Esse bairro precisa ser curado

belves

Eu cresci em um bairro que parecia cidade do interior. Eram poucos os carros nas ruas, a gente se escondia em lote vago no pique esconde e os vizinhos sempre compravam nossas bijus de miçanga quando batíamos em suas portas. Não tinha perigo, era tudo muito tranquilo. Tão tranquilo que nossa criatividade era o que agitava os domingos. Cestas de lixo viravam cestas de basquete, materiais de construção abandonados viravam marcas para quadra de queimada e minha mãe sempre precisava limpar meu joelho sangrando no fim da tarde. Era uma delícia!

Eu cresci. O meu bairro também. Hoje, Range Rovers disputam o asfalto com corredores de fim de tarde que não dão seta, comerciantes vendem o açaí mais caro da cidade e meu pai não gosta mais que eu caminhe pelas ruas sozinha. Não é seguro. Os assaltos e sequestros cresceram junto com os prédios que se instalaram por aqui desde o início do milênio. Não tem mais pique esconde, não sei mais quem são meus vizinhos. Tudo tem sido muito estranho por essas esquinas.

Sonho que esse seja apenas um momento de transição. As ruas desse lugar precisam voltar a falar. Depressa! Se não mais pela risada das crianças, que seja pela irreverência de quem quer que tenha alma. Os verdureiros por aqui não gritam, as tags nas paredes não se fixam, os garis não cantam quando passam. Que gritem, que pichem, que cantem! Que se esculhambe! E que os skatistas nunca nos abandonem. Quem sabe assim, mesmo sem perder o cheiro de talco e whisky, esse bairro volte a pulsar e eu possa voltar a caminhar por ele em paz.