“13 reasons why” é pesada, mas necessária

*contém spoilers

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Eu não sou especialista. Não estudei psicologia, nem tenho a menor noção de psiquiatria. Então o texto que se segue são apenas impressões de uma garota que já sentiu sentimentos parecidos com os de Hannah Baker, mas, definitivamente, nunca pensou em se matar.

Minha primeira reação ao começar a assistir 13 reasons why foi “cara, que menina mandona”. Peguei bode da Hannah dando ordens e culpando seus colegas por ter se matado. Porém, ainda no primeiro episódio, o quadro mudou de figura.

Hannah deu seu primeiro beijo e, no dia seguinte, já era chamada de vadia pela escola. Foi só um beijo. Ela e o cara haviam tido uma paquera legal, o dia foi divertido e terminou com um beijo rápido no parquinho. Mas a vontade de se encaixar fez com que o menino espalhasse boatos sobre aquela tarde – e isso desencadeou em uma série de outras mentiras que trouxeram consequências graves para a vida da garota.

Continuei a série pensando “legal, muito disso realmente acontece na escola, é importante falar, mas por que a galera está tão chocada?”, até que cheguei na parte pesada. Os relatos de Hannah são doídos de acompanhar, porque são reais. Todas as semanas, garotas bêbadas são estupradas nas escolas e universidades, todos os meses, garotas sóbrias também. No entanto, esses acontecimentos – presenciados e vividos – são apenas a gota d’água final em um mar de desgraça e solidão na história da protagonista da série.

Não sei se você se lembra como se sentia quando era adolescente. Nem sei se, por acaso, seus sentimentos se pareciam com os meus. Mas eu era bem sozinha. Estava sempre rodeada de amigos, entretanto era completamente solitária. Não faço ideia se minha mãe se recorda: em muitas noites, eu chorava pedindo para nos mudarmos de cidade, pois eu não era feliz na minha escola e porque as minhas amizades nunca mais seriam como as que tive na infância.

Isso não quer dizer que eu não fui feliz na adolescência. Eu fui. E muito. Tive momentos inesquecíveis, vivi experiências as quais daria tudo para repetir. Mas eu também sofria. A sensação de me sentir deslocada doía mais do que as piadinhas imbecis dos meus colegas playboys. Em casa, era chamada de mal-humorada e dramática. Na escola, a minha fama era de efusiva, porém o “dramática” continuava me acompanhando.

Por essa razão, cada vez que alguém na série dizia “a Hannah era muito drama e eu não estava afim de lidar com aquilo naquele dia”, eu pensava em mim e nos meus amigos. Certamente, a maioria já teve esse sentimento em relação a mim. Se estou um pouquinho triste, resolvo sozinha. Vejo filmes, como brigadeiro, me maquio de palhaça. Entretanto, quando estou na merda, transbordo. Ninguém dá muita bola, só minha mãe. Quando as crises de choro não passam, ela insiste para que eu ligue para a minha terapeuta. Quatro sessões depois, estou novinha em folha.

Por isso, repito: jamais pensei em me matar. Nunca fui diagnosticada com depressão. No entanto, eu já tive momentos em minha vida em que me senti no fundo o poço, sem esperança – e foi justamente nesses momentos que as pessoas queridas mais se afastaram de mim. Lembro-me apenas de uma vez em que minhas amigas interviram e instistiram para que eu procurasse ajuda. E, de novo, quatro sessões de terapia depois, eu já estava forte novamente.

O problema é que algumas pessoas não conseguem recuperar suas forças da mesma forma que eu consigo. Elas chegam ao fundo do poço e por lá ficam. A reação de quem está por perto, normalmente, é não dar bola. “Isso é drama, já passa”. Não passa. Nem sempre passa. Quem está assim não tem forças nem mesmo para pedir ajuda, quanto mais para se salvar por conta própria. E os amigos se afastarem só torna tudo pior.

Apesar de, inicialmente, não ter gostado da atitude de Hannah de culpar os amigos por seu suicídio, no fim, eu compreendi a importância da forma como a narrativa foi construída. A adolescente fictícia não se matou por causa deles, ela se matou porque muita merda aconteceu enquanto ela passava pela fase mais solitária e insegura da sua vida. Ela se matou porque não dava conta de suportar tudo aquilo sozinha.

É por isso que eu acredito na importância de 13 reasons why ter virado série. Assustou muita gente, não assustou? As linhas de atendimento do CVV foram descobertas por muitas pessoas que precisam de ajuda, enquanto uma galera se atentou para a importância de se estender a mão – o ombro, os ouvidos, o colo e os dois braços – para quem precisa.

Repito: não sou especialista, não sei falar sobre as implicações que a série pode trazer para quem está na beira do abismo. O que sei é que muita gente agora vai pensar duas vezes antes de dizer que um amigo “é muito drama” e simplesmente dar as costas. Os sentimentos negativos não tendem a melhorar. É preciso de um empurrãozinho – e, às vezes, mais do que isso – para que quem está no fundo do poço consiga olhar para cima e reúna forças para retornar ao topo.

Para mim, esta é a mensagem de 13 reasons why: seja um estímulo positivo na vida das pessoas, não o contrário; seus amigos precisam de você. Espero que ninguém se esqueça dela quando o hype chegar ao fim.

Alguém também me ensinou a roer as unhas, mas isso não sei quem foi

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Uma vez escrevi que  “não sou nada mais que uma peça no colorido quebra-cabeça que é a minha história”. Eu queria dizer disso tudo (e tod@s) que, ao longo da vida, vão fazendo a gente ser quem é.

Lá estão os aparelhos ideológicos do estado, sim, sempre. A Escola ensinando a obedecer, a Igreja ensinando a aceitar sem questionar, a Família ensinando a ser correto – seja lá o que isso signifique na prática. Em várias culturas, países, tradições diferentes, como grandes verdades universais. Mas a realidade é que é da ordem do imprevisível e incontrolável quais serão as marcas que realmente seguirão conosco. Elas surgem despretensiosas, em qualquer hora do recreio, mas não se vão quando o sinal volta a tocar.

Durante os anos de 2000 e 2001, morei em Goiânia com minha família. Tive uma amiga incrível, com quem criei o jornal CPS, que significava Crianças Para Sempre. Nós tínhamos 8 ou 9 anos de idade. Lá pelos 19, fui procurá-la no Facebook, e qual não foi minha surpresa ao descobrir que ela, assim como eu, estudava Jornalismo? Nunca mais nos vimos. Eu poderia falar que o jornalismo foi a grande marca do nosso encontro na vida, mas seria uma mentira descabida. O jornal era só mais uma das nossas trocentas brincadeiras inventivas.

A herança-bônus da Larissa para mim foi um dia de aula em que a professora (tia Sandra, se não for invenção minha) disse: “que gracinha essa Larissa. Toda vez que entrego um papel para ela, ela fala ‘obrigada’.” Eu e Larissa éramos suadas, descabeladas, descalças; nunca inteiramente limpas, caladas ou comportadas. Mas esse cuidado do fundo do ser dela me tocou – e foi para sempre. A bala Chita no sinal vermelho, o troco, o panfleto. Todos esses ‘obrigadas’ nasceram de Larissa e passaram a morar comigo também.

Em Sete Lagoas, na passagem do ensino fundamental para o médio, conheci uma figura memorável em vários sentidos (tão querida que carregamos, eu, ela e mais outras preciosidades, um coração tatuado coletivamente no pulso). Débora leva em torno de si algumas dezenas de boas e divertidas características. Mas, de novo, há algo dela que carrego no cotidiano, no todo dia que meu ser é.

Dando nome a alguns dos adjetivos, Débora é hilária e charmosa ao sentir raiva de alguém. Eis que um dia ela sentenciou: “Que raiva, nem me cumprimentou pelo nome!”. E assim, simples como a chuva que cai, eu percebi que o nome importa. Descobri que eu me sentia bem ao ser cumprimentada pelo meu nome, e que provavelmente também faria esse bem às pessoas que assim eu cumprimentasse.

A lição de Débora varia de duas a quatro sílabas. Não deve somar um décimo de segundo, nem um mililitro de saliva. Mas, a cada vez que eu a utilizo (em todos os dias em que falo), é luz e delícia no peito. É olhar para alguém, por mais distante que esse alguém seja, e dizer (sem dizer): ei, te conheço, te reconheço, você para mim importa, seu sorriso importa, o deus que está em mim saúda o deus que está em você. Três sílabas, 0.08 segundos, muito menos saliva do que eu gasto cuspindo no ferro de passar roupa para ver se ele já está quente.

E agora chegamos ao meu aprendizado duplo, que eu só soube que aprendi depois de passar numa prova que nunca fiz. Por gentileza pura e gratuita, a Bárbara, uma estudante da mesma faculdade que eu, resolveu me falar que eu sabia abraçar, que eu abraçava “de verdade”. E eu pensei “uai, maizé?”.

A primeira coisa que me veio à cabeça foi o abraço da minha irmã. Eu costumava falar que ela tinha os braços de um grilo… até que ela te abraça com a força que a Terra usa para girar todos os dias. Quando a gente se encontra e a Lívia vem com aquele abraço, ela une corpo, alma, espírito, mente, coração, todos os órgãos, chackras, neurônios, sentimentos, tudo ali, naquele espaço, naquele tempo, naquele encontro, naquele abraço. Nenhum centímetro do perispírito divaga por qualquer outro lugar. É só ali, naquele amor, que se quer estar. O abraço dela é o maior dos gestos silenciosos a gritar: estamos junt@s, e isso é maravilhoso, eu não queria estar em nenhum outro lugar, que bom que aqui estamos, deixa eu te esmagar!

Fernanda, minha segunda professora de abraço na escola com E minúsculo, sem boletim nem diploma, me deu a primeira (não)aula no dia em que nos conhecemos. Eu estava tentando uma vaga de estágio no programa em que ela era produtora e repórter, e tinha certeza que a entrevista tinha sido um fracasso. Como pegava mal eu tentar sair derretendo discretamente pela janela do sexto andar, fui até a portaria do prédio para ir embora, e Fernanda me acompanhou. Antes de ir, ao lado da roleta, ela me deu um abraço que tenho certeza que foi na alma também. Eu pensei: “é, acho que até mereço um abraço desse, depois desse desastre de entrevista”. Mal sabia eu que aquele abraço iria se repetir diariamente, pelos dez meses em que juntas trabalhamos. Mal sabia eu que o abraço da Fernanda é uma tatuagem que ela sai distribuindo pelo mundo, a encher os caminhos de sentido, de força, de fé, de afeto.

Aprendi a tabuada, a olhar para os dois lados antes de atravessar a rua, a teoria da agulha hipodérmica e também uma porção de coisas belas, intangíveis e infinitas – que ninguém teve a intenção de me ensinar. Pólens que abelhas deixaram cair em seus voos e (obrigada ao ar, ao vento, ao céu) floresceram em mim. Eu sou feita de uma porção de pessoas normais, que sentem raiva, brigam e às vezes jogam papel no vaso. Levo de presente o que elas tem de mais humano e incrível – que são elas mesmas, em seus pequenos e despretensiosos detalhes.

Às mestras da minha vida, obrigada pelas sementes. Por onde flor, vocês vão comigo.

Saudade-bagagem

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O sentimento de puxar sua mala sabendo que as vidas que ali ficam seguirão o fluxo de suas existências. Fechar a porta com a consciência de que ali continua uma conversa, uma risada. No último sábado, eu era quem ficava, e não quem ia embora. Enquanto a porta se fechava, vi Clarinha dar uma olhada para trás, como quem ainda quisesse compartilhar uma última coisa. Nossos olhos nem se cruzaram e a hesitação durou só um respirar – ela, seu par de botas e de rodinhas seguiram corredor afora.

Me mudei de Pouso Alegre em agosto de 2006, com 14 anos. Coleciono, desde então, uma pilha de despedidas. É curioso que eu não me lembre dos momentos exatos em que encontrava minhas amigas pela primeira vez, mas consiga reconstituir com nitidez muitos dos nossos tchaus – que se transformavam em contagens regressivas nos instantes seguintes.

Chovia e eu olhava com bochechas molhadas pela janela do ônibus que deixava a rodoviária; eu entrava no Ford Ka preto da Olívia deixando abraços que eu não queria largar na calçada; meus pais me buscavam na casa da Una e eu sentava a contragosto no banco de trás.

Durante os nossos fins de semana, férias e feriados juntas, eu sempre me incomodava quando ouvia eventuais planos para “a semana que vem” – aquela, em que eu já não estaria ali. Eu voltava e uma já tinha tirado carteira de motorista, a caçula perdia a virgindade, o filho de outra nascia e crescia – tudo sem que eu pudesse estar.

Mas o tempo rei ensina e, o que antes era dor, agora me parece a maior das belezas. Eu vou, sabendo que volto. Eu fico, sabendo que acaba. O correr do relógio ainda me incomoda, que tanta pressa não precisava ter. Mas o amor gigante, seguro e maduro que ocupa cada espaço entre os ponteiros dispensa a ansiedade e enche de completude aquele recorte de tempo e espaço em que nos encontramos e juntas estamos.

Sei que na minha próxima visita o Henrique vai ter voltado a não me conhecer, alguém vai ter mudado de emprego e alguém de ideia sobre outro alguém. Mas não há [mais] problema. Vou jogar o Henrique para cima até que ele me goste como se fosse a primeira vez e as horas vão nos abraçar enquanto trabalhos, famílias, namoros, paqueras, estórias, medos e sonhos são compartilhados. Vai ser delicioso e real. Depois eu volto pra casa. Todas as vidas seguem, em suas rotinas e em imprevisibilidades. Até que, de novo, eu volto praquela outra casa – que é o colo delas.

Clarinha, bem-vinda ao clube. De quem deixa pedaços do coração para trás a cada passagem de volta; mas de quem tem também o privilégio de ter corações sorrindo a sua espera, a cada passagem de ida. {o meu já ensaia a alegria de te rever pelo resto da vida}

Juventude bundona e feliz

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Começou quando eu me mudei para BH para fazer faculdade, há pouco mais de quatro anos. Novata como eu estava acostumada a ser desde que me sou, cheguei à universidade e à cidade com olhos de nunca. Tudo era novo – mas nem para todo mundo.

Nas primeiras aulas, intervalos, bares e calouradas, descobri que um punhado de gente ali já se conhecia. De festas da própria faculdade (mas como, se antes estavam no colégio ou no cursinho?), da escola, do inglês, do bairro, do primo. Alguém já sabia se o João era gay, quem a Maria tinha namorado e para onde foi o intercâmbio da Joana. Uma galera já tinha pelo menos se esbarrado na vida. Dividindo um beijo triplo, um shot ou um baseado.

Foi por aí que eu criei para mim mesma o conceito da ‘juventude belorizontina’, que comecei a usar para os meus amigos que tomaram porre na Mary in Hell, fumaram no banheiro de algum colégio dentro do contorno da Contorno, foram emo, punk ou bi por alguma esquina da Savassi. Existem mais variações das pessoas que assim rotulei: gente que fazia a trilha da Serra do Curral pelo cano, antes da gourmetização da prefeitura; gente que, com 15 anos, rodava Belo Horizonte de bike & feliz; gente que já vivia a cidade que hoje sinto que é minha também quando eu nem sonhava que um dia eu e alguma cidade íamos nos pertencer assim.

E então eu comparo essas juventudes com a minha. Na oitava série, o colégio em que eu estudava faliu e eu cursei todo o ensino médio com uma turma que variava entre 20 e 25 alunos. O nosso programa supremo do fim de semana era ir ao cinema (assistir um blockbuster, nada de belas artes) e emendar na feirinha da lagoa-praça, comendo pastel, hambúrguer, churros e bombom. Passávamos as tardes juntos, uns nas casas dos outros, nadando, jogando bola, sinuca e baralho. A gente comprava uma pizza muito barata que deixava a boca cheia de farinha branca. A gente comprava era muita pizza e refrigerante, pro bando todo encher a pança.

A aventura era alugar uma van para irmos passar o dia em BH, para jogar boliche, ir em um show do Forfun ou do Simple Plan. A Mostra de Profissões da UFMG era um grande evento – pra gente ficar abismado com o tamanho daquele campus e ele parecer um mundo e os mais guerreiros caminharem da Praça de Serviços até a Catalão por um Big Mac. Por uma casquinha que a nossa cidade não tinha.

Houve a fase da festinha-fechada-com-alguma-coisa-com-vodka-liberada. Acho que foi quando a gente percebeu que queria paquerar, mas que na nossa turma seríamos sempre só melhores amigos. Originamos alguns casais, no entanto – e alguns de nós nos revezamos entre a gente, tudo entre família, sabe. Eu e as meninas da turma tatuamos um coração no pulso direito. A gente ainda fica extremamente em casa quando juntas.

O álcool não foi necessário nessa minha juventude. Antes, aos 14 anos, em Pouso Alegre, a bebida parecia mais importante do que depois, até os 17, em Sete Lagoas. Eu vi maconha pela primeira vez na faculdade. Fui aprender a diferença entre o cheiro de maconha e de cigarro de palha lá pelas tantas. Fumei meu primeiro cigarro de palha no terceiro ano de faculdade – depois de terminar o namoro que tantos beijos deve ter me dado com a farinha branca da pizza barata na boca.

Alguns de nós passamos na mesma universidade e tomamos umas boas cervejas nos últimos anos. A cerveja, é verdade, foi incluída na turma como uma amiga querida. Experimentamos maconha, experimentamos outras coisas além de maconha, perdemos a virgindade, perdemos a vergonha, perdemos a memória, perdemos ingenuidade, moral e bons costumes, amém. Mas, por mais que não haja nessa vida um jeito mais ou menos certo de ser & caminhar, eu sinto que foi tudo a seu tempo. Ser bocó junto quando era tempo de ser bocó junto. Descobrir e viver outros mundos quando assim o vento do tempo soprasse na gente.

Temos viajado para outras cidades para nos vermos. Percebemos o quanto todos nós mudamos. De país, de curso, de ideia. De posicionamento, visão de mundo. De manequim, de corte de cabelo, de jeito, de gosto. Engravidamos, separamos, achamos que não íamos mais ser amigos. Acaba que fomos. De alguma forma, seguimos. A gente perdeu toda uma juventude transviada, com tudo que isso tem de potente e transformador. Mas a gente não se perdeu da gente. Que bom.

Mixtape #20 – Juventude

Gratidão pelo agora !

01- Letters To Cleo – I Want You To Want Me | 02-  Elton Jhon – Tiny Dancer | 03- Banda do Mar – Muitos Chocolates | 04- Cat Stevens – If You Want To Sing Out Sing Out | 05- Regina Spektor – Small Town Moon | 06- Barão Vermelho – Pro Dia Nascer Feliz | 07-  Caetano Veloso – Tropicália | 08- David Bowie – Modern Love | 09- Nina Simone – Ain’t Got No, I Got Life | 10- Tim Maia – Sossego

Mixtape #15 – Clara

Todo sentido do mundo sem fazer sentido nenhum. A mixtape e a menina.

01- Barão Vermelho – Porque a Gente é Assim | 02- Juan Magan – Verano Azul| 03- Legião Urbana – Tempo Perdido | 04- Los Hermanos – Conversa de Botas Batidas | 05- Major Lazer ft. The Partysquad- Original Don  | 06- Rent – Take Me or Leave Me | 07 –  Mc Andinho – Arrasou  | 08- NeverShoutNever – Trouble | 09 – Beyoncé – Love On Top | 10 – The Beatles – Sg Peppers Lonely Hearts Club Band

O WhatsApp está me afastando dos meus amigos

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Em janeiro de 2012 eu realizei um sonho: ter WhatsApp. Finalmente eu poderia conversar de graça pelo celular. Com os grupos, matei uma saudade antiga: a dos chats em grupo do MSN. Eles foram a melhor parte da minha adolescência. Eu passava as madrugadas rindo das bobagens provocadas pela falta de sono às 4 da manhã. Também foi nesses chats que me apresentaram algumas das minhas bandas favoritas, bem como aconselhei muitos corações partidos e tive, várias vezes, o meu coração consolado.

Lá em 2012, os grupos do WhatsApp funcionavam quase assim como os do MSN. A diferença é que a conversa rolava a qualquer hora do dia. Eles eram o meu consolo por não poder ver a maior parte dos meus amigos todos os dias. Eu podia estar com eles mesmo sem estar e a gente continuava se conhecendo diariamente. Era até chato quando alguém ainda não tinha smartphone. A pessoa ficava de fora de todas as decisões do grupo e era sempre a última a saber que fulano de tal passou no concurso, conheceu o amor da vida ou estava há uma semana sem falar com os pais.

No WhatsApp de 2012, os amigos conversavam. Falavam e ouviam. Aconselhavam. Comemoravam. Conviviam. Hoje, no WhatsApp de 2014, em que todos os meus amigos estão finalmente conectados, sinto-me cada vez mais sozinha em meio a tanto blá blá blá. Uns só aparecem para pedir conselhos e falar da própria vida (a esses dei o apelido de “egochatos”), outros parecem ter seus preferidos para interagir e só respondem quando eles aparecem. É muito comum o grupo estar parado há 12 horas, então você fala alguma coisa e, um minuto depois, alguém puxa um assunto completamente diferente ignorando e fazendo todos ignorarem o que foi dito por você. E isso não é pessoal. Acontece com todo mundo.

Ainda – raramente – acontecem algumas conversas como as de 2 anos atrás. Todo mundo interagindo, se ouvindo, se gostando. Tento responder a todos e fico triste pra danar quando entro e tem 200 mensagens não lidas por eu não ter participado da conversa. Mas, na maioria das vezes, me arrependo de ter dito qualquer coisa. Já que, na maioria das vezes, quase ninguém dá bola. Uma fala entra depois da outra e ninguém se ouve.

A sensação que me dá, quando a gente finalmente se encontra, é de que não nos conhecemos mais. E talvez não se conheça mesmo. Pelo menos ao vivo fica claro que a gente ainda se gosta de verdade e que esse amor tem grandes chances de durar para sempre. Mesmo que no WhatsApp eu não goste mais tanto de vocês.

A cama da Tamires é o melhor lugar de Londres

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Se me perguntarem em qual lugar eu passei mais tempo quando morei em Londres, vou responder sem sombra de dúvidas: na cama da Tamires. Eram finais de semanas inteiros passados naqueles lençóis, dormindo apertadas, comendo donuts, enrolando para a aula.

Quando eu cheguei em Londres, morei com uma família, em Brixton, sem um pingo de hospitalidade. Meu quarto tinha 2m²: ou eu ficava deitada, ou eu entrava dentro do armário. Depois me trocaram para uma sala macabra cheia de porta retratos antigos, onde chorei de medo dos riots de 2011 depois de ver a vizinhança toda quebrada.

Acabado o tempo na casa de família – um mês jogando o jantar fora porque a host mother colocava feijão enlatado doce por cima dos congelados e do purê de batata, estragando aquilo tudo que já era muito ruim – me mudei para o sofá de uma amiga polonesa da amiga da minha irmã. Acomodação temporária grat’s. Só que a amiga polonesa foi viajar e me largou dividindo o quarto com o namorado polonês dela que não gostava de falar inglês. Foram mais duas semanas chegando em casa só na hora de dormir e saindo cedinho para não atrapalhar ninguém.

Aí finalmente encontrei minha própria casa: uma antiguidade de quatro quartos, dois banheiros, uma cozinha imunda e 12 pessoas morando juntas. Pelo menos, era bem localizada: Portobello Road {to the sound of reggae}. Eu dividia o quarto com uma italiana lésbica virgem de 17 anos que queria ser atriz da Broadway e passava dia e noite assistindo Glee pelo computador e com outra italiana que falava menos inglês que o polonês. Lá aprendi a não acordar com luz na cara e barulho alheio e que minha bagunça definitivamente cabe em 2m². Meu único amigo de verdade era um português simpático – apesar de tentar forçar a pose de durão – que às vezes se arriscava a fazer jantares deliciosos na nossa cozinha frequentada por ratos. Fiz xixi sem sentar na privada durante os quatro meses que lá morei.

No meio disso tudo, conheci a Tamires. Eu não queria ter amigos brasileiros, mas ela adorava dubstep e cachorro quente de rua, não deu para fugir. Ainda mais depois que obrigamos nossa amiga russa a roubar uma caneca do Starbucks como souvenir. Éramos cúmplices em um crime internacional, como abandoná-la? Já na nossa primeira saída, dormi na casa dela. Era um quarto montado em uma garagem, nada muito diferente das bagunças que eu estava acostumada. Mas da segunda vez que voltamos de festa juntas… Oh Lord! QUE CAMA!

Tamires agora ocupava um quarto de verdade todinho só para ela. Um quarto de fêmeazinha emancipada com cama enorme de casal, escrivaninha e um armário monstro. Além disso, esse quarto fazia parte de uma casa com cara de casa! Quintal gramado com macieiras, uma cozinha minimamente bem cuidada vigiada por seus housemates turcos, banheiros sentáveis… Um paraíso! A Maíra – colega da Tamires e, mais tarde, minha roomie -, assim como eu, morava em um cafofo e também se apaixonou por aquele lugar que só tinha um defeito: era afastado de tudo. Ficava em Lewisham, no fim do mundo. Mais uma desculpa para não saírmos de lá. Se tínhamos chegado tão longe, para que irmos embora?

Uma vez na cama da Tamires, não levantávamos. Teve um final de semana que passamos dois dias deitadas, as três, nos revezando para ir ao banheiro ou cozinhar jaked potatoes. No Halloween, arranjamos espaço para a Aline e dividimos a cama por quatro. Quando era dia de semana, sempre combinávamos de ir comer British Breakfast perto do metrô, mas não conseguíamos levantar. Perdíamos o café da manhã e a aula. Até que eu e a Maíra fomos morar juntas e a Tamires achou que nunca mais voltaríamos à sua casa. Até parece, aquela cama era o nosso verdadeiro lar. Nosso único aconchego na cidade que é um mundo.