O dia em que conversei com Marina Abramović

marina

Era sábado, chovia muito e nós estávamos meio decepcionados. Eu e mais três amigos fomos ao Sesc Pompéia na esperança de ver uma exposição incrível da Marina Abramović, a sérvia rainha das performances, uma das artistas mais incrivelmente intensas dos últimos cinquenta anos, e nos deparamos com um copilado de artigos usados em exposições anteriores. Nada de novo. A mesa da exposição do MoMa, os artefatos utilizados nos 12 dias em que ela, em pessoa, ficou exposta na Sean Kelly Gallery, alguns vídeos de performances antigas com seu ex-companheiro Ulay, objetos criados por ela para se conectar consigo mesma e com as energias do universo…

Não que aquilo tudo não fosse interessante. Era. Estávamos mais próximos que nunca de Marina Abramović. Aqueles objetos transmitiam sua força interna, seu encantamento pelo mundo e sua maneira fascinante de se ser. Se quiséssemos, poderíamos até nos inscrever para passarmos duas horas praticando o Método Abramović e explorar os limites do nosso corpo e da nossa mente. No entanto, meu amigo Pedro, que é quase tão intenso quanto Marina, queria mais. Ele queria vivenciar algo inédito vindo da artista. E, assim, nos fez querer também.

Sedentos de mais Abramović, nos preparávamos para ir embora insatisfeitos, quando o Pedro decidiu que precisava tirar uma foto do prédio do Sesc Pompéia – um clássico arquitetônico de Lina Bo Bardi – para seu Instagram. À caminho do melhor ângulo para a foto, encontramos um galpão recheado de ação. Ali estavam acontecendo algumas performances de artistas brasileiros convidados e preparados por Marina – o que saberíamos se tivéssemos lido o livreto da exposição antes de decidir partir.

Entramos no galpão. Eu fui atraída pelo som de marteladas para uma sala cheia de tinta e caos, enquanto meus amigos foram parar dentro de uma sala de reunião. Poucos minutos depois, eu os encontrei. Estavam atônitos. Marina Abramović estava ali, ela mesma, de corpo presente, conversando com alguns performistas. Algum desentendimento estava rolando entre a sérvia e os brasileiros. Eles não se importavam dessa discussão ter platéia. Nos não conseguíamos compreender qual era o embate, mas percebemos quando Marina se cansou, deu sua palavra final e seguiu para outra sala. Fomos atrás.

Enquanto recuperávamos a respiração e decidíamos se íamos embora antes ou depois de pedir para tirar uma foto com ela, Marina se aproximou de nós e disse: “c’mon kids, let’s help me with these chairs”. Isso mesmo: Marina Abramović nos pediu ajuda. Ficamos em êxtase e, depois de de organizarmos as cadeiras para um performance que aconteceria naquela sala em breve, tomamos coragem. “Can we take picture with you?”, perguntou o Otávio, o mais cara de pau entre nós. “Let’s talk! It’s better than a silly picture”, respondeu a artista.

E foi assim que, incrédulos, começamos a conversar com uma das artistas mais respeitadas do mundo. Ela colocou seus braços ao nosso redor e formamos um minicírculo de conversa, enquanto centenas visitavam sua exposição em outro pavilhão sem fazer ideia de que ela, o motivo de estarem no Sesc Pompéia naquele sábado chuvoso, também estava por ali.

Por pouco mais de dez minutos, tivemos espontaneamente a atenção de Marina Abramović. Ela nos contou que adora pão de queijo – sempre que vem ao Brasil, compra alguns congelados para levar para casa -, mas sua comida favorita é a tailandesa. A forma como os sabores e aromas foram descritos por ela demonstraram que a artista realmente gosta de comer. O que me deixou ainda mais espantada por sua capacidade de se manter em jejum por vários dias em suas performances.

Disse que, apesar de trabalhar em várias das cidades mais incríveis do mundo, gosta mais da natureza. Garantiu que não ama mais o Ulay, pelo contrário, o odeia. “He left me and had children with another woman, how could I still love him?”, disse com a língua afiada, porém com certa leveza no olhar. Sobre a discussão na sala ao lado, também não teve reservas em falar. Os artistas não queriam assinar o contrato para permanecerem em performance por oito horas e, para ela, ou era assim, ou deveriam ir embora.

Foi uma conversa rápida, mas sem nenhuma pressa. Ela sorriu o tempo todo. Nos sorrimos ainda mais. “Ok, now let’s take that damn picture”, autorizou Marina, finalizando o bate-papo. E sorrimos juntos novamente, os cinco, para registrar aquele momento que, mesmo sem foto, jamais seria esquecido por nós quatro, jovens brasileiros encantados por arte, palavras e gentileza. Marina Abramović é ainda mais fascinante do que imaginávamos. Nosso sábado não poderia ter sido melhor.

IMG_3561

Da lista de leituras de JP Rabelo

jprabelo

(mesa do JP em 03 de outubro de 2012)

JP RABELO é uma pessoa admirável. Trabalha em dois lugares, estuda de verdade, vai ao teatro toda semana (em Belo Horizonte!), assiste TV, escreve poesia, sabe tudo que acontece no Facebook, no mundo, na vida. O mais importante de tudo: ele lê muito. Lê livro, lê revista, lê coluna, lê blog, lê portal, lê e-mail. Um dia ainda descubro como ele dá conta disso tudo sem precisar dormir na aula. Enquanto isso ainda é segredo, pedi para que ele compartilhasse comigo um pouco dessas leituras para ver se eu aprendo a ser um pouquinho mais JP. Mais sábia, mais encantadora. Ele compartilhou com gosto e – de tanto que gostei – deixou que eu compartilhasse com vocês.

Eis aqui um pedaço do mundo de JP Rabelo que você também devia conhecer:

A lista:

Continue reading

Mixtape #4 – Se for amor

O mês que ama o amor chegou; e a gente, que carrega a mesma paixão, dá as boas vindas a ele!

01- She and Him – I Could’ve Been Your Girl | 02- Elza Soares & Chico Buarque – Façamos (Vamos Amar) | 03- Edward Sharpe & The Magnetic Zeros – Home | 04- Nouvelle Vague – Ever Fallen In Love | 05- Chico Buarque & Milton Nascimento – O Que Será (À Flor da Terra)  | 06- Marcelo Camelo – Pretinha | 07- Cocoon – Say My Name (Destiny’s Child Cover) | 08- The Kooks – I Already Miss You | 09- Tim Maia – Eu Amo Você | 10- Adele – Crazy For You | 11- Maybe I’m Amazed – Jem | 12- Hercules & Love Affair – Shelter (The XX Cover)