Ser adulto é dificílimo, mas não pelos motivos que eu pensava

Eu achava que a parte mais difícil de ser adulto era conseguir pagar os boletos em dia. Quem me dera! Fechar o mês do azul pode até ser complicado, mas nada é tão sofrido quanto dar conta das nossas crises emocionais por conta própria.

Tive um início de 2016 bem merda, porém o resto do ano compensou por cada lágrima de desespero. Em 2017 está rolando o contrário. O ano começou leve e, ultimamente, tem entregado só pedrada. Contudo, com um agravante: está todo mundo mal.

Outro dia uma amiga chegou lá em casa para me dar colo e, quando viu, estava chorando. “Desculpa, é que também não está fácil para mim”. Tem sido assim em qualquer encontro com as pessoas que gosto.

Um refletindo sobre pedir demissão, a outra infeliz no namoro, um infeliz no namoro e pensando em pedir demissão. Isso fora quem levou um pé na bunda, começou a ter crises de pânico ou está pensando em voltar para a cidade natal.

Confesso que não me lembro da última vez em que passei uma semana inteira feliz. Choro no banho, antes de dormir, escondida no banheiro da editora e, até mesmo, na minha mesa de trabalho quando tudo fica mais pesado. “Tô resfriada”, digo tentando disfarçar. Nariz vermelho virou meu padrão.

Estou tentando ativamente sair dessa. É verdade. Voltei para a terapia, me dou o direito de comer delícias sempre que estou com apetite, converso com as pessoas envolvidas – quando possível – em busca de soluções. Eu faço a minha parte, entretanto parece que a vida resolveu me aplicar provas para testar até onde a minha força vai.

A última aconteceu ontem. Acordei para baixo e resolvi que a melhor maneira de resolver isso era sair para uma caminhada. Minha vontade era mesmo de fazer brigadeiro e ficar escondida debaixo das cobertas, mas fui mais forte. Tirei a poeira do meu tênis de ginástica e segui para o Minhocão – um dos meus lugares favoritos na cidade.

Pareceu funcionar. Escutando funk, subi a rampa animada. No entanto, antes mesmo de chegar ao próximo acesso ao elevado, um cara passou de bike e puxou meu celular. E foi assim que, pela segunda vez em quatro meses, vi meu telefone ir embora de bicicleta. Com o agravante de, desta vez, eu ainda estar pagando por ele.

Devia ter sucumbido às cobertas desde o princípio, pois foi lá que passei o meu resto do domingo. Sem fome, sem vontade me mover. Se eu tivesse 15 anos, teria recebido o colo da minha mãe e lá ficaria até o desejo de desaparecer do mapa passar. Agora, o que ouvi foi: “Escolheu morar em um lugar perigoso, agora aguenta”.

Não existe colo depois dos 23. Existe uma pilha de louça esperando para ser lavada, existe meditar antes de dormir e acordar secando as lágrimas para ir trabalhar como se nada de errado estivesse acontecendo dentro de você. Existem os amigos. Às vezes. De resto, sobra mesmo é muita solidão.

“Você precisa encontrar a felicidade internamente”, muitos gostam de dizer. Eu sei. Mas isso é difícil enquanto a nossa energia interior está baixa. É duro quando só depende de você fortalecê-la – e tudo ao redor insiste em lhe por para baixo.

Ser feliz é uma luta diária e, na vida adulta, solitária. Atualmente, assim que consigo me levantar de novo, passa um moleque de bicicleta e leva todas as forças que juntei desde o último tombo. Eu sei, as coisas vão melhorar. Como sempre. Para todos nós. Porém, fica a pergunta ansiosamente desesperada: quando?

Ainda é tempo de ser feliz em 2016?

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Eu não gostei de 2016. Este, definitivamente, não foi um ano de alegrias. Além das desgraças e más notícias que dominaram o mundo, minha vida também não teve um saldo muito positivo. Posso dizer, com todas as letras, que não vou sentir a menor saudade quando ele acabar.

Veja, enquanto resmungo, tenho plena consciência dos meus privilégios e que milhares de pessoas achariam um ano repleto de brigadeiro e maratonas de séries o paraíso. Sei que levo uma vida boa e sou muito grata por isso – todos os dias. Porém, a verdade é que eu não fui feliz.

Calma, não é o caso de se preocupar comigo. Eu estou bem. Eu só não estou feliz. É claro que ocorreram momentos de alegria e satisfação, mas as noites indo dormir com lágrimas nos olhos foram maioria absoluta em relação àquelas em que pus a cabeça no travesseiro com um leve sorriso no rosto.

A maior conquista deste ano – que seria o ponto mais positivo de todos mesmo se 2016 tivesse sido incrível – foi ter realizado um sonho de adolescência: comecei a trabalhar em uma revista feminina. E não em uma revista feminina qualquer, mas na maior do país. Essa é uma vitória que vale por várias boas notícias. Eu sei. No entanto, além das pessoas queridas que conheci, ela foi a minha única razão concreta de felicidade.

Passei a metade do ano sufocada em um relacionamento que mais parecia um aquário repleto de água e completamente vedado. Perdi a fome pela primeira vez na vida, achei que talvez estivesse ficando louca, e não fui forte o suficiente para me desprender disso. Precisou que ele partisse para outra e desaparecesse para que eu conseguisse seguir em frente.

No meio disso, o projeto ao qual eu dediquei cada gota de energia do meu corpo em 2015 chegou ao fim. Sem feedback, sem justificativa. Precisei me despedir sem saber o motivo e isso talvez tenha me doído mais que as ligações transtornadas do meu ex no meio da madrugada. Não. Pensando bem, definitivamente, me doeu mais. Juntou os dois e eu perdi a motivação para qualquer coisa que não fosse assistir a The Good Wife.

Quando, finalmente, eu parecia forte o suficiente para seguir em frente, nada demais aconteceu. O melhor momento do meu segundo semestre foi meu aniversário. Nisso, devo dizer, tenho muita sorte. Consegui lotar duas comemorações: uma em SP e outra em BH. Nessa hora, a gente vê o quanto de pessoas nos querem bem e isso é tudo na vida. Porém, desde então, 3 meses se passaram e nada demais aconteceu. Parece que minha vida está em stand by, o que significa que a minha maior emoção neste tempo foi assistir a 7 temporadas e um reboot de Gilmore Girls.

E eu não sou do tipo que fica sentada no sofá – apesar de passar muito tempo por lá – esperando as coisas acontecerem. Eu vou atrás. Interajo com desconhecidos, visito lugares inéditos e sei muito bem me divertir comigo mesma. Sou do tipo que caminha dançando na rua enquanto houve música, planeja os encontros da galera e sabe valorizar os pequenos instantes da vida.

Veja bem, a verdade é que, depois de um início de ano infinitamente merda, eu esperava algum tipo de compensação neste final. Alguma surpresa, algo transformador. Não sei se 2016 tem energias para esse tipo de coisa ou se gastou ela toda sendo um ano sofrido para a maioria das pessoas. Aliás, não sei se alguém realmente foi feliz neste ano. Olho ao meu redor e o que vejo são indivíduos exaustos que batalharam muito para levantar da cama ao longo dos últimos meses.

De qualquer forma, não quero que este ano seja uma grande mancha preta com dois ou três pontinhos de glitter dourado em minha vida. Eu gosto de olhar para trás e sentir saudade. Eu aprecio as vinte e quatro horas do dia. Por isso, selo aqui um acordo comigo mesma: o ano ainda tem 31 dias até acabar, dá tempo de virar o jogo. Um mês inteiro para 2016 valer a pena. São 31 oportunidades de chegar em 2017 mais inspirada. Bora aproveitar?

Não preciso que você esteja em casa para que eu me sinta novamente ao seu lado

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Eram cinco da manhã, eu não fazia a menor ideia do que estava fazendo, mas fiz. Entrei no seu apartamento como quem entra na casa dos pais que moram em outra cidade. Em momento nenhum me senti uma intrusa. Afinal, mesmo oito meses após o fim do nosso namoro, eu ainda tinha a chave. Bastou destrancar as fechaduras e, voilá, seu universo estava de volta à minha frente.

A parede da sala continuava verde esmeralda do jeitinho que a gente pintou. Seu sofá se manteve com o mesmo tecido desgastado de sempre. Suas revistas espalhadas pela mesa de centro, aquele poster minimalista do Homem Aranha pregado perto da cozinha, seus sapatos usados amontoados no canto esquerdo à porta de entrada para não contaminar o resto do apartamento com a sujeira da rua. Tudo continuava igual.

Você não estava em casa, mas isso não me pareceu ser um problema. Tomei um copo d’água, escovei os dentes com a sua escova e me joguei na sua cama. Na cama que quase foi nossa, que praticamente tem a marca do meu corpo no lado direito do colchão por termos passado tanto tempo deitados nela. Adormeci.

Na manhã seguinte, acordei com um sorriso no rosto. Alegria de quem acorda com cheiro de café espalhado pela casa, apesar de não ter aroma algum realmente vindo da cozinha. Só aquele cheiro de sempre pairando pelo ar, aquele cheiro todo seu. Bálsamo. O meu cheiro favorito no mundo todo durante seis anos. Quer dizer, talvez ele ainda seja meu predileto até hoje. Nunca inspirei nada tão alegre.

Olhei ao meu redor, observei cada canto do seu quarto e fiquei pensando sobre nós. Não sei como passei tanto tempo sem contato com sua vida. Notícias suas sempre chegam, é claro. Acho que minha lista de amizades não se renovou muito desde o nosso término. Parece que a sua também não. Alguém sempre comenta que esteve com você “outro dia”. Só eu nunca mais vi você.

Por quê? Não entendo o motivo de estarmos tão afastados. Nós éramos deliciosamente compatíveis. Nosso fim não foi dramático. Você decidiu que precisava focar no fim da sua dissertação de mestrado. Eu decidi que não tinha mais paciência para assistir Netflix quase todas as noites do final de semana. Sentia falta do barulho das pessoas conversando no bar, de dançar até minhas pernas bambearem, de observar o dia chegando enquanto a cidade se iluminava.

Você precisava ficar mais quieto. Isso eu compreendi. Eu só não quis ficar te assistindo concentrado no computador, quando meu corpo e minha mente estavam cheios de energias ansiosas para serem dispersas pelo mundo. Eu precisava vivenciar esse meu momento. Você precisava se focar no seu. Decidimos que o jeito mais tranquilo disso não nos desgastar era pararmos de nos ver. E paramos.

Sua dissertação foi um sucesso, ouvi dizer. Parabéns. Muitos parabéns! Não mandei recado, presente ou mensagem, porque, assim que fiquei sabendo, minha vontade foi de vir correndo até seu apartamento. Quis te encher de beijos, dizer “eu sabia!”, chorar de felicidade, te abraçar tão apertado, mas tão apertado, que eu nunca mais ia querer soltar. Então não vim.

Guardei minhas vontades de um jeito que não fui capaz de armazenar os desejos que senti 5 meses antes, quando te deixei ali, parado em frente à porta aberta desse apartamento, me olhando como se nunca mais fosse me ver, mas com um semblante de quem preferia me contemplar sempre quando quisesse. Quase o tempo todo, como sempre foi. Saí, não olhei para trás. Porém, essa imagem nunca saiu da minha cabeça.

Enfim, cá estou, às 14 horas e quarenta e três minutos, do domingo de hoje, escrevendo esta carta de dentro da sua cozinha enquanto tomo uma caneca de café com um pouquinho de leite. (A propósito, estou usando aquela azul com desenhos de nuvens que sempre me encantou por sua imensidão)

Não sei onde você está, com quem passou a noite e quais atividades você normalmente tem feito aos domingos à tarde. Isso não importa. O que eu sei é que a porta se manteve aberta para mim. Você não trocou a fechadura e seu apartamento continua tendo cara de nosso — o meu também não perdeu muito esse aspecto. Talvez as coisas entre nós nunca mais sejam como foram, talvez elas nunca tenham deixado de ser.

Eu continuo a mesma menina que gosta de ler com a perna enroscada na sua, aprecia flores encontradas na calçada e sente saudades de morar em Madrid. Pelo que comentam sem prestar muita atenção na minha presença, você não abandonou o hábito de preparar, todas as sextas-feiras, café da manhã para o porteiro, e continua adorando comprar CDs dos seus artistas favoritos, mesmo não tendo aparelho para reproduzi-los.

Até onde eu sei, são grandes as chances de que a gente continue sendo inebriante compatíveis. Seria perfeito se você me desse a chance de conferir se isso é verdade. A chave do meu apartamento você ainda tem, notei que continua dependurada no mesmo lugar na sala, então é só aparecer por lá quando der na telha. Caso sinta vontade.

Estarei involuntariamente te esperando.

Mulher com câncer terminal realiza sonho e se casa antes de morrer

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Nos últimos tempos, várias mulheres com câncer tem realizado o grande sonho de se casar antes de morrer. Desesperadas por estarem em estágio terminal da doença, se vestem de noiva, convidam os queridos mais próximos e, dentro mesmo do hospital, vão ao encontro do amor de suas vidas para selar a união. Já aconteceu em Manaus, em várias cidades dos EUA, e, agora, na China.

Não querendo meter o meu dedo nos sonhos de ninguém, mas já metendo: sério mesmo, mulherada? Entre todas as maravilhas que o mundo tem a lhes oferecer, vocês querem gastar os poucos minutos de vida que lhes resta casando com homens que já são seus companheiros? Dentre tantas opções, o que mais lhes apetece é vestir vestido branco, véu e grinalda e registrar perante a lei a união com aquele com quem já estão unidas há muito tempo? Poxa…

Cada vez que leio uma chamada dessas, ao invés de me emocionar, sinto um cadinho de desesperança. Casamento é legal, é uma festividade interessante, um ritual muito bonito, mas é mesmo – ainda – o grande sonho da maioria das mulheres? O MELHOR dia de suas vidas? (Afinal, existe “o melhor” dia de nossas vidas? Não são vários os dias extremamente especiais?)

O que me assusta não é o tal do grande amor ser tão valorizado, e sim esse desespero que muitas, muitas mulheres tem em poder dizer “eu me casei”. Se fosse o meu caso, o que me faria feliz de verdade seria experimentar comidas que não conhecia, ou viajar para um lugar com paisagens de tirar o fôlego.

Cada um sonha com o que quer, eu sei, mas que mundo mais interessante seria este em que vivemos se as manchetes de casamentos urgentes fossem substituídas por outras mais estimulantes: “americana toca guitarra em festival para 200 mil pessoas e realiza último sonho antes de morrer” ; “baiana em estado terminal lança livro com fotos que tirou ao longo da vida em viagens pelo mundo” ; “paranaense com câncer faz sua última apresentação de ballet: ‘foi uma despedida linda’, comemora”. Que vida mais interessante essas mulheres poderiam ter tido se sonhassem com algo maior do que com arrumar um marido.

Eu não gosto mais tanto assim de Natal

natalO Natal já foi meu feriado favorito. Durante anos, minha família materna se reunia na casa da Vó Majô, as crianças preparavam uma apresentação de teatro, os adultos a ceia, e tinha uma mesa especial só para os doces de tanto doce que tinha. Os ensaios da peça e decidir quais sobremesas seriam feitas eram tão gostosos quanto o espetáculo e as guloseimas em si.

Na noite do dia 24, a casa da Vovó – que por muito tempo também foi a minha casa – se enchia de gente. Tios de todas as famílias, primos de todos os primos, muita criança e muito, muito adulto. Todo mundo virava uma família só. Enquanto não chegava a hora da peça, nos distraíamos tentando quebrar nozes das mais variadas formas. Jogando de cima da escada, prendendo na porta, dando pontapés. O teatro era quase sempre sobre crianças de rua sendo salvas pelo Papai Noel e seus ajudantes. Tudo inspirado em “Chiquititas”, que nos ensinava que o mundo não é mágico para todos, mas é sempre possível sonhar com – e lutar por – mudanças. Eu e o Rafa os meninos de rua, as primas mais velhas os salvadores. A Buty sempre o Papai Noel. Os adultos achavam a nossa atuação graciosa, se emocionavam com o enredo e nos aplaudiam muito. A gente se achava os melhores atores do planeta.

Logo dava meia noite. Minha mãe me gritava, pois tinha surpresa na lareira: presente vindo diretamente do Pólo Norte. “Você viu o Papai Noel, mãe?”, “não filhinha, vi o presente caindo da chaminé, cheio de pó de pirlimpimpim”. Mesmo quando meus pais liberaram o bom velhinho e assumiram a responsabilidade dos presentes, meia noite continuou sendo um horário bem legal. Presente dos pais, presente da madrinhas, abraço, sorrisos, surpresas.

Hora da Ceia! Peru nunca foi uma tradição nossa. Optávamos por paella ou outro prato com frutos do mar. Repetíamos uma, duas, três vezes e ainda tinha espaço para a sobremesa. Sorvete com brigadeiro e bis, canudinho recheado com doce de leite, torta molhadinha de chocolate… E, tcharam! Hora do amigo oculto. Presente pra cá, presente pra lá, falta eu! Meu amigo oculto é lindo. Eu! Meu amigo oculto é meio maluquinho. Eu! Uma hora acabava sendo eu e, além do presente, sempre vinha o abraço carinhoso da surpresa revelada. Sensacional!

Dia 25 – o dia exato do Natal – era praticamente curtição de ressaca da véspera. Chegávamos cansados e sorridentes na casa da Tia Mirele. As crianças nadavam, os adultos morgavam, e a comilança continuava…

Até que eu, minha irmã e meus pais mudamos para nossa própria casa e a casa da Vó Majô ficou grande demais só para ela. Resolveu alugar e se mudar para um apartamento pequetito. Ficamos, então, sem lugar oficial de Natal. O que serviu de desculpa para uma dispersão em massa na antiga melhor data do ano. Um começou a passar a véspera com a outra família, outro agora adora viajar para a praia bem nessa época. Dia 25 acabou virando o dia oficial de celebração para os que ficam, mas o amigo oculto vem ficando cada vez mais vazio. Cada ano é um que se ausenta e até eu já fiquei de fora quando morei em Londres – mas o Natal em família já tinha perdido seu charme quando isso aconteceu.

Organizar as celebrações já não tem o mesmo sabor delicioso das guloseimas. Todo mundo faz corpo mole, até para tirar o amigo oculto. Eu fico triste. Se até o Natal virou data complicada para colocar todo mundo juntinho em volta da mesa, o que dizer dos outros dias? No fim das contas, os poucos gatos pingados disponíveis no dia 24 acabam sendo recebidos pela tia Cal, que capricha na decoração e no aconchego, e pelo tio Leo, que sempre encanta na cozinha. No dia 25 até rola um almocinho na Tia Mirele ou aqui em casa. A comida é sempre espetacular – os Coelho não sabem cozinhar diferente – , mas o encanto do Natal já venceu nessa família. Não tem mais unão, muito menos pó de pirlimpimpim. Esse já não é mais o meu feriado favorito.

Eu vou te amar para sempre, Orkut

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Entrei ontem correndo no Orkut para dar print nos meus depoimentos e, depois, custei a ter coragem de sair. Fiquei parada olhando para aqueles depoimentos secretos, os quais eu não podia aceitar porque continham desabafo do ex, fofoca da amiga, endereço da colega de sala da escola. Eles, agora, nunca mais serão aceitos. Nunca mesmo. Definitivamente.

Passeei, então, pelas comunidades de amigos – aquelas que não ficarão eternizadas no genial Arquivo de Comunidades que a página virou. Quanta bobagem a gente escrevia! E como a gente era feliz! Brincadeiras sem sentido, coleções de frases célebres, desesperos pré-românticos e uma lista de confissões pós-alcóolicas (enquanto aprendíamos a beber). Não tinha Facebook, não tinha Whatsapp e as conversas de grupo do MSN já tinham perdido a graça. Tudo era compartilhado ali, naqueles tópicos tão bem organizados que os grupos do Facebook nunca conseguiram superar. Agora está tudo registrado em lugar nenhum. O melhor arquivo sobre a adolescência de milhões de brasileiros nascidos nos anos 1990, agora, não existe mais.

Enquanto salvava os depoimentos, me senti a menina mais amada do mundo. O Orkut estimulava as declarações de amor e meus amigos se aproveitavam disso com a maior paixão do mundo. De textos enormes à frases super curtas que até hoje fazem todo o sentido necessário para ser feliz, eu era presenteada semanalmente – algumas vezes diariamente – com todo tipo de demonstração de afeto. Vai ver é por isso eu tenho me sentido abandonada às vezes: Whatsapp não faz carinho.

Entrei no Orkut quando ainda precisava de convite e só podíamos ter um álbum com 12 fotos. Vi ele crescendo aos poucos, enquanto ele me acompanhava crescendo bem depressa. O primeiro caso, o primeiro beijo, o primeiro porre, o primeiro grande amor – e o último também. As grandes amizades que até hoje me acompanham – de BH e do Paraná -, outras que surgiram e sumiram por ali, antes mesmo dos brasileiros começarem a migrar para o Facebook. O encontro com a grande ídola, e com os amigos colecionados por conta dela. A primeira viagem internacional, as primeiras fotos de qualidade, os primeiros textos sentimentalóides…

Tanta coisa, mas tanta, tanta coisa, que eu fiquei com medo de perder tudo assim que fechasse a aba do Orkut pela última vez. Foi como me despedir de um grande amigo, que eu visitava só de vez em quando para relembrar os bons momentos, mas que ainda amo do fundo do meu coração. E despedidas nunca são fáceis, ainda mais de alguém que nos fez tão feliz.

Por fim fechei a maldita aba. Não como um ato final, como se me despedisse de tudo, mas com a sabedoria de que a vida tem que continuar, mesmo que as plataformas, formas e amoras mudem. As memórias ficam e a saudade nos lembra da nossa enorme capacidade de ser feliz.

Vai em paz, querido Orkut. Viverás eternamente em nossos corações.

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Esse bairro precisa ser curado

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Eu cresci em um bairro que parecia cidade do interior. Eram poucos os carros nas ruas, a gente se escondia em lote vago no pique esconde e os vizinhos sempre compravam nossas bijus de miçanga quando batíamos em suas portas. Não tinha perigo, era tudo muito tranquilo. Tão tranquilo que nossa criatividade era o que agitava os domingos. Cestas de lixo viravam cestas de basquete, materiais de construção abandonados viravam marcas para quadra de queimada e minha mãe sempre precisava limpar meu joelho sangrando no fim da tarde. Era uma delícia!

Eu cresci. O meu bairro também. Hoje, Range Rovers disputam o asfalto com corredores de fim de tarde que não dão seta, comerciantes vendem o açaí mais caro da cidade e meu pai não gosta mais que eu caminhe pelas ruas sozinha. Não é seguro. Os assaltos e sequestros cresceram junto com os prédios que se instalaram por aqui desde o início do milênio. Não tem mais pique esconde, não sei mais quem são meus vizinhos. Tudo tem sido muito estranho por essas esquinas.

Sonho que esse seja apenas um momento de transição. As ruas desse lugar precisam voltar a falar. Depressa! Se não mais pela risada das crianças, que seja pela irreverência de quem quer que tenha alma. Os verdureiros por aqui não gritam, as tags nas paredes não se fixam, os garis não cantam quando passam. Que gritem, que pichem, que cantem! Que se esculhambe! E que os skatistas nunca nos abandonem. Quem sabe assim, mesmo sem perder o cheiro de talco e whisky, esse bairro volte a pulsar e eu possa voltar a caminhar por ele em paz.

Uma história meia boca que não é da conta de ninguém

Eu adoro ficar em casa. Ler. Dançar na frente do espelho. Fazer bagunça na cozinha. Bodar. Bodar. Bodar. Adoro. O único problema é que, em alguns momentos da minha vida, eu faço isso demais. Por exemplo, agora que acabei de mudar o meu status de estudante para desempregada. Ficar em casa é tipo minha nova função. A galera enlouquecida com o fim de semestre, e eu extasiada com o poder do cochilo pós leitura pós almoço. Depois de duas semanas nesse ritmo, decidi que é hora de visitar museus, procurar umas pautas, correr pelos campos, abraçar paredes grafitadas. Se não fosse um detalhe: segunda-feira eu tiro o siso. Ou seja, nem a academia pré almoço eu vou poder frequentar e minha vida vai ser sorvete, bodar, bodar, açaí, bodar. Queria, então, um final de semana de despedida. Sexta-feira foi ótimo! Mas sábado… Passei o dia chamando todo mundo que eu conheço pra sair comigo (mentira, chamei só meus grupos de amigos do WhatsApp) e não consegui ninguém. Para piorar minha situação, estava passando “Homem Aranha 2” enquanto meus amigos respondiam que tinham mais o que fazer do que sair comigo – ou simplesmente não respondiam. O filme é tão ruim e ser a única sem ter mais o que fazer é tão horrível que eu fiquei deprimida. Meu ânimo só melhorou quando minha irmã ligou avisando que estava vindo para casa e ia alugar uns DVD’s. Agora o sábado ia valer a pena, eu e meu cunhado íamos ver filmes enquanto minha mãe e minha irmã dormiam depois de comerem a maior parte da pipoca. Só que, em uma casa com três televisões de igual qualidade, minha mãe decidiu assistir à novela das nove justamente na única TV que tem aparelho de DVD. Como eu já li, já dancei na frente do espelho, já baguncei a cozinha, e já bodei, bodei, bodei o sábado inteiro, vim fazer a única coisa que me restava: escrever essa ladainha.

Boa noite.

ps. Se você leu esse texto até o fim é porque está numa situação de tédio pior do que a minha, então fica aqui a dica da única coisa interessante que fiz o dia inteiro: assisti aos vídeos do Rafucko. Esse cara definitivamente transforma qualquer bodada em algo útil para a cabeça.

Nunca mais vai ter Copa?

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Copa do Mundo FIFA 2006. Não lembro o dia, nem contra quem o Brasil jogaria, mas lembro que Belo Horizonte se pintou de verde e amarelo. Se pintou em apitos, buzinas, bandeiras, abraços, sorrisos, camisetas e bastante tinta (no rosto, no cabelo, nas ruas). A Av. do Contorno praticamente parada, mas em festa. Logo mais, a seleção brasileira ia entrar em campo. Isso deixava todos enlouquecidamente felizes. Todos, menos um.

Enquanto a cidade sorria, um carro preto parou, por alguns minutos, ao lado do meu. Dentro dele, um rapaz de vinte e poucos anos com a cara amarrada usava óculos escuros e roupa preta. Com o som alto, ele escutava uma música nada festiva, que escapava por seu vidro fechado. Não precisei observar por muito tempo para concluir: ele devia ser a única pessoa infeliz naquela tarde ensolarada. Dentre tanto verde e amarelo (e um pouco de azul), uma gota de preto. Uma gota solitária que nunca saiu da minha cabeça. Como ele podia estar infeliz? Era dia de jogo do Brasil na Copa do Mundo! Era dia de comemorar.

30 de outubro de 2007. Brasil é ratificado pela FIFA como país-sede da Copa do Mundo 2014. Que alegria! Eu e minha mãe pulamos abraçadas, meus vizinhos gritaram pelas janelas – muitas vezes, muito alto – “ÉEEE DO BRASIIIL, PORRA!”, meu pai chegou do trabalho mais sorridente do que de costume, eu imaginei o quanto seríamos felizes em 2014 e me perguntei onde será que o rapaz de preto iria se esconder dessa vez.

Janeiro de 2010. Fui aprovada no vestibular de Comunicação Social da UFMG. Eu só pensava no quanto eu era sortuda. Ia me formar em jornalismo logo antes da Copa do Mundo. Da Copa do Mundo em meu país. Quantas vezes sonhei em um dia ir aos jogos logo ali no Mineirão, comemorar todas as partidas de todos os países, e receber os gringos com muito pão de queijo e um bocado de boa vontade. A vista era melhor do que eu imaginara. Eu ia participar da festa de dentro. Eu ia colaborar para que o mundo recebesse as informações do nosso Carnaval fora de época. Eu e todos os meus colegas teríamos emprego para começar nossas carreiras pós-faculdade. Começaríamos em plena Copa do Mundo no país do futebol. Que maravilha! Trabalhar e celebrar, tudo ao mesmo tempo.

2014. Não sei mais aplaudir esse espetáculo. Receber a FIFA em casa tem sido assustador. Um vizinho que chega botando banca, impondo as suas regras, gastando nosso dinheiro suado guardado no potinho, e ainda acha ruim. O pior disso tudo: a gente sabia que ele era assim e implorou por sua visita. Prometemos mundos e fundos e imaginamos que esse esforço seria recompensado. Esse devia ser o empurrão que faltava para o Brasil ir para a frente.

“A FIFA está chegando e está trazendo o resto do mundo para nos visitar, chega de enrolação, vamos por em prática o que já devia ter sido feito e, de quebra, arranjar emprego para grande parte da nossa população”. Que ilusão! Não compreendo se nos faltou competência ou se foi má vontade. O fato é que o pouco que mudou, ao meu ver, mudou para pior. Tem aeroporto quebrado até hoje, a três semanas da Copa. Imagino que o rapaz de preto já sabia disso tudo, há muito tempo, antes do Brasil ser eleito.

Copa do Mundo FIFA 2014. Onde estarei? Provavelmente cobrindo as manifestações contra a FIFA, enquanto minha família, meus amigos, meus vizinhos, e o mundo inteiro se abraça e grita “GOOOOOOOOOL”. Estarei exercendo minha profissão sem receber um centavo por isso, mas ciente de que é ali que precisam de mim, dando voz ao outro grito do povo. Um grito que tentarão a todo custo calar para não assustar as visitas. Um grito ao qual eu não dava tanta atenção há quatro anos atrás, mas que, como jornalista recém-formada, percebo ser meu papel ajudar a ecoar.

Ciente e orgulhosa dos meus deveres como jornalista e como cidadã brasileira, uma lágrima escorre no meu peito da mesma forma que aquele carro preto tentava atravessar a Av. do Contorno em 2006. Será que rompi com a FIFA de vez? Será que nunca mais comemorarei um gol da seleção brasileira? Eu gosto de futebol. Eu amo o meu país. Eu adoro comemorar. Será que essas três paixões, algum dia, se encontrarão novamente – e confortavelmente – em meu peito? Espero um dia ter razões para que, sim, os jogos da seleção brasileira voltem a ser motivo de celebração e orgulho. No país, no mundo e em mim.

O WhatsApp está me afastando dos meus amigos

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Em janeiro de 2012 eu realizei um sonho: ter WhatsApp. Finalmente eu poderia conversar de graça pelo celular. Com os grupos, matei uma saudade antiga: a dos chats em grupo do MSN. Eles foram a melhor parte da minha adolescência. Eu passava as madrugadas rindo das bobagens provocadas pela falta de sono às 4 da manhã. Também foi nesses chats que me apresentaram algumas das minhas bandas favoritas, bem como aconselhei muitos corações partidos e tive, várias vezes, o meu coração consolado.

Lá em 2012, os grupos do WhatsApp funcionavam quase assim como os do MSN. A diferença é que a conversa rolava a qualquer hora do dia. Eles eram o meu consolo por não poder ver a maior parte dos meus amigos todos os dias. Eu podia estar com eles mesmo sem estar e a gente continuava se conhecendo diariamente. Era até chato quando alguém ainda não tinha smartphone. A pessoa ficava de fora de todas as decisões do grupo e era sempre a última a saber que fulano de tal passou no concurso, conheceu o amor da vida ou estava há uma semana sem falar com os pais.

No WhatsApp de 2012, os amigos conversavam. Falavam e ouviam. Aconselhavam. Comemoravam. Conviviam. Hoje, no WhatsApp de 2014, em que todos os meus amigos estão finalmente conectados, sinto-me cada vez mais sozinha em meio a tanto blá blá blá. Uns só aparecem para pedir conselhos e falar da própria vida (a esses dei o apelido de “egochatos”), outros parecem ter seus preferidos para interagir e só respondem quando eles aparecem. É muito comum o grupo estar parado há 12 horas, então você fala alguma coisa e, um minuto depois, alguém puxa um assunto completamente diferente ignorando e fazendo todos ignorarem o que foi dito por você. E isso não é pessoal. Acontece com todo mundo.

Ainda – raramente – acontecem algumas conversas como as de 2 anos atrás. Todo mundo interagindo, se ouvindo, se gostando. Tento responder a todos e fico triste pra danar quando entro e tem 200 mensagens não lidas por eu não ter participado da conversa. Mas, na maioria das vezes, me arrependo de ter dito qualquer coisa. Já que, na maioria das vezes, quase ninguém dá bola. Uma fala entra depois da outra e ninguém se ouve.

A sensação que me dá, quando a gente finalmente se encontra, é de que não nos conhecemos mais. E talvez não se conheça mesmo. Pelo menos ao vivo fica claro que a gente ainda se gosta de verdade e que esse amor tem grandes chances de durar para sempre. Mesmo que no WhatsApp eu não goste mais tanto de vocês.