O especial de ‘Gilmore Girls’ era exatamente o que eu precisava neste fim de ano

gilmore-girls-um-ano-para-recordar

Hoje acordei às 14 horas, preparei um bom café e me sentei em frete à televisão. Pedi um delivery de comida chinesa, já que – por algum motivo que desconheço, mas desaprovo profundamente – as pizzarias de SP só fazem entregas a partir das 18 horas. Café e delivery, esse era o único jeito possível de iniciar a minha maratona de Gilmore Girls: Um Ano Para Recordar.

Sou fã da série há três meses e as lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto logo no momento em que apertei o play na Netflix – imagino como deve ter sido para quem se apaixonou pelas mulheres Gilmore há 16 anos. É inverno em Stars Hollow e Lorelai sorri para a neve com a mesma alegria tranquila que eu sorrio quando reúno vários amigos no mesmo programa. Logo chega Rory e as duas começam aquele diálogo veloz, cheio de referências pops e irônia, que tornam a história delas tão gostosa de acompanhar.

Passaram-se 9 anos desde que Luke deu um beijão de reconciliação em Lorelai e Rory saiu para cobrir a campanha do Obama para presidente. A ansiedade em saber o que aconteceu com elas desde então é tão grande quanto a vontade de os quatro episódios do especial durarem para sempre. A história vai se desenrolando e está tudo ali, não falta nada. Parece que é Natal, mas sou apenas eu assistindo TV sozinha em casa enquanto devoro uma caixa de yakissoba e outra de frango empanado. E isso é perfeito.

Lorelai e Rory estão passando por situações que se encaixam perfeitamente com os questionamentos que tenho me feito neste fim de ano. A filha principalmente. Ela entrou para o mundo do jornalismo com os mesmos sonhos que a maioria de nós entra quando embarcamos na profissão. Contar histórias relevantes! Fazer a diferença!! Mudar o mundo!!! Mas é 2016 e as pessoas preferem fazer testes do BuzzFeed e assistir a vídeos de desconhecidos falando sobre a própria vida no YouTube do que ler um bom artigo ou um livro reportagem.

Sou jornalista e não trocaria a minha profissão por nada. Porém, com as redações cada vez menores, morro de medo ser obrigada a encarar um plano B para me sustentar. Eu não tenho um plano B. Além disso, sempre sinto que deveria estar fazendo mais. Trabalhar com produção de conteúdo online é cruel. As pessoas só clicam nas notinhas e listas mais bobas que você faz. Quando, finalmente, tem tempo para produzir uma reportagem relevante, os poucos leitores encontram algum jeito muito cruel de lhe criticar por não ter escrito sobre o tema da forma que elas escreveriam.

Ver a Rory procurando emprego em uma redação aos 32 anos é angustiante. Ela leu todos os livros imagináveis, conhece tudo de cultura pop, é uma mulher curiosa sempre em busca de aperfeiçoamento e sabe escrever um artigo de opinião como ninguém. Desempregada. E não é porque ela não é boa o suficiente, mas porque, hoje em dia, é mais fácil virar uma blogueira mundialmente famosa do que conseguir um emprego na área editorial.

Vê-la nessa situação, me faz questionar ainda mais sobre a minha carreira. Estou no caminho certo? Por que não escrevo um livro? Será que começo a produzir reportagens por conta própria no meu tempo livre? Se me organizar melhor, eu consigo fazer toda a parte gerencial do meu trabalho e ainda produzir matérias relevantes no horário de serviço? E aos 32 anos? Será que, até lá, já terei influenciado positivamente a vida de alguém com minhas palavras? Onde estarei trabalhando? Em que cargo? Já vou ter lançado um livro?

Outro aspecto da vida de Rory é que ela segue enrolada nas questões amorosas. A sociedade nos faz acreditar que, se você não tiver encontrado alguém para passar o resto de sua vida até os 28 anos, você é uma fracassada. Rory – assim como eu – sabe que existem coisas mais importantes que isso. Inclusive, é bom ver sua independência sexual. Ela tem um namorado nos EUA, pega o regularmente ex em Londres e, finalmente, faz sexo casual pela primeira vez. Porém – assim como eu –, Rory fica carente da segurança que um relacionamento estável e cheio de companheirismo trás.

E esse é um ponto que, pelo meu histórico, eu não imagino sendo resolvido na minha vida. Nunca namorei, tive alguns rolos que se estenderam por mais de três anos e sempre me dei muito mal quando me envolvi sentimentalmente com alguém. Porém, quando vejo Lorelai, sei que há esperança. Aquele amor firme e intenso que quase toda menina sonha desde a adolescência – por mais feminista que seja – pode chegar depois dos 32. Para ela chegou. Ver o quanto Luke e Lorelai são companheiros é acalentador. No entanto, a série mostra que, após o casal se beijar no “fim”, por melhor que seja a relação deles, os conflitos nunca acabam. Isso é bom. Estabilidade demais é entediante. Mulheres como eu e as Gilmore não gostam de tédio, afinal.

Já passava das 22 horas quando, depois de muitas lágrimas de alegria e melancolia e alguns aplausos de empolgação, chegou o momento das quatro palavras finais. Aquelas que a criadora Amy Sherman-Palladino guardava há anos – e não aconteceram antes porque ela e o marido não participaram da sétima temporada da série.

(agora é a hora que você para de ler se não tiver assistido ao especial ainda, porque eu não quero ser a pessoa terrível que conta lhe conta isso. você precisa assistir!! – sério, segure a ansiedade)

Rory, enfim, tem um foco profissional: está escrevendo o livro da sua vida. Também colocou um ponto final nos relacionamentos que, claramente, não têm futuro. Lorelai está casada com Luke e bem resolvida com Emily, sua mãe (o momento atual dela é outro que rende um post inteiro!). As duas estão sentadas no coreto na praça central de Stars Hollow e Rory solta: “mãe, eu estou grávida”. Fim.

Eu sorrio. Consigo, finalmente, secar as lágrimas que escorreram ao longo dos quatro episódios. Rory está grávida! Assim como na vida real, ainda tem mais por vir na história das Gilmore. Os desafios nunca acabam. Sinto certo alívio. Não cheguei a nenhuma conclusão sobre minha carreira, muito menos sobre a minha vida amorosa. Gilmore Girls, afinal, não é sobre respostas. Nunca foi. Gilmore Girls é sobre viver, encarar desafios, se decepcionar e, principalmente, aproveitar a sua jornada da melhor maneira possível.

Meu sorriso é o mesmo que Lorelai sorria no início do primeiro episódio do especial, o mesmo que sorrio quando reúno vários amigos. Amanhã a vida continua com todos os seus desafios e questionamentos. As perguntas que, algum dia, tiverem respostas serão prontamente substituídas por mais dúvidas, outras serão mistério para sempre. O importante, enfim, é nunca esquecer de apreciar e curtir os detalhes do percurso. Hoje, por exemplo, foi um dia inteiro de contentamento: delivery, Gilmore Girls e minha própria companhia. Nunca vou me esquecer deste sábado especial.

Finalmente terminei “Gilmore Girls” e posso fazer este desabafo que estava entalado há um tempão

*contém spoilers

rory

A primeira vez que vi “Gilmore Girls” foi no SBT. Eu não sei ao certo quantos anos eu tinha, mas adorava quando ligava a TV e estava passando. Por muitos anos carreguei um carinho pela série, mesmo sem me lembrar de muito mais do que o nome de uns cinco ou seis personagens de destaque. Sempre foi uma história a qual eu quis muito ter visto toda, mas nunca rolou. Até que a Netflix disponibilizou todas as sete temporadas em julho deste ano.

Após diversos sábados e madrugadas de maratona, noites e noites estirada no sofá vidrada na televisão enquanto comia brigadeiro, hoje, enfim, terminei os 152 episódios da história de Rory e Lorelai Gilmore. Ao longo desses três meses, precisei lidar paralelamente com as notícias e boatos gerados pelo revival da série – com estreia no fim deste mês. Logo me chamou a atenção a disputa que o público começou a fazer sobre com qual namorado Rory deveria ficar no especial. Afinal, eu havia acabado de conhecer o Dean e já precisava lidar com o fato de que esse romance adolescente, a qualquer momento, chegaria ao fim e ainda viriam Jess e Logan.

Confesso que, devido às circunstâncias, analisei a ação de cada um dos rapazes ao longo dessas sete temporadas. Foi inevitável! Vocês torciam tanto por eles! Em alguns momentos me perguntava “mas já se passaram nove anos, será que a Rory não conheceu alguém melhor?”, porém, por toda a pressão ao redor, eu sentia como se também precisasse escolher um time – e escolhi. No entanto, quando descobri que a garota recém-formada terminava sozinha porque preferiu se dedicar ao início da sua carreira de jornalismo antes de se prender a alguém, a única coisa que eu consegui pensar foi “sério mesmo pessoal?”.

Uma menina de vinte e dois anos se forma, vai cobrir a campanha completa do Barack Obama para a presidência – todos sabemos o resultado político e jornalístico disso – e vocês estão preocupados em descobrir com qual ex-namorado de mais de nove anos atrás ela vai ficar? É isso mesmo? Não sei como foi a vida amorosa de vocês até o fim da faculdade, mas eu espero imensamente que, daqui uns anos, eu não precise escolher entre nenhum dos meus exs desse período para as pessoas ficarem felizes por mim.

Assim como Rory, sou jornalista. Assim como a maioria dos seres humanos, sonho, sim, em encontrar, algum dia, isso que a sociedade vende como amor. Não tive muita sorte nos meus casos amorosos e sei que são tempos difíceis para os apaixonados por fatos do cotidiano e por grandes histórias do mundo real. Porém, sinceramente, se eu pudesse escolher entre consertar o jornalismo ou o meu coração, eu escolheria mil vezes o jornalismo.

Não sei se vocês acompanharam a mesma Rory que eu, mas tenho certeza que aquela menina que vimos crescer ao longo de sete temporadas também escolheria o jornalismo. Ela termina a série a caminho de uma das maiores coberturas da história do jornalismo americano. O que acontece depois? Ela é contratada por algum jornal impresso, como sempre sonhou? Segue em publicações online? Tenta outras mídias? Quais assuntos ela cobre? Já fez reportagens premiadas? Definitivamente, foi essa a história que ficou em aberto.

É claro que tenho interesse em saber como fica seu coração. Eu sou uma das maiores fã de histórias românticas do mundo. Sei que, em algumas noites e finais de semanas, faz a maior falta ter quem te dê afeto e que, só de olhar nos seus olhos, mostre o quanto você é importante. Tenho consciência: por mais bonito que soe, nossas batalhas e vitórias pessoais não enchem o nosso coração por completo. No fim, todo mundo sonha em ser feliz no amor – e torce para que seus personagens favoritos também sejam. Só fiquei preocupada de, durante os últimos meses, os únicos spoilers de “Gilmore Girls” que recebi terem sido sobre Dean, o Jess e o Logan. A série fala sobre tanta coisa a mais!

Espero que a Rory, agora com 32 anos, tenha encontrado um companheiro ou, então, acabe conhecendo alguém bacana nesse revival. Pode até ser algum dos caras do passado, vai saber! Meu ponto é: as pessoas precisam lembrar que o mundo é mais do que encontrar a metade da sua laranja ou não morrer sozinho.  Colocar a felicidade toda de alguém nas mãos de outra pessoa não é justo. Nunca é demais lembrar que você consegue conquistar valiosas alegrias por conta própria. E eu não estou falando de ser consagrado na profissão ou de encher o bolso de dinheiro, mas de correr atrás dos seus sonhos. Seja eles quais forem.

Eu só queria chegar em casa e dormir, mas esbarrei com você no meio do caminho

Depois de uma segunda-feira pesada, daquelas que o tempo passa tão rápido quanto discursos de colação de grau e as obrigações são tão divertidas quanto arrancar o siso, tudo o que eu queria era me teletransportar para casa. Estalar os dedos na redação e – plim! – surgir deitada na minha cama. Contudo, como mera mortal que sou, precisei pegar o metrô e suas baldeações para chegar ao meu apartamento.

Foi então que, como se o dia já não tivesse sido desgastante o suficiente, no meio do caminho, esbarrei com você. Ou melhor, com uma lembrança sua. Te vi ali, na plataforma da Consolação, com a blusa social toda amarrotada, me esperando com a maior cara de sono do mundo. Mesmo visivelmente cansado, seu rosto abriu um sorriso enorme ao me ver. Essa cena poderia salvar o meu dia, se não fosse apenas uma recordação da última vez que você sorriu com sinceridade pra mim. Quatro meses atrás.

Logo o metrô chegou e eu, enfim, voltei para casa sem mais fortes emoções. A noite correu bem, até meu corpo exausto finalmente cair na cama e minha mente resolver, outra vez, te visitar no passado. Naquele dia, o meu plano original era ir a uma festa com meus amigos. Eu nem estava com tanta vontade, queria mesmo era passar a última noite em sua companhia antes de ficarmos duas semanas separados por causa das festas de fim de ano. Porém, você sabe, não sou do tipo que desmarca compromissos.

Então, imagine a minha alegria quando, em comum acordo, eu e meus amigos decidimos cancelar a balada. A primeira coisa que fiz foi te mandar uma mensagem pedindo para me encontrar. Você nem hesitou. Saiu na mesma hora de onde estava e foi me ver. E essa foi a última vez que você me encontrou de imediato, sem se questionar se realmente deveria ir.

Se eu tivesse consciência que aquela seria uma noite de últimas vezes tão importante, com certeza teria te aproveitado melhor. Ao invés disso, passamos a noite discutindo por bobagem, dormimos emburrados um com o outro e, assim, destruímos de vez qualquer possibilidade de sermos felizes juntos. Nós nem percebemos isso, mas foi naquele dia que tudo mudou.

Eu viajei, você viajou. O tempo afastados só piorou tudo. Depois disso, você nunca mais aceitou os meus convites com prontidão. Eu, desesperada, tentei tapar os buracos que cavamos tão profundamente dentro de nós com as nossas inseguranças durante aquelas duas semanas separados. Não funcionou. Eles já estavam entranhados demais e, com o passar das semanas, só se multiplicaram.

Lembrar de tudo isso não faz sentido nenhum agora que, depois de doloridas idas e vindas, o “eu e você” enfim acabou. É bem provável a gente nunca mais se encontre e, toda vez que penso nisso, eu choro um pouquinho. Sua ausência ainda me machuca. Já você, imagino, conseguiu seguir em frente. Nunca mais me ligou de madrugada, nem respondeu às últimas mensagens que mandei.

Eu venho tentando fazer o mesmo, virar a página. Alguns dias são melhores que outros, confesso. E sei que daqui a quatro anos esse sofrimento provavelmente não fará o menor sentido. No entanto, em uma segunda-feira desestimulante como esta, tudo o que eu queria era me encontrar com você na plataforma da Consolação e te dar um abraço tão intenso e demorado quanto as nossas ansiedades. Daquele jeito que fizemos tantas vezes em dias de semana atribulados.

Você não faz ideia de quantos dias ruins foram salvos por noites alegres em sua companhia. No momento, porém, só depende de mim me fazer feliz. Sempre foi assim, afinal. Seu cabelo comprido e suas camisas sociais fazem tanta falta quanto eu imaginava, mas vai passar, eu sei. Toda vez passa. Agora é melhor eu dormir que já são quase três da madruga e essas reflexões não vão me levar a nada. A boa notícia é: amanhã é um novo dia. Melhor que hoje, eu espero. Um pouco mais sonolento, talvez. Definitivamente, sem você.

Amigo seu é coisa séria pois é opção do coração

Digitalizar0028-001

Meus irmãos passaram a vida mudando de cidade em cidade, acompanhando pai e mãe. A gente sempre tinha que se adaptar à nova rua, nova vizinhança, nova escola. Uma estratégia de sobrevivência nos ensinou a criar pequenos universos particulares, que poderíamos carregar no bolso, independente de qual fosse o novo destino.

Hoje vejo que o universo do meu irmão foi erguido com tijolos de lealdade, cristais de bom coração, um balde de Lego inteiro de só querer-bem-com-sinceridade. Ele, desde que sei, é daqueles que carrega os poucos e bons, e vai com eles até o fim – não importa se primavera ou se tempestade.

No bolso, hoje sei que o Lucas levou principalmente a si mesmo. Ele nunca deixou de se ser, na escola pública ou na particular, no interior ou na capital, no quintal de cimento, na varanda de ardósia ou no gramado visitado por ETs.

Quando menino, Lucas pegava as caixas de madeira onde se vendiam uvas e as transformava em violão (com gominhas amarelas sendo as cordas) ou em arco e flecha (com o qual ele atacava mansões de marimbondo e nos deixava presos em casa o dia inteiro, esperando a raiva animal passar). Hoje, barbado, casado, ele compra madeira e constrói os próprios móveis.

Lucas (nunca só) cuidava de um bando de cachorros da rua; ocupou uma fábrica de uniformes abandonada e uma casa em ruínas para fazer delas abrigo para os cães. Todos tinham nome e carinho e Pepita, quando teve filhotes (na fábrica), só deixava o Lucas se aproximar. Pepita, Hannah, Eros. Hoje, morando na sua nova casa e pagando seu aluguel, ele faz do seu lar, lar dos animais também. Maggie, Beemo, Link, Kheera, Ragnar.

A gente brincava muito de Lego e ele estava sempre embrenhado em ferramentas; hoje, trabalha projetando peças no papel e no computador. A gente montava um laboratório na garagem para dissecar cogumelos e outras formas de vida; hoje ele tem sua própria loja virtual para vender coisas nerds. A gente saía jogando milho e feijão pelos vasos de planta, querendo ver tudo brotar; hoje ele tem planos de ter uma horta em casa, que eu sei que vai vingar.

Ao invés do tradicional futebol, meu irmão fez capoeira, xadrez e ponto cruz. Ao invés do violão, teve um pandeiro e uma gaita. Quando os jovens pediam uma moto aos pais, meu irmão implorava por um cavalo. Ele que me levou para acampar (não sem me fazer medo), para cachoeiras (não sem fazer bullying pelo meu medo), para o que tem para lá dos muros-seguros.

Ele é dono de um coração que vai de Belo Horizonte até Curitiba, passando por Sete Lagoas, Manaus, Pouso Alegre, Goiânia e mais umas quebradas por aí. Incapaz de fazer um malzinho que seja a qualquer pessoa que seja. Incapaz de não ser leal, de não se dedicar, de não ser bom. De não ser ele, enfim.

Do meu irmão, você sempre vai ouvir o riso. Ele vai falar só quando sentir vontade. Mas o riso – o riso vai sair forte, inteiro, de verdade. Do desenho que você nunca viu, de um caso de anos atrás, de qualquer besteira com o pai. O riso vem e ocupa o ar, a casa, o peito. Vem pelos olhos dele que brilham, passando pelas sardinhas até transbordar, como bolas de gude desaguando de um bolso recheado.

Na dúvida, ame. Apenas não se deixe afogar.

na duvida ame

Quando eu te vi pela primeira vez, eu tive certeza que estava diante do homem mais bonito do mundo. Certeza absoluta. Por isso, tive medo quando você se mostrou tão interessado em sair comigo pela primeira vez. Um homem tão bonito assim não poderia estar realmente atraído por mim. Então eu fugi.

No entanto, o destino sabe muito bem onde nos reencontrar quando tentamos desviar dele e, repentinamente, você reapareceu. Meses depois. Mais lindo do que nunca. E, dessa vez, eu resolvi dar uma chance para nós dois. Um encontro, afinal, que mal faz?

Você era ainda melhor do que eu pensava. Sua empolgação em defender as suas ideias, o seu olhar carinhoso ao me observar, seu modo de se vestir tão diferente do meu. E logo ali, na primeira cerveja, eu me apaixonei. Intensamente, bizarramente, inesperadamente.

Fui dormir torcendo para que a gente se visse outra vez. Logo. O mais rápido possível. Assim, imagine a minha felicidade quando, no dia seguinte, você disse que, por você, a gente já se via naquela noite. Um sorriso imenso se tatuou no meu rosto. Porém, preferi esperar mais um dia. Ir com calma.

Uma noite depois, já estávamos juntos outra vez. O que se passava dentro de mim era tão impetuoso, tão assustadoramente real que, a cada segundo ao seu lado, eu sentia mais medo por carregar tão forte sentimento no meu peito. Das outras vezes em que havia me sentido assim, meu coração se estraçalhou tão seriamente que nunca me recuperei cem por cento.

Não demorou muito para você dizer que me amava. Levado pelos vários copos de cerveja, pensei. A minha vontade era de te beijar até acabar o ar dos meus pulmões e colar a minha pele na sua de uma forma que a gente não se soltasse nunca mais. No entanto, meus traumas me fizeram responder que era melhor a gente ir mais devagar. E hoje sei que, naquele dia, eu te matei um pouquinho por dentro.

O tempo foi passando e eu fui tendo cada vez mais certeza: eu não poderia mais viver sem você. Te imaginei ao meu lado em todos os momentos futuros da minha vida, me imaginei ao seu lado em todos os desafios que você precisasse enfrentar. Ia ser eu e você para sempre. Eu só não tinha coragem de demonstrar isso. Sabia que, uma vez aberto o meu coração, não tinha volta e você poderia fazer o que quisesse com a minha alma. Era melhor me certificar que, pela primeira vez na vida, eu pisava em terra firme.

Com as comemorações de fim de ano, precisamos nos afastar por um tempo. Ambos já tínhamos feito planos para aquela época antes de nos conhecermos. Eu fui para a minha cidade, você foi para a praia. O que era para ter sido apenas duas semanas de saudade, transformou o nosso amor em desespero. Para os dois. A minha insegurança, à essa altura, havia te contagiado e você perdeu as forças que, com muito esforço, tentava manter para ter confiança de que tudo daria certo. Ficamos ambos vulneráveis. Fracos.

Era paixão demais, fazendo os receios e a distância transformaram os nossos diálogos em enormes falhas comunicativas. Eu não te entendia e você interpretava tudo o que eu dizia de outra maneira. Cansada de sofrer e com medo de os nossos bate bocas nunca terminarem, resolvi dar um fim a nossa história. “Você tem certeza isso?”, você me perguntava sem parar. Não. Nenhuma. Mas respondi que sim.

Os dias seguintes se passaram com a mesma velocidade com que uma missa se arrasta. Você mandando mensagens: saudades. Eu tentando ao máximo não me sentir afetada pelas suas palavras: vai passar. Então descobri que você já estava com outra pessoa. Na praia, as paixões se incendeiam rápido, não é mesmo? Ela era uma menina tão cheia de inocência e vulgaridade que se meteu em lugares do seu Facebook que me pertenciam. Fiquei possessa.

Fui ao perfil dela e encontrei, sem nenhuma dificuldade, as suas palavras. Te amo, você dizia. Te amo. Meu coração explodiu. Enquanto meu sangue se espalhava sobre todo o meu corpo, minha cabeça dizia “Eu sempre soube que isso ia acontecer. Não devia ter caído nessa. Como posso ter sido tão estúpida?” repetidas vezes, sem parar. Me culpei intensamente por um problema seu, não meu. Uma fraqueza sua.

No entanto, o que você não sabia era seu poder de me deixar assim. Eu nunca deixei claro o quanto eu te amava. Sempre tentei te manter o mais longe possível dos meus sentimentos. Por mais carinhosa que eu fosse, você não conseguia perceber o amor que eu sentia. Foi necessário ver meu coração destroçado por sua causa para compreender toda a imensidão que havia dentro de mim.

Foi preciso me destruir por dentro para você perceber o meu amor. Por isso te perdoei. Demorou alguns dias, até eu limpar todo o sangue que havia sobre mim. Contudo, quando você se mostrou tremendamente arrependido e simultaneamente machucado com aquela situação, decidi relevar. Com isso tudo, percebi que o medo não nos protege de nada, só da felicidade, e me empenhei em retomar a nossa história. Catei os pedaços do meu coração e te entreguei todos eles para que pudéssemos ser felizes.

Não aconteceu. Nós nos machucamos de um jeito tão visceral que os meses seguintes só serviram para nos destruir ainda mais. Dessa vez, eu tentei ser mais paciente. Era sua vez de estar inseguro. Suportei seu desprezo, aceitei todos os sinais de afeto. Me entreguei completamente, de um jeito que não me entregava assim desde os meus 14 anos, quando me apaixonei pela primeira vez.

Defini: eu era sua e você era meu. Nada ia nos separar. Eu aguentaria todos os seus maus momentos até que você voltasse a ser o cara que não tinha medo de me amar. Tentei ser forte. Perdi a fome. Fui dormir todas as noites chorando. E não me importei. O fato de você me amar e de eu sentir o mesmo com a mesma intensidade bastava.

Nós, muito em breve, voltaríamos a ser feliz. Eu tinha certeza disso. Seria uma felicidade tão grandiosa que o céu nunca mais ficaria escuro durante o dia e as noites seriam cada vez mais estreladas. Uma felicidade tão imensa que qualquer um que a presenciasse seria feliz para sempre também. Uma felicidade nossa, só nossa, que mudaria o mundo.

No entanto, assim como eu aprecio a alegria, você é encantado pela melancolia. Não consegui vencer o seu amargor pela vida e percebi que continuar nessa batalha não te faria mais contente, apenas me deixaria mais infeliz. Isso seria uma derrota para nós dois. Foi, então, que decidi ir embora. Por mais que eu quisesse ficar. Para sempre. A vida toda. Precisei partir. De uma vez por todas. Para o bem de nós dois.

Agora estou aqui completamente sem você. O meu coração nunca tinha ficado tão pequeno. É a primeira vez que amo com cem por cento de reciprocidade, porém de uma forma tão destrutiva. Nós ainda nos pertencemos, eu tenho certeza disso. Só não vamos mais ficar junto. E o motivo não poderia ser mais surreal: somos extremamente apaixonados um pelo o outro. Um sentimento tão absurdo que não soubemos como cuidar dele sem nos afogar.

Preferi subir em meu barco e partir antes que não houvesse mais nenhum traço de contentamento em meu corpo. Espero que agora seja mais fácil para você subir em seu barco também, pois única coisa que me faria mais feliz do que viver ao seu lado, seria você finalmente encontrar algum tipo de felicidade. Boa sorte.

Saudades. Te amo.

* imagem do filme “Mr. Nobody”. 

Amor em tempos de cólica

bloco do amor

Não sei exatamente quando começou, mas qualquer dia me peguei pensando: “então isso é crescer?”. É isso que falavam que é bonito na gente quando somos novos, mas que vai se perdendo aos poucos, até desaparecer?

Não sei nem determinar o que é o “isso”. A inocência, a espontaneidade, a prontidão em demonstrar afeto?

A primeira vez que me vi vendo o amor subir à minha mente, pedir para virar linguagem e eu o silenciar até que ele desistisse foi há pouco mais de dois meses. Éramos um grupo de amigos se reencontrando um ano após uma longa, transformadora e inesquecível viagem; um de nós era agora pai e levou sua flor, com exato um mês de idade, para que a conhecêssemos; era a primeira vez que víamos o filme que juntos fizemos. Para uma aficionada por datas, como eu, era um prato cheio. Para uma apaixonada por eles, como eu, era lua cheia.

Mas algum departamento de mim tentava domar os arrepios e dizer: ainda é só uma exibição. Uma reunião. Uma noite.

Em determinado ponto eu não resisti, tirei uma foto da gente ali sob o céu, as cobertas e o sertão que logo se projetaria no ar. No celular a foto ficou. Guardada. Assim como tudo de bom e especial que senti naquela noite. Só pra mim, sem ninguém nem saber que existiu – e sem que nada daquilo pudesse levar alguma cor a mais a mais alguém no mundo.

É que carrego esse pensamento de que pra lá da gente os sentimentos bons também têm uma função. É um primo torto do “a felicidade só é real quando compartilhada”. Lá fora, povoando o mundo, eles têm qualquer possibilidade de inspirar, colorir, dar forças ou esperanças, fazer sorrir, fazer respirar. Que “qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”. Então por que guarda-lo? Por que o ar imóvel da janela fechada no lugar do vento depois da cortina?

Amor também existe em silêncio, é claro. É lindo, gostoso e puro. Mas não se trata de microfonar felicidades a cutucar as não-felicidades do mundo. Trata-se só de querer deixar o amor circular, por acreditar que ele pode ser brisa fresca, água límpida, semente do verde-vivo de mais logo.

Quanto mais a consciência não nos permite esquecer as injustiças, desigualdades e misérias humanas, mais amar parece um ato egoísta, e não revolucionário. Mais o amor parece sem lugar, ou a gente imaturo quando tanto ama. Acho que foi assim que minha torneira começou a secar: de repente o amor já nem parecia bem-vindo; declará-lo era um esvaziamento das complexidades da existência; e querer que ele existisse em linguagem, não só entre dois ou cinco ou dez, mas jogado no céu feito confete, era algum tipo de reafirmação vil ou de inconveniência dispensável.

Acho que amar é primeiro pra gente, sim. Alimento da alma. Mas depois de alimentada e luzidia, a alma quer também abraçar a outra e celebrar a magia da vida.

Foi preciso, portanto, receber uma demonstração de afeto muito da gratuita para que eu me lembrasse disso tudo. Foi preciso que viesse de alguém distante, grisalho e com filho da minha idade, para me contar que o tempo não nos leva isso se não quisermos que isso se vá. Que não há tempo tão curto que não se alargue para fazer caber um hiato de bem.  Que pra um tanto amor possa ser demais; pro outro deva ser mais vivido que falado; pro outro seja ainda uma propaganda falsa daquilo que se quer fingir ser. Provavelmente, é um pouco disso tudo. Mas é também uma porção de impulsos iluminados que percorrem o ser e, de tão vivos, energizantes e encantados, me pedem dar uma volta lá fora – porque qualquer bem pode fazer.

Economizei algumas palavras de afeto, microcelebrações de encontros, manifestações de gratidão e de vida. Não me sinto mais rica. A sombra de que isso possa significar ser adulta, madura, discreta e sensata me ronda; mas a possibilidade de que isso seja apenas deixar murchar uma flor insistente que carrego no peito é mais assustadora.

Amor é adubo, pro meu jardim e pra floresta do mundo. Precisamos de muitas coisas além do amor. Precisamos que ele seja muito menos uma palavra e muito mais uma ação positiva efetiva nas sociedades. Mas precisamos dele – talvez ainda mais em tempos difíceis como esses.

Deixar chover. Deixar molhar. Deixar amar.

Não preciso que você esteja em casa para que eu me sinta novamente ao seu lado

Processed with VSCOcam with f2 preset

Eram cinco da manhã, eu não fazia a menor ideia do que estava fazendo, mas fiz. Entrei no seu apartamento como quem entra na casa dos pais que moram em outra cidade. Em momento nenhum me senti uma intrusa. Afinal, mesmo oito meses após o fim do nosso namoro, eu ainda tinha a chave. Bastou destrancar as fechaduras e, voilá, seu universo estava de volta à minha frente.

A parede da sala continuava verde esmeralda do jeitinho que a gente pintou. Seu sofá se manteve com o mesmo tecido desgastado de sempre. Suas revistas espalhadas pela mesa de centro, aquele poster minimalista do Homem Aranha pregado perto da cozinha, seus sapatos usados amontoados no canto esquerdo à porta de entrada para não contaminar o resto do apartamento com a sujeira da rua. Tudo continuava igual.

Você não estava em casa, mas isso não me pareceu ser um problema. Tomei um copo d’água, escovei os dentes com a sua escova e me joguei na sua cama. Na cama que quase foi nossa, que praticamente tem a marca do meu corpo no lado direito do colchão por termos passado tanto tempo deitados nela. Adormeci.

Na manhã seguinte, acordei com um sorriso no rosto. Alegria de quem acorda com cheiro de café espalhado pela casa, apesar de não ter aroma algum realmente vindo da cozinha. Só aquele cheiro de sempre pairando pelo ar, aquele cheiro todo seu. Bálsamo. O meu cheiro favorito no mundo todo durante seis anos. Quer dizer, talvez ele ainda seja meu predileto até hoje. Nunca inspirei nada tão alegre.

Olhei ao meu redor, observei cada canto do seu quarto e fiquei pensando sobre nós. Não sei como passei tanto tempo sem contato com sua vida. Notícias suas sempre chegam, é claro. Acho que minha lista de amizades não se renovou muito desde o nosso término. Parece que a sua também não. Alguém sempre comenta que esteve com você “outro dia”. Só eu nunca mais vi você.

Por quê? Não entendo o motivo de estarmos tão afastados. Nós éramos deliciosamente compatíveis. Nosso fim não foi dramático. Você decidiu que precisava focar no fim da sua dissertação de mestrado. Eu decidi que não tinha mais paciência para assistir Netflix quase todas as noites do final de semana. Sentia falta do barulho das pessoas conversando no bar, de dançar até minhas pernas bambearem, de observar o dia chegando enquanto a cidade se iluminava.

Você precisava ficar mais quieto. Isso eu compreendi. Eu só não quis ficar te assistindo concentrado no computador, quando meu corpo e minha mente estavam cheios de energias ansiosas para serem dispersas pelo mundo. Eu precisava vivenciar esse meu momento. Você precisava se focar no seu. Decidimos que o jeito mais tranquilo disso não nos desgastar era pararmos de nos ver. E paramos.

Sua dissertação foi um sucesso, ouvi dizer. Parabéns. Muitos parabéns! Não mandei recado, presente ou mensagem, porque, assim que fiquei sabendo, minha vontade foi de vir correndo até seu apartamento. Quis te encher de beijos, dizer “eu sabia!”, chorar de felicidade, te abraçar tão apertado, mas tão apertado, que eu nunca mais ia querer soltar. Então não vim.

Guardei minhas vontades de um jeito que não fui capaz de armazenar os desejos que senti 5 meses antes, quando te deixei ali, parado em frente à porta aberta desse apartamento, me olhando como se nunca mais fosse me ver, mas com um semblante de quem preferia me contemplar sempre quando quisesse. Quase o tempo todo, como sempre foi. Saí, não olhei para trás. Porém, essa imagem nunca saiu da minha cabeça.

Enfim, cá estou, às 14 horas e quarenta e três minutos, do domingo de hoje, escrevendo esta carta de dentro da sua cozinha enquanto tomo uma caneca de café com um pouquinho de leite. (A propósito, estou usando aquela azul com desenhos de nuvens que sempre me encantou por sua imensidão)

Não sei onde você está, com quem passou a noite e quais atividades você normalmente tem feito aos domingos à tarde. Isso não importa. O que eu sei é que a porta se manteve aberta para mim. Você não trocou a fechadura e seu apartamento continua tendo cara de nosso — o meu também não perdeu muito esse aspecto. Talvez as coisas entre nós nunca mais sejam como foram, talvez elas nunca tenham deixado de ser.

Eu continuo a mesma menina que gosta de ler com a perna enroscada na sua, aprecia flores encontradas na calçada e sente saudades de morar em Madrid. Pelo que comentam sem prestar muita atenção na minha presença, você não abandonou o hábito de preparar, todas as sextas-feiras, café da manhã para o porteiro, e continua adorando comprar CDs dos seus artistas favoritos, mesmo não tendo aparelho para reproduzi-los.

Até onde eu sei, são grandes as chances de que a gente continue sendo inebriante compatíveis. Seria perfeito se você me desse a chance de conferir se isso é verdade. A chave do meu apartamento você ainda tem, notei que continua dependurada no mesmo lugar na sala, então é só aparecer por lá quando der na telha. Caso sinta vontade.

Estarei involuntariamente te esperando.

Apaixonada por histórias de amor

apaixonadaporhistoriasdeamor

Hoje eu parei de trabalhar para assistir Malhação. O motivo, bobo para a maioria, mas importantíssimo para mim, era que a virada dramática na história do meu casal favorito da temporada tinha começado no fim do capítulo anterior. Uma tragédia! A menina descobriu que o início do namoro – um dos mais fofinhos e divertidos de todas as temporadas (e olha que eu acompanhei quase todas) – tinha começado com uma mentira. O bafafá, o chororô e a tentativa de reconciliação, aconteceriam hoje e eu não podia perder. Eu, na verdade, torcia para que os autores desistissem de fazer essa história ser revelada para ela, já que a relação dos dois tava linda demais de ser admirada. Não foi assim, e lá estava eu, às 17h45 de uma quarta-feira, interrompendo a apuração de uma reportagem para ver drama romântico em Malhação.

Chegando em casa, terminei de ler Simplesmente Acontece, o livro que eu só comprei porque decidi que o filme homônimo vai ser o meu favorito do ano e que eu não podia chegar despreparada ao cinema. Comprar esse livro, aliás, foi a primeira coisa que eu fiz ao chegar em São Paulo. Desde que eu assisti o trailer pela primeira vez, no fim de janeiro, estou ansiosa pela estréia do filme no dia 5 de março. Primeira porque assisti uma segunda vez, uma terceira, uma quarta… A história é sobre dois melhores amigos que se gostaram a vida inteira – desde crianças – e nunca se declararam um para o outro por medo do outro não sentir o mesmo. O filme é melhor que o livro, eu aposto, porque, apesar de delicioso, o livro não tem sotaque inglês, e sotaque inglês sempre deixa tudo melhor. De tanto assistir comédia romântica, virei profissional no gênero. Saco muito do assunto e não vou estar enganada quanto a essa love story.

Tudo isso para dizer que, ainda no ônibus, no caminho entre a editora Abril e meu lar provisório, eu comecei uma reflexão sobre eu mesma, meu coração e meus pensamentos. Cheguei à conclusão de que eu amo as histórias de amor como quem adora filmes de fantasia e aventura. Não “adora” do mesmo jeito que eu adorava Peter Pan aos 13 anos e deixava a janela do meu quarto aberta para no caso dele aparecer para me salvar de virar adolescente. Eu adoro histórias de amor da mesma forma que alguém gosta de Jornada nas Estrelas ou de Senhor dos Anéis. Eu não acredito que nada disso vá acontecer na minha vida, mas sou encantada pelas narrativas causadas pelo amor – sejam elas ficcionais ou não.

Alguns gostam de futebol, outros são alucinados por Rock n’ Roll. Já ouvi falar de gente nova que lê tudo sobre os anos 1950 e de gente velha que fica com o coração acelerado toda vez que compra revistas de histórias em quadrinhos. Algumas pessoas não param de falar sobre aviões, mesmo não podendo pilotá-los por serem daltônicas. Tem gente que passa o dia inteiro vendo imagens de gatinhos na internet. Alguns são lunáticos por dinossauros e fósseis, outros nunca saírem do Brasil, mas sabem tudo sobre cultura japonesa. Cada um tem seu assunto assunto favorito, o meu são as histórias de amor.

As três melhores serenatas da história do cinema

Todo mundo se acha sabichão. Um acredita que tem o direito de escolher as 10 melhores séries de TV de todos os tempos, outros se sentem especialistas dignos de selecionarem os 50 melhores restaurantes do mundo todo, tem gente até que se arrisca a publicar uma lista com as cinco melhores posições sexuais para engravidar. Já que é assim, eu também quis compartilhar meu conhecimento. Sou sabichona em comédia romântica e é isso que eu tenho a oferecer a vocês:

As três melhores serenatas da história do cinema

1.
Música “Can’t take my eyes of you”
Intérprete: Heath Ledger
Filme: “10 coisas que eu odeio em você”

10things

Durante a aula de educação física de Kate (Julia Stiles), uma voz misteriosa e maravilhosa surge dos alto-falantes do ginásio. “You are just too good to be true, caaan’t take my eeeeyes of you”. Todos param de jogar o que quer que estivessem jogando e olham ao redor à procura do responsável por esse momento sublime. “You’d be like heaven to touch”. E então surge Patrick (Heath Ledger) – “I wanna hoooold you so much” – descendo completamente seguro de si o cano que suporta os alto-falantes de onde saem a sua voz.

“At long last love has arrived”. Ele é lindo. “And I thank God I’m alive”. Ele usa o cabelo todo bagunçado. “You’re just too good to be true”. Ele é o maior bad boy da escola. “I can’t take my eeeeyes off you”. Ele aponta para Kate – que normalmente finge não estar nenhum pouco interessada nele – com a testa toda enrugada em sinceridade e um sorriso que dá vontade de subir a arquibancada e arrancar um beijo daquela boca linda.

“Pam nã, pam nã, pam ná, pam pam”. A banda da escola entra em ação. Trombones, pratos, flautas e boa vontade se unem na melodia da música originalmente interpretada por Frankie Valli. Enquanto isso, Patrick, que normalmente está muito ocupado tentando manter sua fama de mau, se esparrama pela arquibancada com uma dancinha não menos charmosa que seu sorriso.

E começa o refrão! “I looove you baaaaabyyyyy”. Patrick canta, Kate olha para os lados para ver se é com ela mesmo, Patrick corre pela arquibancada, Kate sorri, Patrick continua cantando, Kate continua sorrindo. Patick senta devagarzinho enquanto solta a frase final. “Let me looooove yoooooooou”.

Dois seguranças da escola aparecem. Ele tenta fugir enquanto é aplaudido por todos. A banda continua tocando. Os seguranças caem, ele corre cheio de graça, um segurança quase o alcança, ele dá um tapinha na bunda do outro, ele é pego. Patrick é levado para a detenção. Kate se apaixona de vez. E eu também.

2.
Música: “Guantanamera”
Intérprete: Rodrigo Santoro
Filme: “A Dona da História”

adonadahistoria

Carolina (Débora Falabella) já está deitada de camisola, quando uma voz deliciosa, acompanhada por uma batida magnífica de violão, invade o seu quarto. “Yo soy un hombre sinceeeero, de donde crecen las palmaaas”. Ela se levanta e vai até a varanda – já sabendo de quem se trata – para também ouvir com os olhos. “Y antes de morir me quieeeeeero echar mis versos del aaaalma”.

Lá está seu amado Luís Cláudio (Rodrigo Santoro), todo vestido de branco, com cara de comunista sonhador, invadindo o seu quintal sem autorização. “Guantanamera, guajira guantanamera”. Carolina sorri apaixonada. “Guantanameeeeeera”. Luís Cláudio, aos seus olhos e ouvidos, se multiplica. “Guajira guantanamera”. Lá está Luís Cláudio tocando violão e cantando, lá está Luís Cláudio tocando atabaque, lá está Luís Cláudio tocando maracas.

“Cultivo una rosa blanca”. Surge um quarto Luís Cláudio logo atrás de Carolina. “En junio como en enero”. Ele começa a beijar o seu pescoço. “Cultivo una rosa blanca”. Ele passa a mão pela sua calcinha. “En junio como en enero”. E Luís Cláudio insiste no pescoço de Carolina com a boca mais cheia de vontade já vista no Rio de Janeiro.

A essa altura, Carolina já deve estar completamente molhada, porque, confesso, eu estou. Mas a cena continua. “Para el amigo sinceeeeeeero”. A mão de Luís Cláudio passeia por debaixo da camisola de Carolina. “Que me da su mano franca”. Carolina perde o ar. Eu já estava sem ar há muito tempo. A música segue para o fim. Guantanamera, guantanemera. E resta, a mim e a Carolina, acalmar nossos corações.

{Depois desse filme, eu nunca mais consegui esquecer o Rodrigo Santoro}

3.
Música: “I’ll be there for you”
Intérprete: Ashton Kutcher
Filme: “De repente é amor”

derepenteéamor

Quando Oliver (Ashton Kutcher) resolve aparecer na porta de Emily (Amanda Peet) para, entre tantos encontros e desencontros, finalmente pedir que eles fiquem juntos, meu rosto já está tão cheio de lágrimas que não tenho como analisar, muito menos descrever, essa cena. Só gostaria deixar registrado que no momento em que ele larga a guitarra, abre os braços e aumenta a voz para a frase “I’ll pray to God to give me one more chance, girl”, a minha vontade é de pular de onde quer que eu esteja diretamente para seus braços e ser a Emily pelo resto da minha vida. Sem mais enrolação, sem mais saudades.

{“When you breathe I wanna be the air for you” é outra frase dessa música do Bon Jovi – que eu nunca havia parado para prestar atenção até assistir esse filme pela primeira vez – que ganhou destaque em meu coração}

Conexão

“A Dona da História” é meu filme favorito entre todos os filmes do mundo.

“Dez coisas que eu odeio em você” e “De repente é amor” são os filmes que eu assistia quase todo final de semana com a minha melhor amiga quando eu tinha uns 17 anos.

Eu nunca havia percebido essa conexão musical entre eles. Vai ver é por isso eu gosto tanto dos três!

Precisei te deixar

deixarEu precisei ir embora. Enquanto eu te esperava tomar banho, percebi que se eu ficasse mais um minuto naquela cama eu iria querer ficar nela para sempre. E eu nunca fui muito boa com para sempres. Se eu te visse mais uma vez, eu ia querer te ver todos os dias da minha vida, por isso não me despedi.

Ali deitada, fiquei imaginando você saindo do banho com o melhor de todos os cheiros, o cabelo todo molhado e aquela cara de felicidade. Aquela mesma cara de ontem e de anteontem e de todos os dias desde que a gente se conheceu. O sorriso mais lindo do mundo, o olho quase fechando de tanta alegria…

Quando percebi, eu já estava de pé, enfiando na mochila as minhas coisas que aos poucos se espalharam pelos cantos do seu apartamento. Naquele momento, eu me dei conta do quanto as nossas vidas estavam entrelaçadas. Senti que se elas se entrelaçassem por mais alguns minutos, não teria como desembolar. Nunca mais. A gente ia ficar preso um na vida do outro e eu não consegui raciocinar até que ponto isso seria positivo.

Fiquei com medo e vim embora. Medo de ser feliz demais. Medo de tanta tranquilidade. Muito medo. Eu acho que eu percebi a imensidão de tudo o que estava acontecendo entre nós dois e fiquei com medo de me perder nisso tudo. Isso tudo que eu nunca saberei descrever, mas que me fazia sorrir até no trânsito engarrafado. Isso tudo que eu talvez sempre tenha sonhado em ter, mas que era bonito demais para preencher a vida toda.

Vim embora. Trouxe a sua camiseta do The Smiths comigo. Não te ter nem um pouquinho mais talvez me deixasse devastada além da conta, então a tomei como companhia. Espero que você não sinta tanta falta dela. Espero não sentir tanto a sua falta. E que a gente sobreviva.