O especial de ‘Gilmore Girls’ era exatamente o que eu precisava neste fim de ano

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Hoje acordei às 14 horas, preparei um bom café e me sentei em frete à televisão. Pedi um delivery de comida chinesa, já que – por algum motivo que desconheço, mas desaprovo profundamente – as pizzarias de SP só fazem entregas a partir das 18 horas. Café e delivery, esse era o único jeito possível de iniciar a minha maratona de Gilmore Girls: Um Ano Para Recordar.

Sou fã da série há três meses e as lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto logo no momento em que apertei o play na Netflix – imagino como deve ter sido para quem se apaixonou pelas mulheres Gilmore há 16 anos. É inverno em Stars Hollow e Lorelai sorri para a neve com a mesma alegria tranquila que eu sorrio quando reúno vários amigos no mesmo programa. Logo chega Rory e as duas começam aquele diálogo veloz, cheio de referências pops e irônia, que tornam a história delas tão gostosa de acompanhar.

Passaram-se 9 anos desde que Luke deu um beijão de reconciliação em Lorelai e Rory saiu para cobrir a campanha do Obama para presidente. A ansiedade em saber o que aconteceu com elas desde então é tão grande quanto a vontade de os quatro episódios do especial durarem para sempre. A história vai se desenrolando e está tudo ali, não falta nada. Parece que é Natal, mas sou apenas eu assistindo TV sozinha em casa enquanto devoro uma caixa de yakissoba e outra de frango empanado. E isso é perfeito.

Lorelai e Rory estão passando por situações que se encaixam perfeitamente com os questionamentos que tenho me feito neste fim de ano. A filha principalmente. Ela entrou para o mundo do jornalismo com os mesmos sonhos que a maioria de nós entra quando embarcamos na profissão. Contar histórias relevantes! Fazer a diferença!! Mudar o mundo!!! Mas é 2016 e as pessoas preferem fazer testes do BuzzFeed e assistir a vídeos de desconhecidos falando sobre a própria vida no YouTube do que ler um bom artigo ou um livro reportagem.

Sou jornalista e não trocaria a minha profissão por nada. Porém, com as redações cada vez menores, morro de medo ser obrigada a encarar um plano B para me sustentar. Eu não tenho um plano B. Além disso, sempre sinto que deveria estar fazendo mais. Trabalhar com produção de conteúdo online é cruel. As pessoas só clicam nas notinhas e listas mais bobas que você faz. Quando, finalmente, tem tempo para produzir uma reportagem relevante, os poucos leitores encontram algum jeito muito cruel de lhe criticar por não ter escrito sobre o tema da forma que elas escreveriam.

Ver a Rory procurando emprego em uma redação aos 32 anos é angustiante. Ela leu todos os livros imagináveis, conhece tudo de cultura pop, é uma mulher curiosa sempre em busca de aperfeiçoamento e sabe escrever um artigo de opinião como ninguém. Desempregada. E não é porque ela não é boa o suficiente, mas porque, hoje em dia, é mais fácil virar uma blogueira mundialmente famosa do que conseguir um emprego na área editorial.

Vê-la nessa situação, me faz questionar ainda mais sobre a minha carreira. Estou no caminho certo? Por que não escrevo um livro? Será que começo a produzir reportagens por conta própria no meu tempo livre? Se me organizar melhor, eu consigo fazer toda a parte gerencial do meu trabalho e ainda produzir matérias relevantes no horário de serviço? E aos 32 anos? Será que, até lá, já terei influenciado positivamente a vida de alguém com minhas palavras? Onde estarei trabalhando? Em que cargo? Já vou ter lançado um livro?

Outro aspecto da vida de Rory é que ela segue enrolada nas questões amorosas. A sociedade nos faz acreditar que, se você não tiver encontrado alguém para passar o resto de sua vida até os 28 anos, você é uma fracassada. Rory – assim como eu – sabe que existem coisas mais importantes que isso. Inclusive, é bom ver sua independência sexual. Ela tem um namorado nos EUA, pega o regularmente ex em Londres e, finalmente, faz sexo casual pela primeira vez. Porém – assim como eu –, Rory fica carente da segurança que um relacionamento estável e cheio de companheirismo trás.

E esse é um ponto que, pelo meu histórico, eu não imagino sendo resolvido na minha vida. Nunca namorei, tive alguns rolos que se estenderam por mais de três anos e sempre me dei muito mal quando me envolvi sentimentalmente com alguém. Porém, quando vejo Lorelai, sei que há esperança. Aquele amor firme e intenso que quase toda menina sonha desde a adolescência – por mais feminista que seja – pode chegar depois dos 32. Para ela chegou. Ver o quanto Luke e Lorelai são companheiros é acalentador. No entanto, a série mostra que, após o casal se beijar no “fim”, por melhor que seja a relação deles, os conflitos nunca acabam. Isso é bom. Estabilidade demais é entediante. Mulheres como eu e as Gilmore não gostam de tédio, afinal.

Já passava das 22 horas quando, depois de muitas lágrimas de alegria e melancolia e alguns aplausos de empolgação, chegou o momento das quatro palavras finais. Aquelas que a criadora Amy Sherman-Palladino guardava há anos – e não aconteceram antes porque ela e o marido não participaram da sétima temporada da série.

(agora é a hora que você para de ler se não tiver assistido ao especial ainda, porque eu não quero ser a pessoa terrível que conta lhe conta isso. você precisa assistir!! – sério, segure a ansiedade)

Rory, enfim, tem um foco profissional: está escrevendo o livro da sua vida. Também colocou um ponto final nos relacionamentos que, claramente, não têm futuro. Lorelai está casada com Luke e bem resolvida com Emily, sua mãe (o momento atual dela é outro que rende um post inteiro!). As duas estão sentadas no coreto na praça central de Stars Hollow e Rory solta: “mãe, eu estou grávida”. Fim.

Eu sorrio. Consigo, finalmente, secar as lágrimas que escorreram ao longo dos quatro episódios. Rory está grávida! Assim como na vida real, ainda tem mais por vir na história das Gilmore. Os desafios nunca acabam. Sinto certo alívio. Não cheguei a nenhuma conclusão sobre minha carreira, muito menos sobre a minha vida amorosa. Gilmore Girls, afinal, não é sobre respostas. Nunca foi. Gilmore Girls é sobre viver, encarar desafios, se decepcionar e, principalmente, aproveitar a sua jornada da melhor maneira possível.

Meu sorriso é o mesmo que Lorelai sorria no início do primeiro episódio do especial, o mesmo que sorrio quando reúno vários amigos. Amanhã a vida continua com todos os seus desafios e questionamentos. As perguntas que, algum dia, tiverem respostas serão prontamente substituídas por mais dúvidas, outras serão mistério para sempre. O importante, enfim, é nunca esquecer de apreciar e curtir os detalhes do percurso. Hoje, por exemplo, foi um dia inteiro de contentamento: delivery, Gilmore Girls e minha própria companhia. Nunca vou me esquecer deste sábado especial.

Finalmente terminei “Gilmore Girls” e posso fazer este desabafo que estava entalado há um tempão

*contém spoilers

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A primeira vez que vi “Gilmore Girls” foi no SBT. Eu não sei ao certo quantos anos eu tinha, mas adorava quando ligava a TV e estava passando. Por muitos anos carreguei um carinho pela série, mesmo sem me lembrar de muito mais do que o nome de uns cinco ou seis personagens de destaque. Sempre foi uma história a qual eu quis muito ter visto toda, mas nunca rolou. Até que a Netflix disponibilizou todas as sete temporadas em julho deste ano.

Após diversos sábados e madrugadas de maratona, noites e noites estirada no sofá vidrada na televisão enquanto comia brigadeiro, hoje, enfim, terminei os 152 episódios da história de Rory e Lorelai Gilmore. Ao longo desses três meses, precisei lidar paralelamente com as notícias e boatos gerados pelo revival da série – com estreia no fim deste mês. Logo me chamou a atenção a disputa que o público começou a fazer sobre com qual namorado Rory deveria ficar no especial. Afinal, eu havia acabado de conhecer o Dean e já precisava lidar com o fato de que esse romance adolescente, a qualquer momento, chegaria ao fim e ainda viriam Jess e Logan.

Confesso que, devido às circunstâncias, analisei a ação de cada um dos rapazes ao longo dessas sete temporadas. Foi inevitável! Vocês torciam tanto por eles! Em alguns momentos me perguntava “mas já se passaram nove anos, será que a Rory não conheceu alguém melhor?”, porém, por toda a pressão ao redor, eu sentia como se também precisasse escolher um time – e escolhi. No entanto, quando descobri que a garota recém-formada terminava sozinha porque preferiu se dedicar ao início da sua carreira de jornalismo antes de se prender a alguém, a única coisa que eu consegui pensar foi “sério mesmo pessoal?”.

Uma menina de vinte e dois anos se forma, vai cobrir a campanha completa do Barack Obama para a presidência – todos sabemos o resultado político e jornalístico disso – e vocês estão preocupados em descobrir com qual ex-namorado de mais de nove anos atrás ela vai ficar? É isso mesmo? Não sei como foi a vida amorosa de vocês até o fim da faculdade, mas eu espero imensamente que, daqui uns anos, eu não precise escolher entre nenhum dos meus exs desse período para as pessoas ficarem felizes por mim.

Assim como Rory, sou jornalista. Assim como a maioria dos seres humanos, sonho, sim, em encontrar, algum dia, isso que a sociedade vende como amor. Não tive muita sorte nos meus casos amorosos e sei que são tempos difíceis para os apaixonados por fatos do cotidiano e por grandes histórias do mundo real. Porém, sinceramente, se eu pudesse escolher entre consertar o jornalismo ou o meu coração, eu escolheria mil vezes o jornalismo.

Não sei se vocês acompanharam a mesma Rory que eu, mas tenho certeza que aquela menina que vimos crescer ao longo de sete temporadas também escolheria o jornalismo. Ela termina a série a caminho de uma das maiores coberturas da história do jornalismo americano. O que acontece depois? Ela é contratada por algum jornal impresso, como sempre sonhou? Segue em publicações online? Tenta outras mídias? Quais assuntos ela cobre? Já fez reportagens premiadas? Definitivamente, foi essa a história que ficou em aberto.

É claro que tenho interesse em saber como fica seu coração. Eu sou uma das maiores fã de histórias românticas do mundo. Sei que, em algumas noites e finais de semanas, faz a maior falta ter quem te dê afeto e que, só de olhar nos seus olhos, mostre o quanto você é importante. Tenho consciência: por mais bonito que soe, nossas batalhas e vitórias pessoais não enchem o nosso coração por completo. No fim, todo mundo sonha em ser feliz no amor – e torce para que seus personagens favoritos também sejam. Só fiquei preocupada de, durante os últimos meses, os únicos spoilers de “Gilmore Girls” que recebi terem sido sobre Dean, o Jess e o Logan. A série fala sobre tanta coisa a mais!

Espero que a Rory, agora com 32 anos, tenha encontrado um companheiro ou, então, acabe conhecendo alguém bacana nesse revival. Pode até ser algum dos caras do passado, vai saber! Meu ponto é: as pessoas precisam lembrar que o mundo é mais do que encontrar a metade da sua laranja ou não morrer sozinho.  Colocar a felicidade toda de alguém nas mãos de outra pessoa não é justo. Nunca é demais lembrar que você consegue conquistar valiosas alegrias por conta própria. E eu não estou falando de ser consagrado na profissão ou de encher o bolso de dinheiro, mas de correr atrás dos seus sonhos. Seja eles quais forem.

A melhor decisão da minha vida

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Eu tinha dezesseis anos quando me disseram que era hora de começar a decidir com o que eu gostaria de trabalhar pelo resto da minha vida. Eu tinha dezesseis anos, muitas paixões e pouquíssima noção de qual profissão poderia me fazer feliz. Minha irmã estudava engenharia química, meu pai era um ex-engenheiro civil dono de lojas e minha mãe havia acabado de fechar sua confecção de roupas para dar aulas de Yoga. Observando minha família eu percebi que, no fim, a faculdade nem sempre define todo o nosso futuro. Percebi também que eu não queria ser nem engenheira, nem empresária, nem professora de Yoga. Eu precisava encontrar o meu próprio caminho.

Com o vestibular à vista, passei tardes e tardes refletindo sobre quais atividades me atraíam. Na escola, eu adorava as aulas de história, redação e artes. Fora dela, eu já havia feito diversos cursos. Canto e guitarra eram as aulas extras da época, mas, apesar da clave de sol tatuada no ombro direito e da minha enorme força de vontade, eu sabia que não tinha talento para música. Tentei olhar mais para trás e pensei nos meus dez anos de balé e jazz. Eu adorava! Mas, realmente, para mim a dança não passava de um hobby.

Indo mais fundo, lembrei das minhas aulas de teatro e do meu antigo sonho de ser atriz. Mais que atuar, eu adorava teatro, cinema e televisão. Cinema e televisão! Boa! Seria o máximo estudar cinema ou algo relacionado à TV. Eu também adorava fotografia e sonhava secretamente em ser escritora. Finalmente! Agora eu tinha possibilidades um pouco mais concretas.

Enquanto essas ideias rondavam minha cabeça e meu coração, dei de cara com a página que – eu ainda não sabia – mudaria a minha história. “Quer fazer parte da Galera Capricho?”, dizia o anúncio estampado na Revista Capricho, minha favorita na época. “Por que não?”, pensei. Preenchi o formulário sem botar muita fé e acabei me esquecendo do assunto.

Um tempo depois, recebi um telefonema da Karol Pinheiro, na época estagiária da revista e “mãe” da Galera. Eu e outras noventa e nove meninas havíamos sido selecionadas entre mais de 12 mil candidatas para talvez ser umas das 30 integrantes da Galera Capricho. No fim, depois de conversar com todas por telefone, ela acabou se decidindo não por 30 meninas, mas por 33, e uma delas era eu! E foi assim, entrando para a Galera Capricho, que começou o meu encanto pelo jornalismo.

Ajudar os repórteres da Revista nas mais diversas atividades me fez perceber que, como jornalista, eu não precisava abandonar o cinema, a televisão e a fotografia. Melhor: eu poderia escrever sobre eles. E também sobre muitos outros temas. A cada matéria, um mundo novo a descobrir.

Ingressei, então, no curso de Comunicação Social da UFMG e meu entusiasmo pelo jornalismo aumentou ainda mais. Quanto mais eu conhecia sobre a profissão, mais eu queria fazer parte dela. Ser jornalista, afinal, não se tratava apenas de conhecer mais sobre o mundo, mas de fazer o mundo se conhecer melhor.

Porém o golpe fatal da paixão veio mesmo durante as “Jornadas de junho”. Percebendo a dificuldade em acompanhar as manifestações no Rio e em São Paulo e imaginando que o mesmo aconteceria em Belo Horizonte, eu e alguns amigos criamos uma página no Facebook para centralizar as informações de quem estava nas ruas presenciando tudo, a “BH nas Ruas”.

A página hoje tem quase 95 mil seguidores e foi modelo para muitos outros coletivos de cobertura colaborativa surgirem ao redor do Brasil. Chamamos a atenção não só do público, mas também de profissionais e estudiosos da área que ficaram curiosos para entender como a nossa cobertura funcionava. Nós também ficamos maravilhados com a nossa criação e a experiência acabou virando livro.

E foi assim, dormindo pouco, mas fazendo um trabalho de extrema relevância para a minha cidade, para o meu país e para a minha formação, que eu percebi que não poderia mais viver de outra forma: eu seria jornalista pelo resto da minha vida. Essa foi a melhor decisão que já tomei.

* Texto aprovado na primeira fase de seleção do CAJ 2015 (Curso Abril de Jornalismo). Selecionada, fui entrevistada e definitivamente aprovada. Em janeiro, estou indo para São Paulo vivenciar 45 dias intensos de muito aprendizado e alegria.