Impressões sobre a maternidade por uma não-mãe

Mushake, República Democrática do Congo | 2015

Aldeia de Mushake, República Democrática do Congo, 2015 

 

Sou uma bela tia e venho notando sistematicamente o mundo a se comportar em volta do dueto mãe-bebê. Colhi algumas observações, que compartilho com vocês:

Você tem uma guarda compartilhada com o mundo

O pai da criança pode ser ausente, você pode estar se sentindo sozinha, mas basta colocar os pés na rua para uma legião de pessoas darem palpite sobre seu bebê. Aquela senhora que acaba de passar 12 segundos em frente a sua cria sabe muito mais sobre ela, com certeza! E se preocupa mais, afinal, esse frio de 28º e sua menina sem blusa? Esse calor de rachar e você com ela na rua? Convenhamos, os passantes tem muito a colaborar. São como monges budistas, prontos para te salvar da escuridão com uma sábia frase ao cruzar com você na calçada – embora você só estivesse indo à padaria. Acho que é um direito estabelecido, inclusive. Não precisa nunca ter sido mãe, nunca ter segurado um bebê, ou nem ter olhado direito na cara da progenitora: você tem direito a dar sua opinião sobre a roupa, a saúde, o humor e os cuidados com qualquer bebê que te apareça.

Em muitas tribos indígenas a criação dos novos seres humanos é compartilhada por toda a comunidade. O leite é mamado nos seios que tem leite; princípios, valores e tradições são vividos em conjunto, o que basta para a aprendizagem; as crianças são responsabilidade e continuidade do todo – assim como da natureza.

Nossa sociedade exerce o conceito de ‘comum’ em momentos muito específicos e raros para merecer ser comparada a uma tribo indígena. Passamos a vida de forma egoísta, centrados majoritariamente em nós mesmos e nos esforçando em estender a benevolência ao núcleo familiar. O que vejo nessas intervenções repentinas, por vezes invasivas e quase sempre desnecessárias é mais uma diminuição daquela mulher – invariavelmente – que está ali, cuidando de um bebê. A impressão que fica é que todo cuidado sempre vai ser pouco. Não basta o chapéu, o protetor solar, a meia, o maiô de paetê, a fantasia de Teletubby. Está sempre faltando algo, querida mãe, então vou te dar uma mãozinha.

Mas Camila, as pessoas são fofas, elas estão preocupadas, são tiazonas cheias de amor… tudo bem. Nunca vi minha irmã (a mãe em questão) dar nenhuma má resposta a elas. Imagina que bafo? Uma mãe não aceitar um palpite que nunca pediu! Ficar irritada só porque alguém falou para ela que “o sol está forte”, enquanto ela está embaixo deste exato mesmo sol.

Eu gostaria de retrucar todas, empurrar umas, explodir a cabeça de outras. Talvez exista mesmo um senso de carinho nessa preocupação coletiva e constante, como se um bebê fosse mesmo de todos nós, e por isso queremos todos colaborar para um crescimento saudável e feliz. Mas as pessoas fazem isso e depois dão maus exemplos rua afora. Então, querido mundo, sugiro guardar seu palpite para quando ele realmente puder ser aproveitado.

Você é problema de todos 

Você é uma adulta formada, faz suas escolhas, vive sua vida. Mas agora você é mãe e, de alguma forma, parece que a população tem direito a dar conselhos não-solicitados sobre seu viver. Ninguém quer pagar seus boletos, mas de repente todo mundo se preocupa com sua saúde, suas atividades, tudo o que você faz, come e deixa de comer. É assunto se você bebe ou não, se fuma ou não, se engorda, emagrece, pinta o cabelo, faz pilates, dorme tarde, fica no computador ou sai para se divertir (a lista não tem fim). Você ganha um exército de falsas mães (porque a deusa ajude que sua mãe real esteja fora desse júri), confeccionando suaves relatórios de inspeção ao vivo.

Mas não se preocupe, porque a preocupação também é seletiva. Se você tomar um copo de cerveja, pre-pa-ra, tudo pode acontecer: pequenos gritos, alguém cair de uma cadeira, queixo caído, olhares atravessados, pressão baixa, o mundo ameaça acabar. Mas se você apenas não estiver feliz, talvez ninguém perceba nem pergunte nada a respeito e a barra estará limpa.

O seu bebê é um corrimão

Já deu para entender que não sou exatamente a pessoa mais tolerante que você conhece. Para alguém com temperamento sereno pode ser que tudo isso passe despercebido. A percepção das mães provavelmente é outra – e eu estou aqui a observar.

Observar os sorrisos que um bebê desperta quando passa pela rua. O tanto de luz que vai se acendendo no caminho. É uma sorte de milagre ver quanto amor aquele bebê recebe e emana, só por existir. As pessoas estão sempre prontas para elogios, para se derreter, se desarmar, se abrir em júbilo ao mais despretensioso gesto e som. É lindo e é divino, eu não tenho dúvidas. Por vezes um elogio é seguido de um “que Deus abençoe”, que eu aprendi a achar muito delicado e gentil, pois enche aquela troca de boas intenções e energias.

E às vezes as pessoas tocam os bebês, o que é quase irresistível, lembrando que estamos falando de pezinhos que parecem fofas bisnaguinhas. Existe uma ordem lógica: se aproximar da mãe e do bebê, trocar algumas palavras, abaixar para alcançar a altura da criança, tocar o pezinho, tudo bem, por quê não?

Mas existe quem só chegue do nada e meta a mão na cabeça da criança. Você fica só com o rastro de umas unhas longas bem feitas pintadas de roxo. Uma mão peluda com um relógio prateado. Já foi e vocês nem viram – o bebê acaba de levantar os olhos, tardiamente, à procura de quem fez o afago-relâmpago. Não sei vocês, mas eu não saio colocando a mão nas pessoas por aí. Se você me conhecer e chegar de forma estranha ao topo da minha cabeça, eu vou te dar a real: DON’T TOUCH MY CHAKRA. Qualé, gente? Vocês acreditam no que quiserem, eu também, mas calma lá com essa mão no auge do meu corpo físico, na casa dos meus pensamentos, onde dançam umas luzes coloridas sim. Fico pensando se para um bebê, aprendiz de ser, um toque desses não possa parecer um quase tapa, que não anuncia a chegada e ainda chacoalha as ideias.

As pessoas podem ser gentis e luminosas

Chega de amargura, afinal sou tia da maior fonte de luz que já testemunhei. Por onde Amelie passa, a vida faz sentido: ela é simples e feliz por natureza. Amelie coleciona palavras afetuosas, sorrisos verdadeiramente espontâneos e fagulhas de brilho de quem já poderia ter esquecido como reluzir. Nós vamos pegando todo o bem do caminho, rebarbas coloridas da sorte de testemunhar seres puros pelo mundo.

E quando minha irmã viaja de avião com uma bebê, um carrinho, uma cadeirinha, duas malas e uma bolsa, há quem estenda a mão para ajudar de verdade. Uma senhora que quer emprestar o celular, chamar o táxi, empurrar a bagagem. Quem tenha empatia real e perceba que ela precisa de ajuda para poder fazer um xixi, um despacho ou amarrar o cabelo. Aqui e ali, portas se abrem sozinhas, assentos esvaziam, alguma preferência é dada.

Estatisticamente, não sei se o mundo está mais preocupado em ajudar as mães ou em apenas encher o raio do saco delas. Na dúvida, estenda a mão com verdade e humildade, e mal não fará.