Ser adulto é dificílimo, mas não pelos motivos que eu pensava

Eu achava que a parte mais difícil de ser adulto era conseguir pagar os boletos em dia. Quem me dera! Fechar o mês do azul pode até ser complicado, mas nada é tão sofrido quanto dar conta das nossas crises emocionais por conta própria.

Tive um início de 2016 bem merda, porém o resto do ano compensou por cada lágrima de desespero. Em 2017 está rolando o contrário. O ano começou leve e, ultimamente, tem entregado só pedrada. Contudo, com um agravante: está todo mundo mal.

Outro dia uma amiga chegou lá em casa para me dar colo e, quando viu, estava chorando. “Desculpa, é que também não está fácil para mim”. Tem sido assim em qualquer encontro com as pessoas que gosto.

Um refletindo sobre pedir demissão, a outra infeliz no namoro, um infeliz no namoro e pensando em pedir demissão. Isso fora quem levou um pé na bunda, começou a ter crises de pânico ou está pensando em voltar para a cidade natal.

Confesso que não me lembro da última vez em que passei uma semana inteira feliz. Choro no banho, antes de dormir, escondida no banheiro da editora e, até mesmo, na minha mesa de trabalho quando tudo fica mais pesado. “Tô resfriada”, digo tentando disfarçar. Nariz vermelho virou meu padrão.

Estou tentando ativamente sair dessa. É verdade. Voltei para a terapia, me dou o direito de comer delícias sempre que estou com apetite, converso com as pessoas envolvidas – quando possível – em busca de soluções. Eu faço a minha parte, entretanto parece que a vida resolveu me aplicar provas para testar até onde a minha força vai.

A última aconteceu ontem. Acordei para baixo e resolvi que a melhor maneira de resolver isso era sair para uma caminhada. Minha vontade era mesmo de fazer brigadeiro e ficar escondida debaixo das cobertas, mas fui mais forte. Tirei a poeira do meu tênis de ginástica e segui para o Minhocão – um dos meus lugares favoritos na cidade.

Pareceu funcionar. Escutando funk, subi a rampa animada. No entanto, antes mesmo de chegar ao próximo acesso ao elevado, um cara passou de bike e puxou meu celular. E foi assim que, pela segunda vez em quatro meses, vi meu telefone ir embora de bicicleta. Com o agravante de, desta vez, eu ainda estar pagando por ele.

Devia ter sucumbido às cobertas desde o princípio, pois foi lá que passei o meu resto do domingo. Sem fome, sem vontade me mover. Se eu tivesse 15 anos, teria recebido o colo da minha mãe e lá ficaria até o desejo de desaparecer do mapa passar. Agora, o que ouvi foi: “Escolheu morar em um lugar perigoso, agora aguenta”.

Não existe colo depois dos 23. Existe uma pilha de louça esperando para ser lavada, existe meditar antes de dormir e acordar secando as lágrimas para ir trabalhar como se nada de errado estivesse acontecendo dentro de você. Existem os amigos. Às vezes. De resto, sobra mesmo é muita solidão.

“Você precisa encontrar a felicidade internamente”, muitos gostam de dizer. Eu sei. Mas isso é difícil enquanto a nossa energia interior está baixa. É duro quando só depende de você fortalecê-la – e tudo ao redor insiste em lhe por para baixo.

Ser feliz é uma luta diária e, na vida adulta, solitária. Atualmente, assim que consigo me levantar de novo, passa um moleque de bicicleta e leva todas as forças que juntei desde o último tombo. Eu sei, as coisas vão melhorar. Como sempre. Para todos nós. Porém, fica a pergunta ansiosamente desesperada: quando?

Eu não gosto mais tanto assim de Natal

natalO Natal já foi meu feriado favorito. Durante anos, minha família materna se reunia na casa da Vó Majô, as crianças preparavam uma apresentação de teatro, os adultos a ceia, e tinha uma mesa especial só para os doces de tanto doce que tinha. Os ensaios da peça e decidir quais sobremesas seriam feitas eram tão gostosos quanto o espetáculo e as guloseimas em si.

Na noite do dia 24, a casa da Vovó – que por muito tempo também foi a minha casa – se enchia de gente. Tios de todas as famílias, primos de todos os primos, muita criança e muito, muito adulto. Todo mundo virava uma família só. Enquanto não chegava a hora da peça, nos distraíamos tentando quebrar nozes das mais variadas formas. Jogando de cima da escada, prendendo na porta, dando pontapés. O teatro era quase sempre sobre crianças de rua sendo salvas pelo Papai Noel e seus ajudantes. Tudo inspirado em “Chiquititas”, que nos ensinava que o mundo não é mágico para todos, mas é sempre possível sonhar com – e lutar por – mudanças. Eu e o Rafa os meninos de rua, as primas mais velhas os salvadores. A Buty sempre o Papai Noel. Os adultos achavam a nossa atuação graciosa, se emocionavam com o enredo e nos aplaudiam muito. A gente se achava os melhores atores do planeta.

Logo dava meia noite. Minha mãe me gritava, pois tinha surpresa na lareira: presente vindo diretamente do Pólo Norte. “Você viu o Papai Noel, mãe?”, “não filhinha, vi o presente caindo da chaminé, cheio de pó de pirlimpimpim”. Mesmo quando meus pais liberaram o bom velhinho e assumiram a responsabilidade dos presentes, meia noite continuou sendo um horário bem legal. Presente dos pais, presente da madrinhas, abraço, sorrisos, surpresas.

Hora da Ceia! Peru nunca foi uma tradição nossa. Optávamos por paella ou outro prato com frutos do mar. Repetíamos uma, duas, três vezes e ainda tinha espaço para a sobremesa. Sorvete com brigadeiro e bis, canudinho recheado com doce de leite, torta molhadinha de chocolate… E, tcharam! Hora do amigo oculto. Presente pra cá, presente pra lá, falta eu! Meu amigo oculto é lindo. Eu! Meu amigo oculto é meio maluquinho. Eu! Uma hora acabava sendo eu e, além do presente, sempre vinha o abraço carinhoso da surpresa revelada. Sensacional!

Dia 25 – o dia exato do Natal – era praticamente curtição de ressaca da véspera. Chegávamos cansados e sorridentes na casa da Tia Mirele. As crianças nadavam, os adultos morgavam, e a comilança continuava…

Até que eu, minha irmã e meus pais mudamos para nossa própria casa e a casa da Vó Majô ficou grande demais só para ela. Resolveu alugar e se mudar para um apartamento pequetito. Ficamos, então, sem lugar oficial de Natal. O que serviu de desculpa para uma dispersão em massa na antiga melhor data do ano. Um começou a passar a véspera com a outra família, outro agora adora viajar para a praia bem nessa época. Dia 25 acabou virando o dia oficial de celebração para os que ficam, mas o amigo oculto vem ficando cada vez mais vazio. Cada ano é um que se ausenta e até eu já fiquei de fora quando morei em Londres – mas o Natal em família já tinha perdido seu charme quando isso aconteceu.

Organizar as celebrações já não tem o mesmo sabor delicioso das guloseimas. Todo mundo faz corpo mole, até para tirar o amigo oculto. Eu fico triste. Se até o Natal virou data complicada para colocar todo mundo juntinho em volta da mesa, o que dizer dos outros dias? No fim das contas, os poucos gatos pingados disponíveis no dia 24 acabam sendo recebidos pela tia Cal, que capricha na decoração e no aconchego, e pelo tio Leo, que sempre encanta na cozinha. No dia 25 até rola um almocinho na Tia Mirele ou aqui em casa. A comida é sempre espetacular – os Coelho não sabem cozinhar diferente – , mas o encanto do Natal já venceu nessa família. Não tem mais unão, muito menos pó de pirlimpimpim. Esse já não é mais o meu feriado favorito.

Nunca mais vai ter Copa?

copa

Copa do Mundo FIFA 2006. Não lembro o dia, nem contra quem o Brasil jogaria, mas lembro que Belo Horizonte se pintou de verde e amarelo. Se pintou em apitos, buzinas, bandeiras, abraços, sorrisos, camisetas e bastante tinta (no rosto, no cabelo, nas ruas). A Av. do Contorno praticamente parada, mas em festa. Logo mais, a seleção brasileira ia entrar em campo. Isso deixava todos enlouquecidamente felizes. Todos, menos um.

Enquanto a cidade sorria, um carro preto parou, por alguns minutos, ao lado do meu. Dentro dele, um rapaz de vinte e poucos anos com a cara amarrada usava óculos escuros e roupa preta. Com o som alto, ele escutava uma música nada festiva, que escapava por seu vidro fechado. Não precisei observar por muito tempo para concluir: ele devia ser a única pessoa infeliz naquela tarde ensolarada. Dentre tanto verde e amarelo (e um pouco de azul), uma gota de preto. Uma gota solitária que nunca saiu da minha cabeça. Como ele podia estar infeliz? Era dia de jogo do Brasil na Copa do Mundo! Era dia de comemorar.

30 de outubro de 2007. Brasil é ratificado pela FIFA como país-sede da Copa do Mundo 2014. Que alegria! Eu e minha mãe pulamos abraçadas, meus vizinhos gritaram pelas janelas – muitas vezes, muito alto – “ÉEEE DO BRASIIIL, PORRA!”, meu pai chegou do trabalho mais sorridente do que de costume, eu imaginei o quanto seríamos felizes em 2014 e me perguntei onde será que o rapaz de preto iria se esconder dessa vez.

Janeiro de 2010. Fui aprovada no vestibular de Comunicação Social da UFMG. Eu só pensava no quanto eu era sortuda. Ia me formar em jornalismo logo antes da Copa do Mundo. Da Copa do Mundo em meu país. Quantas vezes sonhei em um dia ir aos jogos logo ali no Mineirão, comemorar todas as partidas de todos os países, e receber os gringos com muito pão de queijo e um bocado de boa vontade. A vista era melhor do que eu imaginara. Eu ia participar da festa de dentro. Eu ia colaborar para que o mundo recebesse as informações do nosso Carnaval fora de época. Eu e todos os meus colegas teríamos emprego para começar nossas carreiras pós-faculdade. Começaríamos em plena Copa do Mundo no país do futebol. Que maravilha! Trabalhar e celebrar, tudo ao mesmo tempo.

2014. Não sei mais aplaudir esse espetáculo. Receber a FIFA em casa tem sido assustador. Um vizinho que chega botando banca, impondo as suas regras, gastando nosso dinheiro suado guardado no potinho, e ainda acha ruim. O pior disso tudo: a gente sabia que ele era assim e implorou por sua visita. Prometemos mundos e fundos e imaginamos que esse esforço seria recompensado. Esse devia ser o empurrão que faltava para o Brasil ir para a frente.

“A FIFA está chegando e está trazendo o resto do mundo para nos visitar, chega de enrolação, vamos por em prática o que já devia ter sido feito e, de quebra, arranjar emprego para grande parte da nossa população”. Que ilusão! Não compreendo se nos faltou competência ou se foi má vontade. O fato é que o pouco que mudou, ao meu ver, mudou para pior. Tem aeroporto quebrado até hoje, a três semanas da Copa. Imagino que o rapaz de preto já sabia disso tudo, há muito tempo, antes do Brasil ser eleito.

Copa do Mundo FIFA 2014. Onde estarei? Provavelmente cobrindo as manifestações contra a FIFA, enquanto minha família, meus amigos, meus vizinhos, e o mundo inteiro se abraça e grita “GOOOOOOOOOL”. Estarei exercendo minha profissão sem receber um centavo por isso, mas ciente de que é ali que precisam de mim, dando voz ao outro grito do povo. Um grito que tentarão a todo custo calar para não assustar as visitas. Um grito ao qual eu não dava tanta atenção há quatro anos atrás, mas que, como jornalista recém-formada, percebo ser meu papel ajudar a ecoar.

Ciente e orgulhosa dos meus deveres como jornalista e como cidadã brasileira, uma lágrima escorre no meu peito da mesma forma que aquele carro preto tentava atravessar a Av. do Contorno em 2006. Será que rompi com a FIFA de vez? Será que nunca mais comemorarei um gol da seleção brasileira? Eu gosto de futebol. Eu amo o meu país. Eu adoro comemorar. Será que essas três paixões, algum dia, se encontrarão novamente – e confortavelmente – em meu peito? Espero um dia ter razões para que, sim, os jogos da seleção brasileira voltem a ser motivo de celebração e orgulho. No país, no mundo e em mim.

Mais respeito, por favor

respeito

A grande frustração do ser humano vem de achar que ama e é amado. Tudo ilusão. Em alguns momentos percebemos que estamos sozinhos, não importa quantos cartões amorosos recebamos de aniversário e Natal. Amor é palavra fácil de usar. Amor machuca. Amor promete e não é. Amor é raro. Eu quero é respeito. Acho que todos nós deveríamos falar menos que amamos e respeitarmos mais. Respeito faz bem para a alma. Respeito é real.

Mariana

Mariana desistiu de sofrer e decidiu nunca mais amar. Não era questão de capricho, era mais de necessidade. O amor nunca foi muito bom com ela. Batia na sua porta, implorava pra ficar e, quando Mariana enfim se rendia, o amor ia embora e deixava a saudade no lugar.

Mariana sofreu por três vezes. Três vezes bem sofridas. Tentou tampar a dor com brigadeiro, secar as lágrimas com rímel e afastar a saudade com cerveja. A dor aumentou, o rímel borrou e a saudade fez com que Mariana ligasse implorando para que o amor voltasse. De nada adiantou. Até vinha um amor diferente, mas que logo fazia tudo igual.

Mariana então se fechou. Decidiu nunca mais deixar o amor entrar. Nem que ele batesse duzentas vezes bem forte, nem que prometesse ser diferente. Trancou-se e jogou a chave fora. Tão longe, mas tão longe, que o amor ficou sabendo e nunca mais tentou voltar. Para que insistir em uma menina tão medrosa? Foi ela desistir do amor, que o amor também desistiu dela.

Mariana parou de amar, parou de chorar, parou de cantar. A vida ficou sem graça. O céu deixou de ser super azul, o por do sol perdeu três tons de rosa e mocinha nunca mais se pegou rindo sozinha. O mundo ficou chato, chato, chato e Mariana quis amar novamente. Tentou então reabrir seu coração. Fez tanta força que se rompeu por inteira.

Mariana hoje sofre de coração desocupado. Ele está lá, escancarado, mas o amor não volta mais. Aliás, o amor foge! Pode ser que agora seja ele quem esteja com o pé atrás, ressentido e acanhado. Vai ver agora é ele o medroso da história. Está fugindo de si mesmo.

O amor também não sorri mais.