No meu primeiro abuso,

Na 1ª vez, eu só corri. Demorou os segundos de entender, e então a fuga das pernas. Nada em palavras. Nem naquele momento nem nunca depois. Eu tinha 8 anos.

Ele era atendente da locadora onde fui alugar uma fita. Eu tinha acabado de assistir “Spirit: o corcel indomável” e ansiava por outra animação. Ele disse que ia me mostrar um filme que eu ia gostar. Tocou meus peitos de criança, e tudo que fiz foi correr. Sem parar.

Na 2ª vez, depois dos minutos de entender, eu tentei fugir. Ele me segurou com força. Apertava meu peito de criança. Eu tinha 11 anos. Consegui chutar minha bicicleta, que ele segurava, com força para cima dele. E corri. Mas, daquela vez, só até a esquina. Minha bicicleta tinha ficado com ele e eu não estava disposta a deixá-la. Parei em frente à farmácia e o encarei com os olhos. Quando ele ameaçava vir em minha direção, eu entrava na farmácia. Em dado momento ele foi embora. Entrei na farmácia e pedi a uma moça que me olhasse enquanto eu buscava minha bicicleta, que estava na rua de trás, porque eu estava com medo. Ela olhou por mim.

Assédio é crime

Ele não era um desconhecido: era um aluno mais velho do colégio no qual eu estudava, e tive que suportar a existência do seu rosto ainda por anos.

Na faculdade, relatos tóxicos, abusivos e criminosos sobre o mesmo rapaz. Não um rapaz sem amigos, esquecido, a passar batido – pelo contrário. Um sempre rodeado de sorridentes rostos, cheio de histórias, causando constante riso, admiração e conivência dos bróders, e, obviamente, o desejo e a ruína de mulheres desavisadas. De repente descobri o estupro que posso ter sofrido sem saber. Eu apaguei ao lado de um abusador. Meses para me permitir cogitar que, sim, eu posso ter sofrido o que não sei naquela noite.

Recentemente tive que cumprimentar um ex-assediador virtual. Não se chamava assim na época. Eu tinha no máximo 13 anos. Ele é 10 anos mais velho que eu. Me assediava por todos os meios virtuais de então (principalmente MSN), embora eu reiteradamente dissesse que não queria ficar com ele. Uma história comum. Um cara a encher o saco de uma criança/jovem/adulta por mais de ano. Eu achava chato, mas não entendia o tamanho da inadequação daquilo. Anos para entender. Quando o vi, depois de década, um leve enjoo acenou por dentro. Ele se apresentou para mim: “Prazer, Fulano”. Aparentemente, não dá para decorar todas as vítimas que se faz.

 

O tempo de entender. O tempo de assimilar. O tempo de não se odiar por aquilo. O tempo de não querer morrer ou matar. O tempo de entender quem se era, e quais eram as reações possíveis para aquela Camila, naquela idade, naquele contexto, naquele dia. O tempo de conseguir falar.

Quando uma mulher fala, temos acesso a um pedaço da ponta do iceberg que ela, não sem custo, resolve deixar derivar. Abaixo da água, todas as vezes em que não dissemos, em que calamos resignadas. Todos os microassédios a cristalizar formando colônias, corais. Todos os assédios sofridos por todas as mulheres ao nosso redor. Todas as vezes em que sozinhas corremos. antes que qualquer palavra pudesse nos alcançar.

Quando uma mulher fala, podemos nos lembrar que não estamos sozinhas. Não aconteceu com você porque você deu azar, porque se vestia assim, se comportava assado, porque não devia estar fazendo aquilo. Aconteceu porque homens abusam de crianças, de jovens e de adultas. Abusam de nós, das nossas amigas e da nossa família.

Quando uma mulher fala, as palavras venceram algumas corridas internas para chegarem até a boca – e até o texto. É a voz de nós todas. 24 anos para eu conseguir falar.

Mixtape #25 – Brota flor

Flor faz brotar mais flor ♡ uma mixtape a essas mulheres, miúdas e infinitas, férteis sementes, sagradas, vindas da terra e feitas de vida.

01- Coletivo ANA – Ana | 02-  Ana Cláudia Lomelino – mãeana | 03- Alceu Valença – Anunciação | 04- Coletivo ANA – Parto | 05- Caetano Veloso – Boas Vindas | 06- Ana Cláudia Lomelino – colo do mundo | 07- Nando Reis – Espatódea | 08- The Temptations – My Girl  | 09- Ellie Goulding – Your Song | 10- Maria Rita – Cria | 11- Adriana Calcanhotto – Ciranda da Bailarina | 12 – Adriana Calcanhotto – Saiba  | 13 – Os Tribalistas – Anjo da Guarda | 14 – Gal Costa – Estratosférica | 15 – Toquinho – Aquarela

#ViajoSozinha

Aos 18 anos, viajei para Buenos Aires com 3 amigas. Aos 19, éramos 12 mulheres conhecendo Punta del Este. Aos 20, visitei algumas amigas na Europa sozinha, enquanto morava em Londres sozinha, dividindo apartamentos com pessoas desconhecidas. Minha última viagem internacional foi um retorno a Baires. Fiquei hospedada no mesmo albergue da primeira vez, sozinha. ‪#‎viajosozinha‬ sim, moro em SP com duas amigas, sempre andei pra cima e pra baixo desacompanhada. Isso jamais deveria ser justificativa para assassinato/estupro, mas, infelizmente, se eu fosse violentada, a sociedade colocaria culpa na minha independência. Porém, minha liberdade ninguém me tira, nem mesmo o medo. Que as mulheres tenham cada vez mais coragem de ir e vir, e que os homens aprendam que não somos vidas descartáveis. A luta continua, todos os dias. Viva o dia 8 de março, viva as mulheres!

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Em memória das argentinas Maria José Coni, 22 anos, e Marina Menegazzo, 21 anos, assassinadas no Equador enquanto faziam um mochilão pela América Latina. Vocês não serão esquecidas. 

Maria José Coni, de 22 anos e Marina Menegazzo de 21

O dia em que conversei com Marina Abramović

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Era sábado, chovia muito e nós estávamos meio decepcionados. Eu e mais três amigos fomos ao Sesc Pompéia na esperança de ver uma exposição incrível da Marina Abramović, a sérvia rainha das performances, uma das artistas mais incrivelmente intensas dos últimos cinquenta anos, e nos deparamos com um copilado de artigos usados em exposições anteriores. Nada de novo. A mesa da exposição do MoMa, os artefatos utilizados nos 12 dias em que ela, em pessoa, ficou exposta na Sean Kelly Gallery, alguns vídeos de performances antigas com seu ex-companheiro Ulay, objetos criados por ela para se conectar consigo mesma e com as energias do universo…

Não que aquilo tudo não fosse interessante. Era. Estávamos mais próximos que nunca de Marina Abramović. Aqueles objetos transmitiam sua força interna, seu encantamento pelo mundo e sua maneira fascinante de se ser. Se quiséssemos, poderíamos até nos inscrever para passarmos duas horas praticando o Método Abramović e explorar os limites do nosso corpo e da nossa mente. No entanto, meu amigo Pedro, que é quase tão intenso quanto Marina, queria mais. Ele queria vivenciar algo inédito vindo da artista. E, assim, nos fez querer também.

Sedentos de mais Abramović, nos preparávamos para ir embora insatisfeitos, quando o Pedro decidiu que precisava tirar uma foto do prédio do Sesc Pompéia – um clássico arquitetônico de Lina Bo Bardi – para seu Instagram. À caminho do melhor ângulo para a foto, encontramos um galpão recheado de ação. Ali estavam acontecendo algumas performances de artistas brasileiros convidados e preparados por Marina – o que saberíamos se tivéssemos lido o livreto da exposição antes de decidir partir.

Entramos no galpão. Eu fui atraída pelo som de marteladas para uma sala cheia de tinta e caos, enquanto meus amigos foram parar dentro de uma sala de reunião. Poucos minutos depois, eu os encontrei. Estavam atônitos. Marina Abramović estava ali, ela mesma, de corpo presente, conversando com alguns performistas. Algum desentendimento estava rolando entre a sérvia e os brasileiros. Eles não se importavam dessa discussão ter platéia. Nos não conseguíamos compreender qual era o embate, mas percebemos quando Marina se cansou, deu sua palavra final e seguiu para outra sala. Fomos atrás.

Enquanto recuperávamos a respiração e decidíamos se íamos embora antes ou depois de pedir para tirar uma foto com ela, Marina se aproximou de nós e disse: “c’mon kids, let’s help me with these chairs”. Isso mesmo: Marina Abramović nos pediu ajuda. Ficamos em êxtase e, depois de de organizarmos as cadeiras para um performance que aconteceria naquela sala em breve, tomamos coragem. “Can we take picture with you?”, perguntou o Otávio, o mais cara de pau entre nós. “Let’s talk! It’s better than a silly picture”, respondeu a artista.

E foi assim que, incrédulos, começamos a conversar com uma das artistas mais respeitadas do mundo. Ela colocou seus braços ao nosso redor e formamos um minicírculo de conversa, enquanto centenas visitavam sua exposição em outro pavilhão sem fazer ideia de que ela, o motivo de estarem no Sesc Pompéia naquele sábado chuvoso, também estava por ali.

Por pouco mais de dez minutos, tivemos espontaneamente a atenção de Marina Abramović. Ela nos contou que adora pão de queijo – sempre que vem ao Brasil, compra alguns congelados para levar para casa -, mas sua comida favorita é a tailandesa. A forma como os sabores e aromas foram descritos por ela demonstraram que a artista realmente gosta de comer. O que me deixou ainda mais espantada por sua capacidade de se manter em jejum por vários dias em suas performances.

Disse que, apesar de trabalhar em várias das cidades mais incríveis do mundo, gosta mais da natureza. Garantiu que não ama mais o Ulay, pelo contrário, o odeia. “He left me and had children with another woman, how could I still love him?”, disse com a língua afiada, porém com certa leveza no olhar. Sobre a discussão na sala ao lado, também não teve reservas em falar. Os artistas não queriam assinar o contrato para permanecerem em performance por oito horas e, para ela, ou era assim, ou deveriam ir embora.

Foi uma conversa rápida, mas sem nenhuma pressa. Ela sorriu o tempo todo. Nos sorrimos ainda mais. “Ok, now let’s take that damn picture”, autorizou Marina, finalizando o bate-papo. E sorrimos juntos novamente, os cinco, para registrar aquele momento que, mesmo sem foto, jamais seria esquecido por nós quatro, jovens brasileiros encantados por arte, palavras e gentileza. Marina Abramović é ainda mais fascinante do que imaginávamos. Nosso sábado não poderia ter sido melhor.

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Mixtape #18 – Mulher

Sobre nós, sobre o mundo, sobre ser. Sobre ser mulher.

01- Crystal Core – You Don’t Own Me | 02-  Deap Vally – Gonna Make My Own Money | 03- Coletivo ANA – Ana  | 04- Beyoncé – Flawless feat. Nicki Minaj | 05- Bikini Kill – Rebel Girl | 06- Karina Buhr – Mira Ira | 07-  Adriana Calcanhotto – Esquadros | 08- Dom Pepo – Ávida Maria | 09- Alice Ruiz e Anelis Assumpção – Milágrimas | 10- Rita Lee – Todas As Mulheres Do Mundo | 11- The Ting Tings – That’s Not My Name | 12- Maria Rita – Pagu | 13-  Juçara Marçal – Ciranda do Aborto | 14 – As Ayabás – Doces Bárbaros

Eu morro de medo de ser estuprada

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“Se um vagabundo a encontrar num local deserto e a agarrar, deixe que ele a foda de uma vez. É o meio mais seguro de não ser estuprada” ensina o “Manual de Boas Maneiras Para Meninas”, lançado em 1926, após a morte do autor, Pierre Louÿs, e publicado em 2006 na Coleção Devassa (a cerveja) pela editora Azougue.

“Se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros” concorda 58,5% de 3.810 pessoas entrevistadas (homens e mulheres) pelo IPEA na pesquisa divulgada na quinta-feira passada. A porcentagem sobe para 65,1% de aprovação* quando a afirmativa é “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”.

Isso é só uma parte do que se passa na cabeça das pessoas da nossa sociedade. Na minha, o pensamento que impera é o medo de ser estuprada. Já me peguei diversas vezes raciocinando o que faria caso tentassem me forçar a fazer sexo. Como eu poderia escapar e se eu conseguiria conviver com isso caso acontecesse. Minhas conclusões sempre são nada positivas. Como divulgado, em agosto do ano passado, pela ministra da Secretaria de Políticas para Mulheres, Eleonora Menicucci, a cada 12 segundos uma mulher é vítima de violência sexual no Brasil. Eu posso ser a próxima. Ou você.

“Mulher não é gente.” “Deixe que sejam abusadas. É bom para a tosse.” “O importante é os homens estarem satisfeitos.” Um absurdo: 2014 e muitos seres humanos ainda precisam lutar para serem visto como tal. Mulheres, transexuais, negrxs, gays, pobres… Nada disso é gente. Ou você é homem-adulto-cisgênero-heterosexual-branco com bastante dinheiro no banco, ou você não é nada. Não que em qualquer tempo fosse plausível o fato de alguém precisar se justificar como ser humano, mas não quero debater com o passado, quero poder viver no presente.

Quero poder ser livre. Quero poder, caso eu me case, colocar dinheiro dentro de casa sem ser julgada pela minha família. Quero poder expor meus pensamentos sem ter que ouvir que “homem não gosta de mulher com opinião”. Quero poder usar minhas saias sem precisar conviver com gritos femininos, vindos de algum carro qualquer, me chamando de vagabunda. Quero poder atravessar a rua sem receber assobios ou ouvir “essa daí eu chupava toda”. Quero poder sair de casa sem ter medo de ser atracada em uma parede por algum desconhecido enquanto ele goza. Como qualquer ser humano, eu quero ser a única a tomar minhas decisões. Quero ser dona do meu corpo e das minhas ações.

Tanta coisa precisando ser resolvida neste mundo e vocês nos fazendo dedicar tempo para enfrentar o que já deveria estar solucionado há muitos anos. Só espero que essa luta não não seja em vão. Que um dia as pessoas aprendam que todas  as pessoas são pessoas e que como pessoas elas devem ser tratadas. E que isso não demore. Nossa vida não pode esperar.

* Uma semana depois, o Ipea divulgou uma errata dizendo que os 65%, na verdade, eram 26%. Taxa que não deixa de ser preocupante.