Na dúvida, ame. Apenas não se deixe afogar.

na duvida ame

Quando eu te vi pela primeira vez, eu tive certeza que estava diante do homem mais bonito do mundo. Certeza absoluta. Por isso, tive medo quando você se mostrou tão interessado em sair comigo pela primeira vez. Um homem tão bonito assim não poderia estar realmente atraído por mim. Então eu fugi.

No entanto, o destino sabe muito bem onde nos reencontrar quando tentamos desviar dele e, repentinamente, você reapareceu. Meses depois. Mais lindo do que nunca. E, dessa vez, eu resolvi dar uma chance para nós dois. Um encontro, afinal, que mal faz?

Você era ainda melhor do que eu pensava. Sua empolgação em defender as suas ideias, o seu olhar carinhoso ao me observar, seu modo de se vestir tão diferente do meu. E logo ali, na primeira cerveja, eu me apaixonei. Intensamente, bizarramente, inesperadamente.

Fui dormir torcendo para que a gente se visse outra vez. Logo. O mais rápido possível. Assim, imagine a minha felicidade quando, no dia seguinte, você disse que, por você, a gente já se via naquela noite. Um sorriso imenso se tatuou no meu rosto. Porém, preferi esperar mais um dia. Ir com calma.

Uma noite depois, já estávamos juntos outra vez. O que se passava dentro de mim era tão impetuoso, tão assustadoramente real que, a cada segundo ao seu lado, eu sentia mais medo por carregar tão forte sentimento no meu peito. Das outras vezes em que havia me sentido assim, meu coração se estraçalhou tão seriamente que nunca me recuperei cem por cento.

Não demorou muito para você dizer que me amava. Levado pelos vários copos de cerveja, pensei. A minha vontade era de te beijar até acabar o ar dos meus pulmões e colar a minha pele na sua de uma forma que a gente não se soltasse nunca mais. No entanto, meus traumas me fizeram responder que era melhor a gente ir mais devagar. E hoje sei que, naquele dia, eu te matei um pouquinho por dentro.

O tempo foi passando e eu fui tendo cada vez mais certeza: eu não poderia mais viver sem você. Te imaginei ao meu lado em todos os momentos futuros da minha vida, me imaginei ao seu lado em todos os desafios que você precisasse enfrentar. Ia ser eu e você para sempre. Eu só não tinha coragem de demonstrar isso. Sabia que, uma vez aberto o meu coração, não tinha volta e você poderia fazer o que quisesse com a minha alma. Era melhor me certificar que, pela primeira vez na vida, eu pisava em terra firme.

Com as comemorações de fim de ano, precisamos nos afastar por um tempo. Ambos já tínhamos feito planos para aquela época antes de nos conhecermos. Eu fui para a minha cidade, você foi para a praia. O que era para ter sido apenas duas semanas de saudade, transformou o nosso amor em desespero. Para os dois. A minha insegurança, à essa altura, havia te contagiado e você perdeu as forças que, com muito esforço, tentava manter para ter confiança de que tudo daria certo. Ficamos ambos vulneráveis. Fracos.

Era paixão demais, fazendo os receios e a distância transformaram os nossos diálogos em enormes falhas comunicativas. Eu não te entendia e você interpretava tudo o que eu dizia de outra maneira. Cansada de sofrer e com medo de os nossos bate bocas nunca terminarem, resolvi dar um fim a nossa história. “Você tem certeza isso?”, você me perguntava sem parar. Não. Nenhuma. Mas respondi que sim.

Os dias seguintes se passaram com a mesma velocidade com que uma missa se arrasta. Você mandando mensagens: saudades. Eu tentando ao máximo não me sentir afetada pelas suas palavras: vai passar. Então descobri que você já estava com outra pessoa. Na praia, as paixões se incendeiam rápido, não é mesmo? Ela era uma menina tão cheia de inocência e vulgaridade que se meteu em lugares do seu Facebook que me pertenciam. Fiquei possessa.

Fui ao perfil dela e encontrei, sem nenhuma dificuldade, as suas palavras. Te amo, você dizia. Te amo. Meu coração explodiu. Enquanto meu sangue se espalhava sobre todo o meu corpo, minha cabeça dizia “Eu sempre soube que isso ia acontecer. Não devia ter caído nessa. Como posso ter sido tão estúpida?” repetidas vezes, sem parar. Me culpei intensamente por um problema seu, não meu. Uma fraqueza sua.

No entanto, o que você não sabia era seu poder de me deixar assim. Eu nunca deixei claro o quanto eu te amava. Sempre tentei te manter o mais longe possível dos meus sentimentos. Por mais carinhosa que eu fosse, você não conseguia perceber o amor que eu sentia. Foi necessário ver meu coração destroçado por sua causa para compreender toda a imensidão que havia dentro de mim.

Foi preciso me destruir por dentro para você perceber o meu amor. Por isso te perdoei. Demorou alguns dias, até eu limpar todo o sangue que havia sobre mim. Contudo, quando você se mostrou tremendamente arrependido e simultaneamente machucado com aquela situação, decidi relevar. Com isso tudo, percebi que o medo não nos protege de nada, só da felicidade, e me empenhei em retomar a nossa história. Catei os pedaços do meu coração e te entreguei todos eles para que pudéssemos ser felizes.

Não aconteceu. Nós nos machucamos de um jeito tão visceral que os meses seguintes só serviram para nos destruir ainda mais. Dessa vez, eu tentei ser mais paciente. Era sua vez de estar inseguro. Suportei seu desprezo, aceitei todos os sinais de afeto. Me entreguei completamente, de um jeito que não me entregava assim desde os meus 14 anos, quando me apaixonei pela primeira vez.

Defini: eu era sua e você era meu. Nada ia nos separar. Eu aguentaria todos os seus maus momentos até que você voltasse a ser o cara que não tinha medo de me amar. Tentei ser forte. Perdi a fome. Fui dormir todas as noites chorando. E não me importei. O fato de você me amar e de eu sentir o mesmo com a mesma intensidade bastava.

Nós, muito em breve, voltaríamos a ser feliz. Eu tinha certeza disso. Seria uma felicidade tão grandiosa que o céu nunca mais ficaria escuro durante o dia e as noites seriam cada vez mais estreladas. Uma felicidade tão imensa que qualquer um que a presenciasse seria feliz para sempre também. Uma felicidade nossa, só nossa, que mudaria o mundo.

No entanto, assim como eu aprecio a alegria, você é encantado pela melancolia. Não consegui vencer o seu amargor pela vida e percebi que continuar nessa batalha não te faria mais contente, apenas me deixaria mais infeliz. Isso seria uma derrota para nós dois. Foi, então, que decidi ir embora. Por mais que eu quisesse ficar. Para sempre. A vida toda. Precisei partir. De uma vez por todas. Para o bem de nós dois.

Agora estou aqui completamente sem você. O meu coração nunca tinha ficado tão pequeno. É a primeira vez que amo com cem por cento de reciprocidade, porém de uma forma tão destrutiva. Nós ainda nos pertencemos, eu tenho certeza disso. Só não vamos mais ficar junto. E o motivo não poderia ser mais surreal: somos extremamente apaixonados um pelo o outro. Um sentimento tão absurdo que não soubemos como cuidar dele sem nos afogar.

Preferi subir em meu barco e partir antes que não houvesse mais nenhum traço de contentamento em meu corpo. Espero que agora seja mais fácil para você subir em seu barco também, pois única coisa que me faria mais feliz do que viver ao seu lado, seria você finalmente encontrar algum tipo de felicidade. Boa sorte.

Saudades. Te amo.

* imagem do filme “Mr. Nobody”. 

Estou perdendo o medo de avião

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Quando eu era criança, achava a maior graça em ver meu pai, de olhos fechados, segurando firme no braço da poltrona do avião sempre que passávamos por uma turbulência. Ele tem pavor de viajar de avião. Sempre teve. Eu não entendia o motivo de tanto desespero, afinal, toda vez que voávamos nas férias, chegávamos sãos e salvos ao nosso destino sem nenhum problema.

Aí eu cresci. Veio o 11 de setembro, o acidente da TAM em 2007, e algumas outras histórias de desastres envolvendo aviões. Percebi que meu pai tinha razão em ter medo. No fim das contas, essas naves não eram tão seguras quanto eu pensava. Mesmo com os baixos índices de mortes por desastre aéreo, elas não eram nulas – e eu não queria ter esse azar. Passei a também ter medo de voar.

Nos últimos anos, quando começava uma turbulência, eu me segurava nos braços da poltrona tal qual meu pai. Um pouco mais corajosa que ele, ficava de olhos abertos. Ver as outras pessoas tranquilas, fosse cochilando, lendo um livro, ou dando risada com o passageiro ao lado, me deixava um poucos mais desesperada. Será que elas não se preocupavam com a forte iminência da morte?

A pior época foi quando me preparava para meu intercâmbio em Londres. Eu ia morrer à caminho de realizar meu sonho. Certeza. Era felicidade demais para dar certo. No mesmo oceano em que caiu o avião da Air France em 2009, o meu também se afogaria. Cheguei a chorar diversas vezes prevendo erroneamente esse acontecimento. Com lágrimas escorrendo pelos meus olhos, contei isso para uma amiga. Ela, claro, disse que eu estava louca. Ia tudo dar certo. E deu.

Nunca mais me desesperei antes da hora, mas só conseguia ficar tranquila depois que a decolagem estava completa e os avisos de atar os cintos se apagavam – até a turbulência interromper o meu sossego. Para evitar todo esse drama, tentava dormir assim que entrava na aeronave. Algumas vezes consegui, outras não. Sobrevivi a todas.

O fato é: só este ano – por estar morando em São Paulo – já viajei de avião umas 10 vezes. Notei que tenho estado mais tranquila nessas ocasiões. Já me maquiei para uma festa de 15 anos enquanto voava e, quando a nave tremeu, o que me incomodava era precisar interromper o meu trabalho para não me borrar, por exemplo. Continuo dormindo enquanto viajo, mas isso se deve mais ao horário dos voos do que ao meu medo. Este ano, voltei a me sentir em casa dentro de um avião.

Só não digo que me livrei por completo desse medo – meio herdado do meu pai, meio gerado pelos noticiários –, porque uma coisa não mudou. O primeiro pensamento que me vem a cabeça, sempre quando a aeronave pousa, continua sendo: estou viva. E que seja sempre assim.

Perdi o medo do futuro

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Hoje, enquanto caminhava para o supermercado, fui criticando as calçadas da cidade de São Paulo e percebi, que apesar delas serem tortas, quebradas, terríveis e terem me feito passar uma semana de muletas após torcer o pé, eu estou perdidamente apaixonada por minha vida nesta cidade. Posso, inclusive, afirmar que tenho sido extremamente feliz.

Desse pensamento, parti para outro. Essa “minha vida neste cidade”, atualmente, se resume a procurar um apê fixo – está tudo incrivelmente caro ou insanamente pequeno – e um emprego, já que meu curso na Abril acabou e eu ainda não tenho um novo destino. Ou seja, o cenário atual da minha vida não parece nada promissor.

O fato é que, apesar dos pesares, pela primeira vez na vida, eu não estou com medo. Percebi isso, ainda ali, entre as calçadas desreguladas e mal cuidadas da minha nada barata atual vizinhança. Aquele sentimento desesperador de que tudo vai dar errado, não me acompanha mais. Finalmente, eu estou tranquila quanto ao meu futuro. Ufa!

Quando eu estava entrando na pré-adolescência, minha mãe me mudou de colégio e eu tive a certeza de que aquele era o fim da minha vida. Sai do meu conforto, do dia a dia com meus amigos de anos, do lugar onde eu conhecida todo mundo e tirava total em todas as provas, para a escola com mais playboy por metro quadrado de Belo Horizonte.

Na nova escola, eu acabei fazendo amigos, mesmo sem querer. Muitos amigos. No entanto, passei três anos com medo das provas de matemática e mais três tendo pesadelos com os exames de física. Foram seis anos sofrendo a cada semestre, a cada nota abaixo da média, a cada vez que meus pais precisavam assinar meus boletins.

Chegado o terceiro ano do Ensino Médio, veio o terrível vestibular. Foi uma época pavorosa. Engordei 8kg de tanta ansiedade. Ja que eu tinha me decido por um curso que não agradava o meu pai, o mínimo que eu precisava fazer era entrar na faculdade que ele queria, a UFMG. A minha vida podia não ter acabado quando me mudaram de escola, mas, dessa vez, ela chegaria ao fim caso meu nome não aparecesse entre os selecionados, de 2010, da Federal.

Eu imaginava o quanto meu pai ficaria decepcionado caso eu não conseguisse. Não ia pagar uma faculdade particular, não ia me dar mais um tostão que não fosse para o cursinho. Adeus cinema, adeus amigos, adeus reparos no computador. E, mesmo se ele pagasse, como eu poderia aceitar qualquer dinheiro vindo dele depois de desaponta-lo tanto? No fim, deu tudo certo, e nós nunca vamos saber se esse meu drama tinha fundamento.

Como as aulas de jornalismo só começavam em agosto, terminada a escola, passei um semestre tentando tirar carteira de motorista. Foram quatro tentativas. Mandei bem na primeira vez, e não passei. Nas outras três, deixei o medo me dominar e dirigi chacoalhando mais que o bumbum da Carla Perez durante os anos 1990. Eu não sabia dirigir, eu estava jogando fora o dinheiro do meu pai, eu era um desastre. Eu passei.

À essa altura, eu já tinha entrado na faculdade. Nesse tempo, tive medo de não conseguir ir de intercâmbio, medo de não decidir qual área do jornalismo eu queria seguir, medo de me apaixonar e jamais conseguir curar meu coração depois de mais uma decepção, medo de nunca mais me apaixonar, medo de não conseguir estágio, medo de me afastar dos meus amigos da escola até parar de ter notícias deles, medo de pedir dinheiro para o meu pai. Medo de tudo, muito medo. Sobrevivi. Quase tudo deu certo, e o que não deu, deu certo também.

No fim da faculdade, tive medo de não conseguir emprego. Conseguido o emprego, tive medo de não entrar no Curso Abril. Terminado o Curso Abril, já não tenho mais medo de nada. A vida jamais esteve tão boa. O futuro nunca me pareceu tão incrível, mesmo ainda não tendo forma. Estou mais segura do que nunca. Segura das minhas decisões, segura de que vou conseguir tudo o que eu quero. E, se não for assim, eu descubro outro querer. Eu encontro outros caminhos. Só sei que, de São Paulo, ninguém me tira. Só se for para ir mais longe.

Precisei te deixar

deixarEu precisei ir embora. Enquanto eu te esperava tomar banho, percebi que se eu ficasse mais um minuto naquela cama eu iria querer ficar nela para sempre. E eu nunca fui muito boa com para sempres. Se eu te visse mais uma vez, eu ia querer te ver todos os dias da minha vida, por isso não me despedi.

Ali deitada, fiquei imaginando você saindo do banho com o melhor de todos os cheiros, o cabelo todo molhado e aquela cara de felicidade. Aquela mesma cara de ontem e de anteontem e de todos os dias desde que a gente se conheceu. O sorriso mais lindo do mundo, o olho quase fechando de tanta alegria…

Quando percebi, eu já estava de pé, enfiando na mochila as minhas coisas que aos poucos se espalharam pelos cantos do seu apartamento. Naquele momento, eu me dei conta do quanto as nossas vidas estavam entrelaçadas. Senti que se elas se entrelaçassem por mais alguns minutos, não teria como desembolar. Nunca mais. A gente ia ficar preso um na vida do outro e eu não consegui raciocinar até que ponto isso seria positivo.

Fiquei com medo e vim embora. Medo de ser feliz demais. Medo de tanta tranquilidade. Muito medo. Eu acho que eu percebi a imensidão de tudo o que estava acontecendo entre nós dois e fiquei com medo de me perder nisso tudo. Isso tudo que eu nunca saberei descrever, mas que me fazia sorrir até no trânsito engarrafado. Isso tudo que eu talvez sempre tenha sonhado em ter, mas que era bonito demais para preencher a vida toda.

Vim embora. Trouxe a sua camiseta do The Smiths comigo. Não te ter nem um pouquinho mais talvez me deixasse devastada além da conta, então a tomei como companhia. Espero que você não sinta tanta falta dela. Espero não sentir tanto a sua falta. E que a gente sobreviva.

Eu morro de medo de ser estuprada

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“Se um vagabundo a encontrar num local deserto e a agarrar, deixe que ele a foda de uma vez. É o meio mais seguro de não ser estuprada” ensina o “Manual de Boas Maneiras Para Meninas”, lançado em 1926, após a morte do autor, Pierre Louÿs, e publicado em 2006 na Coleção Devassa (a cerveja) pela editora Azougue.

“Se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros” concorda 58,5% de 3.810 pessoas entrevistadas (homens e mulheres) pelo IPEA na pesquisa divulgada na quinta-feira passada. A porcentagem sobe para 65,1% de aprovação* quando a afirmativa é “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”.

Isso é só uma parte do que se passa na cabeça das pessoas da nossa sociedade. Na minha, o pensamento que impera é o medo de ser estuprada. Já me peguei diversas vezes raciocinando o que faria caso tentassem me forçar a fazer sexo. Como eu poderia escapar e se eu conseguiria conviver com isso caso acontecesse. Minhas conclusões sempre são nada positivas. Como divulgado, em agosto do ano passado, pela ministra da Secretaria de Políticas para Mulheres, Eleonora Menicucci, a cada 12 segundos uma mulher é vítima de violência sexual no Brasil. Eu posso ser a próxima. Ou você.

“Mulher não é gente.” “Deixe que sejam abusadas. É bom para a tosse.” “O importante é os homens estarem satisfeitos.” Um absurdo: 2014 e muitos seres humanos ainda precisam lutar para serem visto como tal. Mulheres, transexuais, negrxs, gays, pobres… Nada disso é gente. Ou você é homem-adulto-cisgênero-heterosexual-branco com bastante dinheiro no banco, ou você não é nada. Não que em qualquer tempo fosse plausível o fato de alguém precisar se justificar como ser humano, mas não quero debater com o passado, quero poder viver no presente.

Quero poder ser livre. Quero poder, caso eu me case, colocar dinheiro dentro de casa sem ser julgada pela minha família. Quero poder expor meus pensamentos sem ter que ouvir que “homem não gosta de mulher com opinião”. Quero poder usar minhas saias sem precisar conviver com gritos femininos, vindos de algum carro qualquer, me chamando de vagabunda. Quero poder atravessar a rua sem receber assobios ou ouvir “essa daí eu chupava toda”. Quero poder sair de casa sem ter medo de ser atracada em uma parede por algum desconhecido enquanto ele goza. Como qualquer ser humano, eu quero ser a única a tomar minhas decisões. Quero ser dona do meu corpo e das minhas ações.

Tanta coisa precisando ser resolvida neste mundo e vocês nos fazendo dedicar tempo para enfrentar o que já deveria estar solucionado há muitos anos. Só espero que essa luta não não seja em vão. Que um dia as pessoas aprendam que todas  as pessoas são pessoas e que como pessoas elas devem ser tratadas. E que isso não demore. Nossa vida não pode esperar.

* Uma semana depois, o Ipea divulgou uma errata dizendo que os 65%, na verdade, eram 26%. Taxa que não deixa de ser preocupante.