Ainda é tempo de ser feliz em 2016?

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Eu não gostei de 2016. Este, definitivamente, não foi um ano de alegrias. Além das desgraças e más notícias que dominaram o mundo, minha vida também não teve um saldo muito positivo. Posso dizer, com todas as letras, que não vou sentir a menor saudade quando ele acabar.

Veja, enquanto resmungo, tenho plena consciência dos meus privilégios e que milhares de pessoas achariam um ano repleto de brigadeiro e maratonas de séries o paraíso. Sei que levo uma vida boa e sou muito grata por isso – todos os dias. Porém, a verdade é que eu não fui feliz.

Calma, não é o caso de se preocupar comigo. Eu estou bem. Eu só não estou feliz. É claro que ocorreram momentos de alegria e satisfação, mas as noites indo dormir com lágrimas nos olhos foram maioria absoluta em relação àquelas em que pus a cabeça no travesseiro com um leve sorriso no rosto.

A maior conquista deste ano – que seria o ponto mais positivo de todos mesmo se 2016 tivesse sido incrível – foi ter realizado um sonho de adolescência: comecei a trabalhar em uma revista feminina. E não em uma revista feminina qualquer, mas na maior do país. Essa é uma vitória que vale por várias boas notícias. Eu sei. No entanto, além das pessoas queridas que conheci, ela foi a minha única razão concreta de felicidade.

Passei a metade do ano sufocada em um relacionamento que mais parecia um aquário repleto de água e completamente vedado. Perdi a fome pela primeira vez na vida, achei que talvez estivesse ficando louca, e não fui forte o suficiente para me desprender disso. Precisou que ele partisse para outra e desaparecesse para que eu conseguisse seguir em frente.

No meio disso, o projeto ao qual eu dediquei cada gota de energia do meu corpo em 2015 chegou ao fim. Sem feedback, sem justificativa. Precisei me despedir sem saber o motivo e isso talvez tenha me doído mais que as ligações transtornadas do meu ex no meio da madrugada. Não. Pensando bem, definitivamente, me doeu mais. Juntou os dois e eu perdi a motivação para qualquer coisa que não fosse assistir a The Good Wife.

Quando, finalmente, eu parecia forte o suficiente para seguir em frente, nada demais aconteceu. O melhor momento do meu segundo semestre foi meu aniversário. Nisso, devo dizer, tenho muita sorte. Consegui lotar duas comemorações: uma em SP e outra em BH. Nessa hora, a gente vê o quanto de pessoas nos querem bem e isso é tudo na vida. Porém, desde então, 3 meses se passaram e nada demais aconteceu. Parece que minha vida está em stand by, o que significa que a minha maior emoção neste tempo foi assistir a 7 temporadas e um reboot de Gilmore Girls.

E eu não sou do tipo que fica sentada no sofá – apesar de passar muito tempo por lá – esperando as coisas acontecerem. Eu vou atrás. Interajo com desconhecidos, visito lugares inéditos e sei muito bem me divertir comigo mesma. Sou do tipo que caminha dançando na rua enquanto houve música, planeja os encontros da galera e sabe valorizar os pequenos instantes da vida.

Veja bem, a verdade é que, depois de um início de ano infinitamente merda, eu esperava algum tipo de compensação neste final. Alguma surpresa, algo transformador. Não sei se 2016 tem energias para esse tipo de coisa ou se gastou ela toda sendo um ano sofrido para a maioria das pessoas. Aliás, não sei se alguém realmente foi feliz neste ano. Olho ao meu redor e o que vejo são indivíduos exaustos que batalharam muito para levantar da cama ao longo dos últimos meses.

De qualquer forma, não quero que este ano seja uma grande mancha preta com dois ou três pontinhos de glitter dourado em minha vida. Eu gosto de olhar para trás e sentir saudade. Eu aprecio as vinte e quatro horas do dia. Por isso, selo aqui um acordo comigo mesma: o ano ainda tem 31 dias até acabar, dá tempo de virar o jogo. Um mês inteiro para 2016 valer a pena. São 31 oportunidades de chegar em 2017 mais inspirada. Bora aproveitar?

O meu 2016 começa agora

2016

A vida tem dessas. Depois de ondas enormes de felicidade, é preciso lidar com dolorosos períodos de descontentamento. E foi isso que me aconteceu nesse início de ano.

2015 foi um ano completamente transformador e sem nenhum traço de tédio. Eu me mudei de cidade, fiz novos amigos incríveis, enfrentei dois engrandecedores desafios profissionais, participei de eventos espetaculares e fui muito, muito feliz. Tão feliz que ignorei com facilidade as diversas pedras que iam surgindo no meu caminho. Até que a conta chegou.

A intensidade foi tanta que 2015 não terminou no dia 31 de dezembro. Durante os três primeiros meses do que vocês já chamavam de 2016, eu me encontrei em um enorme abismo de finalizações. Basicamente, fui engolida por minha própria ansiedade enquanto experienciava o termino de dois elementos de grande importância na minha vida.

Nesse tempo, precisei suportar os derradeiros meses do projeto ao qual entreguei todo o meu sangue ao longo do ano que se passou, enquanto tentava segurar minhas apreensões em relação ao meu futuro como jornalista. Ao mesmo tempo, precisei lidar com a mente complicado do meu atual ex, que não tinha coragem de me deixar partir, mas também não queria mais ficar ao meu lado.

Por mais que eu pareça forte e já tenha sobrevivido a muitos desastres emocionais, dessa vez, eu fiquei sem forças. Perdi a fome pela primeira vez na vida em janeiro, chorei durante todas as noites de fevereiro e, ao longo de março, tentei controlar as lágrimas que insistiam em saltar dos meus olhos durante o horário de trabalho.

Eu me perdi de mim. Não vou negar que dei algumas risadas sinceras nos últimos três meses, mas a enorme nuvem de desesperança que me rodeava ofuscava as boas lembranças assim que os acontecimentos empolgantes chegavam ao fim.

A minha sorte é que, na vida, longos períodos de sofrimento também costumam ser automaticamente substituídos por ondas de felicidade em abundância. E parece que esse novo mar, agora, está começando a molhar os meus pés. Enfim os resquícios de 2015 ficaram para trás. Finalmente o meu 2016 vai começar.

Pode vir, ano novo! Estou mais forte do que nunca.

Não preciso que você esteja em casa para que eu me sinta novamente ao seu lado

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Eram cinco da manhã, eu não fazia a menor ideia do que estava fazendo, mas fiz. Entrei no seu apartamento como quem entra na casa dos pais que moram em outra cidade. Em momento nenhum me senti uma intrusa. Afinal, mesmo oito meses após o fim do nosso namoro, eu ainda tinha a chave. Bastou destrancar as fechaduras e, voilá, seu universo estava de volta à minha frente.

A parede da sala continuava verde esmeralda do jeitinho que a gente pintou. Seu sofá se manteve com o mesmo tecido desgastado de sempre. Suas revistas espalhadas pela mesa de centro, aquele poster minimalista do Homem Aranha pregado perto da cozinha, seus sapatos usados amontoados no canto esquerdo à porta de entrada para não contaminar o resto do apartamento com a sujeira da rua. Tudo continuava igual.

Você não estava em casa, mas isso não me pareceu ser um problema. Tomei um copo d’água, escovei os dentes com a sua escova e me joguei na sua cama. Na cama que quase foi nossa, que praticamente tem a marca do meu corpo no lado direito do colchão por termos passado tanto tempo deitados nela. Adormeci.

Na manhã seguinte, acordei com um sorriso no rosto. Alegria de quem acorda com cheiro de café espalhado pela casa, apesar de não ter aroma algum realmente vindo da cozinha. Só aquele cheiro de sempre pairando pelo ar, aquele cheiro todo seu. Bálsamo. O meu cheiro favorito no mundo todo durante seis anos. Quer dizer, talvez ele ainda seja meu predileto até hoje. Nunca inspirei nada tão alegre.

Olhei ao meu redor, observei cada canto do seu quarto e fiquei pensando sobre nós. Não sei como passei tanto tempo sem contato com sua vida. Notícias suas sempre chegam, é claro. Acho que minha lista de amizades não se renovou muito desde o nosso término. Parece que a sua também não. Alguém sempre comenta que esteve com você “outro dia”. Só eu nunca mais vi você.

Por quê? Não entendo o motivo de estarmos tão afastados. Nós éramos deliciosamente compatíveis. Nosso fim não foi dramático. Você decidiu que precisava focar no fim da sua dissertação de mestrado. Eu decidi que não tinha mais paciência para assistir Netflix quase todas as noites do final de semana. Sentia falta do barulho das pessoas conversando no bar, de dançar até minhas pernas bambearem, de observar o dia chegando enquanto a cidade se iluminava.

Você precisava ficar mais quieto. Isso eu compreendi. Eu só não quis ficar te assistindo concentrado no computador, quando meu corpo e minha mente estavam cheios de energias ansiosas para serem dispersas pelo mundo. Eu precisava vivenciar esse meu momento. Você precisava se focar no seu. Decidimos que o jeito mais tranquilo disso não nos desgastar era pararmos de nos ver. E paramos.

Sua dissertação foi um sucesso, ouvi dizer. Parabéns. Muitos parabéns! Não mandei recado, presente ou mensagem, porque, assim que fiquei sabendo, minha vontade foi de vir correndo até seu apartamento. Quis te encher de beijos, dizer “eu sabia!”, chorar de felicidade, te abraçar tão apertado, mas tão apertado, que eu nunca mais ia querer soltar. Então não vim.

Guardei minhas vontades de um jeito que não fui capaz de armazenar os desejos que senti 5 meses antes, quando te deixei ali, parado em frente à porta aberta desse apartamento, me olhando como se nunca mais fosse me ver, mas com um semblante de quem preferia me contemplar sempre quando quisesse. Quase o tempo todo, como sempre foi. Saí, não olhei para trás. Porém, essa imagem nunca saiu da minha cabeça.

Enfim, cá estou, às 14 horas e quarenta e três minutos, do domingo de hoje, escrevendo esta carta de dentro da sua cozinha enquanto tomo uma caneca de café com um pouquinho de leite. (A propósito, estou usando aquela azul com desenhos de nuvens que sempre me encantou por sua imensidão)

Não sei onde você está, com quem passou a noite e quais atividades você normalmente tem feito aos domingos à tarde. Isso não importa. O que eu sei é que a porta se manteve aberta para mim. Você não trocou a fechadura e seu apartamento continua tendo cara de nosso — o meu também não perdeu muito esse aspecto. Talvez as coisas entre nós nunca mais sejam como foram, talvez elas nunca tenham deixado de ser.

Eu continuo a mesma menina que gosta de ler com a perna enroscada na sua, aprecia flores encontradas na calçada e sente saudades de morar em Madrid. Pelo que comentam sem prestar muita atenção na minha presença, você não abandonou o hábito de preparar, todas as sextas-feiras, café da manhã para o porteiro, e continua adorando comprar CDs dos seus artistas favoritos, mesmo não tendo aparelho para reproduzi-los.

Até onde eu sei, são grandes as chances de que a gente continue sendo inebriante compatíveis. Seria perfeito se você me desse a chance de conferir se isso é verdade. A chave do meu apartamento você ainda tem, notei que continua dependurada no mesmo lugar na sala, então é só aparecer por lá quando der na telha. Caso sinta vontade.

Estarei involuntariamente te esperando.

Perdi o medo do futuro

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Hoje, enquanto caminhava para o supermercado, fui criticando as calçadas da cidade de São Paulo e percebi, que apesar delas serem tortas, quebradas, terríveis e terem me feito passar uma semana de muletas após torcer o pé, eu estou perdidamente apaixonada por minha vida nesta cidade. Posso, inclusive, afirmar que tenho sido extremamente feliz.

Desse pensamento, parti para outro. Essa “minha vida neste cidade”, atualmente, se resume a procurar um apê fixo – está tudo incrivelmente caro ou insanamente pequeno – e um emprego, já que meu curso na Abril acabou e eu ainda não tenho um novo destino. Ou seja, o cenário atual da minha vida não parece nada promissor.

O fato é que, apesar dos pesares, pela primeira vez na vida, eu não estou com medo. Percebi isso, ainda ali, entre as calçadas desreguladas e mal cuidadas da minha nada barata atual vizinhança. Aquele sentimento desesperador de que tudo vai dar errado, não me acompanha mais. Finalmente, eu estou tranquila quanto ao meu futuro. Ufa!

Quando eu estava entrando na pré-adolescência, minha mãe me mudou de colégio e eu tive a certeza de que aquele era o fim da minha vida. Sai do meu conforto, do dia a dia com meus amigos de anos, do lugar onde eu conhecida todo mundo e tirava total em todas as provas, para a escola com mais playboy por metro quadrado de Belo Horizonte.

Na nova escola, eu acabei fazendo amigos, mesmo sem querer. Muitos amigos. No entanto, passei três anos com medo das provas de matemática e mais três tendo pesadelos com os exames de física. Foram seis anos sofrendo a cada semestre, a cada nota abaixo da média, a cada vez que meus pais precisavam assinar meus boletins.

Chegado o terceiro ano do Ensino Médio, veio o terrível vestibular. Foi uma época pavorosa. Engordei 8kg de tanta ansiedade. Ja que eu tinha me decido por um curso que não agradava o meu pai, o mínimo que eu precisava fazer era entrar na faculdade que ele queria, a UFMG. A minha vida podia não ter acabado quando me mudaram de escola, mas, dessa vez, ela chegaria ao fim caso meu nome não aparecesse entre os selecionados, de 2010, da Federal.

Eu imaginava o quanto meu pai ficaria decepcionado caso eu não conseguisse. Não ia pagar uma faculdade particular, não ia me dar mais um tostão que não fosse para o cursinho. Adeus cinema, adeus amigos, adeus reparos no computador. E, mesmo se ele pagasse, como eu poderia aceitar qualquer dinheiro vindo dele depois de desaponta-lo tanto? No fim, deu tudo certo, e nós nunca vamos saber se esse meu drama tinha fundamento.

Como as aulas de jornalismo só começavam em agosto, terminada a escola, passei um semestre tentando tirar carteira de motorista. Foram quatro tentativas. Mandei bem na primeira vez, e não passei. Nas outras três, deixei o medo me dominar e dirigi chacoalhando mais que o bumbum da Carla Perez durante os anos 1990. Eu não sabia dirigir, eu estava jogando fora o dinheiro do meu pai, eu era um desastre. Eu passei.

À essa altura, eu já tinha entrado na faculdade. Nesse tempo, tive medo de não conseguir ir de intercâmbio, medo de não decidir qual área do jornalismo eu queria seguir, medo de me apaixonar e jamais conseguir curar meu coração depois de mais uma decepção, medo de nunca mais me apaixonar, medo de não conseguir estágio, medo de me afastar dos meus amigos da escola até parar de ter notícias deles, medo de pedir dinheiro para o meu pai. Medo de tudo, muito medo. Sobrevivi. Quase tudo deu certo, e o que não deu, deu certo também.

No fim da faculdade, tive medo de não conseguir emprego. Conseguido o emprego, tive medo de não entrar no Curso Abril. Terminado o Curso Abril, já não tenho mais medo de nada. A vida jamais esteve tão boa. O futuro nunca me pareceu tão incrível, mesmo ainda não tendo forma. Estou mais segura do que nunca. Segura das minhas decisões, segura de que vou conseguir tudo o que eu quero. E, se não for assim, eu descubro outro querer. Eu encontro outros caminhos. Só sei que, de São Paulo, ninguém me tira. Só se for para ir mais longe.

Mixtape #20 – Juventude

Gratidão pelo agora !

01- Letters To Cleo – I Want You To Want Me | 02-  Elton Jhon – Tiny Dancer | 03- Banda do Mar – Muitos Chocolates | 04- Cat Stevens – If You Want To Sing Out Sing Out | 05- Regina Spektor – Small Town Moon | 06- Barão Vermelho – Pro Dia Nascer Feliz | 07-  Caetano Veloso – Tropicália | 08- David Bowie – Modern Love | 09- Nina Simone – Ain’t Got No, I Got Life | 10- Tim Maia – Sossego

Esse bairro precisa ser curado

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Eu cresci em um bairro que parecia cidade do interior. Eram poucos os carros nas ruas, a gente se escondia em lote vago no pique esconde e os vizinhos sempre compravam nossas bijus de miçanga quando batíamos em suas portas. Não tinha perigo, era tudo muito tranquilo. Tão tranquilo que nossa criatividade era o que agitava os domingos. Cestas de lixo viravam cestas de basquete, materiais de construção abandonados viravam marcas para quadra de queimada e minha mãe sempre precisava limpar meu joelho sangrando no fim da tarde. Era uma delícia!

Eu cresci. O meu bairro também. Hoje, Range Rovers disputam o asfalto com corredores de fim de tarde que não dão seta, comerciantes vendem o açaí mais caro da cidade e meu pai não gosta mais que eu caminhe pelas ruas sozinha. Não é seguro. Os assaltos e sequestros cresceram junto com os prédios que se instalaram por aqui desde o início do milênio. Não tem mais pique esconde, não sei mais quem são meus vizinhos. Tudo tem sido muito estranho por essas esquinas.

Sonho que esse seja apenas um momento de transição. As ruas desse lugar precisam voltar a falar. Depressa! Se não mais pela risada das crianças, que seja pela irreverência de quem quer que tenha alma. Os verdureiros por aqui não gritam, as tags nas paredes não se fixam, os garis não cantam quando passam. Que gritem, que pichem, que cantem! Que se esculhambe! E que os skatistas nunca nos abandonem. Quem sabe assim, mesmo sem perder o cheiro de talco e whisky, esse bairro volte a pulsar e eu possa voltar a caminhar por ele em paz.

Reencontro

reencontro

Fazia dois anos que eles não se viam. Dois anos. Dois anos parece pouco tempo quando não é com a gente. Quando é, dizem, parece uma eternidade. Os primeiros meses não seguem a diante e, nos seguintes, a demora do reencontro dá lugar à uma ausência sempre presente. Até que, sem perceber, somos libertados dessa ausência e a vida segue. Segue solta, com cara de oportunidades. Pelo menos foi assim com Clarice e Matheus.

Assim até o dia que se reencontraram. Inesperadamente, na festa de aniversário de um amigo do Matheus que namorava a prima de Clarice. Eles não sabiam dessa coincidência até coincidentemente terem aparecido sábado, 18 de outubro, às 17h, na casa de Alessandro. Alessandro, amigo de Matheus há 8 meses e namorado de Renata, prima de Clarice, há 5. Renata não sabia da amizade, Alessandro não sabia do romance, mas essa história é sobre Clarice e Matheus que não se viam há dois anos e se reencontraram por acaso na entrada do banheiro de uma festa de aniversário.

A última vez que tinham se visto foi para se despedirem. Depois de 7 meses dividindo o sofá em noites de chuva, viajando para festivais de cinema e experimentando a maior quantidade de petit gateau já experimentada na história dos amantes de petit gateau, Clarice foi morar com a mãe em Nova York. Por mais que precisasse do Matheus, ela precisava mais de um emprego. E a verdade é que ela nem tinha consciência dessa necessidade afetiva&espiritual até ver ele saindo pela porta de seu apartamento depois de passarem uma tarde quarta-feira se despedindo. Na quinta embarcou para a cidade que nunca dorme, onde ficou por um ano e oito meses até ser transferida de volta para sua cidade natal. Ao voltar, pensou em Matheus, mas seria muita loucura se ele ainda pensasse nela, nem que fosse de vez em quando como ela ainda pensava nele. Muita loucura depois de muito tempo distantes, então Clarice não o avisou que estava voltando para o apartamento de porta azul e cheiro de canela.

Na quinta-feira depois da despedida, Matheus comeu o petit gateau favorito de Clarice sozinho, na sexta à noite choveu e seu sofá vazio fez a saudade aumentar. Dois anos depois, ainda pensava, mesmo que de vez em quando, como seria se Clarice tivesse ficado, ou como seria se ele também tivesse partido. Pensava rápido e sem autorização dele mesmo, pois sabia que “e ses” não mudam nada, nem fazem feliz. Já não tinha vontade de saber sobre a vida dela, há mais de um ano não conversavam por Facebook, também tinha parado de seguir as atualizações da ex-namorada, mas, uma vez ou outra, sentia sua falta.

Dois anos depois. 18 de outubro. Aniversário do Alessandro. Se reencontraram. Na entrada do banheiro. Clarice tinha deixado o cabelo crescer, Matheus já não usava mais a barba. Ela parecia mais magra, ele parecia mais bronzeado. As alturas continuavam as mesmas, no tamanho exato para se encaixarem. E como queriam se encaixar. E como se desejaram naquele momento. Como se o desejo pouco desejado dos últimos meses tivesse virado um desejo enorme, um desejo só. Clarice ficou sem fala, Matheus sem ação. Respiraram fundo.

“Quanto tempo!”
“Como você está?”
“Não sabia que você estava no Brasil”
“Pois é, fazem quatro meses que fui transferida”
“Hmm…”
“É…”
“Bem, bem vinda de volta”
“Obrigada”
.
.
.
.
.
“Err… Preciso ir ao banheiro, depois conversamos”
“Tá, tá bom…”

Clarice desistiu de ir ao banheiro, Matheus ficou por lá um tempo ajeitando as ideias. Ao longo da festa, trocaram olhares desviados e quase-sorrissos, mas nenhum abraço. Voltaram para casa com uma ausência maior que a da despedida. Clarice quis chorar, Matheus quis telefonar. Respiraram fundo.

Nunca mais vai ter Copa?

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Copa do Mundo FIFA 2006. Não lembro o dia, nem contra quem o Brasil jogaria, mas lembro que Belo Horizonte se pintou de verde e amarelo. Se pintou em apitos, buzinas, bandeiras, abraços, sorrisos, camisetas e bastante tinta (no rosto, no cabelo, nas ruas). A Av. do Contorno praticamente parada, mas em festa. Logo mais, a seleção brasileira ia entrar em campo. Isso deixava todos enlouquecidamente felizes. Todos, menos um.

Enquanto a cidade sorria, um carro preto parou, por alguns minutos, ao lado do meu. Dentro dele, um rapaz de vinte e poucos anos com a cara amarrada usava óculos escuros e roupa preta. Com o som alto, ele escutava uma música nada festiva, que escapava por seu vidro fechado. Não precisei observar por muito tempo para concluir: ele devia ser a única pessoa infeliz naquela tarde ensolarada. Dentre tanto verde e amarelo (e um pouco de azul), uma gota de preto. Uma gota solitária que nunca saiu da minha cabeça. Como ele podia estar infeliz? Era dia de jogo do Brasil na Copa do Mundo! Era dia de comemorar.

30 de outubro de 2007. Brasil é ratificado pela FIFA como país-sede da Copa do Mundo 2014. Que alegria! Eu e minha mãe pulamos abraçadas, meus vizinhos gritaram pelas janelas – muitas vezes, muito alto – “ÉEEE DO BRASIIIL, PORRA!”, meu pai chegou do trabalho mais sorridente do que de costume, eu imaginei o quanto seríamos felizes em 2014 e me perguntei onde será que o rapaz de preto iria se esconder dessa vez.

Janeiro de 2010. Fui aprovada no vestibular de Comunicação Social da UFMG. Eu só pensava no quanto eu era sortuda. Ia me formar em jornalismo logo antes da Copa do Mundo. Da Copa do Mundo em meu país. Quantas vezes sonhei em um dia ir aos jogos logo ali no Mineirão, comemorar todas as partidas de todos os países, e receber os gringos com muito pão de queijo e um bocado de boa vontade. A vista era melhor do que eu imaginara. Eu ia participar da festa de dentro. Eu ia colaborar para que o mundo recebesse as informações do nosso Carnaval fora de época. Eu e todos os meus colegas teríamos emprego para começar nossas carreiras pós-faculdade. Começaríamos em plena Copa do Mundo no país do futebol. Que maravilha! Trabalhar e celebrar, tudo ao mesmo tempo.

2014. Não sei mais aplaudir esse espetáculo. Receber a FIFA em casa tem sido assustador. Um vizinho que chega botando banca, impondo as suas regras, gastando nosso dinheiro suado guardado no potinho, e ainda acha ruim. O pior disso tudo: a gente sabia que ele era assim e implorou por sua visita. Prometemos mundos e fundos e imaginamos que esse esforço seria recompensado. Esse devia ser o empurrão que faltava para o Brasil ir para a frente.

“A FIFA está chegando e está trazendo o resto do mundo para nos visitar, chega de enrolação, vamos por em prática o que já devia ter sido feito e, de quebra, arranjar emprego para grande parte da nossa população”. Que ilusão! Não compreendo se nos faltou competência ou se foi má vontade. O fato é que o pouco que mudou, ao meu ver, mudou para pior. Tem aeroporto quebrado até hoje, a três semanas da Copa. Imagino que o rapaz de preto já sabia disso tudo, há muito tempo, antes do Brasil ser eleito.

Copa do Mundo FIFA 2014. Onde estarei? Provavelmente cobrindo as manifestações contra a FIFA, enquanto minha família, meus amigos, meus vizinhos, e o mundo inteiro se abraça e grita “GOOOOOOOOOL”. Estarei exercendo minha profissão sem receber um centavo por isso, mas ciente de que é ali que precisam de mim, dando voz ao outro grito do povo. Um grito que tentarão a todo custo calar para não assustar as visitas. Um grito ao qual eu não dava tanta atenção há quatro anos atrás, mas que, como jornalista recém-formada, percebo ser meu papel ajudar a ecoar.

Ciente e orgulhosa dos meus deveres como jornalista e como cidadã brasileira, uma lágrima escorre no meu peito da mesma forma que aquele carro preto tentava atravessar a Av. do Contorno em 2006. Será que rompi com a FIFA de vez? Será que nunca mais comemorarei um gol da seleção brasileira? Eu gosto de futebol. Eu amo o meu país. Eu adoro comemorar. Será que essas três paixões, algum dia, se encontrarão novamente – e confortavelmente – em meu peito? Espero um dia ter razões para que, sim, os jogos da seleção brasileira voltem a ser motivo de celebração e orgulho. No país, no mundo e em mim.