deve morar sozinha e acabou de chegar de viagem. de certo visitava os pais”.

a moça ao lado continuava querendo conversar. tomou sua primeira budweiser. 5,5% de álcool, me contou.

não se deve fumar.

Eu não gosto mais tanto assim de Natal

natalO Natal já foi meu feriado favorito. Durante anos, minha família materna se reunia na casa da Vó Majô, as crianças preparavam uma apresentação de teatro, os adultos a ceia, e tinha uma mesa especial só para os doces de tanto doce que tinha. Os ensaios da peça e decidir quais sobremesas seriam feitas eram tão gostosos quanto o espetáculo e as guloseimas em si.

Na noite do dia 24, a casa da Vovó – que por muito tempo também foi a minha casa – se enchia de gente. Tios de todas as famílias, primos de todos os primos, muita criança e muito, muito adulto. Todo mundo virava uma família só. Enquanto não chegava a hora da peça, nos distraíamos tentando quebrar nozes das mais variadas formas. Jogando de cima da escada, prendendo na porta, dando pontapés. O teatro era quase sempre sobre crianças de rua sendo salvas pelo Papai Noel e seus ajudantes. Tudo inspirado em “Chiquititas”, que nos ensinava que o mundo não é mágico para todos, mas é sempre possível sonhar com – e lutar por – mudanças. Eu e o Rafa os meninos de rua, as primas mais velhas os salvadores. A Buty sempre o Papai Noel. Os adultos achavam a nossa atuação graciosa, se emocionavam com o enredo e nos aplaudiam muito. A gente se achava os melhores atores do planeta.

Logo dava meia noite. Minha mãe me gritava, pois tinha surpresa na lareira: presente vindo diretamente do Pólo Norte. “Você viu o Papai Noel, mãe?”, “não filhinha, vi o presente caindo da chaminé, cheio de pó de pirlimpimpim”. Mesmo quando meus pais liberaram o bom velhinho e assumiram a responsabilidade dos presentes, meia noite continuou sendo um horário bem legal. Presente dos pais, presente da madrinhas, abraço, sorrisos, surpresas.

Hora da Ceia! Peru nunca foi uma tradição nossa. Optávamos por paella ou outro prato com frutos do mar. Repetíamos uma, duas, três vezes e ainda tinha espaço para a sobremesa. Sorvete com brigadeiro e bis, canudinho recheado com doce de leite, torta molhadinha de chocolate… E, tcharam! Hora do amigo oculto. Presente pra cá, presente pra lá, falta eu! Meu amigo oculto é lindo. Eu! Meu amigo oculto é meio maluquinho. Eu! Uma hora acabava sendo eu e, além do presente, sempre vinha o abraço carinhoso da surpresa revelada. Sensacional!

Dia 25 – o dia exato do Natal – era praticamente curtição de ressaca da véspera. Chegávamos cansados e sorridentes na casa da Tia Mirele. As crianças nadavam, os adultos morgavam, e a comilança continuava…

Até que eu, minha irmã e meus pais mudamos para nossa própria casa e a casa da Vó Majô ficou grande demais só para ela. Resolveu alugar e se mudar para um apartamento pequetito. Ficamos, então, sem lugar oficial de Natal. O que serviu de desculpa para uma dispersão em massa na antiga melhor data do ano. Um começou a passar a véspera com a outra família, outro agora adora viajar para a praia bem nessa época. Dia 25 acabou virando o dia oficial de celebração para os que ficam, mas o amigo oculto vem ficando cada vez mais vazio. Cada ano é um que se ausenta e até eu já fiquei de fora quando morei em Londres – mas o Natal em família já tinha perdido seu charme quando isso aconteceu.

Organizar as celebrações já não tem o mesmo sabor delicioso das guloseimas. Todo mundo faz corpo mole, até para tirar o amigo oculto. Eu fico triste. Se até o Natal virou data complicada para colocar todo mundo juntinho em volta da mesa, o que dizer dos outros dias? No fim das contas, os poucos gatos pingados disponíveis no dia 24 acabam sendo recebidos pela tia Cal, que capricha na decoração e no aconchego, e pelo tio Leo, que sempre encanta na cozinha. No dia 25 até rola um almocinho na Tia Mirele ou aqui em casa. A comida é sempre espetacular – os Coelho não sabem cozinhar diferente – , mas o encanto do Natal já venceu nessa família. Não tem mais unão, muito menos pó de pirlimpimpim. Esse já não é mais o meu feriado favorito.