Juventude bundona e feliz

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Começou quando eu me mudei para BH para fazer faculdade, há pouco mais de quatro anos. Novata como eu estava acostumada a ser desde que me sou, cheguei à universidade e à cidade com olhos de nunca. Tudo era novo – mas nem para todo mundo.

Nas primeiras aulas, intervalos, bares e calouradas, descobri que um punhado de gente ali já se conhecia. De festas da própria faculdade (mas como, se antes estavam no colégio ou no cursinho?), da escola, do inglês, do bairro, do primo. Alguém já sabia se o João era gay, quem a Maria tinha namorado e para onde foi o intercâmbio da Joana. Uma galera já tinha pelo menos se esbarrado na vida. Dividindo um beijo triplo, um shot ou um baseado.

Foi por aí que eu criei para mim mesma o conceito da ‘juventude belorizontina’, que comecei a usar para os meus amigos que tomaram porre na Mary in Hell, fumaram no banheiro de algum colégio dentro do contorno da Contorno, foram emo, punk ou bi por alguma esquina da Savassi. Existem mais variações das pessoas que assim rotulei: gente que fazia a trilha da Serra do Curral pelo cano, antes da gourmetização da prefeitura; gente que, com 15 anos, rodava Belo Horizonte de bike & feliz; gente que já vivia a cidade que hoje sinto que é minha também quando eu nem sonhava que um dia eu e alguma cidade íamos nos pertencer assim.

E então eu comparo essas juventudes com a minha. Na oitava série, o colégio em que eu estudava faliu e eu cursei todo o ensino médio com uma turma que variava entre 20 e 25 alunos. O nosso programa supremo do fim de semana era ir ao cinema (assistir um blockbuster, nada de belas artes) e emendar na feirinha da lagoa-praça, comendo pastel, hambúrguer, churros e bombom. Passávamos as tardes juntos, uns nas casas dos outros, nadando, jogando bola, sinuca e baralho. A gente comprava uma pizza muito barata que deixava a boca cheia de farinha branca. A gente comprava era muita pizza e refrigerante, pro bando todo encher a pança.

A aventura era alugar uma van para irmos passar o dia em BH, para jogar boliche, ir em um show do Forfun ou do Simple Plan. A Mostra de Profissões da UFMG era um grande evento – pra gente ficar abismado com o tamanho daquele campus e ele parecer um mundo e os mais guerreiros caminharem da Praça de Serviços até a Catalão por um Big Mac. Por uma casquinha que a nossa cidade não tinha.

Houve a fase da festinha-fechada-com-alguma-coisa-com-vodka-liberada. Acho que foi quando a gente percebeu que queria paquerar, mas que na nossa turma seríamos sempre só melhores amigos. Originamos alguns casais, no entanto – e alguns de nós nos revezamos entre a gente, tudo entre família, sabe. Eu e as meninas da turma tatuamos um coração no pulso direito. A gente ainda fica extremamente em casa quando juntas.

O álcool não foi necessário nessa minha juventude. Antes, aos 14 anos, em Pouso Alegre, a bebida parecia mais importante do que depois, até os 17, em Sete Lagoas. Eu vi maconha pela primeira vez na faculdade. Fui aprender a diferença entre o cheiro de maconha e de cigarro de palha lá pelas tantas. Fumei meu primeiro cigarro de palha no terceiro ano de faculdade – depois de terminar o namoro que tantos beijos deve ter me dado com a farinha branca da pizza barata na boca.

Alguns de nós passamos na mesma universidade e tomamos umas boas cervejas nos últimos anos. A cerveja, é verdade, foi incluída na turma como uma amiga querida. Experimentamos maconha, experimentamos outras coisas além de maconha, perdemos a virgindade, perdemos a vergonha, perdemos a memória, perdemos ingenuidade, moral e bons costumes, amém. Mas, por mais que não haja nessa vida um jeito mais ou menos certo de ser & caminhar, eu sinto que foi tudo a seu tempo. Ser bocó junto quando era tempo de ser bocó junto. Descobrir e viver outros mundos quando assim o vento do tempo soprasse na gente.

Temos viajado para outras cidades para nos vermos. Percebemos o quanto todos nós mudamos. De país, de curso, de ideia. De posicionamento, visão de mundo. De manequim, de corte de cabelo, de jeito, de gosto. Engravidamos, separamos, achamos que não íamos mais ser amigos. Acaba que fomos. De alguma forma, seguimos. A gente perdeu toda uma juventude transviada, com tudo que isso tem de potente e transformador. Mas a gente não se perdeu da gente. Que bom.

Dois filmes e um livro

Tem só seis dias que o ano começou e eu já cumpri 3 das minhas (mais ou menos) 67 promessas. Espero que isso não seja apenas uma empolgação inicial e que eu siga nesse caminho da felicidade o ano todo.

Eu poderia dizer que já cumpri 4 promessas, mas minhas amigas acharam mais coerente eu precisar ver 24 filmes no cinema e não 24 filmes no total. Então o “J. Edgard” do dia 01 – assistido no sítio enquanto o sol dava uma escondidinha entre as nuvens – não conta (mas indico para quem gosta de História).

Eu poderia estar mais feliz, mas ainda não tomei nem uma colherada de sorvete este ano, quanto mais de um sabor que nunca provei. Ainda bem que ainda tenho 359 dias (!!!) para isso. Dá para tomar muito sorvete e ser muito feliz.

Um livro

“Nu, de botas”, de Antônio Prata

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Ganhei da minha madrinha três livros de Natal. O primeiro eu já devorei entre a visita do Papai Noel e o estalar dos fogos da virada. “Fim” da Fernanda Torres (leiam!). O segundo acabei de terminar. “Nu, de botas” do cara que me despertou o interesse por crônicas quando “Capricho” era minha revista favorita, Antônio Prata.

Por 140 páginas convivemos com Antônio ainda criança, em meados dos anos 1980, descobrindo o mundo. É Antônio adulto que escreve, com o mesmo olhar espantado e a mesma confiança dúbia de um menino de menos de 10 anos de idade. Essa visita à São Paulo da década precedente a do meu nascimento, me fez viajar para minha vida em Belo Horizonte nos anos 1990 – quando achei esquisito nem minha mãe, nem meu pai, nem nenhum outro adulto querer me explicar o que significava a palavra “tesão” e precisei contar com a boa vontade do meu primo dois anos mais velho para entender o que minha colega quis dizer ao cantar “lindo, tesão, bonito e gostosão” em uma excursão do colégio para assistir “‘Sonho de uma noite’ de verão para crianças” – entre outras memórias que acabarão virando textos por aqui. Acho que  também lhe faria muito bem escolher “Nu, de botas” para ler.

Dois filmes:

“Album de Família”

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Sexta-feira, eu e minha mãe fomos ao Ponteio assistir “Album de Família”. Eu estava nervosinha por ser meu primeiro dia de menstruação – meu ombro fica eletrificado de estresse toda vez que é esse dia – e meio sem paciência para o novo vício da minha mãe em whatsapp e instagram. No entanto, fiquei calminha e contente quando a moça trouxe pipoca e Coca Zero até nossas poltronas inclináveis (bendita pessoa que inventou a sala Premier!). Até minha mãe esqueceu o “maravilhoso” mundo dos aplicativos para se afogar no melhor balde de pipoca amanteigada das nossas vidas.

Poltrona confortável, pipoca, refri, mãe atenta, o filme começou. “Album de família” definitivamente é para ser assistido em família. Teríamos feito bem em chamar a minha avó, mas esquecemos. Minha irmã estava na praia e meu pai trabalhando. Sobramos, eu e minha mãe. Ótima escolha essa de irmos juntas. O filme tem momentos cômicos, tem momentos tristes e tem muita grosseria gratuita entre familiares. Nossa família tem muita grosseria gratuita entre familiares. Minha mãe viu a mãe dela na matriarca interpretada pela Maryl Streep, eu vi minha mãe na mesma personagem. Contei para ela, ela me olhou como se pedisse desculpas, e fomos lanchar alguma coisa gostosa

“Confissões de adolescente”

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O filme “Confissões de adolescente” será lançado dia 10, mas já está em cartaz há duas semanas em sessões de pré-estréia e, desde então, venho convidando minhas amigas para irem comigo assistir. Na verdade, só convidei duas vezes. Na primeira,  sem companhia, acabei trocando por “Questão de tempo”(minha comédia romântica do momento), na segunda, deu certo. Eu e duas amigas do colégio fomos ao Cinemark do BH Shopping. Mais uma vez, acertei nas companhias. O filme dá uma saudade danada da época de escola, se nenhuma das minhas amigas da época estivesse comigo, eu ia ligar para elas assim que saísse da sala de cinema pedindo para encontrar. Nós três demos risada o filme inteiro e, depois, passamos um bom tempo ainda rindo e comentando as cenas. No Brasil, não tem muita produção boa voltada para o público jovem, sinto muita falta. Após “Confissões” nós três saímos bem satisfeitas. Bem melhor que os besteróis americanos de High School. Espero que o filme faça tanto sucesso quanto a série fez nos anos 1990.

Faltam 11 livros, 22 filmes, 10 sabores de sorvete etc para completar “minha primeira lista de promessas de ano novo”.