8 coisas que você pode fazer contra a corrupção no Brasil sem caminhar ao lado de corruptos

grpbp

Contexto: discussão na internet sobre as manifestações do último 13 de março. Chega-se à conclusão de que há corrupção dos dois (que são mais que dois, mas enfim) lados, e então fui questionada: OK, então, de acordo com seu (que era meu) raciocínio, o correto é não fazer nada (pelo país, etc.)?

Me senti motivada a fazer, portanto, uma lista com uma série de coisas que você (qualquer pessoa) pode fazer pelo Brasil (sem bater na tecla do não fure fila, não tenha carteirinha falsificada), ao invés de ser usado numa marcha de corruptos contra a corrupção.

 

  1. SE LIGUE NAS ELEIÇÕES MUNICIPAIS DESTE ANO

Sim, 2016 é ano de eleições municipais.

1.1. Não vá votar no cunhado do seu tio porque sua tia pediu, sem ter a menor noção de qual o projeto político dele; não vá dar um Google perneta no dia anterior à eleição e escolher o rosto que mais te simpatizou; tenha a responsabilidade de procurar saber qual candidato ou candidata é mais condizente com o que você quer para sua cidade e ESCOLHA ELE OU ELA DE FATO. Não apenas engula o candidato ou candidata de pessoas próximas a você. Escolha alguém que te faça sentir representado (essa pessoa existe, você só não pode ter preguiça de procurar), de quem você vá lembrar o nome e se sentir impelido a acompanhar, saber, cobrar.

1.2. Escolhido o candidato ou candidata, ENGAJE-SE NA CAMPANHA DELE OU DELA. Os últimos tempos tem nos mostrado que política é um assunto para todos, não é mesmo? Afeta a vida de todo mundo. Um dos maiores geradores de corrupção na política brasileira é o financiamento privado de campanhas: uma empresa coloca grana na campanha de alguém, e depois quer uma contrapartida que vem por meio de favores e benefícios dados pela máquina pública (uma vez que a pessoa em questão foi eleita). Nada justo, né? A reforma política (assunto de mais logo) propõe o fim do financiamento privado de campanhas. Quando você ajuda na campanha do seu candidato ou candidata (pela internet, ajudando a panfletar, a divulgar ações e ideias, conversando com pessoas próximas a você, etc) você retira o poder das empresas e o volta para os cidadãos – que é onde ele sempre deveria estar.

1.3. AINDA DÁ TEMPO DE SE FILIAR! Para se candidatar a vereador/a ou prefeito/a, é necessário ser filiado/a a algum partido. Isso pode ser feito até 06 meses antes das próximas eleições – o que, esse ano, significa até 02 de abril. Você pode procurar o partido com o qual mais se identifica, se filiar, e por que não? Se candidatar. Política não é assunto só para homem velho branco. Política também é para jovens, de todas as raças, todos os gêneros, todas as classes.

 

A gente tem essa ferramenta maravilhosa que é a internet em mãos. Façamos bom uso dela.

 

  1. SE DEDIQUE A CAUSAS ESPECÍFICAS

A essa altura, acho que já percebemos que somos todos contra a corrupção, não é mesmo? Nem a pessoa que mais difere do seu pensamento político a defende ou a quer para o país. Então vamos passar dessa fase, e partir para o que queremos para o Brasil, o que não está bom e como podemos melhorar? Não vale mais dizer só que é “contra a corrupção”. É a mesma coisa que dizer “estou respirando”. Estamos todos juntos nessa. Pare e pense o que te incomoda no seu dia-a-dia como cidadão, e parta para a ação nesse sentido.

2.1. Por exemplo: se você não suporta as condições do transporte público, procure movimentos que tem discutido e atuado na área. Em BH existe o Tarifa Zero, que promove reuniões abertas a todas as pessoas e age junto à Justiça e ao poder público por melhorias na mobilidade. O Tarifa Zero e o Movimento Passe Livre existem em diversas outras cidades.

2.2. Se você se preocupa com a educação, dê uma olhada na agenda dos sindicatos de trabalhadores da área. Eles estão sempre lutando por melhorias. Em Minas Gerais, por exemplo, o SindUte batalha há anos pelo pagamento do piso salarial nacional aos professores. São promovidas manifestações, audiências públicas na Assembleia, reuniões e outros atos e, como bem estamos aprendendo, a pressão popular faz toda diferença para chamar atenção ao que está sendo pedido e discutido.

2.3. Se você quer se engajar, mas não sabe exatamente onde nem como, tenha calma e procure os movimentos organizados. Você será bem-vindo em todos eles. Em Belo Horizonte, o Cidade que Queremos (iniciativa nos moldes do Podemos, da Espanha, entre outras inspirações) tem realizado reuniões abertas desde o começo de 2015, discutindo e pensando propostas para várias questões relacionadas à cidade: segurança pública, meio ambiente, cultura, utilização do espaço público, etc. Você pode somar em alguma das áreas, ou só acompanhar as reuniões, reafirmando que a política é feita e vivida por todos os cidadãos.

 

  1. DEFENDA A REFORMA POLÍTICA

 

Pode ser que sua revolta maior e suprema seja mesmo contra a corrupção. E agora? Como já entendemos que a corrupção não é exclusividade de um partido, ou seja, se trocarmos A por B, na atual conjuntura, a corrupção permanece, é necessário pensar (e combater) a corrupção em um nível mais profundo.

Voltamos, portanto, à reforma política. É importante ressaltar, inclusive, que enquanto o país se paralisa em torno do pedido de impeachment da presidenta eleita, outras votações da agenda política não avançam. Ou seja: estamos parados reclamando da corrupção (de maneira hipócrita, uma vez que a pseudo-reclamação parte de pessoas corruptas), enquanto impedimos que as soluções reais para o problema da corrupção sejam discutidas e votadas. (Um pacote de medidas anticorrupção anunciado pela presidenta Dilma no ano passado, por exemplo, continua engavetado na Câmara. Ele foi proposto, mas os deputados parecem estar muito ocupados fazendo algo mais importante do que colocá-lo na pauta.)

 

3.1. Pelo fim do financiamento privado de campanhas, que, como já foi dito, é uma das maiores origens da corrupção no Brasil. É este financiamento que gera a eterna troca de favores entre empresas e políticos, deixando os interesses da população em último plano (se uma concessionária de ônibus financia a campanha de um prefeito, ao calcular o preço da passagem no transporte público, o prefeito vai beneficiar a mobilidade do cidadão ou os lucros da empresa referida?). Nota de curiosidade: a presidenta Dilma Rousseff vetou o financiamento privado de campanhas, que havia sido aprovado (por manobra do deputado Eduardo Cunha) pelo Congresso.

 

3.2. A reforma política tem vários pontos, que você pode conferir nesse infográfico do G1: Entenda a reforma política

 

  1. RESPEITE OS MOVIMENTOS QUE ESTÃO NA RUA ANTES DE VOCÊ

 

Se você está muito orgulhoso/a de ter ido às ruas no último domingo e ter feito valer seu direito de manifestação e liberdade de expressão (inexistentes num regime militar, aliás), respeite os outros movimentos que ocupam as ruas. Não vale achar que quando você está lá tudo é lindo e válido, mas quando são os outros é baderna, gente desocupada que atrapalha seu trânsito e humor. A rua é um espaço para manifestação de todos, e movimentos como o dos Trabalhadores sem Teto e dos LGBTT tem tanto direito de ocupá-la como você.

 

  1. CHEQUE AS INFORMAÇÕES QUE LÊ E COMPARTILHA

 

Essa vem acompanhada de um por favor, por favorzinho: não saia repetindo tudo que lê e ouve por aí. Cheque as informações, procure mais de uma fonte. Acredite: não é porque é jornal tal que ele está falando a verdade – “a verdade”, em si, sequer existe. Existem pontos de vista, interesses, subjetividades. Seu pai, seu chefe, seu colega, seu jornal da hora do almoço, nenhum deles está acima do bem e do mal. Então leia, ouça, assista, até conseguir enxergar quais são os fatos presentes ali. Não é porque você é governista que vai ler o Brasil 247 e tomar aquilo como verdade absoluta; e nem seja a oposição que só se baseia em Revista Veja e Jornal Nacional, por favor. Você não está enriquecendo o debate. Ao se ver pensando ou reproduzindo algo, relembre: de onde isso veio? Eu posso afirmar isso? Ou estou apenas repetindo o que veio não sei de onde? Precisamos ser responsáveis pelo que afirmamos, pelo que compartilhamos. Há muita desinformação sendo disseminada, de todos os lados. Não sejamos usados. Nada que uma busca mais caprichada e atenta no Google não resolva. Ninguém ganha com informações falsas, maldosas, que enganam e manipulam.

 

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Tudo muito bonito, tudo muito bacana, mas nem todo mundo tem tempo, ânimo ou vontade de sair de casa para ir sacar a política lá fora. Então, assim como a última dica (e as outras também, na verdade), aqui vão ações extras, para fazer do conforto do sofá mesmo (o que não é uma atitude cidadã menor):

 

  1. CHEQUE AS INFORMAÇÕES QUE LÊ E COMPARTILHA

 

É sério. Desinformação é mais perigoso que DST. Você não está lendo errado: a dica aparece duas vezes, porque merece destaque.

 

  1. TENHA AUTOCRÍTICA (numa relax, numa tranquila, numa boa)

 

Se tem tanta gente falando em justiça seletiva, em golpe, em volta da ditadura militar, pare e pense: será que não tem nada a ver mesmo? Todas essas pessoas, entre artistas, cientistas políticos, jornalistas, jornaleiros, historiadores, professores, gente à toa, estão todos viajando? A minha verdade é tão grande que eu não posso cogitar o que o outro está dizendo? Mais um problema que o Santo Google resolve. Procure as semelhanças entre o cenário político atual e o do golpe de 1964. Veja como agia e como age a mídia, a oposição, a elite. Chegue às suas próprias conclusões (mas muita calma, humildade e leitura de multifontes até chegar lá).

 

  1. EXPRESSE SUA OPINIÃO

 

As redes sociais são cada vez mais ouvidas. Os partidos e políticos estão nos lendo, sim. Com grandes poderes vem grandes responsabilidades, então além de saber muito bem o que você está escrevendo e defendendo, saiba também que é seu direito – contando que não fira o direito e a identidade de mais ninguém. Jogue limpo nas redes, use argumentos, não xingamentos. Cheque o que escreveu antes de enviar, não empobreça nem personalize o debate. Ninguém ganha com isso. Se precisar, o Humaniza Redes te ajuda a colaborar para um universo virtual mais justo, limpo e democrático.