Ainda é tempo de ser feliz em 2016?

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Eu não gostei de 2016. Este, definitivamente, não foi um ano de alegrias. Além das desgraças e más notícias que dominaram o mundo, minha vida também não teve um saldo muito positivo. Posso dizer, com todas as letras, que não vou sentir a menor saudade quando ele acabar.

Veja, enquanto resmungo, tenho plena consciência dos meus privilégios e que milhares de pessoas achariam um ano repleto de brigadeiro e maratonas de séries o paraíso. Sei que levo uma vida boa e sou muito grata por isso – todos os dias. Porém, a verdade é que eu não fui feliz.

Calma, não é o caso de se preocupar comigo. Eu estou bem. Eu só não estou feliz. É claro que ocorreram momentos de alegria e satisfação, mas as noites indo dormir com lágrimas nos olhos foram maioria absoluta em relação àquelas em que pus a cabeça no travesseiro com um leve sorriso no rosto.

A maior conquista deste ano – que seria o ponto mais positivo de todos mesmo se 2016 tivesse sido incrível – foi ter realizado um sonho de adolescência: comecei a trabalhar em uma revista feminina. E não em uma revista feminina qualquer, mas na maior do país. Essa é uma vitória que vale por várias boas notícias. Eu sei. No entanto, além das pessoas queridas que conheci, ela foi a minha única razão concreta de felicidade.

Passei a metade do ano sufocada em um relacionamento que mais parecia um aquário repleto de água e completamente vedado. Perdi a fome pela primeira vez na vida, achei que talvez estivesse ficando louca, e não fui forte o suficiente para me desprender disso. Precisou que ele partisse para outra e desaparecesse para que eu conseguisse seguir em frente.

No meio disso, o projeto ao qual eu dediquei cada gota de energia do meu corpo em 2015 chegou ao fim. Sem feedback, sem justificativa. Precisei me despedir sem saber o motivo e isso talvez tenha me doído mais que as ligações transtornadas do meu ex no meio da madrugada. Não. Pensando bem, definitivamente, me doeu mais. Juntou os dois e eu perdi a motivação para qualquer coisa que não fosse assistir a The Good Wife.

Quando, finalmente, eu parecia forte o suficiente para seguir em frente, nada demais aconteceu. O melhor momento do meu segundo semestre foi meu aniversário. Nisso, devo dizer, tenho muita sorte. Consegui lotar duas comemorações: uma em SP e outra em BH. Nessa hora, a gente vê o quanto de pessoas nos querem bem e isso é tudo na vida. Porém, desde então, 3 meses se passaram e nada demais aconteceu. Parece que minha vida está em stand by, o que significa que a minha maior emoção neste tempo foi assistir a 7 temporadas e um reboot de Gilmore Girls.

E eu não sou do tipo que fica sentada no sofá – apesar de passar muito tempo por lá – esperando as coisas acontecerem. Eu vou atrás. Interajo com desconhecidos, visito lugares inéditos e sei muito bem me divertir comigo mesma. Sou do tipo que caminha dançando na rua enquanto houve música, planeja os encontros da galera e sabe valorizar os pequenos instantes da vida.

Veja bem, a verdade é que, depois de um início de ano infinitamente merda, eu esperava algum tipo de compensação neste final. Alguma surpresa, algo transformador. Não sei se 2016 tem energias para esse tipo de coisa ou se gastou ela toda sendo um ano sofrido para a maioria das pessoas. Aliás, não sei se alguém realmente foi feliz neste ano. Olho ao meu redor e o que vejo são indivíduos exaustos que batalharam muito para levantar da cama ao longo dos últimos meses.

De qualquer forma, não quero que este ano seja uma grande mancha preta com dois ou três pontinhos de glitter dourado em minha vida. Eu gosto de olhar para trás e sentir saudade. Eu aprecio as vinte e quatro horas do dia. Por isso, selo aqui um acordo comigo mesma: o ano ainda tem 31 dias até acabar, dá tempo de virar o jogo. Um mês inteiro para 2016 valer a pena. São 31 oportunidades de chegar em 2017 mais inspirada. Bora aproveitar?

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a praça da liberdade tinha algo de alienígena com a noite e com todas as luzes. eu não tinha cachorro nem filho nem idoso pra desfilar. eu não tinha par. na ida, ainda era dia e consegui desviar – dos sorrisos, das fezes, dos brinquedos, da água, de ser atropelada pelo carrinho de pipoca ou de bebê ou pelo trenzinho. à noite, num segundo pensar, a alienígena era eu. não se deve fumar na frente das crianças. não se deve dar esse desgosto aos mais velhos. não se deve correr assim em tempos de férias. não se deve fumar.

uma faixa de pedestre e informações demais ao meu redor. família, natal, ano novo, cachorro quente, bumerangue de laser. só mais uma faixa de pedestre e eu estaria livre.

“você tá esperando alguém?”, ela perguntou. “não”, respondi. “e você?”, eu deveria ter perguntado. “não se deve ser assim tão sozinha”, ela deve ter pensado.

“moça, é que faz muito tempo que eu não fico sozinha, sem primo, sem coca-cola, sem cloro, sabe? e eu só tô gostando”, eu quis falar. mas enchi a boca de rúcula e brie e mate e brownie. e a cabeça de pensar. será que eu e minhas amigas nos encontraremos na meia idade no cinema num domingo de fim de ano? será que eu vou ser a única sem plástica? a gente vai ter bom humor? ou bom humor-forçado? uma delas inventava uma história para me justificar. “ela deve morar sozinha e acabou de chegar de viagem. de certo visitava os pais”.

a moça ao lado continuava querendo conversar. tomou sua primeira budweiser. 5,5% de álcool, me contou.

não se deve fumar.