Por mais Anittas e menos Mallus Magalhães no mundo

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Em dezembro de 2014, a cantora Pitty deu uma aula a Anitta sobre empoderamento feminino no programa Altas Horas. Anitta havia dito umas besteiras sobre “mulheres agindo como homens” que eu, como fã da funkeira já nessa época, fiquei meio decepcionada. No entanto, notei que ela apenas reproduzia um discurso ao qual foi submetida diversas vezes e do qual ela mesma era vítima. Continuei acompanhando o seu trabalho e dançando as suas músicas com a mesma empolgação – ainda bem.

Hoje, menos de 3 anos depois, Anitta é um dos maiores símbolos brasileiros de mulher independente e poderosa. Atualmente, ela busca fortemente influenciar outras mulheres a serem donas deus corpos e de suas atitudes. Tenho para mim que, depois desse episódio, ela – empresária de si mesma – foi estudar sobre feminismo, ouvir outras pessoas e, assim, remodelou seus pensamentos. Anitta aprendeu com as críticas e se tornou uma mulher ainda mais completa e inspiradora.

Ela tem a mesma idade de Mallu Magalhães, 24 anos. Essa, por sua vez, demonstra que jamais chegará perto de qualquer evolução. Acompanho e admiro o seu trabalho desde quando ela era zombada por não saber dar entrevistas quando surgiu aos 16 anos de idade. Mais de uma vez, já me disseram que me pareço com ela. Eu costumava, de certa forma, a ficar feliz quando isso acontecia. Assim como Mallu, sou menina branca (eu de classe média, ela bem rica) e me identificava com suas músicas. Muitos das minhas manhãs foram embaladas por “Cena” e “Olha Só Moreno” e o show da Banda do Mar é um dos mais encantadores que já fui na minha vida. Uma pena que agora eu precise deixar isso tudo para trás.

A Mallu não é ídolo que se acompanhe. Quando uma enxurrada de críticas caíram sobre ela devido o racismo presente no clipe “Você Não Presta”, confesso ter tido certa esperança. Ao ver o vídeo pela primeira vez, eu gostei. Até estranhei a presença de tantos corpos negros desnudos em quanto ela, branquinha, estava coberta, mas nada que me impedisse de comentar um coração quando minha amiga publicou o link do Youtube. Achei a música deliciosamente dançante e compreendi que Mallu não tem metade do gingado daqueles dançarinos maravilhosos para se jogar da mesma maneira que eles na dança.

No entanto, eu, menina branca de classe média educada em colégio de elite, li cada uma das críticas que vi espalhadas pelo Facebook – e até me arrisquei a procurar algumas extras no Google. Por ter consciência dos meus privilégios e de como eles influenciam na forma com a qual eu enxergo o mundo, tento diariamente me tornar uma pessoa mais empática com realidade dos outros. Busco reconhecer a luta de cada minoria com a mesma força que luto para que os preconceitos e dificuldades enfrentados pelas mulheres sejam minados da Terra. Ao ler o máximo que pude sobre o assunto, aprendi bastante. Porém, claramente a Mallu não.

A cantora pediu desculpas, manteve o clipe no ar e o mundo continuou rodando. Alguns aceitaram as suas palavras, outros acharam que ela podia ter feito melhor e eu esperei que a tchubaruba aproveitasse a oportunidade para evoluir. Mera ilusão. Na manhã desta sexta-feira (23 de junho), ela foi ao programa Encontro, onde mais uma vez defendeu a produção artística do clipe. “Não foi minha intenção”, disse mais uma vez para se livrar das acusações de racismo. Mallu chegou, inclusive, a dizer que entendia a dor de quem se sentiu ferido. “São argumentos que nunca passaram pela minha cabeça e, por isso, eu fico triste”, lamentou. Tudo cena.

Alguns minutos depois, ela se levantou. Era hora de apresentar ao vivo a música “Você Não Presta”. Antes de soltar a voz, soltou a frase mais imperdoável da semana: ”Essa é para quem é preconceituoso e acha que branco não pode tocar samba”. Sim, depois de tudo que foi escrito e falado direcionado a ela no último mês, Mallu Magalhães optou por aproveitar sua exposição em um dos programas de maior audiência da TV brasileira para denunciar o “racismo reverso” sofrido pelos brancos na música. A quem possa ter dúvida: racismo reverso não existe. Nem na música, nem em lugar nenhum.

Espero sinceramente que a Mallu tenha salvação. Eu, porém, não estou mais disposta a acompanhá-la – ao contrário do tenho feito ao longo de toda a sua carreira. Caso me digam mais uma vez que me pareço com ela, vou abaixar a cabeça e, quem sabe, até pedir desculpas. O mundo não precisa de outras Mallus Magalhães, ele precisa é de mais Anittas, Pittys e Elzas Soares.

Banda do Mar para mim é privilégio

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Sou fã tardia de Los Hermanos. Em um fim de tarde de 2007, tocou “Sentimental” no carro da minha irmã e minha vida ganhou eternamente mais poesia. Lembro do meu susto ao perceber que outras pessoas conseguiram traduzir em música a minha respiração. Menos de dois meses depois, a banda se separou.

Sem probabilidade de vê-los se apresentando ao vivo, continuei navegando por suas músicas. Os caras sabiam descrever a essência dos meus sentimentos como ninguém. Os caras mandavam muito. Fiquei perdidamente encantada.

As músicas do Amarante combinavam mais com a minha energia de garota de 16 anos, mas, um tempo depois, vi a música mais chata da dupla Sandy & Junior se transformar completamente através da voz e do violão de Marcelo Camelo. “As Quatro Estações” foi salva por um mestre. Quis Camelo para sempre na minha vida.

No meio disso tudo, conheci a Mallu Magalhães. Uma menina de cabelo mal cortado e um jeito mais estranho que o meu. Desengonçadamente encantadora, não tinha o menor jeito para dar entrevistas. Não era preciso. Sua música folk-rock-loka era o suficiente e eu adorava tchubirabar com Mallu.

Mallu esta que pouco tempo depois gravou uma canção com ninguém mais, ninguém menos que o mestre, Marcello Camelo. “Janta” era minha canção favorita do primeiro disco solo do hermano, “Sou”, maravilhoso do início ao fim. Não era a toa que “Janta” me envolvia tanto. A música era um flerte quase óbvio entre os meus melhores artistas de 2008 e, pouco depois do lançamento do disco, os dois assumiram o romance.

De lá pra cá, fui em vários shows do Camelo, em shows da Mallu e até mesmo em shows da Los Hermanos – abrindo para o Radiohead no Rio, arrasando no SWU e me fazendo arrepiar em Belo Horizonte. De lá pra cá, só gostei mais e mais dos dois, fosse juntinhos ou separados. A música de Mallu melhorou com a produção de Camelo, Camelo se deixou ser mais criativo na companhia de Mallu. Até que surgiu a Banda do Mar.

Que presente para esse louco 2014! Que presente para a minha vida! Marcelo e Mallu se juntaram em uma banda só e ainda chamaram um português bom de batida para fazer parte. Banda do Mar, a minha nova banda favorita. Uma banda que coloca Marcelo Camelo para dançar já no primeiro clipe, uma banda que junta muito do que eu gosto bastante e me fez lembrar que aqui dentro ainda pulsa um coração apaixonado.

Anunciado o show em Belo Horizonte, com dois meses de antecedência, fui uma das primeiras a comprar o ingresso. Apesar da ansiedade, confesso que eu não tinha a mínima noção do quanto eu seria feliz na noite do dia 30 de novembro. Foi surreal.

Os dois estavam plenamente sorridentes dividindo o palco, felicidade que irradiava diretamente na gente-público. Músicas da Banda do Mar, dos discos solos de ambos e do Los Hermanos se juntaram no setlist mais gostoso que já ouvi tocar. Os três usavam uma roupa preta de malha sem nada especial, mas pareciam vestir o céu do mundo inteiro. Estavam maravilhosos.

A cada música, um misto muito louco de sentimentos. Eu chorava enquanto sorria, sorria enquanto gritava, e cantava, cantava muito, todas as músicas, sem parar. E, durante as quase duas horas de apresentação, eu fui feliz para sempre. E talvez eu ainda seja.

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Trechos (de músicas tocadas) favoritos no meu coração:

“Eu tenho céu de abril
Pra desentristecer
Serei o que sobrar de mim
Sem nada a perder” – Me Sinto Ótima

“Se eu estou aqui é por acaso
E pra te ver passar” – Solar

“Uma vida inteira pra viver
Ou um só segundo pra lembrar” – Pode Ser 

“O teu olhar abriga o universo”- Mia

“Olha, menininha, eu tenho que dizer
Tudo o que eu faço é só por você
Aonde você for
O que você quiser, eu dou

Mas olha, menininha, eu peço por favor
Tudo o que eu faço é pelo seu amor
Cê sabe como é, por baixo desse véu
O que você quiser” – Faz Tempo 

“Posso estar só
Mas sou de todo mundo” – Doce Solidão

“Pode falar, não me importa
O que tenho de torta
Eu tenho de feliz” – Velha e Louca

“Eu sei que é complicado amar tão devagarinho
E eu também tenho tanto medo” Olha Só, Moreno

“Eu, eu quero me bordar em você.
Quero virar sua pele,
Quero fazer uma capa,
Quero tirar sua roupa.” – Sambinha Bom

“Meu bem, você pra mim é privilégio” – Seja Como For

“Trago nesses pés o vento
Pra te carregar daqui
Mas você sorri desse jeito
E eu que já perdi a hora e o lugar
Aceito.” – Vermelho

“Caberá ao nosso amor o eterno ou o não dá”  – Janta

“Prefiro assim com você
Juntinho sem caber de imaginar
Até o fim raiar” – Morena

São muitas, mas não são todas. Obrigada Marcelo, Mallu & companhia por tudo e mais.