Esta não é uma história de amor

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Eu tinha só 10 anos quando o Gabriel gritou “o Guilherme gosta de você”. Achei que aquilo era algum tipo de pesadelo, porque eu gostava muito do Guilherme.  Seria muita coincidência ele também gostar de mim. Tinham descoberto o meu segredo e aquilo era algum tipo de zoação. Só podia ser. Passei a quarta série toda fugindo dele. Lembro do dia em que fomos ao observatório em excursão. Uma noite linda. Eu estava morrendo de frio – não esperava a temperatura quase negativa da Serra da Piedade – mas neguei o casaco dele mesmo assim. Se eu aceitasse, ia ficar na cara que eu gostava dele também. Teve a festa junina e eu não aceitei ser seu par. Fiz a Mariana ser.  Enquanto eu morria de inveja e dançava forró com uma amiga, mandava beijinhos – devidamente registrados pelo olhaopassarinho.com – como se tirasse onda com a cara da Mariana por estar dançando com um rapaz. Na feira de ciências, perdi a fala quando ele veio assistir a minha apresentação sobre vulcões. Fingi que não queria apresentar por não ir com a cara dele. Nos jogos de queimada, eu me queimava para ficar no cruza, ele se queimava para ficar ao meu lado, e eu queimava alguém do outro time para fugir do lado dele. Passei um ano inteiro fugindo. Na quinta série,  mudei de colégio e, no meio do ano, fui em uma festa junina da escola antiga. Ele me perguntou se eu estava dando mole para outro ex-colega nosso. Vê se eu ia trair ele assim. Claro que não. Mas também não dei mole para ele. E nunca mais vi o Guilherme. Esse foi o meu primeiro amor. Demorou quatro anos para eu gostar de outro alguém.

Conheci o Fábio no orkut. Ele era de Balneário Camboriú, jogava basquete e era lindo. Fábio só tinha um problema. Seu nome era Larissa e ela roubava fotos de um garoto mais velho para fingir que gostava de mim. Até pouco tempo, achei que esse tivesse sido meu primeiro amor. Bizarro. Sofria por  ter tido um primeiro amor tão ferrado. Não melhorei muito ao me lembrar de Guilherme, já que eu podia ter sido muito mais feliz se tivesse lhe dado uma chance. Assim como se eu tivesse confessado gostar do Leozinho o mesmo tanto que ele gostava de mim na primeira série. E se eu não tivesse jogado a carta do João Pedro fora na frente de todo mundo na colônia de férias. Logo eu que era fã dos casais de Chiquititas, fugi de todas as minhas possíveis histórias de amor na infância.

Fugi até conhecer o Lipe, que de tanto xingar as minhas amigas, eu troquei pelo Pinico. Que de tanto ser galinha, jurei nunca mais gostar de ninguém. Até que eu conheci o Pedrinho. Uma gracinha. Mas gostava mais do fato de eu gostar dele do que gostava de mim. Terminei. Terminei e comecei a beber todos os finais de semana. Muito. Ligava para ele chorando, acordava morrendo de vergonha. Vomitei no pé do meu coordenador na festa junina – cachaça pura – e liguei para o Pedrinho para falar, pela última vez, que eu o amava muito. Eu tinha só dezessete anos e achei que tivesse vivido todas as minhas decepções amorosas. Eu achava apavorante ter vivido todas as minhas decepções amorosas aos 17 anos. Eu achava que era vingança da vida por eu não ter dado chance a paixão antes dos 12. Eu nunca mais me deixei decepcionar nesse quesito. Eu nunca mais me apaixonei. Já fazem cinco anos. Talvez seja esse o meu destino. Viver das paixões que me estraçalharam e das que quase foram. Talvez.  O fato é que que eu adoro comer pipoca sozinha no cinema. E adoro conhecer gente nova, dançar esquisito na balada, sair só com as minhas amigas. E tenho pavor de levar acompanhante para aniversário. Mas aí escuto Los Hermanos e derivados e  acho que tenho passado os últimos  anos me enganando. Talvez eu ainda queira que essa coisa de amor aconteça na minha vida.

Tomar café sempre salva meu dia

Ficar enfurnada dentro de casa não me faz bem. Um monte de pensamentos não concretizados passam pela minha cabeça e eu fico totalmente baixo astral. O emprego que não tenho, a viagem que não fiz, o familiar que não quero, o ano inteiro que ainda não terminou. Tudo condensa e vira angústia dentro de mim. Sou a rainha da angústia em tardes de segunda-feira. Pior se for uma terça depois de passar o final de semana e a segunda em casa pós-operada. Pior se for uma terça depois de um semestre inteiro com tardes passadas dentro de casa. Ontem foi essa terça. Batata. Fiquei mal. Pensei em um pouco de tudo sem perceber e fiquei triste pra danar. Chegou a hora de ir ao médico e ele me falou que eu devia sair para lanchar. Estava com a cara pálida demais. Tontinha da silva. Aproveitei e convidei minha mãe para um café. Desde então, sou outra pessoa. Falei mais, agi mais, criei mais e até consegui escrever. Passei três dias encarando o Write Space do Google Chrome e finalmente cá estou pondo tudo para fora. Ou pelo menos um pouquinho de tudo. Graças ao café. Glorioso café. Sempre salvando o meu dia. São quase três da manhã de quarta e eu ainda estou sorrindo.

Recado para mim mesma: lembrar de tomar café sempre ao acordar.

Analista de moi

analista

Minha terapia começa no momento exato em que constato que estou precisando ir à terapia – daí em diante, converso comigo sem parar; deito e [não] durmo na minha cama-divã.

Dois anos e meio de encontros quinzenais com a Cláudia me ensinaram, acima de tudo, a ser analista de mim. Viver passou a ser metalinguístico: enquanto vivo – protagonista da biografia que se auto gera e gere – me penso, me interpreto, me leio, me narro. Me rio, na maioria das vezes. Olho de fora cada absurdo que me dança por dentro – e acho incríveis as inventividades das quais sou capaz.

Ser meu próprio Truman me liberta e me enlaça, me confunde e me clareia. É uma janela pintada de quadros que sou, mesmo que logo deixe de ser. Mas não sei se é o vidro ou a vista que embaça e a imagem continua embaralhada; qualquer eventual nitidez no desenho não impede meus borrões, minhas trocas de cores, meu arco íris ao contrário, meu dadaísmo sem fim.

É divertido, não nego – mas enlouquecer deve ser parecido.

Eu e o rosa

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Aos 3 anos de idade, eu adorava ficar vestida com minha fantasia de bailarina. Tutu, sapatilhas, meia calça e colan. Todos da cor rosa. Só parei quando minha mãe cedeu à pressão e aceitou me colocar nas aulas de balé – lá o traje era verde.

O tema do meu aniversário de 6 anos foi Barbie. Minha roupa era rosa choque, assim como os balões e o resto da decoração. Eu adorei. Estava vestida com a roupa mais linda do mundo. Tão rosa quanto às das Barbies que enfeitavam a mesa de doces.

Um tempo depois, fiquei com antipatia ao perceber que rosa era cor de menininha. E se eu quisesse gostar de azul? E se eu quisesse gostar de qualquer outra cor? Para brincar de Power Rangers, só me deixavam escolher entre duas opções: ser a amarela ou a rosa. Escolhia sempre a amarela.

Meu desprezo pelo rosa era tão grande que uma amiga embalou um ovo de páscoa em celofane rosa e me deu de amigo doce só para provocar. Eu tinha treze anos e achei graça. As nossas amigas também. O chocolate estava delicioso, mas a embalagem foi rapidinho para o lixo.

Passei um tempão rejeitando a cor, até que vi em um brechó um vestido maravilhoso de cetim rosa. Era a roupa mais linda do mundo. Comprei para usar no meu jantar de quinze anos. No meu baile de formatura do ensino médio, fui com um vestido no mesmo tom. Aos 22 anos, pintei um coração rosa choque na parede do meu quarto. Eu ainda tenho 22, não faço mais balé, mas a cor da minha bandagem na aula de boxe é rosa. A cor mais bonita do mundo.