Muito bom isso de sentir o agora

Eu gosto assim. Desse jeito de agora. Com minha bochecha direita encostada no seu peito esquerdo. Eu gosto do cheirinho que tem a sua nuca, mesmo quando o banho já está quase vencendo. Eu gosto assim, exatamente assim. Com sua mão esquerda na minha cintura, enquanto a minha mão esquerda mexe na sua orelha direita.

É raro esse sentimento de perceber que estamos exatamente onde gostaríamos de estar. Em geral, ficamos confortáveis com os espaços e situações que ocupamos na nossa rotina. Podem não ser os melhores do mundo, mas a vida segue e a gente não raciocina sobre aquilo. Mas momentos como este, agora, não são corriqueiros. “Caralho, era exatamente aqui que eu queria estar” é algo que eu só sinto quando estou aqui, no seu peito esquerdo. Ou quando consigo reunir mais de 15 amigos no mesmo evento, é verdade.

É… Acho que comparar a alegria que toma conta da parte mais quentinha do meu coração quando sinto a sua pele grudada na minha com a felicidade que bate quando reúno a minha galera pode ser a coisa mais romântica que eu já defini na vida. Mesmo que não haja romance nenhum nisto aqui. Mesmo que seja só nós dois, deitados olhando para o teto, sem pensar que é amor, mas sabendo que é uma delícia independentemente do que seja.

Faz bem te ter aqui. Debaixo da mesma coberta que eu, com seu braço esquerdo em volta de mim todinha, enquanto o meu braço direito fica para trás para impedir que a gente se sufoque. Eu prefiro assim. Com meu nariz encostando na sua nuca e sentindo o seu cheiro de sempre. Mesmo que dure apenas cinco minutos. Nem que seja pela última vez.

Não preciso que você esteja em casa para que eu me sinta novamente ao seu lado

Processed with VSCOcam with f2 preset

Eram cinco da manhã, eu não fazia a menor ideia do que estava fazendo, mas fiz. Entrei no seu apartamento como quem entra na casa dos pais que moram em outra cidade. Em momento nenhum me senti uma intrusa. Afinal, mesmo oito meses após o fim do nosso namoro, eu ainda tinha a chave. Bastou destrancar as fechaduras e, voilá, seu universo estava de volta à minha frente.

A parede da sala continuava verde esmeralda do jeitinho que a gente pintou. Seu sofá se manteve com o mesmo tecido desgastado de sempre. Suas revistas espalhadas pela mesa de centro, aquele poster minimalista do Homem Aranha pregado perto da cozinha, seus sapatos usados amontoados no canto esquerdo à porta de entrada para não contaminar o resto do apartamento com a sujeira da rua. Tudo continuava igual.

Você não estava em casa, mas isso não me pareceu ser um problema. Tomei um copo d’água, escovei os dentes com a sua escova e me joguei na sua cama. Na cama que quase foi nossa, que praticamente tem a marca do meu corpo no lado direito do colchão por termos passado tanto tempo deitados nela. Adormeci.

Na manhã seguinte, acordei com um sorriso no rosto. Alegria de quem acorda com cheiro de café espalhado pela casa, apesar de não ter aroma algum realmente vindo da cozinha. Só aquele cheiro de sempre pairando pelo ar, aquele cheiro todo seu. Bálsamo. O meu cheiro favorito no mundo todo durante seis anos. Quer dizer, talvez ele ainda seja meu predileto até hoje. Nunca inspirei nada tão alegre.

Olhei ao meu redor, observei cada canto do seu quarto e fiquei pensando sobre nós. Não sei como passei tanto tempo sem contato com sua vida. Notícias suas sempre chegam, é claro. Acho que minha lista de amizades não se renovou muito desde o nosso término. Parece que a sua também não. Alguém sempre comenta que esteve com você “outro dia”. Só eu nunca mais vi você.

Por quê? Não entendo o motivo de estarmos tão afastados. Nós éramos deliciosamente compatíveis. Nosso fim não foi dramático. Você decidiu que precisava focar no fim da sua dissertação de mestrado. Eu decidi que não tinha mais paciência para assistir Netflix quase todas as noites do final de semana. Sentia falta do barulho das pessoas conversando no bar, de dançar até minhas pernas bambearem, de observar o dia chegando enquanto a cidade se iluminava.

Você precisava ficar mais quieto. Isso eu compreendi. Eu só não quis ficar te assistindo concentrado no computador, quando meu corpo e minha mente estavam cheios de energias ansiosas para serem dispersas pelo mundo. Eu precisava vivenciar esse meu momento. Você precisava se focar no seu. Decidimos que o jeito mais tranquilo disso não nos desgastar era pararmos de nos ver. E paramos.

Sua dissertação foi um sucesso, ouvi dizer. Parabéns. Muitos parabéns! Não mandei recado, presente ou mensagem, porque, assim que fiquei sabendo, minha vontade foi de vir correndo até seu apartamento. Quis te encher de beijos, dizer “eu sabia!”, chorar de felicidade, te abraçar tão apertado, mas tão apertado, que eu nunca mais ia querer soltar. Então não vim.

Guardei minhas vontades de um jeito que não fui capaz de armazenar os desejos que senti 5 meses antes, quando te deixei ali, parado em frente à porta aberta desse apartamento, me olhando como se nunca mais fosse me ver, mas com um semblante de quem preferia me contemplar sempre quando quisesse. Quase o tempo todo, como sempre foi. Saí, não olhei para trás. Porém, essa imagem nunca saiu da minha cabeça.

Enfim, cá estou, às 14 horas e quarenta e três minutos, do domingo de hoje, escrevendo esta carta de dentro da sua cozinha enquanto tomo uma caneca de café com um pouquinho de leite. (A propósito, estou usando aquela azul com desenhos de nuvens que sempre me encantou por sua imensidão)

Não sei onde você está, com quem passou a noite e quais atividades você normalmente tem feito aos domingos à tarde. Isso não importa. O que eu sei é que a porta se manteve aberta para mim. Você não trocou a fechadura e seu apartamento continua tendo cara de nosso — o meu também não perdeu muito esse aspecto. Talvez as coisas entre nós nunca mais sejam como foram, talvez elas nunca tenham deixado de ser.

Eu continuo a mesma menina que gosta de ler com a perna enroscada na sua, aprecia flores encontradas na calçada e sente saudades de morar em Madrid. Pelo que comentam sem prestar muita atenção na minha presença, você não abandonou o hábito de preparar, todas as sextas-feiras, café da manhã para o porteiro, e continua adorando comprar CDs dos seus artistas favoritos, mesmo não tendo aparelho para reproduzi-los.

Até onde eu sei, são grandes as chances de que a gente continue sendo inebriante compatíveis. Seria perfeito se você me desse a chance de conferir se isso é verdade. A chave do meu apartamento você ainda tem, notei que continua dependurada no mesmo lugar na sala, então é só aparecer por lá quando der na telha. Caso sinta vontade.

Estarei involuntariamente te esperando.

Fora do Ninho: agora eu tenho canal no Youtube sobre minha vida em São Paulo

Processed with VSCOcam with f2 preset

A vida aqui em Sampa tá uma loucura. Tanto que nem tempo para escrever meus textos pessoas tenho tido tempo. É só matéria, notinha, vídeo… Daqui a pouco eu volto a abrir meu coração por aqui, não se preocupem.

Pelo menos tenho uma novidade! Comecei um canal no Youtube. Com apoio do site que eu trabalho, a Elástica, eu tenho produzido alguns vídeos sobre sair da casa dos pais e arrumar o próprio canto. Para acompanhar, é só entrar no blog que eu mantenho por lá.

O meu último vídeo foi sobre vizinhos. Foi o mais a cara do PVSC que eu publiquei, por isso queria compartilhá-lo com vocês. Tem mensagem importante nele!

Gostou? Se inscreve no canal que eu vou tentar atualizá-lo sempre. <3

Até em breve.

Eu vou te amar para sempre, Orkut

orkut

Entrei ontem correndo no Orkut para dar print nos meus depoimentos e, depois, custei a ter coragem de sair. Fiquei parada olhando para aqueles depoimentos secretos, os quais eu não podia aceitar porque continham desabafo do ex, fofoca da amiga, endereço da colega de sala da escola. Eles, agora, nunca mais serão aceitos. Nunca mesmo. Definitivamente.

Passeei, então, pelas comunidades de amigos – aquelas que não ficarão eternizadas no genial Arquivo de Comunidades que a página virou. Quanta bobagem a gente escrevia! E como a gente era feliz! Brincadeiras sem sentido, coleções de frases célebres, desesperos pré-românticos e uma lista de confissões pós-alcóolicas (enquanto aprendíamos a beber). Não tinha Facebook, não tinha Whatsapp e as conversas de grupo do MSN já tinham perdido a graça. Tudo era compartilhado ali, naqueles tópicos tão bem organizados que os grupos do Facebook nunca conseguiram superar. Agora está tudo registrado em lugar nenhum. O melhor arquivo sobre a adolescência de milhões de brasileiros nascidos nos anos 1990, agora, não existe mais.

Enquanto salvava os depoimentos, me senti a menina mais amada do mundo. O Orkut estimulava as declarações de amor e meus amigos se aproveitavam disso com a maior paixão do mundo. De textos enormes à frases super curtas que até hoje fazem todo o sentido necessário para ser feliz, eu era presenteada semanalmente – algumas vezes diariamente – com todo tipo de demonstração de afeto. Vai ver é por isso eu tenho me sentido abandonada às vezes: Whatsapp não faz carinho.

Entrei no Orkut quando ainda precisava de convite e só podíamos ter um álbum com 12 fotos. Vi ele crescendo aos poucos, enquanto ele me acompanhava crescendo bem depressa. O primeiro caso, o primeiro beijo, o primeiro porre, o primeiro grande amor – e o último também. As grandes amizades que até hoje me acompanham – de BH e do Paraná -, outras que surgiram e sumiram por ali, antes mesmo dos brasileiros começarem a migrar para o Facebook. O encontro com a grande ídola, e com os amigos colecionados por conta dela. A primeira viagem internacional, as primeiras fotos de qualidade, os primeiros textos sentimentalóides…

Tanta coisa, mas tanta, tanta coisa, que eu fiquei com medo de perder tudo assim que fechasse a aba do Orkut pela última vez. Foi como me despedir de um grande amigo, que eu visitava só de vez em quando para relembrar os bons momentos, mas que ainda amo do fundo do meu coração. E despedidas nunca são fáceis, ainda mais de alguém que nos fez tão feliz.

Por fim fechei a maldita aba. Não como um ato final, como se me despedisse de tudo, mas com a sabedoria de que a vida tem que continuar, mesmo que as plataformas, formas e amoras mudem. As memórias ficam e a saudade nos lembra da nossa enorme capacidade de ser feliz.

Vai em paz, querido Orkut. Viverás eternamente em nossos corações.

orkut

Eu adoro fazer aniversário

niver

Quando pequena descobri que eu tinha nascido no mesmo dia do meu aniversário. Eu fiquei maravilhada. Como eu podia ter nascido exatamente no dia mais legal de todos os dias existentes? A única coisa que me chateava era quando, no dia seguinte da minha festa de aniversário, minha mãe respondia que ainda faltava um ano para o próximo. Um ano? Um ano é tempo demais, mamãe.

Agora, vinte e três aniversários (exatamente no mesmo dia que eu nasci) depois, eu ainda fico abaladíssima em ter que esperar mais 365 dias para soprar as velinhas e receber abraços especialmente apertados. Um ano parece não passar nunca.

E por que aniversariar é tão bom? Eis a minha lista de motivos:

– Minha irmã e minha mãe invadem o meu quarto meia noite para entregarem abraços e colarem um sorriso na minha cara que durará o dia inteiro;

– O dia fica com cara de parque de diversões e a água com gosto de felicidade;

– O moço do correio sempre aparece com algumas flores enviadas por gente que quer me ver muito feliz mesmo não podendo me dar um abraço pessoalmente e elas enfeitam o meu quarto por semanas;

– Eu consigo reunir minhas pessoas preferidas na mesma hora, no mesmo local, comendo os mesmos docinhos e compartilhando as mesmas danças (eu adoro ver minhas galeras interagindo);

– Um monte de gente bacana pensa em mim e me deseja um tantão de sentimentos e acontecimentos extremamente deliciosos do fundo do coração;

– Amigos queridos que não vejo há muito tempo aparecem para me lembrar que nós vamos ser importantes um na vida do outro pelo resto de nossas vidas;

– Minha mini biblioteca pessoal, minha maleta de maquiagem e meu pseudo armário são atualizados por amigos e familiares de extremo bom gosto;

– Eu ganho um monte de cartas e cartões mágicos que me farão viajar no tempo daqui há 20 anos quando eu abrir minhas caixas de cartas;

– Atualizo as minhas fotos usando uma roupa linda, abraçando queridos maravilhosos, e exibindo um sorriso do tamanho do meu coração (para também viajar no tempo daqui há 5, 10, 30 anos);

– Percebo que se tem tantas pessoas engajadas em me fazer sentir especial nesse dia é porque eu devo ser especial para elas de alguma maneira. E ser especial para alguém é bonito demais;

– Etcetera ………………..

Obrigada humanidade por adorar celebrações. Eu também adoro. Obrigada meus pais pela vida. Obrigada o mundo todo por me fazer querer viver cada dia mais. Obrigada a todos que fazem da minha vida uma das vidas mais bem vividas de toda a história das vidas e por me darem tantos motivos para amar comemorar o bendito dia em que eu nasci. Ano que vem a gente se reúne de novo. Enquanto isso, comemoro emocionadíssima o dia de vocês, os próximos 364 melhores dias da vida que só perdem para 30 de agosto.

38

As melhores pessoas do mundo reunidas  na mesma hora, no mesmo local, comendo os mesmos docinhos e compartilhando as mesmas danças no dia 30 de agosto <3

A cama da Tamires é o melhor lugar de Londres

camadatamires

Se me perguntarem em qual lugar eu passei mais tempo quando morei em Londres, vou responder sem sombra de dúvidas: na cama da Tamires. Eram finais de semanas inteiros passados naqueles lençóis, dormindo apertadas, comendo donuts, enrolando para a aula.

Quando eu cheguei em Londres, morei com uma família, em Brixton, sem um pingo de hospitalidade. Meu quarto tinha 2m²: ou eu ficava deitada, ou eu entrava dentro do armário. Depois me trocaram para uma sala macabra cheia de porta retratos antigos, onde chorei de medo dos riots de 2011 depois de ver a vizinhança toda quebrada.

Acabado o tempo na casa de família – um mês jogando o jantar fora porque a host mother colocava feijão enlatado doce por cima dos congelados e do purê de batata, estragando aquilo tudo que já era muito ruim – me mudei para o sofá de uma amiga polonesa da amiga da minha irmã. Acomodação temporária grat’s. Só que a amiga polonesa foi viajar e me largou dividindo o quarto com o namorado polonês dela que não gostava de falar inglês. Foram mais duas semanas chegando em casa só na hora de dormir e saindo cedinho para não atrapalhar ninguém.

Aí finalmente encontrei minha própria casa: uma antiguidade de quatro quartos, dois banheiros, uma cozinha imunda e 12 pessoas morando juntas. Pelo menos, era bem localizada: Portobello Road {to the sound of reggae}. Eu dividia o quarto com uma italiana lésbica virgem de 17 anos que queria ser atriz da Broadway e passava dia e noite assistindo Glee pelo computador e com outra italiana que falava menos inglês que o polonês. Lá aprendi a não acordar com luz na cara e barulho alheio e que minha bagunça definitivamente cabe em 2m². Meu único amigo de verdade era um português simpático – apesar de tentar forçar a pose de durão – que às vezes se arriscava a fazer jantares deliciosos na nossa cozinha frequentada por ratos. Fiz xixi sem sentar na privada durante os quatro meses que lá morei.

No meio disso tudo, conheci a Tamires. Eu não queria ter amigos brasileiros, mas ela adorava dubstep e cachorro quente de rua, não deu para fugir. Ainda mais depois que obrigamos nossa amiga russa a roubar uma caneca do Starbucks como souvenir. Éramos cúmplices em um crime internacional, como abandoná-la? Já na nossa primeira saída, dormi na casa dela. Era um quarto montado em uma garagem, nada muito diferente das bagunças que eu estava acostumada. Mas da segunda vez que voltamos de festa juntas… Oh Lord! QUE CAMA!

Tamires agora ocupava um quarto de verdade todinho só para ela. Um quarto de fêmeazinha emancipada com cama enorme de casal, escrivaninha e um armário monstro. Além disso, esse quarto fazia parte de uma casa com cara de casa! Quintal gramado com macieiras, uma cozinha minimamente bem cuidada vigiada por seus housemates turcos, banheiros sentáveis… Um paraíso! A Maíra – colega da Tamires e, mais tarde, minha roomie -, assim como eu, morava em um cafofo e também se apaixonou por aquele lugar que só tinha um defeito: era afastado de tudo. Ficava em Lewisham, no fim do mundo. Mais uma desculpa para não saírmos de lá. Se tínhamos chegado tão longe, para que irmos embora?

Uma vez na cama da Tamires, não levantávamos. Teve um final de semana que passamos dois dias deitadas, as três, nos revezando para ir ao banheiro ou cozinhar jaked potatoes. No Halloween, arranjamos espaço para a Aline e dividimos a cama por quatro. Quando era dia de semana, sempre combinávamos de ir comer British Breakfast perto do metrô, mas não conseguíamos levantar. Perdíamos o café da manhã e a aula. Até que eu e a Maíra fomos morar juntas e a Tamires achou que nunca mais voltaríamos à sua casa. Até parece, aquela cama era o nosso verdadeiro lar. Nosso único aconchego na cidade que é um mundo.

O (des)encontro perfeito

badAlgumas pessoas nos são suficiente por três dias, assim como você na minha vida. Não por cansaço, mas porque tem felicidade que cumpre seu ciclo muito rápido.  Duas noites e dois dias. Noites longas, dias curtos. Muitos passos e salgadinhos da lanchonete da esquina. Uma alegria enorme em te ter no mesmo colchão, no mesmo chuveiro, na mesma estação. Uma alegria de três dias, que não faz falta, mas fez história. História de dois pedaços que nunca mais se encontrarão. Pelo menos, não no mesmo endereço. Nem na mesma sintonia.

Bichos soltos do amor

bichossoltosdoamor

Tenho um amigo que chama cada amiga por um título especial: rainha, duquesa, musa, diva… Só eu e a Caca que ele nunca conseguiu encaixar na nobreza. Vai ver é porque não usamos salto alto, nem gostamos de pentear o cabelo. Vai ver tem a ver com uma porção de outras coisas e nenhuma delas é essa. Vai saber.

Outra amiga, querendo nos consolar por não termos berço de ouro, disse que somos as bichos soltos do amor. Porra. Bichos soltos do amor? Cadê o glamour nisso? Cabe nem um pouquinho de finesse dentro da gente? Nem um fiozinho? Vai ver que não. Ou melhor, vai ver que demais.

Pensei melhor e percebi alegria nessa definição. Tem coisa mais linda, mais delicada, mais encantada que esse tal de amor? Tem não. E viver de amar o mundo, não é o combustível mais nobre de todos? Vai ver esse trem de bicho solto do amor tem mais a ver com a gente mesmo. Vai ver não. É isso mesmo. Vem daí a nossa riqueza.

De uma sala cheia, a gente quer todos os pensamentos. Queremos conhecer cada alma, nos encantar por cada pessoa. Nós adoramos amar gente nova. E amar gente velha. E amar esquinas. E amar saudades. A gente ama até aquele amor que doeu de tudo, mas nos foi história. Adoramos amar quem nunca nos amou e amar quem vai nos amar para sempre. Amamos ideias, amamos opiniões. Amamos conflitos, amamos edredom, amamos cabelo cacheado. Bebemos um copo cheio de amor todos os dias pela manhã e, quando o copo está seco, até passamos mal. Fechamos a cara. Azedamos o café. Sem amor, a gente não funciona. Sem dar amor, a gente endurece. Do amor viemos, nele vivemos e, por causa dele, jamais morreremos.

A gente se preocupa mais em dançar do que em tapar a calcinha, preferimos dividir um copo de cerveja com um estranho que ficar sem prosear, adoramos experimentar comidas diferentes em cidades diferentes feitas por pessoas diferentes. O batom borra, o perfume perde espaço para o suor, e nosso sorriso só aumenta. A gente gosta de viver até a última gota. Até a última pessoa. Até acenderem a luz.

Ô coisa boa ser assim. Cabelos ao vento e coração cheio de vontade de conhecer e compartilhar. Tiramos a sorte grande por sermos, por natureza e sem precisar de coroação, bichos soltos do amor. Nosso berço é de confetes.

O tempo de Kika

kika2Eu chego em casa, tranco a porta enquanto dou ‘boa noite’ e em três passadas monstras atravesso a sala, deixo a bolsa no quarto, já vou para o próximo item da lista: tomar banho, comer, terminar um trabalho, um projeto, um engasgo, um namoro. Ela ainda termina de processar que estou – ou teria sido só um vulto rasgando a casa?

‘Oi, Cacá! Que bom você chegou. Me dê um beijo?’. A frase de Kika flutua no ar. Voltar na sala, ganhar um abraço apertado, um beijo melado e dar um outro beijo leva segundos – os mesmos que gasto lendo qualquer besteira no celular. Minha cabeça, vez fervida, vez em outra galáxia, ainda hesita em se jogar no corredor – burra que é. Os segundos de Kika são de outra ordem. Não-feitos para o homem contar.

Desde que Érica é Érica, tudo funciona dentro de um sistema. Acordar entre 8h e 9h, tomar café, trocar de roupa, arrumar a cama, jogar paciência e outros jogos. Almoço, Video Show, Vale a Pena Ver De Novo, banho – sempre, sempre antes que anoiteça. Chamar meu pai quando o Jornal Nacional começa, mesmo que ele não tenha feito nada com esse convite nos últimos tantos meses. Lavar a calcinha e pendurar no varal, passar os cremes e óleos e pomadas, perguntar se ela está cheirosa depois do banho e se quem ligou mandou um beijo para ela. Me perguntar se estou bem e como foi o dia. Tudo regrado, ensaiado e diariamente encenado – com um rigor e uma disciplina que meus compromissos jamais viram.

Ainda assim, há tempo para o beijo fora de hora. Sempre. Há exceção quando no meio da novela eu resolvo chamar para o parque e ela dá uma última olhada para a TV antes de me sorrir um ‘é claro’. Há disposição para a caminhada a qualquer tempo, mesmo que pareça que vai chover lá fora.

O tempo se recusa a passar para ela como para mim. Uma criança eternizada dentro de um corpo que insiste em passar dos 40 – mas, mais que isso, uma existência que caminha sobre os minutos como que sobre flores e não pedras. Ela não se debate, não agoniza, não desespera. Só é, em simplicidade. Em harmonia que ignora os ponteiros, mesmo jurando que só acorda antes das 9h e que enquanto a novela das oito não acabar, ainda é cedo. O banho é um ritual budista e o sono é templo sagrado. Mas nenhum abraço e amor e afeto atrasa.

O beijo da Kika dura mais que o de muito casal recém-apaixonado. O olhar de muitos graus de miopia dela vê na gente o que nem mãe e terapeuta vêem. Ela sabe quando a gente precisa de carinho e de uma boa dose de amor não-cronometrado – porque esse tempo é sempre. E tanto. Igual ao coração dela.

Carolina, meu amor

carol

De tanto você pedir, eu finalmente nasci. A Buty tinha o Rafa, a Nati tinha a Lu, e só você, de todas as primas, não uma “rirmãzinha”. Fez bico, fez greve, fez de tudo. Não ia sossegar enquanto não tivesse a sua própria pirralha. Conseguiu. De tanto você pedir, eu vim. Quatro anos e oito meses depois. Toda gorducha. Cheguei com um patins amarelo de quatro rodas para te presentear. Você ficou encantada. Seus olhos pareciam duas jabuticabas e me olhavam com curiosidade. Lá estava eu, uma “rirmã” todinha só para você.

Eu não me lembro de nada disso. Porém a mamãe lembra e sempre me contava essa história com muita alegria. Você gostava de mim antes mesmo de eu nascer. Você sempre me quis. Talvez seja por isso que me trate como se fosse sua filha. Até hoje. E eu reclamo, reclamo, reclamo, mas isso faz parte do seu amor de irmã mais velha, eu sei. De irmã que dividiu os pais, antes só seus, comigo. E dividiu os brinquedos, o espaço no sofá, os primos, os avós e até a babá. E divide até hoje. Roupa, banheiro, família… Só o sofá que, hoje em dia, você gosta de ocupar todo sozinha. Mete a cabeça no meu colo, o pé no colo do papai, e a mamãe fica apertadinha no canto esquerdo. Um sofá enorme, a seu dispor. E a gente reclama, mesmo adorando ter sua companhia enquanto assistimos novela.

Quando crianças, você me irritava – algumas vezes de propósito, outras vezes sem querer – e eu partia para cima. Compensava minha falta de argumentos distribuindo tapas e socos em você. Você nunca me bateu de volta. Eu lembro que fiquei muito assustada quando percebi isso. Mesmo eu te batendo quase diariamente, você nunca revidou. Adorava me provocar, mas não tinha a intenção de me machucar. Nunca teve. Anos mais tarde, voltando de uma cachoeira, você disse para o seu namorado “ajuda a Clara a subir, prefiro ela fora de perigo do que eu”. Mais uma vez me constrangi pela sua proteção. Eu também não queria você em perigo. Também trocaria a minha vida pela sua. Eu também te amo a esse ponto.

Te ver chorando após terminar o namoro no Ensino Médio foi uma das piores sensações que senti na minha vida. Você no banheiro, encharcada de água e choro. Eu senti seu desespero dentro de mim. Quis transformar a sua dor em uma paz intensa. Mas não consegui. Fiquei abraçada te ouvindo chorar. Tinha certeza que vocês voltariam. Não voltaram. Desacreditei no amor romântico pela primeira vez. Entretanto, no dia em que eu terminei meu último relacionamento, você me contou que estava namorando com o Gus. E, desde então, vocês vem me ensinando que esse tipo de amor existe sim. Que ele é maior do que se imagina. Que ele é bom. A paz que eu quis tanto que preenchesse o seu coração anos atrás, finalmente tomou conta de você por inteiro. Para sempre. E essa é uma das minhas maiores alegrias.

Já o nosso amor, não é tão tranquilo. São 22 anos e cinco meses de convivência. É muita história, muita saudade, muito medo de te perder. Você viveu quase cinco anos sem mim. Eu nunca existi sem você. Comecei a existir dentro da sua vontade. Sou metade você desde sempre. Mesmo quando morou Londres, mesmo quando eu te imitei, você esteve ao meu lado. Agora você é adulta e eu – apesar de fugir – já sou quase uma. Algumas coisas vão mudar. Você vai se casar, eu quero morar fora, talvez me case, o papai e a mamãe vão morrer de saudades. E eu também. Vamos ter filhos. Nossas próprias famílias. Os Natais vão ser complicados. Tentaremos almoçar juntos em alguns domingos, talvez eu te mande e-mails diários e você continue me ligando após o expediente, com a voz mansa e uma falta de assunto danada, mas feliz em estar ouvindo a minha voz.

A verdade é que seremos para sempre irmãs, algumas pessoas continuarão a confundir nossos nomes e datas de aniversário, outras vão continuar se referindo a mim como “a irmã da Carol Novais”. E eu vou ter muito orgulho disso tudo, como sempre tive. Eu amo você e escrevo este texto para que você nunca duvide disso. E para que se lembre de tudo que fomos, de tudo que somos e de tudo que ainda vamos ser. Obrigada por ter me querido. Também te quero muito. Feliz 27º aniversário.