Bichos soltos do amor

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Tenho um amigo que chama cada amiga por um título especial: rainha, duquesa, musa, diva… Só eu e a Caca que ele nunca conseguiu encaixar na nobreza. Vai ver é porque não usamos salto alto, nem gostamos de pentear o cabelo. Vai ver tem a ver com uma porção de outras coisas e nenhuma delas é essa. Vai saber.

Outra amiga, querendo nos consolar por não termos berço de ouro, disse que somos as bichos soltos do amor. Porra. Bichos soltos do amor? Cadê o glamour nisso? Cabe nem um pouquinho de finesse dentro da gente? Nem um fiozinho? Vai ver que não. Ou melhor, vai ver que demais.

Pensei melhor e percebi alegria nessa definição. Tem coisa mais linda, mais delicada, mais encantada que esse tal de amor? Tem não. E viver de amar o mundo, não é o combustível mais nobre de todos? Vai ver esse trem de bicho solto do amor tem mais a ver com a gente mesmo. Vai ver não. É isso mesmo. Vem daí a nossa riqueza.

De uma sala cheia, a gente quer todos os pensamentos. Queremos conhecer cada alma, nos encantar por cada pessoa. Nós adoramos amar gente nova. E amar gente velha. E amar esquinas. E amar saudades. A gente ama até aquele amor que doeu de tudo, mas nos foi história. Adoramos amar quem nunca nos amou e amar quem vai nos amar para sempre. Amamos ideias, amamos opiniões. Amamos conflitos, amamos edredom, amamos cabelo cacheado. Bebemos um copo cheio de amor todos os dias pela manhã e, quando o copo está seco, até passamos mal. Fechamos a cara. Azedamos o café. Sem amor, a gente não funciona. Sem dar amor, a gente endurece. Do amor viemos, nele vivemos e, por causa dele, jamais morreremos.

A gente se preocupa mais em dançar do que em tapar a calcinha, preferimos dividir um copo de cerveja com um estranho que ficar sem prosear, adoramos experimentar comidas diferentes em cidades diferentes feitas por pessoas diferentes. O batom borra, o perfume perde espaço para o suor, e nosso sorriso só aumenta. A gente gosta de viver até a última gota. Até a última pessoa. Até acenderem a luz.

Ô coisa boa ser assim. Cabelos ao vento e coração cheio de vontade de conhecer e compartilhar. Tiramos a sorte grande por sermos, por natureza e sem precisar de coroação, bichos soltos do amor. Nosso berço é de confetes.