quantos filmes sobre natal existem e por quê não estamos falando mal deles

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a praça da liberdade tinha algo de alienígena com a noite e com todas as luzes. eu não tinha cachorro nem filho nem idoso pra desfilar. eu não tinha par. na ida, ainda era dia e consegui desviar – dos sorrisos, das fezes, dos brinquedos, da água, de ser atropelada pelo carrinho de pipoca ou de bebê ou pelo trenzinho. à noite, num segundo pensar, a alienígena era eu. não se deve fumar na frente das crianças. não se deve dar esse desgosto aos mais velhos. não se deve correr assim em tempos de férias. não se deve fumar.

uma faixa de pedestre e informações demais ao meu redor. família, natal, ano novo, cachorro quente, bumerangue de laser. só mais uma faixa de pedestre e eu estaria livre.

“você tá esperando alguém?”, ela perguntou. “não”, respondi. “e você?”, eu deveria ter perguntado. “não se deve ser assim tão sozinha”, ela deve ter pensado.

“moça, é que faz muito tempo que eu não fico sozinha, sem primo, sem coca-cola, sem cloro, sabe? e eu só tô gostando”, eu quis falar. mas enchi a boca de rúcula e brie e mate e brownie. e a cabeça de pensar. será que eu e minhas amigas nos encontraremos na meia idade no cinema num domingo de fim de ano? será que eu vou ser a única sem plástica? a gente vai ter bom humor? ou bom humor-forçado? uma delas inventava uma história para me justificar. “ela deve morar sozinha e acabou de chegar de viagem. de certo visitava os pais”.

a moça ao lado continuava querendo conversar. tomou sua primeira budweiser. 5,5% de álcool, me contou.

não se deve fumar.