Amigo seu é coisa séria pois é opção do coração

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Meus irmãos passaram a vida mudando de cidade em cidade, acompanhando pai e mãe. A gente sempre tinha que se adaptar à nova rua, nova vizinhança, nova escola. Uma estratégia de sobrevivência nos ensinou a criar pequenos universos particulares, que poderíamos carregar no bolso, independente de qual fosse o novo destino.

Hoje vejo que o universo do meu irmão foi erguido com tijolos de lealdade, cristais de bom coração, um balde de Lego inteiro de só querer-bem-com-sinceridade. Ele, desde que sei, é daqueles que carrega os poucos e bons, e vai com eles até o fim – não importa se primavera ou se tempestade.

No bolso, hoje sei que o Lucas levou principalmente a si mesmo. Ele nunca deixou de se ser, na escola pública ou na particular, no interior ou na capital, no quintal de cimento, na varanda de ardósia ou no gramado visitado por ETs.

Quando menino, Lucas pegava as caixas de madeira onde se vendiam uvas e as transformava em violão (com gominhas amarelas sendo as cordas) ou em arco e flecha (com o qual ele atacava mansões de marimbondo e nos deixava presos em casa o dia inteiro, esperando a raiva animal passar). Hoje, barbado, casado, ele compra madeira e constrói os próprios móveis.

Lucas (nunca só) cuidava de um bando de cachorros da rua; ocupou uma fábrica de uniformes abandonada e uma casa em ruínas para fazer delas abrigo para os cães. Todos tinham nome e carinho e Pepita, quando teve filhotes (na fábrica), só deixava o Lucas se aproximar. Pepita, Hannah, Eros. Hoje, morando na sua nova casa e pagando seu aluguel, ele faz do seu lar, lar dos animais também. Maggie, Beemo, Link, Kheera, Ragnar.

A gente brincava muito de Lego e ele estava sempre embrenhado em ferramentas; hoje, trabalha projetando peças no papel e no computador. A gente montava um laboratório na garagem para dissecar cogumelos e outras formas de vida; hoje ele tem sua própria loja virtual para vender coisas nerds. A gente saía jogando milho e feijão pelos vasos de planta, querendo ver tudo brotar; hoje ele tem planos de ter uma horta em casa, que eu sei que vai vingar.

Ao invés do tradicional futebol, meu irmão fez capoeira, xadrez e ponto cruz. Ao invés do violão, teve um pandeiro e uma gaita. Quando os jovens pediam uma moto aos pais, meu irmão implorava por um cavalo. Ele que me levou para acampar (não sem me fazer medo), para cachoeiras (não sem fazer bullying pelo meu medo), para o que tem para lá dos muros-seguros.

Ele é dono de um coração que vai de Belo Horizonte até Curitiba, passando por Sete Lagoas, Manaus, Pouso Alegre, Goiânia e mais umas quebradas por aí. Incapaz de fazer um malzinho que seja a qualquer pessoa que seja. Incapaz de não ser leal, de não se dedicar, de não ser bom. De não ser ele, enfim.

Do meu irmão, você sempre vai ouvir o riso. Ele vai falar só quando sentir vontade. Mas o riso – o riso vai sair forte, inteiro, de verdade. Do desenho que você nunca viu, de um caso de anos atrás, de qualquer besteira com o pai. O riso vem e ocupa o ar, a casa, o peito. Vem pelos olhos dele que brilham, passando pelas sardinhas até transbordar, como bolas de gude desaguando de um bolso recheado.

O lugar mais aconchegante do mundo

Eu sempre quis ter um canto meu. Divi o quarto com a minha irmã mais velha por muitos anos na casa da vovó, até ganhar individualidade, aos 9 anos de idade, com a mudança para a nossa própria casa. Desde então, a parede já foi coberta por posters de banda de rock, fotos tiradas por mim, adesivos de libélulas, tinta das mais variadas cores — um de cada vez, ou tudo misturado. Minha cama nunca passou mais de quatro meses na mesma posição, bem como todo o resto da mobília e apetrechos.

Em Londres, tive cinco quartos durante os seis meses que fiquei por lá em 2011.

1) Cubículo de 2m² em casa de família desconhecida – duração: 2 semanas;

2) quarto cheio de poeira e fotos da mesma família desconhecida – duração: 2 semanas;

3) sofá no quarto de casal de uma polonesa amiga da amiga da amiga da minha irmã – duração: 2 semanas;

4) quarto dividido com duas italianas desconhecidas em Portobello Road – duração: 3 meses;

5) flat dividido com amiga paulista, cama e fogão coexistiam no mesmo espaço – duração: 1 mês e meio.

Voltei de lá mais apegada ao meu quarto mineiro do que nunca, mas louca de vontade de ter meu próprio apartamento. Enquanto sair da casa dos meus pais não era uma opção, fui transformando o meu canto no lugar mais aconchegante do mundo.

Em janeiro deste ano, estava me organizando para mudar para São Paulo, e senti que, aos poucos, esse espaço iria deixar de ser tão meu. Resolvi, então, fotografá-lo para eternizá-lo. Assim, aos 30 e poucos anos, encontrarei essas imagens e me lembrarei do quanto fui feliz ali, com meus pensamentos, minhas músicas e meus livros.

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Sexta-feira passada (19.06.2015), fui para Belo Horizonte, deitei nessa cama com cobre-leito de florzinhas, e desabafei com a minha mãe sobre estar assustada — apesar de muito feliz — com as mudanças da vida. Eu vim morar em São Paulo, minha irmã vai se casar em setembro e formar outra família, e talvez fique impossível de algum dia sentarmos os quatro novamente no sofá para assistirmos a novela juntos. Assim que ela apagou as luzes e saiu do quarto, fui surpreendida pelos adesivos de estrelas fosforescentes, que eu mesma colei, transformando o meu teto em céu. E, nessa hora, eu soube que ficaria tudo bem.

Meu quarto mineiro é realmente o lugar mais aconchegante do mundo.

Aos meus pais: eu voo

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Mãe e pai,

Há algum tempo venho ensaiando algumas palavras para dizer a vocês, até que me deparei com essa música. Ela expressa tudo o que eu quero dizer, mas infelizmente é em francês. Precisei, então, redigir minhas próprias palavras para lhes dizer o que eu mesma quero dizer. De qualquer forma, peço que apertem o play antes de prosseguirem a leitura.

Meus queridos pais,

O momento chegou. Aquele. O mais temido. O mais aguardado. O mais imaginado. Pela primeira vez, coloco os meus pés para fora de casa com a esperança de só voltar como visita. Eu cresci do tamanho dos meus sonhos e as montanhas de BH já não me são mais suficientes. Já faz tempo, é verdade, que o conforto da cidade natal não me traz mais alento nenhum. Cumpridas as obrigações estudantis, é hora de buscar mais. De sonhar mais, enquanto realizo muito. É tempo de aprender a andar sem o auxílio de suas mãos. Agora, começo a caminhar sozinha.

A coragem e a esperança necessárias para encarar esse momento herdei de vocês. Sem perceber, vocês me ensinaram que a gente é o que a gente quiser ser. Papai se formou em engenharia e logo viu que seu caminho era outro. Virou empresário, seríssimo, original de Ponte Nova. Mamãe foi administradora, professora de Yoga e, agora, confeiteira-empresária. Nunca ficou parada onde não mais queria estar. Do interior, vieram para a capital de Minas Gerais; da casa dos pais, dividida com vários irmãos, foram para os braços um do outro; de um apartamento modesto, se mudaram para uma casa enorme. Tudo realizado com muito suor no rosto, afinal não basta sonhar – nunca basta -, é preciso perseguir o sonho. E lá vou eu perseguir o meu.

Não pensem que vou porque vocês não me são suficientes. Ninguém é, mas vocês são mais que todo mundo. Só avanço porque sei que, caso leve um tombo, tenho o colo de vocês para me amparar. Só vou atrás do que quero, porque, ao longo desses 23 anos, vocês me mostraram que eu consigo tudo o que me for importante. Você, mãe, dizendo “engole o choro, filha, tenta de novo, de um jeito diferente” e, quando necessário, pegando a mochila para me acompanhar, onde quer que fosse. Você, pai, sem nunca negar fôlego, me auxiliando dentro das possibilidades, ao mesmo tempo em que me mostrava o valor da minha própria contribuição na realização dos meus objetivos. Aprendi direitinho.

O momento chegou. Tenho o espírito apegado nos laços afetivos, mas um coração que necessita viver o mundo todo. Minhas raízes são enormes, mas minhas asas maiores ainda. Preciso voar. Não é descaso, é destino. Uma jornada inédita e espetacular me aguarda, em que eu preciso contar principalmente comigo mesma para que tudo dê certo. Estou virando gente grande e minhas asas estão cada vez maiores. Chegou o momento. O caminho agora é para a frente. Vou voar. Graças a vocês, vou voar.

Com carinho,

Clarinha

Ps. A letra da música se traduz mais ou menos assim (reiniciem e apreciem):

Eu Voo

Meus queridos pais, eu vou embora
Eu os amo, mas eu vou embora
Vocês não teem mais filhos
Esta noite

Eu não fujo, eu voo
Entenda, eu voo
Sem fumar, sem álcool
Eu voo, eu voo

Ela me observou ontem
Preocupada, minha mãe
Como se ela senti-se, na verdade, ela suspeitou
Ouça

Eu disse que estava bem, com ar sereno
Ela fez como nada, e meu pai impotente
A sorrir.
Não se vire, se afastar um pouco mais
Há estação, outra estação e enfim, o atlântico

Meus queridos pais, eu vou embora
Eu os amo, mas eu vou embora
Vocês não teem mais filhos
Esta noite

Eu não fujo, eu voo
Entenda, eu voo
Sem fumar, sem álcool
Eu voo, eu voo

Eu me pergunto se no meu caminho
Se meus pais suspeitam
Minhas lágrimas escorriam
Minhas promessas e desejo
Avançar

Só acredito na minha vida
Tudo o que me é prometido
Por que, onde e como
Neste trem que se desvia
Cada momento

É estranho, esta gaiola
Bloqueio de meu peito
Eu não posso mais respirar
Isso me impede de cantar

Meus queridos pais, eu vou embora
Eu te amo, mas eu estou deixando
Você não vai ter filhos
Hoje à noite

Eu não fujo, eu voo
Entenda, eu voo
Sem fumar, sem álcool
Eu voo, eu voo

La la la la la la
La la la la
O
Eu voo

Eu não gosto mais tanto assim de Natal

natalO Natal já foi meu feriado favorito. Durante anos, minha família materna se reunia na casa da Vó Majô, as crianças preparavam uma apresentação de teatro, os adultos a ceia, e tinha uma mesa especial só para os doces de tanto doce que tinha. Os ensaios da peça e decidir quais sobremesas seriam feitas eram tão gostosos quanto o espetáculo e as guloseimas em si.

Na noite do dia 24, a casa da Vovó – que por muito tempo também foi a minha casa – se enchia de gente. Tios de todas as famílias, primos de todos os primos, muita criança e muito, muito adulto. Todo mundo virava uma família só. Enquanto não chegava a hora da peça, nos distraíamos tentando quebrar nozes das mais variadas formas. Jogando de cima da escada, prendendo na porta, dando pontapés. O teatro era quase sempre sobre crianças de rua sendo salvas pelo Papai Noel e seus ajudantes. Tudo inspirado em “Chiquititas”, que nos ensinava que o mundo não é mágico para todos, mas é sempre possível sonhar com – e lutar por – mudanças. Eu e o Rafa os meninos de rua, as primas mais velhas os salvadores. A Buty sempre o Papai Noel. Os adultos achavam a nossa atuação graciosa, se emocionavam com o enredo e nos aplaudiam muito. A gente se achava os melhores atores do planeta.

Logo dava meia noite. Minha mãe me gritava, pois tinha surpresa na lareira: presente vindo diretamente do Pólo Norte. “Você viu o Papai Noel, mãe?”, “não filhinha, vi o presente caindo da chaminé, cheio de pó de pirlimpimpim”. Mesmo quando meus pais liberaram o bom velhinho e assumiram a responsabilidade dos presentes, meia noite continuou sendo um horário bem legal. Presente dos pais, presente da madrinhas, abraço, sorrisos, surpresas.

Hora da Ceia! Peru nunca foi uma tradição nossa. Optávamos por paella ou outro prato com frutos do mar. Repetíamos uma, duas, três vezes e ainda tinha espaço para a sobremesa. Sorvete com brigadeiro e bis, canudinho recheado com doce de leite, torta molhadinha de chocolate… E, tcharam! Hora do amigo oculto. Presente pra cá, presente pra lá, falta eu! Meu amigo oculto é lindo. Eu! Meu amigo oculto é meio maluquinho. Eu! Uma hora acabava sendo eu e, além do presente, sempre vinha o abraço carinhoso da surpresa revelada. Sensacional!

Dia 25 – o dia exato do Natal – era praticamente curtição de ressaca da véspera. Chegávamos cansados e sorridentes na casa da Tia Mirele. As crianças nadavam, os adultos morgavam, e a comilança continuava…

Até que eu, minha irmã e meus pais mudamos para nossa própria casa e a casa da Vó Majô ficou grande demais só para ela. Resolveu alugar e se mudar para um apartamento pequetito. Ficamos, então, sem lugar oficial de Natal. O que serviu de desculpa para uma dispersão em massa na antiga melhor data do ano. Um começou a passar a véspera com a outra família, outro agora adora viajar para a praia bem nessa época. Dia 25 acabou virando o dia oficial de celebração para os que ficam, mas o amigo oculto vem ficando cada vez mais vazio. Cada ano é um que se ausenta e até eu já fiquei de fora quando morei em Londres – mas o Natal em família já tinha perdido seu charme quando isso aconteceu.

Organizar as celebrações já não tem o mesmo sabor delicioso das guloseimas. Todo mundo faz corpo mole, até para tirar o amigo oculto. Eu fico triste. Se até o Natal virou data complicada para colocar todo mundo juntinho em volta da mesa, o que dizer dos outros dias? No fim das contas, os poucos gatos pingados disponíveis no dia 24 acabam sendo recebidos pela tia Cal, que capricha na decoração e no aconchego, e pelo tio Leo, que sempre encanta na cozinha. No dia 25 até rola um almocinho na Tia Mirele ou aqui em casa. A comida é sempre espetacular – os Coelho não sabem cozinhar diferente – , mas o encanto do Natal já venceu nessa família. Não tem mais unão, muito menos pó de pirlimpimpim. Esse já não é mais o meu feriado favorito.

Eu adoro fazer aniversário

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Quando pequena descobri que eu tinha nascido no mesmo dia do meu aniversário. Eu fiquei maravilhada. Como eu podia ter nascido exatamente no dia mais legal de todos os dias existentes? A única coisa que me chateava era quando, no dia seguinte da minha festa de aniversário, minha mãe respondia que ainda faltava um ano para o próximo. Um ano? Um ano é tempo demais, mamãe.

Agora, vinte e três aniversários (exatamente no mesmo dia que eu nasci) depois, eu ainda fico abaladíssima em ter que esperar mais 365 dias para soprar as velinhas e receber abraços especialmente apertados. Um ano parece não passar nunca.

E por que aniversariar é tão bom? Eis a minha lista de motivos:

– Minha irmã e minha mãe invadem o meu quarto meia noite para entregarem abraços e colarem um sorriso na minha cara que durará o dia inteiro;

– O dia fica com cara de parque de diversões e a água com gosto de felicidade;

– O moço do correio sempre aparece com algumas flores enviadas por gente que quer me ver muito feliz mesmo não podendo me dar um abraço pessoalmente e elas enfeitam o meu quarto por semanas;

– Eu consigo reunir minhas pessoas preferidas na mesma hora, no mesmo local, comendo os mesmos docinhos e compartilhando as mesmas danças (eu adoro ver minhas galeras interagindo);

– Um monte de gente bacana pensa em mim e me deseja um tantão de sentimentos e acontecimentos extremamente deliciosos do fundo do coração;

– Amigos queridos que não vejo há muito tempo aparecem para me lembrar que nós vamos ser importantes um na vida do outro pelo resto de nossas vidas;

– Minha mini biblioteca pessoal, minha maleta de maquiagem e meu pseudo armário são atualizados por amigos e familiares de extremo bom gosto;

– Eu ganho um monte de cartas e cartões mágicos que me farão viajar no tempo daqui há 20 anos quando eu abrir minhas caixas de cartas;

– Atualizo as minhas fotos usando uma roupa linda, abraçando queridos maravilhosos, e exibindo um sorriso do tamanho do meu coração (para também viajar no tempo daqui há 5, 10, 30 anos);

– Percebo que se tem tantas pessoas engajadas em me fazer sentir especial nesse dia é porque eu devo ser especial para elas de alguma maneira. E ser especial para alguém é bonito demais;

– Etcetera ………………..

Obrigada humanidade por adorar celebrações. Eu também adoro. Obrigada meus pais pela vida. Obrigada o mundo todo por me fazer querer viver cada dia mais. Obrigada a todos que fazem da minha vida uma das vidas mais bem vividas de toda a história das vidas e por me darem tantos motivos para amar comemorar o bendito dia em que eu nasci. Ano que vem a gente se reúne de novo. Enquanto isso, comemoro emocionadíssima o dia de vocês, os próximos 364 melhores dias da vida que só perdem para 30 de agosto.

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As melhores pessoas do mundo reunidas  na mesma hora, no mesmo local, comendo os mesmos docinhos e compartilhando as mesmas danças no dia 30 de agosto <3

BH 2:15 da madruga

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Se tem uma coisa que meus pais odeiam é que eu volte para casa dirigindo de madrugada. Se tem uma coisa que eu adoro fazer é isso. Hoje – para a minha sorte e para o desespero deles – precisei finalizar o documentário de TCC com meu grupo e a reunião durou até duas da madruga. O que nem é tão tarde, mas, aqui em casa, funciona assim: quando estou de carro, passou das 0h, meus pais ficam ansiosos, passou das 01h, eles enlouquecem. Depois disso, tem nem conversa. Quem sai perdendo, no final das contas, é eles. Eu sempre volto para casa inspirada. As ruas de BH à noite são lindas!

Só da noite de hoje, tenho uma lista de encantos para compartilhar:

– Um grupo de amigos atravessavam a Av. Cristovão Colombo gargalhando e falando alto. Eles pareciam bem felizes.

– Cinco amigos com aparentemente menos de 20 anos de idade se reuniam em frente ao Pátio Savassi. Quatro conversavam, enquanto o quinto subia uma escada posicionada em uma das pilastras da entrada da Av. do Contorno. Não sei se aquilo tinha algum propósito, mas espero que eles tenham boas histórias para contar sobre a noite de hoje.

– Uma mulher e um homem caminhavam com um cachorro branco de médio porte pela Av. Nossa Senhora do Carmo. O cachorro parecia bem contente. Eles também.

– Um casal namorava dentro do carro no Mirante do Belvedere. A vista de lá é linda. Espero que eles pensem o mesmo um do outro.

Fora isso, o de sempre: o tom laranja das luzes sobre o asfalto, a deliciosa sensação de furar todos os sinais (tomando os devidos cuidados, é claro), o silêncio lá fora, as janelas iluminadas, a cidade pulsando, mesmo às duas e quinze da manhã. A alegria de se sentir viva.

Cheguei em casa, minha mãe me xingou, meu pai me deu boa noite – depois de ter, certamente, passado a noite falando na cabeça dela. A Clara está demorando! Alguém precisa controlar essa menina! Amanhã, provavelmente, tem mais sermão. Mas quem se importa? A noite estava linda!

A cama da Tamires é o melhor lugar de Londres

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Se me perguntarem em qual lugar eu passei mais tempo quando morei em Londres, vou responder sem sombra de dúvidas: na cama da Tamires. Eram finais de semanas inteiros passados naqueles lençóis, dormindo apertadas, comendo donuts, enrolando para a aula.

Quando eu cheguei em Londres, morei com uma família, em Brixton, sem um pingo de hospitalidade. Meu quarto tinha 2m²: ou eu ficava deitada, ou eu entrava dentro do armário. Depois me trocaram para uma sala macabra cheia de porta retratos antigos, onde chorei de medo dos riots de 2011 depois de ver a vizinhança toda quebrada.

Acabado o tempo na casa de família – um mês jogando o jantar fora porque a host mother colocava feijão enlatado doce por cima dos congelados e do purê de batata, estragando aquilo tudo que já era muito ruim – me mudei para o sofá de uma amiga polonesa da amiga da minha irmã. Acomodação temporária grat’s. Só que a amiga polonesa foi viajar e me largou dividindo o quarto com o namorado polonês dela que não gostava de falar inglês. Foram mais duas semanas chegando em casa só na hora de dormir e saindo cedinho para não atrapalhar ninguém.

Aí finalmente encontrei minha própria casa: uma antiguidade de quatro quartos, dois banheiros, uma cozinha imunda e 12 pessoas morando juntas. Pelo menos, era bem localizada: Portobello Road {to the sound of reggae}. Eu dividia o quarto com uma italiana lésbica virgem de 17 anos que queria ser atriz da Broadway e passava dia e noite assistindo Glee pelo computador e com outra italiana que falava menos inglês que o polonês. Lá aprendi a não acordar com luz na cara e barulho alheio e que minha bagunça definitivamente cabe em 2m². Meu único amigo de verdade era um português simpático – apesar de tentar forçar a pose de durão – que às vezes se arriscava a fazer jantares deliciosos na nossa cozinha frequentada por ratos. Fiz xixi sem sentar na privada durante os quatro meses que lá morei.

No meio disso tudo, conheci a Tamires. Eu não queria ter amigos brasileiros, mas ela adorava dubstep e cachorro quente de rua, não deu para fugir. Ainda mais depois que obrigamos nossa amiga russa a roubar uma caneca do Starbucks como souvenir. Éramos cúmplices em um crime internacional, como abandoná-la? Já na nossa primeira saída, dormi na casa dela. Era um quarto montado em uma garagem, nada muito diferente das bagunças que eu estava acostumada. Mas da segunda vez que voltamos de festa juntas… Oh Lord! QUE CAMA!

Tamires agora ocupava um quarto de verdade todinho só para ela. Um quarto de fêmeazinha emancipada com cama enorme de casal, escrivaninha e um armário monstro. Além disso, esse quarto fazia parte de uma casa com cara de casa! Quintal gramado com macieiras, uma cozinha minimamente bem cuidada vigiada por seus housemates turcos, banheiros sentáveis… Um paraíso! A Maíra – colega da Tamires e, mais tarde, minha roomie -, assim como eu, morava em um cafofo e também se apaixonou por aquele lugar que só tinha um defeito: era afastado de tudo. Ficava em Lewisham, no fim do mundo. Mais uma desculpa para não saírmos de lá. Se tínhamos chegado tão longe, para que irmos embora?

Uma vez na cama da Tamires, não levantávamos. Teve um final de semana que passamos dois dias deitadas, as três, nos revezando para ir ao banheiro ou cozinhar jaked potatoes. No Halloween, arranjamos espaço para a Aline e dividimos a cama por quatro. Quando era dia de semana, sempre combinávamos de ir comer British Breakfast perto do metrô, mas não conseguíamos levantar. Perdíamos o café da manhã e a aula. Até que eu e a Maíra fomos morar juntas e a Tamires achou que nunca mais voltaríamos à sua casa. Até parece, aquela cama era o nosso verdadeiro lar. Nosso único aconchego na cidade que é um mundo.

O tempo de Kika

kika2Eu chego em casa, tranco a porta enquanto dou ‘boa noite’ e em três passadas monstras atravesso a sala, deixo a bolsa no quarto, já vou para o próximo item da lista: tomar banho, comer, terminar um trabalho, um projeto, um engasgo, um namoro. Ela ainda termina de processar que estou – ou teria sido só um vulto rasgando a casa?

‘Oi, Cacá! Que bom você chegou. Me dê um beijo?’. A frase de Kika flutua no ar. Voltar na sala, ganhar um abraço apertado, um beijo melado e dar um outro beijo leva segundos – os mesmos que gasto lendo qualquer besteira no celular. Minha cabeça, vez fervida, vez em outra galáxia, ainda hesita em se jogar no corredor – burra que é. Os segundos de Kika são de outra ordem. Não-feitos para o homem contar.

Desde que Érica é Érica, tudo funciona dentro de um sistema. Acordar entre 8h e 9h, tomar café, trocar de roupa, arrumar a cama, jogar paciência e outros jogos. Almoço, Video Show, Vale a Pena Ver De Novo, banho – sempre, sempre antes que anoiteça. Chamar meu pai quando o Jornal Nacional começa, mesmo que ele não tenha feito nada com esse convite nos últimos tantos meses. Lavar a calcinha e pendurar no varal, passar os cremes e óleos e pomadas, perguntar se ela está cheirosa depois do banho e se quem ligou mandou um beijo para ela. Me perguntar se estou bem e como foi o dia. Tudo regrado, ensaiado e diariamente encenado – com um rigor e uma disciplina que meus compromissos jamais viram.

Ainda assim, há tempo para o beijo fora de hora. Sempre. Há exceção quando no meio da novela eu resolvo chamar para o parque e ela dá uma última olhada para a TV antes de me sorrir um ‘é claro’. Há disposição para a caminhada a qualquer tempo, mesmo que pareça que vai chover lá fora.

O tempo se recusa a passar para ela como para mim. Uma criança eternizada dentro de um corpo que insiste em passar dos 40 – mas, mais que isso, uma existência que caminha sobre os minutos como que sobre flores e não pedras. Ela não se debate, não agoniza, não desespera. Só é, em simplicidade. Em harmonia que ignora os ponteiros, mesmo jurando que só acorda antes das 9h e que enquanto a novela das oito não acabar, ainda é cedo. O banho é um ritual budista e o sono é templo sagrado. Mas nenhum abraço e amor e afeto atrasa.

O beijo da Kika dura mais que o de muito casal recém-apaixonado. O olhar de muitos graus de miopia dela vê na gente o que nem mãe e terapeuta vêem. Ela sabe quando a gente precisa de carinho e de uma boa dose de amor não-cronometrado – porque esse tempo é sempre. E tanto. Igual ao coração dela.

Carolina, meu amor

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De tanto você pedir, eu finalmente nasci. A Buty tinha o Rafa, a Nati tinha a Lu, e só você, de todas as primas, não uma “rirmãzinha”. Fez bico, fez greve, fez de tudo. Não ia sossegar enquanto não tivesse a sua própria pirralha. Conseguiu. De tanto você pedir, eu vim. Quatro anos e oito meses depois. Toda gorducha. Cheguei com um patins amarelo de quatro rodas para te presentear. Você ficou encantada. Seus olhos pareciam duas jabuticabas e me olhavam com curiosidade. Lá estava eu, uma “rirmã” todinha só para você.

Eu não me lembro de nada disso. Porém a mamãe lembra e sempre me contava essa história com muita alegria. Você gostava de mim antes mesmo de eu nascer. Você sempre me quis. Talvez seja por isso que me trate como se fosse sua filha. Até hoje. E eu reclamo, reclamo, reclamo, mas isso faz parte do seu amor de irmã mais velha, eu sei. De irmã que dividiu os pais, antes só seus, comigo. E dividiu os brinquedos, o espaço no sofá, os primos, os avós e até a babá. E divide até hoje. Roupa, banheiro, família… Só o sofá que, hoje em dia, você gosta de ocupar todo sozinha. Mete a cabeça no meu colo, o pé no colo do papai, e a mamãe fica apertadinha no canto esquerdo. Um sofá enorme, a seu dispor. E a gente reclama, mesmo adorando ter sua companhia enquanto assistimos novela.

Quando crianças, você me irritava – algumas vezes de propósito, outras vezes sem querer – e eu partia para cima. Compensava minha falta de argumentos distribuindo tapas e socos em você. Você nunca me bateu de volta. Eu lembro que fiquei muito assustada quando percebi isso. Mesmo eu te batendo quase diariamente, você nunca revidou. Adorava me provocar, mas não tinha a intenção de me machucar. Nunca teve. Anos mais tarde, voltando de uma cachoeira, você disse para o seu namorado “ajuda a Clara a subir, prefiro ela fora de perigo do que eu”. Mais uma vez me constrangi pela sua proteção. Eu também não queria você em perigo. Também trocaria a minha vida pela sua. Eu também te amo a esse ponto.

Te ver chorando após terminar o namoro no Ensino Médio foi uma das piores sensações que senti na minha vida. Você no banheiro, encharcada de água e choro. Eu senti seu desespero dentro de mim. Quis transformar a sua dor em uma paz intensa. Mas não consegui. Fiquei abraçada te ouvindo chorar. Tinha certeza que vocês voltariam. Não voltaram. Desacreditei no amor romântico pela primeira vez. Entretanto, no dia em que eu terminei meu último relacionamento, você me contou que estava namorando com o Gus. E, desde então, vocês vem me ensinando que esse tipo de amor existe sim. Que ele é maior do que se imagina. Que ele é bom. A paz que eu quis tanto que preenchesse o seu coração anos atrás, finalmente tomou conta de você por inteiro. Para sempre. E essa é uma das minhas maiores alegrias.

Já o nosso amor, não é tão tranquilo. São 22 anos e cinco meses de convivência. É muita história, muita saudade, muito medo de te perder. Você viveu quase cinco anos sem mim. Eu nunca existi sem você. Comecei a existir dentro da sua vontade. Sou metade você desde sempre. Mesmo quando morou Londres, mesmo quando eu te imitei, você esteve ao meu lado. Agora você é adulta e eu – apesar de fugir – já sou quase uma. Algumas coisas vão mudar. Você vai se casar, eu quero morar fora, talvez me case, o papai e a mamãe vão morrer de saudades. E eu também. Vamos ter filhos. Nossas próprias famílias. Os Natais vão ser complicados. Tentaremos almoçar juntos em alguns domingos, talvez eu te mande e-mails diários e você continue me ligando após o expediente, com a voz mansa e uma falta de assunto danada, mas feliz em estar ouvindo a minha voz.

A verdade é que seremos para sempre irmãs, algumas pessoas continuarão a confundir nossos nomes e datas de aniversário, outras vão continuar se referindo a mim como “a irmã da Carol Novais”. E eu vou ter muito orgulho disso tudo, como sempre tive. Eu amo você e escrevo este texto para que você nunca duvide disso. E para que se lembre de tudo que fomos, de tudo que somos e de tudo que ainda vamos ser. Obrigada por ter me querido. Também te quero muito. Feliz 27º aniversário.

Mais respeito, por favor

respeito

A grande frustração do ser humano vem de achar que ama e é amado. Tudo ilusão. Em alguns momentos percebemos que estamos sozinhos, não importa quantos cartões amorosos recebamos de aniversário e Natal. Amor é palavra fácil de usar. Amor machuca. Amor promete e não é. Amor é raro. Eu quero é respeito. Acho que todos nós deveríamos falar menos que amamos e respeitarmos mais. Respeito faz bem para a alma. Respeito é real.