pre-sentindo

quasesentimento

Tem sentimento que de tão grande tira o nosso ar. Pior é quando o que nos toma por inteiro e, ao tentar tomar conta do nosso mundo, nos sufoca, nem chega a ser sentimento. É só uma coisa sentida, que sonha em ser sentimento de verdade, mas não tem material para ser nada. É coisa que talvez nem venha do coração, só da cabeça. Cabeça que de tanto ter com o que se preocupar, acaba procurando uma preocupação mais gostosa para se importar.

Eu morro de medo de ser estuprada

estuprada

“Se um vagabundo a encontrar num local deserto e a agarrar, deixe que ele a foda de uma vez. É o meio mais seguro de não ser estuprada” ensina o “Manual de Boas Maneiras Para Meninas”, lançado em 1926, após a morte do autor, Pierre Louÿs, e publicado em 2006 na Coleção Devassa (a cerveja) pela editora Azougue.

“Se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros” concorda 58,5% de 3.810 pessoas entrevistadas (homens e mulheres) pelo IPEA na pesquisa divulgada na quinta-feira passada. A porcentagem sobe para 65,1% de aprovação* quando a afirmativa é “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”.

Isso é só uma parte do que se passa na cabeça das pessoas da nossa sociedade. Na minha, o pensamento que impera é o medo de ser estuprada. Já me peguei diversas vezes raciocinando o que faria caso tentassem me forçar a fazer sexo. Como eu poderia escapar e se eu conseguiria conviver com isso caso acontecesse. Minhas conclusões sempre são nada positivas. Como divulgado, em agosto do ano passado, pela ministra da Secretaria de Políticas para Mulheres, Eleonora Menicucci, a cada 12 segundos uma mulher é vítima de violência sexual no Brasil. Eu posso ser a próxima. Ou você.

“Mulher não é gente.” “Deixe que sejam abusadas. É bom para a tosse.” “O importante é os homens estarem satisfeitos.” Um absurdo: 2014 e muitos seres humanos ainda precisam lutar para serem visto como tal. Mulheres, transexuais, negrxs, gays, pobres… Nada disso é gente. Ou você é homem-adulto-cisgênero-heterosexual-branco com bastante dinheiro no banco, ou você não é nada. Não que em qualquer tempo fosse plausível o fato de alguém precisar se justificar como ser humano, mas não quero debater com o passado, quero poder viver no presente.

Quero poder ser livre. Quero poder, caso eu me case, colocar dinheiro dentro de casa sem ser julgada pela minha família. Quero poder expor meus pensamentos sem ter que ouvir que “homem não gosta de mulher com opinião”. Quero poder usar minhas saias sem precisar conviver com gritos femininos, vindos de algum carro qualquer, me chamando de vagabunda. Quero poder atravessar a rua sem receber assobios ou ouvir “essa daí eu chupava toda”. Quero poder sair de casa sem ter medo de ser atracada em uma parede por algum desconhecido enquanto ele goza. Como qualquer ser humano, eu quero ser a única a tomar minhas decisões. Quero ser dona do meu corpo e das minhas ações.

Tanta coisa precisando ser resolvida neste mundo e vocês nos fazendo dedicar tempo para enfrentar o que já deveria estar solucionado há muitos anos. Só espero que essa luta não não seja em vão. Que um dia as pessoas aprendam que todas  as pessoas são pessoas e que como pessoas elas devem ser tratadas. E que isso não demore. Nossa vida não pode esperar.

* Uma semana depois, o Ipea divulgou uma errata dizendo que os 65%, na verdade, eram 26%. Taxa que não deixa de ser preocupante.

Apesar de adulta (para reler aos 50)

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Comecei este ano com muito medo de morrer. Com a morte vem o fim de tudo o que batalhamos. E para que batalhar, se vamos morrer? Não existe resposta confortável e isso vinha me deixando muito melancólica ultimamente. Conversando com a minha terapeuta, chegamos a seguinte conclusão: isso tudo é medo de virar adulta. É verdade, eu tenho pavor de crescer. Odiei precisar fazer 13 anos e agora estou apavorada com isso de formar na faculdade, procurar um emprego, ganhar minha independência. E se todos os meus planos não passarem de imaginação? E se eu virar um adulto ressentido que diz “na sua idade eu também tinha essa ilusão”? Tenho horror a essas possibilidades. Pior que morrer de corpo e alma, é morrer só de alma.

Como não posso salvar o futuro neste exato momento, nem amanhã ao acordar, resolvi fazer uma lista de coisas que eu gostaria de fazer antes dos cinquenta, e a primeira delas é continuar viva. Se, aos cinquenta, eu voltar aqui para ler essa lista, é porque eu ainda valho a pena. Se não, eu espero estar sendo feliz ao meu novo modo, apesar de apática (ou desmemoriada). E que eu vá além.

Que nos próximos 28 anos, eu consiga: publicar uma reportagem de quatro páginas em uma revista que tenha fãs, ter uma sessão de crônicas em algum lugar com leitores e salário, morar em cinco cidades diferentes, conhecer Barcelona, contar histórias para meu filho, filha, filhos antes de dormir, respeitar a individualidade desses filhos e ter o diálogo aberto com eles sobre todo tipo de assunto. Gostaria também de não me afastar da minha irmã, ter paciência com os meus pais e suas manias cada vez mais marcantes, amar alguém de um jeito melhor do que amei na adolescência (mesmo não durando para sempre), ter, pelos menos, três melhores amigos das antigas ao meu lado.

Coisa que eu já faço e gostaria de continuar fazendo até e depois de lá: colocar as mãos nos pés com as pernas esticadas, observar o céu e sentir-me alumbrada, comer brigadeiro com pipoca, amar cachorro quente, tirar fotos, editá-las e revelá-las, ser eclética nas amizades, nas músicas e nos costumes, ficar contente ao tomar café, cantar a plenos pulmões enquanto dirijo, dançar na rua quando a música for muito boa, ir ao cinema sozinha satisfeita com a companhia de uma coca-cola 500ml, escrever.

Mais do que tudo, eu quero respeitar os sonhos dos mais novos – bem como os dos mais velhos – e quero poder ajudar a todos que me pedirem socorro. Seria também extremamente interessante se minha ansiedade continuasse diminuindo, sem que eu perdesse a paixão pela vida. Dito isso, agora eu posso viver em paz. Meus pensamentos ganharam o mundo. Pelo menos o mundo de quem se importa o suficiente para ter lido até aqui. Sei que essa Clara está a salvo dentro de vocês. Espero que ela também se salve dentro de mim.

Esta não é uma história de amor

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Eu tinha só 10 anos quando o Gabriel gritou “o Guilherme gosta de você”. Achei que aquilo era algum tipo de pesadelo, porque eu gostava muito do Guilherme.  Seria muita coincidência ele também gostar de mim. Tinham descoberto o meu segredo e aquilo era algum tipo de zoação. Só podia ser. Passei a quarta série toda fugindo dele. Lembro do dia em que fomos ao observatório em excursão. Uma noite linda. Eu estava morrendo de frio – não esperava a temperatura quase negativa da Serra da Piedade – mas neguei o casaco dele mesmo assim. Se eu aceitasse, ia ficar na cara que eu gostava dele também. Teve a festa junina e eu não aceitei ser seu par. Fiz a Mariana ser.  Enquanto eu morria de inveja e dançava forró com uma amiga, mandava beijinhos – devidamente registrados pelo olhaopassarinho.com – como se tirasse onda com a cara da Mariana por estar dançando com um rapaz. Na feira de ciências, perdi a fala quando ele veio assistir a minha apresentação sobre vulcões. Fingi que não queria apresentar por não ir com a cara dele. Nos jogos de queimada, eu me queimava para ficar no cruza, ele se queimava para ficar ao meu lado, e eu queimava alguém do outro time para fugir do lado dele. Passei um ano inteiro fugindo. Na quinta série,  mudei de colégio e, no meio do ano, fui em uma festa junina da escola antiga. Ele me perguntou se eu estava dando mole para outro ex-colega nosso. Vê se eu ia trair ele assim. Claro que não. Mas também não dei mole para ele. E nunca mais vi o Guilherme. Esse foi o meu primeiro amor. Demorou quatro anos para eu gostar de outro alguém.

Conheci o Fábio no orkut. Ele era de Balneário Camboriú, jogava basquete e era lindo. Fábio só tinha um problema. Seu nome era Larissa e ela roubava fotos de um garoto mais velho para fingir que gostava de mim. Até pouco tempo, achei que esse tivesse sido meu primeiro amor. Bizarro. Sofria por  ter tido um primeiro amor tão ferrado. Não melhorei muito ao me lembrar de Guilherme, já que eu podia ter sido muito mais feliz se tivesse lhe dado uma chance. Assim como se eu tivesse confessado gostar do Leozinho o mesmo tanto que ele gostava de mim na primeira série. E se eu não tivesse jogado a carta do João Pedro fora na frente de todo mundo na colônia de férias. Logo eu que era fã dos casais de Chiquititas, fugi de todas as minhas possíveis histórias de amor na infância.

Fugi até conhecer o Lipe, que de tanto xingar as minhas amigas, eu troquei pelo Pinico. Que de tanto ser galinha, jurei nunca mais gostar de ninguém. Até que eu conheci o Pedrinho. Uma gracinha. Mas gostava mais do fato de eu gostar dele do que gostava de mim. Terminei. Terminei e comecei a beber todos os finais de semana. Muito. Ligava para ele chorando, acordava morrendo de vergonha. Vomitei no pé do meu coordenador na festa junina – cachaça pura – e liguei para o Pedrinho para falar, pela última vez, que eu o amava muito. Eu tinha só dezessete anos e achei que tivesse vivido todas as minhas decepções amorosas. Eu achava apavorante ter vivido todas as minhas decepções amorosas aos 17 anos. Eu achava que era vingança da vida por eu não ter dado chance a paixão antes dos 12. Eu nunca mais me deixei decepcionar nesse quesito. Eu nunca mais me apaixonei. Já fazem cinco anos. Talvez seja esse o meu destino. Viver das paixões que me estraçalharam e das que quase foram. Talvez.  O fato é que que eu adoro comer pipoca sozinha no cinema. E adoro conhecer gente nova, dançar esquisito na balada, sair só com as minhas amigas. E tenho pavor de levar acompanhante para aniversário. Mas aí escuto Los Hermanos e derivados e  acho que tenho passado os últimos  anos me enganando. Talvez eu ainda queira que essa coisa de amor aconteça na minha vida.

Mais respeito, por favor

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A grande frustração do ser humano vem de achar que ama e é amado. Tudo ilusão. Em alguns momentos percebemos que estamos sozinhos, não importa quantos cartões amorosos recebamos de aniversário e Natal. Amor é palavra fácil de usar. Amor machuca. Amor promete e não é. Amor é raro. Eu quero é respeito. Acho que todos nós deveríamos falar menos que amamos e respeitarmos mais. Respeito faz bem para a alma. Respeito é real.

As pessoas não sabem amar

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As pessoas tem muito a nos oferecer, mas a maioria prefere não se desgastar. Todos temos muito a oferecer, mas os outros preferem não nos enxergar. Quanto mais elas nos conhecem, menos se importam. Menos querem nos conhecer.

Aquele que é grosseiro por certo tempo será visto como estúpido para o resto de sua vida. Não importa o quão doce ele seja na maior parte do tempo, na primeira grosseira em meses ele será acusado de sempre se comportar assim.

Àquele que chora demais, nunca perguntam o motivo do choro. O acusam de ser dramático e infantil. Não importa quantos sorrisos ele provoque ao longo da vida, poucos aparecem para secar as suas lágrimas.

“Não se desgastar” parece ser um mantra repetido todas as manhãs pela maioria das pessoas. É mais prático enquadrar os que os rodeiam em categorias imutáveis do que perder tempo e energia tentando compreender o outro. Por mais que encham a boca para falar “eu te amo”, poucos estão dispostos a se doar.

As pessoas estão mais preocupadas em apontar o dedo do que em amparar. Sentem a necessidade de falar, mas pouco se esforçam para escutar. Sendo assim, as pessoas também estão desacostumadas a receber ajuda. E isso só serve para deixar as coisas ainda mais difíceis. Para todo mundo.