Saudade-bagagem

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O sentimento de puxar sua mala sabendo que as vidas que ali ficam seguirão o fluxo de suas existências. Fechar a porta com a consciência de que ali continua uma conversa, uma risada. No último sábado, eu era quem ficava, e não quem ia embora. Enquanto a porta se fechava, vi Clarinha dar uma olhada para trás, como quem ainda quisesse compartilhar uma última coisa. Nossos olhos nem se cruzaram e a hesitação durou só um respirar – ela, seu par de botas e de rodinhas seguiram corredor afora.

Me mudei de Pouso Alegre em agosto de 2006, com 14 anos. Coleciono, desde então, uma pilha de despedidas. É curioso que eu não me lembre dos momentos exatos em que encontrava minhas amigas pela primeira vez, mas consiga reconstituir com nitidez muitos dos nossos tchaus – que se transformavam em contagens regressivas nos instantes seguintes.

Chovia e eu olhava com bochechas molhadas pela janela do ônibus que deixava a rodoviária; eu entrava no Ford Ka preto da Olívia deixando abraços que eu não queria largar na calçada; meus pais me buscavam na casa da Una e eu sentava a contragosto no banco de trás.

Durante os nossos fins de semana, férias e feriados juntas, eu sempre me incomodava quando ouvia eventuais planos para “a semana que vem” – aquela, em que eu já não estaria ali. Eu voltava e uma já tinha tirado carteira de motorista, a caçula perdia a virgindade, o filho de outra nascia e crescia – tudo sem que eu pudesse estar.

Mas o tempo rei ensina e, o que antes era dor, agora me parece a maior das belezas. Eu vou, sabendo que volto. Eu fico, sabendo que acaba. O correr do relógio ainda me incomoda, que tanta pressa não precisava ter. Mas o amor gigante, seguro e maduro que ocupa cada espaço entre os ponteiros dispensa a ansiedade e enche de completude aquele recorte de tempo e espaço em que nos encontramos e juntas estamos.

Sei que na minha próxima visita o Henrique vai ter voltado a não me conhecer, alguém vai ter mudado de emprego e alguém de ideia sobre outro alguém. Mas não há [mais] problema. Vou jogar o Henrique para cima até que ele me goste como se fosse a primeira vez e as horas vão nos abraçar enquanto trabalhos, famílias, namoros, paqueras, estórias, medos e sonhos são compartilhados. Vai ser delicioso e real. Depois eu volto pra casa. Todas as vidas seguem, em suas rotinas e em imprevisibilidades. Até que, de novo, eu volto praquela outra casa – que é o colo delas.

Clarinha, bem-vinda ao clube. De quem deixa pedaços do coração para trás a cada passagem de volta; mas de quem tem também o privilégio de ter corações sorrindo a sua espera, a cada passagem de ida. {o meu já ensaia a alegria de te rever pelo resto da vida}

A cama da Tamires é o melhor lugar de Londres

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Se me perguntarem em qual lugar eu passei mais tempo quando morei em Londres, vou responder sem sombra de dúvidas: na cama da Tamires. Eram finais de semanas inteiros passados naqueles lençóis, dormindo apertadas, comendo donuts, enrolando para a aula.

Quando eu cheguei em Londres, morei com uma família, em Brixton, sem um pingo de hospitalidade. Meu quarto tinha 2m²: ou eu ficava deitada, ou eu entrava dentro do armário. Depois me trocaram para uma sala macabra cheia de porta retratos antigos, onde chorei de medo dos riots de 2011 depois de ver a vizinhança toda quebrada.

Acabado o tempo na casa de família – um mês jogando o jantar fora porque a host mother colocava feijão enlatado doce por cima dos congelados e do purê de batata, estragando aquilo tudo que já era muito ruim – me mudei para o sofá de uma amiga polonesa da amiga da minha irmã. Acomodação temporária grat’s. Só que a amiga polonesa foi viajar e me largou dividindo o quarto com o namorado polonês dela que não gostava de falar inglês. Foram mais duas semanas chegando em casa só na hora de dormir e saindo cedinho para não atrapalhar ninguém.

Aí finalmente encontrei minha própria casa: uma antiguidade de quatro quartos, dois banheiros, uma cozinha imunda e 12 pessoas morando juntas. Pelo menos, era bem localizada: Portobello Road {to the sound of reggae}. Eu dividia o quarto com uma italiana lésbica virgem de 17 anos que queria ser atriz da Broadway e passava dia e noite assistindo Glee pelo computador e com outra italiana que falava menos inglês que o polonês. Lá aprendi a não acordar com luz na cara e barulho alheio e que minha bagunça definitivamente cabe em 2m². Meu único amigo de verdade era um português simpático – apesar de tentar forçar a pose de durão – que às vezes se arriscava a fazer jantares deliciosos na nossa cozinha frequentada por ratos. Fiz xixi sem sentar na privada durante os quatro meses que lá morei.

No meio disso tudo, conheci a Tamires. Eu não queria ter amigos brasileiros, mas ela adorava dubstep e cachorro quente de rua, não deu para fugir. Ainda mais depois que obrigamos nossa amiga russa a roubar uma caneca do Starbucks como souvenir. Éramos cúmplices em um crime internacional, como abandoná-la? Já na nossa primeira saída, dormi na casa dela. Era um quarto montado em uma garagem, nada muito diferente das bagunças que eu estava acostumada. Mas da segunda vez que voltamos de festa juntas… Oh Lord! QUE CAMA!

Tamires agora ocupava um quarto de verdade todinho só para ela. Um quarto de fêmeazinha emancipada com cama enorme de casal, escrivaninha e um armário monstro. Além disso, esse quarto fazia parte de uma casa com cara de casa! Quintal gramado com macieiras, uma cozinha minimamente bem cuidada vigiada por seus housemates turcos, banheiros sentáveis… Um paraíso! A Maíra – colega da Tamires e, mais tarde, minha roomie -, assim como eu, morava em um cafofo e também se apaixonou por aquele lugar que só tinha um defeito: era afastado de tudo. Ficava em Lewisham, no fim do mundo. Mais uma desculpa para não saírmos de lá. Se tínhamos chegado tão longe, para que irmos embora?

Uma vez na cama da Tamires, não levantávamos. Teve um final de semana que passamos dois dias deitadas, as três, nos revezando para ir ao banheiro ou cozinhar jaked potatoes. No Halloween, arranjamos espaço para a Aline e dividimos a cama por quatro. Quando era dia de semana, sempre combinávamos de ir comer British Breakfast perto do metrô, mas não conseguíamos levantar. Perdíamos o café da manhã e a aula. Até que eu e a Maíra fomos morar juntas e a Tamires achou que nunca mais voltaríamos à sua casa. Até parece, aquela cama era o nosso verdadeiro lar. Nosso único aconchego na cidade que é um mundo.