Mais um que não era para ser

Eu já tinha entrado em estado de inércia da solidão. Ninguém interessante que a presença durasse mais que cinco minutos partilhando o mesmo vagão no metrô, ninguém que me achasse interessante. Chega uma hora que a gente fala “chega! Cansei de esperar”, pára e não espera mais. Por mais que os olhos insistam em percorrer as ruas à procura do rapaz de cabelos bonitos que um dia vai mudar a nossa vida, a gente pára de esperar. Aí você apareceu.

Não que seu cabelo seja bonito, ou que a gente tenha o mesmo gosto para música, mas eu gostei de você assim que você deu o primeiro sorriso. É que sorrisos sempre foram o meu ponto fraco… Então eu decidi que ia te fazer sorrir o máximo que eu pudesse só para ver se assim eu afastava a solidão! Não precisei de muito esforço, você parecia gostar de qualquer bobagem que eu falasse, ou de qualquer traço do meu ‘destrambelho’ que eu expressasse.

Melhor que ver você sorrir, era ver a janelinha do Facebook subir com você dizendo alguma coisa bem boba só para puxar conversa. Às vezes era eu quem surgia com qualquer frase nada a ver e você dava corda para a minha falta de assunto. E eu no alto dos meus poucos vinte anos me sentia como se tivesse dezessete novamente. Como uma mulher de quarenta anos recém divorciada que redescobre o amor e diz estar se sentindo ‘uma menina’.

Até que tudo parou. Não fui eu, nem você, as coisas simplesmente deixaram de ser como estavam sendo. Não vou mais ao pátio durante os intervalos só para te ver e quando a gente se encontra é sempre constrangedor. Não sei de onde surgiu essa sensação que antes eu só sentia com meus ex namorados. Olhar de canto de olho e nenhuma palavra a mais para se trocar. Não sei o que aconteceu com a gente, mesmo porque nunca chegamos a ser ‘nós’. Tudo mudou sem razão. Um breve não romance de verão.

Cadê o amor que estava aqui?

Cadê o amor que estava aqui? Deixou vento como lembrança. Vento frio que tirou aquele calor que há tanto tempo me habitava. Foi-se embora o amor e ficou esse nada que não nos pertence. Cadê o amor? Se foi. Nem disse tchau, nem deixou bilhete. Foi embora para nunca mais voltar e nos deixou com cara de tacho sem saber o que dizer ao outro. “Foi bom, obrigada”, “a gente se vê por aí”. Não. Não há nada a se dizer quando o amor se vai. O amor se vai e fica esse silêncio entre duas almas que antes eram uma só. Silêncio e saudade. Saudade desse amor que já foi enorme e hoje não é mais nada. Ou nada é.
 
Por mim, eu te amava mais um bocado de anos. Um bocadão bem enorme de anos quentinhos, de tardes na cozinha e de conversas baixinhas no telefone. Ah! Eu poderia te amar mais uma eternidade se esse amor quisesse estado ficar! Mas não quis. Se foi e nem pediu licença. Nem licença, nem desculpa. Achei meio falta de respeito, mas o que se pode cobrar de algo que já te deu parte das maiores alegrias do mundo? O que se pode cobrar disso que veio de graça, te fez completa e não pediu nada em troca? Um pouco mais de tempo juntinho talvez. Talvez. Mas não dessa vez.
 
Não tem amor, não tem mais nós dois. Não adianta insistir em ficar junto se esse junto já não é suficiente para nos manter aquecidos. Ficar junto por gratidão ao tempo que se passou é o pior jeito de menosprezar a grandeza que esse sentimento nos foi. Tudo um dia chega ao fim. Sem chororô, sem mal entendido. No máximo algumas ligações acolizadas na madrugada. Prometo falar baixinho, não fazer escarcéu.  Só morrer de saudades…  

Por pura ignorância

Quando eu disse para você sumir na minha vida eu não disse literalmente. Só queria um pouco de espaço para aliviar essa minha cabeça confusa e desacostumada a amar. Não fui criada para esse sentimento, sempre me vi sozinha. Aí você aparece me embrulhando de um jeito que eu não sabia que era possível. Você me tomou de primeira sem que eu percebesse que já não seria mais possível viver sem você.
 
Isso de depender tanto de alguém nunca fez muito sentido na minha cabeça. Como uma pessoa pode depender de outra para ser a feliz? A felicidade está é na gente, não nos outros. Mal sabia eu que é praticamente impossível encontrar a felicidade dentro da gente quando alguém pega um pedaço nosso sem nem pedir licença e muda todos os nossos sentimentos. Mal sabia eu que era possível sentir  diferente! E você apareceu com tudo isso de uma vez só.
 
Perdida dentro de mim por não mais me reconhecer, tudo o que eu precisava era me afastar de você. Aliás, afastar seria a solução perfeita! Seria se isso fosse apenas uma alergia ou alguém me cutucando.  Mas isso era aquilo que não passa quando o motivo já não está mais por perto. Isso é aquilo que piora a medida que o motivo se afasta. Isso é aquilo que nos faz querer ser um só de  tão junto que se quer estar. E isso de dois serem um só é muita loucura para uma menina que sempre foi um só sozinha e nunca imaginou que um mais um podia ser um.
 
Desculpa pela maneira como eu agi, desculpa por me trancar. Ninguém nunca me disse que sentimentos as vezes precisam ser expostos para que a cabeça tenha espaço para os pensamentos que chegam. Eu sempre pensei só para mim, senti só para mim e isso me era suficiente. Não é mais. Preciso de você. Volta. 

Não tem para você

Vai ver que é meu destino e apenas isso. Não que isso seja uma coisa ruim, é apenas destino. Cada um tem sua história, cada um tem seus segredos, e até aquela sua tia velha mais conhecida como solitária um dia sonhou em encontrar o amor. Não que as pessoas se conformem, elas apenas se acostumam  quando os anos passam e ninguém aparece. Vai ver eu sou uma dessas pessoas que só veem o amor nos filmes, nos olhos dos outros e em uma janelinha do passado. Vai ver que esse tál de amor não é para mim. Poderia ser, mas não é.
 
É que a vida apronta para a gente o que ela está afim de aprontar e, tem vezes, que ela não está afim de aprontar nada. A vida é que escolhe o que ela faz da gente, enquanto a gente insiste em tentar fazer da vida várias coisas. Não adianta acreditar que um dia alguém aparecerá, não tem esse papo de ‘quando menos se espera’, é que alguns pés cansados não nasceram para encontrar seu chinelo velho. Ou chinelos. Enquanto alguns tem coleções de tampas da panela, metades da laranja, outros tem um chinelinho miúdo que nem entra no pé mais. Alguns nem chinelo tem.
 
O que eu tenho são só memórias de uma menina menor de idade, memórias que agora se juntam às fantasias de uma quase adulta que percebeu que o amor não é para seu bico. Nem mais os quase amores querem fazer parte da minha história e tudo que eu tenho são desesperanças. Quer dizer, eu até tenho algumas esperanças. Esperança de amor para o mundo, esperança no amor que eu vejo viver nos outros, mas a esperança de um amor que chega foi-se embora com o frio da solidão.

Quando só restam as fotos

Tem gente que está há um tempão em nossas vidas e não passa de boa companhia, mas você conseguiu ir além e virar uma das pessoas mais importantes da minha vida. Não sei em que esquina essa mudança ocorreu, mas chegou uma hora que eu simplesmente desaprendi a viver sem você. Desaprendi a não ter meu pedaço masculino, aquele pedaço que eu nem sabia que existia, mas que se tornou bem maior do que qualquer um podia imaginar.
 
Esse tipo de amizade que aparece em nossas vidas para suprir a carência, para dar as mãos, para convidar para o cinema e ter quem nos faça cafuné. Esse tipo de amizade que ninguém acredita que é real, nem mesmo a gente, mas que basta enquanto a solidão insiste em nos pegar pela cabeça e tudo que a gente quer é ter alguém para dançar juntinho. Esse tipo de amizade que dura pouco, mas parece que vai durar para sempre.  Foi esse o significado desse meu pedaço que eu já nem tenho mais.
 
E dói perder um pedaço nosso. Dói na primeira vez, dói na segunda e vai doer sempre. É que depois que o pedaço vai embora, sobra aquele vazio, só o vazio. Então logo o vazio é preenchido pela carência e a saudade do amigo que se foi vira só lembrança. Vira lembrança que nem aquela amizade que parecia ser eterna,  e durou apenas o espaço de tempo necessário para um dos dois ter aquele seu vácuo encarregado de  realizar as maiores alegrias preenchido.
 
E é disso que é feita a vida, das pessoas que chegam e que partem. A vida é feita de ciclos, alguns eternos, alguns que se completam. A vida é assim e pronto! Não adianta tentar agarrar tudo que a gente ama pelos dedos, as pessoas simplesmente se vão do mesmo jeito que chegam  e o que nos resta é aceitar. É aceitar e olhar as fotos de um tempo que foi bom, mas que não volta nunca mais.

Sumiu de mim e eu virei chata

E eu que esqueci como é estar apaixonada? Logo eu que fico aqui fingindo que ainda sinto aquilo que eu tanto senti. Esqueci.

O nome das sensações eu já decorei. Pernas bambas, coração disparado, vazio no estômago e uma dor interna que não adianta passar pomada. Aquilo que o ombro sente e parece que vai sair voando. Aquele tanto de pensamento que não sai da sua cabeça: o que dizer, o que foi dito, o que será que ele está fazendo. Aquele turbilhão de coisas que eu nunca me cansei de sentir, mas sumiu de mim faz tempo.

Apenas dezenove anos e o máximo que eu sinto próximo daquela coisa maluca que é estar apaixonada é vontade de cantar bem alto quando a música fala de amor. E não é que eu estou achando ruim, só me deu certo medo de ficar tanto tempo sem sentir tudo isso que eu acabe esquecendo até os nomes das sensações. Mas, dizem minhas amigas, que isso a gente não esquece não. Quando acontece, vem tudo direitinho, do mesmo jeito que acontece com todo mundo e, mesmo assim, parece que é o sentimento mais único do mundo.

Aí veio uma amiga e me disse: “ah, eu tenho vergonha de contar a coisas para você, eu fico me sentindo meio boba”. E eu percebi que eu virei um tipo de menina que eu nunca fui. Percebi que eu estou um saco! Eu nunca boto fé nas relações quando alguém vem me contar de algum ficante novo. Por mais que eu dê um conselho em prol da relação, a minha cabeça fica martelando “espero que ela não se decepcione, aposto que vai dar tudo errado”. Se o cara faz alguma sacanagem eu acho mais do que normal e tudo de bonitinho que acontece eu acho que faz parte do plano do menino de deixar a menina louquinha de paixão e depois sair vazado. Principalmente comigo, eu só tenho ficado com meninos que não tem chance nenhuma de continuar. Parece que faço de propósito para não ter que ficar arranjando desculpas depois pelas atitudes dos caras. Ah nem! Eu não era assim não. Já que não é para me apaixonar por agora, e nem precisa ser, eu podia pelo menos voltar a ser mais ingênua!

Medo

Eu tenho vontade, desde não sei quando, de me apaixonar em queda livre. Talvez seja por ter crescido assistindo filmes, ou por ser ligada demais à música. Talvez seja porque alguém, um dia, me disse que amor existe e eu acreditei. Ou talvez seja, simplesmente, por eu achar, essa coisa de amar e ser amada, bonita demais!

Não sei de onde veio a vontade, mas estou vendo ela longe de ser suprida. É que eu resolvi perder a crença nos homens cedo demais. Sempre tive um pé atrás e começava tudo por diversão, mas quando o pé de trás resolvia ficar junto do pé da frente, assim virando um pé do lado do outro, bem no meio do caminho, quando eu tava quase lá, eu tropeçava e torcia o pé feio! O pé não. Torcia o coração, quer dizer, que de tanto ser torcido, tadinho, secou.

Agora, com esse coração seco, como se faz para acreditar em palavra de rapaz? Alguém me diz, alguém me ensina! É que deu vontade de cair de cara, de torcer, além do coração, o pulmão, o estômago e um tantinho do intestino. Estou topando sair toda machucada só para reviver o gostinho de ficar apaixonada. Mas fala isso para o meu coração, fala! Vê se ele te escuta, estou cansada de ficar ouvindo ele reclamar de solidão e sumir à primira chance de encontrar companhia.

Não acredito quando um cara me elogia, não acredito mais nem em minha intuição de “ele está afim de você”. Meu sexto sentido virou, para mim, alarme falso. Não pode acender que eu já acho que é pane, dou uns tapas e falo “xii, fica quieto, ele só quer brincar com a sua cara”. E tem vez que eu deixo o cara brincar com a minha cara. Só para passar o tempo, só para eu brincar um pouquinho também. Mas vai falar para o amor vir brincar junto com a gente, ele não manda nem a paixão para dar uma espiadinha, já sai fugido sem nem querer ver quem está na minha frente.

É isso, eu estou vacinada e não sei quando vence a maldita. Estou querendo ficar contaminada e já desisti de achar que a culpa é dos rapazes de não serem letais. Eu é que sou culpada por me afastar demais. Eu é que concluí que não existe sinceridade vinda da boca de homem, não para mim, não nesta década. É tudo culpa minha que senti errado, antes da hora. E não é que tenha aparecido alguém que valesse meia peninha, quanto mais a galinha inteira, é que eu tenho medo de, quando ele aparecer, eu estar tão descrente, mas tão descrente, que eu não vá acreditar em mais nada, nem em que eu possa ser feliz.

Tipo fantasma

Não adianta tratar ela assim, ela não sou eu. Não adianta você manter os nossos programas em seu novo relacionamento e me ligar no meio da noite com uma desculpa besta. Eu não vou completar o que lhe falta com minha presença escassa, e ela muito menos, se você não souber construir algo novo e ficar apegado ao que nós tivemos. Passou, deixe que passe de vez.

Fui eu quem lhe apresentei o frozen yogurt e virou uma coisa meio que só nossa sair do cinema e ir direto para lá colocar bluberrys, morangos e mel para dividir um gigante. Eu é quem tinha mania de sentar no canto direito do cinema na antepenúltima fileira, de lhe mandar mensagem no meio da tarde e pedir para você me encontrar na Praça da Liberdade e de lhe ligar logo após o episódio novo de The Big Bang Theory. Era coisa minha, coisa nossa. E era gostoso relembrar o que a gente teve. Era gostoso saber que fiz parte de uma relação cheia de coisas pequenas que significaram muito.

Até que outro dia esbarrei com vocês dividindo um frozen yogurt com os meus toppings favoritos. Achei estranho, me incomodou. Foi como nos ver por fora. Aí me lembrei que já encontrei com vocês dois mais de uma vez na praça no horário que eu costumava lhe pedir companhia. E olha que, antes de mim, você só tinha pisado lá umas quatro vezes, mesmo morando em Belo Horizonte desde que nasceu. Lembrei-me também que mais de uma amiga minha já viu vocês dois se agarrando no nosso lugar favorito do cinema e comecei a notar que nossas idiossincrasias viraram rotina na sua vida. O que era nosso virou seu e de alguém que não tem nada a ver com a nossa história. E passei a me sentir intrusa e que roubaram uma coisa minha muita especial e estão espalhando por aí. E tudo deixou de ser especial.

Mas você insiste em me ligar quase que semanalmente, e eu passei a achar que a intrusa é ela, que nós ainda somos especiais e que o que era só nosso ainda é, a outra menina é que está meio perdida no meio disso tudo. Aí eu deixei de ter pena de mim e, por alguns minutos, tive pena dela. Isso tudo só até me lembrar que eu já lhe quis muito. Quis demais! E que você quis pensar e seguir mais ou menos sem mim. E que sofri calada e que estou recuperada. E sua voz voltou aos meus pensamentos, e eu me lembrei de você me tocando, me beijando, e me veio a imagem de você com ela, e tudo se transformou em uma tela negra e em uma angústia intensa instalada no meu peito. Eu fiquei mal. Mal porque estou sozinha, mal porque você está junto, mal porque, no fundo, você ainda me quer e porque, no fundo, eu quero mesmo é alguém diferente que não quer aparecer por nada nesse mundo.

E eu fico aqui nesse nada, só esperando qualquer coisa.

Aos amigos que entreguei meu coração

Eu sou complicada com amizades. Quer dizer, na verdade sou bem simples e resumo em uma frase minha exigência: quero meus amigos sempre por perto. Esse querer que é complicado. Não é necessário entrar em detalhes sobre como cada afastamento de amiga me fez mal. (Custei a aceitar, na verdade, ainda estou em processo. Só a dor que é menor, quase nula, mas a falta…) Crescer nos faz isso, nos apresenta novas pessoas, e, infelizmente, apresenta novas pessoas aos nossos amigos também. E é muito complicado aceitar isso. Aceitar que rumos se tornam diferentes. Eu fico pensando, mas não estava divertido seguirmos todos o mesmo rumo?

E meu ano está ótimo. Longo tempo de férias, faculdade nova, novos amigos, novas experiências… Mas sempre me vem uma angústia inexplicável. Uma angústia chata que me faz sentir meio mala. Concluí: cadê meus amigos? É isso! É essa pergunta! Ela está sempre dentro de mim, é isso que não me deixa ser feliz por completo!

Está difícil acostumar com almoços mensais, encontros em finais de semana raros e conversas por MSN. Está difícil me acostumar que só posso ter vocês de vez em quando, que não os verei, por acaso, no corredor para me dar aquele abraço demorado que eu estava acostumada a receber diariamente, várias vezes ao dia. Escovação dentária em grupo, discussão pra decidir o local do almoço, James toda sexta-feira e algum programa alternativo aos sábados. Telefonar e saber que vocês estarão disponíveis e dormir pensando: amanhã eu vejo todo mundo.

O mais difícil de acostumar com isso é o mesmo motivo que custo a deixar de gostar de ex: eu não quero! Mas preciso… Vocês fizeram novos amigos, eu fiz (maravilhosos) novos amigos, uns continuaram no cursinho, outros no terceiro ano, uns nem entraram na mesma universidade e, os que entraram, (a maioria) estuda em prédios diferentes. E isso me mata e me atormenta.

Morro de medo de vocês virarem lembrança. Morro de medo de esbarrar com vocês e falar “Nossa! Quanto tempo!” e, ao invés de lhes dizer essa frase, dizer a outros sobre vocês “éramos melhores amigos”. Não quero vocês no passado, nem esporadicamente. Não quero me acostumar com as mudanças. Não quero. Eu quero vocês. E meu medo maior é que vocês parem de me querer.