Reencontro

reencontro

Fazia dois anos que eles não se viam. Dois anos. Dois anos parece pouco tempo quando não é com a gente. Quando é, dizem, parece uma eternidade. Os primeiros meses não seguem a diante e, nos seguintes, a demora do reencontro dá lugar à uma ausência sempre presente. Até que, sem perceber, somos libertados dessa ausência e a vida segue. Segue solta, com cara de oportunidades. Pelo menos foi assim com Clarice e Matheus.

Assim até o dia que se reencontraram. Inesperadamente, na festa de aniversário de um amigo do Matheus que namorava a prima de Clarice. Eles não sabiam dessa coincidência até coincidentemente terem aparecido sábado, 18 de outubro, às 17h, na casa de Alessandro. Alessandro, amigo de Matheus há 8 meses e namorado de Renata, prima de Clarice, há 5. Renata não sabia da amizade, Alessandro não sabia do romance, mas essa história é sobre Clarice e Matheus que não se viam há dois anos e se reencontraram por acaso na entrada do banheiro de uma festa de aniversário.

A última vez que tinham se visto foi para se despedirem. Depois de 7 meses dividindo o sofá em noites de chuva, viajando para festivais de cinema e experimentando a maior quantidade de petit gateau já experimentada na história dos amantes de petit gateau, Clarice foi morar com a mãe em Nova York. Por mais que precisasse do Matheus, ela precisava mais de um emprego. E a verdade é que ela nem tinha consciência dessa necessidade afetiva&espiritual até ver ele saindo pela porta de seu apartamento depois de passarem uma tarde quarta-feira se despedindo. Na quinta embarcou para a cidade que nunca dorme, onde ficou por um ano e oito meses até ser transferida de volta para sua cidade natal. Ao voltar, pensou em Matheus, mas seria muita loucura se ele ainda pensasse nela, nem que fosse de vez em quando como ela ainda pensava nele. Muita loucura depois de muito tempo distantes, então Clarice não o avisou que estava voltando para o apartamento de porta azul e cheiro de canela.

Na quinta-feira depois da despedida, Matheus comeu o petit gateau favorito de Clarice sozinho, na sexta à noite choveu e seu sofá vazio fez a saudade aumentar. Dois anos depois, ainda pensava, mesmo que de vez em quando, como seria se Clarice tivesse ficado, ou como seria se ele também tivesse partido. Pensava rápido e sem autorização dele mesmo, pois sabia que “e ses” não mudam nada, nem fazem feliz. Já não tinha vontade de saber sobre a vida dela, há mais de um ano não conversavam por Facebook, também tinha parado de seguir as atualizações da ex-namorada, mas, uma vez ou outra, sentia sua falta.

Dois anos depois. 18 de outubro. Aniversário do Alessandro. Se reencontraram. Na entrada do banheiro. Clarice tinha deixado o cabelo crescer, Matheus já não usava mais a barba. Ela parecia mais magra, ele parecia mais bronzeado. As alturas continuavam as mesmas, no tamanho exato para se encaixarem. E como queriam se encaixar. E como se desejaram naquele momento. Como se o desejo pouco desejado dos últimos meses tivesse virado um desejo enorme, um desejo só. Clarice ficou sem fala, Matheus sem ação. Respiraram fundo.

“Quanto tempo!”
“Como você está?”
“Não sabia que você estava no Brasil”
“Pois é, fazem quatro meses que fui transferida”
“Hmm…”
“É…”
“Bem, bem vinda de volta”
“Obrigada”
.
.
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.
.
“Err… Preciso ir ao banheiro, depois conversamos”
“Tá, tá bom…”

Clarice desistiu de ir ao banheiro, Matheus ficou por lá um tempo ajeitando as ideias. Ao longo da festa, trocaram olhares desviados e quase-sorrissos, mas nenhum abraço. Voltaram para casa com uma ausência maior que a da despedida. Clarice quis chorar, Matheus quis telefonar. Respiraram fundo.

Mixtape #15 – Clara

Todo sentido do mundo sem fazer sentido nenhum. A mixtape e a menina.

01- Barão Vermelho – Porque a Gente é Assim | 02- Juan Magan – Verano Azul| 03- Legião Urbana – Tempo Perdido | 04- Los Hermanos – Conversa de Botas Batidas | 05- Major Lazer ft. The Partysquad- Original Don  | 06- Rent – Take Me or Leave Me | 07 –  Mc Andinho – Arrasou  | 08- NeverShoutNever – Trouble | 09 – Beyoncé – Love On Top | 10 – The Beatles – Sg Peppers Lonely Hearts Club Band

Irmãos amor

felipe ana luisa

Domingo de sol, beira de piscina. Entre céu azul e grama e água, eu já tinha puxado papo com o Felipe, que tem 10 anos e a síndrome de Down. Ele me disse que não gostava de estudar, mas gostava de português e matemática e ciências e história, e não gostava de jiló, mas de berinjela sim.

Pouco depois, sua irmã caçula, Ana Luísa, chegou, com dois dentes faltantes no sorriso da frente. ‘A fada do dente levou?’, perguntei eu, baseada em não sei que filme que nunca vi. ‘Não, porque fada do dente não existe’, ganhei em resposta.

E o Papai Noel? E o coelhinho da Páscoa? Felipe e Ana Luísa não conseguiam entrar em acordo. Ele jurava que existiam. Ela insistia que não. ‘Não existe porque foi eu quem escondeu os ovos do Felipe’, determinou ela – sem que isso parecesse fazer qualquer cócega nas fés que ele carregava.

Também confusa sobre em quê acreditar, interrompi a discussão deles com mais uma pergunta da série ‘coisas que a gente não sabe saber’: ‘e o amor?’. Recebi dois olhares incrédulos. Que pergunta era aquela? Nenhuma discordância. Nem hesitaram. Só era clara como a luz daquela tarde a certeza de que o amor existe.

O tempo de Kika

kika2Eu chego em casa, tranco a porta enquanto dou ‘boa noite’ e em três passadas monstras atravesso a sala, deixo a bolsa no quarto, já vou para o próximo item da lista: tomar banho, comer, terminar um trabalho, um projeto, um engasgo, um namoro. Ela ainda termina de processar que estou – ou teria sido só um vulto rasgando a casa?

‘Oi, Cacá! Que bom você chegou. Me dê um beijo?’. A frase de Kika flutua no ar. Voltar na sala, ganhar um abraço apertado, um beijo melado e dar um outro beijo leva segundos – os mesmos que gasto lendo qualquer besteira no celular. Minha cabeça, vez fervida, vez em outra galáxia, ainda hesita em se jogar no corredor – burra que é. Os segundos de Kika são de outra ordem. Não-feitos para o homem contar.

Desde que Érica é Érica, tudo funciona dentro de um sistema. Acordar entre 8h e 9h, tomar café, trocar de roupa, arrumar a cama, jogar paciência e outros jogos. Almoço, Video Show, Vale a Pena Ver De Novo, banho – sempre, sempre antes que anoiteça. Chamar meu pai quando o Jornal Nacional começa, mesmo que ele não tenha feito nada com esse convite nos últimos tantos meses. Lavar a calcinha e pendurar no varal, passar os cremes e óleos e pomadas, perguntar se ela está cheirosa depois do banho e se quem ligou mandou um beijo para ela. Me perguntar se estou bem e como foi o dia. Tudo regrado, ensaiado e diariamente encenado – com um rigor e uma disciplina que meus compromissos jamais viram.

Ainda assim, há tempo para o beijo fora de hora. Sempre. Há exceção quando no meio da novela eu resolvo chamar para o parque e ela dá uma última olhada para a TV antes de me sorrir um ‘é claro’. Há disposição para a caminhada a qualquer tempo, mesmo que pareça que vai chover lá fora.

O tempo se recusa a passar para ela como para mim. Uma criança eternizada dentro de um corpo que insiste em passar dos 40 – mas, mais que isso, uma existência que caminha sobre os minutos como que sobre flores e não pedras. Ela não se debate, não agoniza, não desespera. Só é, em simplicidade. Em harmonia que ignora os ponteiros, mesmo jurando que só acorda antes das 9h e que enquanto a novela das oito não acabar, ainda é cedo. O banho é um ritual budista e o sono é templo sagrado. Mas nenhum abraço e amor e afeto atrasa.

O beijo da Kika dura mais que o de muito casal recém-apaixonado. O olhar de muitos graus de miopia dela vê na gente o que nem mãe e terapeuta vêem. Ela sabe quando a gente precisa de carinho e de uma boa dose de amor não-cronometrado – porque esse tempo é sempre. E tanto. Igual ao coração dela.

Carolina, meu amor

carol

De tanto você pedir, eu finalmente nasci. A Buty tinha o Rafa, a Nati tinha a Lu, e só você, de todas as primas, não uma “rirmãzinha”. Fez bico, fez greve, fez de tudo. Não ia sossegar enquanto não tivesse a sua própria pirralha. Conseguiu. De tanto você pedir, eu vim. Quatro anos e oito meses depois. Toda gorducha. Cheguei com um patins amarelo de quatro rodas para te presentear. Você ficou encantada. Seus olhos pareciam duas jabuticabas e me olhavam com curiosidade. Lá estava eu, uma “rirmã” todinha só para você.

Eu não me lembro de nada disso. Porém a mamãe lembra e sempre me contava essa história com muita alegria. Você gostava de mim antes mesmo de eu nascer. Você sempre me quis. Talvez seja por isso que me trate como se fosse sua filha. Até hoje. E eu reclamo, reclamo, reclamo, mas isso faz parte do seu amor de irmã mais velha, eu sei. De irmã que dividiu os pais, antes só seus, comigo. E dividiu os brinquedos, o espaço no sofá, os primos, os avós e até a babá. E divide até hoje. Roupa, banheiro, família… Só o sofá que, hoje em dia, você gosta de ocupar todo sozinha. Mete a cabeça no meu colo, o pé no colo do papai, e a mamãe fica apertadinha no canto esquerdo. Um sofá enorme, a seu dispor. E a gente reclama, mesmo adorando ter sua companhia enquanto assistimos novela.

Quando crianças, você me irritava – algumas vezes de propósito, outras vezes sem querer – e eu partia para cima. Compensava minha falta de argumentos distribuindo tapas e socos em você. Você nunca me bateu de volta. Eu lembro que fiquei muito assustada quando percebi isso. Mesmo eu te batendo quase diariamente, você nunca revidou. Adorava me provocar, mas não tinha a intenção de me machucar. Nunca teve. Anos mais tarde, voltando de uma cachoeira, você disse para o seu namorado “ajuda a Clara a subir, prefiro ela fora de perigo do que eu”. Mais uma vez me constrangi pela sua proteção. Eu também não queria você em perigo. Também trocaria a minha vida pela sua. Eu também te amo a esse ponto.

Te ver chorando após terminar o namoro no Ensino Médio foi uma das piores sensações que senti na minha vida. Você no banheiro, encharcada de água e choro. Eu senti seu desespero dentro de mim. Quis transformar a sua dor em uma paz intensa. Mas não consegui. Fiquei abraçada te ouvindo chorar. Tinha certeza que vocês voltariam. Não voltaram. Desacreditei no amor romântico pela primeira vez. Entretanto, no dia em que eu terminei meu último relacionamento, você me contou que estava namorando com o Gus. E, desde então, vocês vem me ensinando que esse tipo de amor existe sim. Que ele é maior do que se imagina. Que ele é bom. A paz que eu quis tanto que preenchesse o seu coração anos atrás, finalmente tomou conta de você por inteiro. Para sempre. E essa é uma das minhas maiores alegrias.

Já o nosso amor, não é tão tranquilo. São 22 anos e cinco meses de convivência. É muita história, muita saudade, muito medo de te perder. Você viveu quase cinco anos sem mim. Eu nunca existi sem você. Comecei a existir dentro da sua vontade. Sou metade você desde sempre. Mesmo quando morou Londres, mesmo quando eu te imitei, você esteve ao meu lado. Agora você é adulta e eu – apesar de fugir – já sou quase uma. Algumas coisas vão mudar. Você vai se casar, eu quero morar fora, talvez me case, o papai e a mamãe vão morrer de saudades. E eu também. Vamos ter filhos. Nossas próprias famílias. Os Natais vão ser complicados. Tentaremos almoçar juntos em alguns domingos, talvez eu te mande e-mails diários e você continue me ligando após o expediente, com a voz mansa e uma falta de assunto danada, mas feliz em estar ouvindo a minha voz.

A verdade é que seremos para sempre irmãs, algumas pessoas continuarão a confundir nossos nomes e datas de aniversário, outras vão continuar se referindo a mim como “a irmã da Carol Novais”. E eu vou ter muito orgulho disso tudo, como sempre tive. Eu amo você e escrevo este texto para que você nunca duvide disso. E para que se lembre de tudo que fomos, de tudo que somos e de tudo que ainda vamos ser. Obrigada por ter me querido. Também te quero muito. Feliz 27º aniversário.

Esta não é uma história de amor

sincericidioamor

Eu tinha só 10 anos quando o Gabriel gritou “o Guilherme gosta de você”. Achei que aquilo era algum tipo de pesadelo, porque eu gostava muito do Guilherme.  Seria muita coincidência ele também gostar de mim. Tinham descoberto o meu segredo e aquilo era algum tipo de zoação. Só podia ser. Passei a quarta série toda fugindo dele. Lembro do dia em que fomos ao observatório em excursão. Uma noite linda. Eu estava morrendo de frio – não esperava a temperatura quase negativa da Serra da Piedade – mas neguei o casaco dele mesmo assim. Se eu aceitasse, ia ficar na cara que eu gostava dele também. Teve a festa junina e eu não aceitei ser seu par. Fiz a Mariana ser.  Enquanto eu morria de inveja e dançava forró com uma amiga, mandava beijinhos – devidamente registrados pelo olhaopassarinho.com – como se tirasse onda com a cara da Mariana por estar dançando com um rapaz. Na feira de ciências, perdi a fala quando ele veio assistir a minha apresentação sobre vulcões. Fingi que não queria apresentar por não ir com a cara dele. Nos jogos de queimada, eu me queimava para ficar no cruza, ele se queimava para ficar ao meu lado, e eu queimava alguém do outro time para fugir do lado dele. Passei um ano inteiro fugindo. Na quinta série,  mudei de colégio e, no meio do ano, fui em uma festa junina da escola antiga. Ele me perguntou se eu estava dando mole para outro ex-colega nosso. Vê se eu ia trair ele assim. Claro que não. Mas também não dei mole para ele. E nunca mais vi o Guilherme. Esse foi o meu primeiro amor. Demorou quatro anos para eu gostar de outro alguém.

Conheci o Fábio no orkut. Ele era de Balneário Camboriú, jogava basquete e era lindo. Fábio só tinha um problema. Seu nome era Larissa e ela roubava fotos de um garoto mais velho para fingir que gostava de mim. Até pouco tempo, achei que esse tivesse sido meu primeiro amor. Bizarro. Sofria por  ter tido um primeiro amor tão ferrado. Não melhorei muito ao me lembrar de Guilherme, já que eu podia ter sido muito mais feliz se tivesse lhe dado uma chance. Assim como se eu tivesse confessado gostar do Leozinho o mesmo tanto que ele gostava de mim na primeira série. E se eu não tivesse jogado a carta do João Pedro fora na frente de todo mundo na colônia de férias. Logo eu que era fã dos casais de Chiquititas, fugi de todas as minhas possíveis histórias de amor na infância.

Fugi até conhecer o Lipe, que de tanto xingar as minhas amigas, eu troquei pelo Pinico. Que de tanto ser galinha, jurei nunca mais gostar de ninguém. Até que eu conheci o Pedrinho. Uma gracinha. Mas gostava mais do fato de eu gostar dele do que gostava de mim. Terminei. Terminei e comecei a beber todos os finais de semana. Muito. Ligava para ele chorando, acordava morrendo de vergonha. Vomitei no pé do meu coordenador na festa junina – cachaça pura – e liguei para o Pedrinho para falar, pela última vez, que eu o amava muito. Eu tinha só dezessete anos e achei que tivesse vivido todas as minhas decepções amorosas. Eu achava apavorante ter vivido todas as minhas decepções amorosas aos 17 anos. Eu achava que era vingança da vida por eu não ter dado chance a paixão antes dos 12. Eu nunca mais me deixei decepcionar nesse quesito. Eu nunca mais me apaixonei. Já fazem cinco anos. Talvez seja esse o meu destino. Viver das paixões que me estraçalharam e das que quase foram. Talvez.  O fato é que que eu adoro comer pipoca sozinha no cinema. E adoro conhecer gente nova, dançar esquisito na balada, sair só com as minhas amigas. E tenho pavor de levar acompanhante para aniversário. Mas aí escuto Los Hermanos e derivados e  acho que tenho passado os últimos  anos me enganando. Talvez eu ainda queira que essa coisa de amor aconteça na minha vida.

Shine on you

lucy

Tem dias que a gente sabe que irão chegar. Todos os dias irão chegar, inevitavelmente – mas há aqueles que a gente espia do começo da curva, espichando o pescoço, e já fazem doer.

Eu nunca ouvi “o cão e a ciência” sem sofrer. Sempre soube que um dia ouviria sentindo a dor que antes eu só supunha, que um dia o medo viraria verdade e seria meu o vazio de não mais te ter nesse mundo.

Eu nunca te dei um tchau sem sentir o coração apertado, sem te olhar no fundo do olho, sem dar um beijo na ponta do seu focinho. Meu olhar no seu sempre teve metade de culpa. Desculpa não te carregar comigo, desculpa ter te separado da gente, desculpa só aparecer para te dar banho, desculpa cada frio ou fome ou sede ou saudade ou solidão, desculpa esses foguetes irritantes do futebol, desculpa a minha ação nunca ter conseguido fazer jus ao meu amor. Eu queria te colocar pra dormir comigo, queria todas aquelas tardes da gente deitada juntas ao sol enquanto eu lia. Queria seu rabo abanando pra sempre. Queria o castanho dos seus olhos, sua barba branca, seu peito ultimamente acaju. Sua calma, sua paz, seu corpo respirando leve.

Mas eu também te queria alegre de novo. Trotando como nas nossas tardes em praças. Em Pouso Alegre, com os vizinhos te chamando de ‘moussie’, em Sete Lagoas, com você livre da coleira, em Beagá, com um chão de folhas secas. As pessoas sempre elogiando seu pelo, seu porte, sua doçura. Sua amabilidade infinita. Te queria forte e iluminada e viva e um tiquinho lerda, como não poderia nunca deixar de ser.

Mas você se foi. Nesse domingo chuvoso, em que meu coração também se afoga. No dia 22 de dezembro de 2013, lembrando que um outro amor nascia há 5 anos. Lembrando que há dias que a gente sabe que irão chegar – ainda que nunca estejamos exatamente preparados para eles. Que o ciclo da vida pede começos e fins e são todos eles certos, inevitáveis e [des]humanamente dolorosos. Porque hoje chegou e é muito ruim encará-lo. O coração pesa e a gente insiste em repassar o que poderia ter sido feito, o quanto eu poderia ter te esmagado em um abraço a mais, por um instante a mais. E só é muito triste que hoje tenha chegado.

Era você que estava no carro comigo, há três dias, quando minha irmã me contou que eu vou ser tia e eu gritei e chorei como se fosse enlouquecer. Foi você que, lá do banco de trás, testemunhou a notícia mais feliz que eu me lembro de ter recebido. A nova vida que se anuncia. Foi com você que eu compartilhei aquela manhã linda de quinta-feira, em que o sol brilhou, o céu azulou, a gente viu as flores e a lagoa e eu escolhi o CD da Adriana Calcanhotto porque achei que seria o que você mais gostaria. Que bom cada afago que me virei para te dar. Que boa aquela nossa manhã colorida, minha neguinha.

‘Últimos’ são tão cruéis quanto ‘primeiros’ são mágicos. O dia em que você chegou lá em casa, no colo do meu pai. A gente escolhendo seu nome. Seus primeiros passos, trôpegos. Suas primeiras gracinhas. O primeiro amor. Meu primeiro sobrinho, minha primeira sobrinha. O nosso último tchau. Meu último beijo no seu focinho. Meu último ‘eu te amo, preta’, ainda que eu nunca vá deixar de te amar, por toda a minha vida.

Descanse em paz, meu anjo. No céu, com diamantes.

Mais respeito, por favor

respeito

A grande frustração do ser humano vem de achar que ama e é amado. Tudo ilusão. Em alguns momentos percebemos que estamos sozinhos, não importa quantos cartões amorosos recebamos de aniversário e Natal. Amor é palavra fácil de usar. Amor machuca. Amor promete e não é. Amor é raro. Eu quero é respeito. Acho que todos nós deveríamos falar menos que amamos e respeitarmos mais. Respeito faz bem para a alma. Respeito é real.

As pessoas não sabem amar

pessoas
As pessoas tem muito a nos oferecer, mas a maioria prefere não se desgastar. Todos temos muito a oferecer, mas os outros preferem não nos enxergar. Quanto mais elas nos conhecem, menos se importam. Menos querem nos conhecer.

Aquele que é grosseiro por certo tempo será visto como estúpido para o resto de sua vida. Não importa o quão doce ele seja na maior parte do tempo, na primeira grosseira em meses ele será acusado de sempre se comportar assim.

Àquele que chora demais, nunca perguntam o motivo do choro. O acusam de ser dramático e infantil. Não importa quantos sorrisos ele provoque ao longo da vida, poucos aparecem para secar as suas lágrimas.

“Não se desgastar” parece ser um mantra repetido todas as manhãs pela maioria das pessoas. É mais prático enquadrar os que os rodeiam em categorias imutáveis do que perder tempo e energia tentando compreender o outro. Por mais que encham a boca para falar “eu te amo”, poucos estão dispostos a se doar.

As pessoas estão mais preocupadas em apontar o dedo do que em amparar. Sentem a necessidade de falar, mas pouco se esforçam para escutar. Sendo assim, as pessoas também estão desacostumadas a receber ajuda. E isso só serve para deixar as coisas ainda mais difíceis. Para todo mundo.