Pra você correr macio

Nos mais de trinta dias que fiquei sem escrever aqui, mentalizei um texto diferente a cada cair do Sol. Quanto mais o tempo passava, mais ansiosa eu ficava para descobrir que assunto me traria de novo – apesar da falta de tempo, do pouco vento ou do que mais eu inventasse.

O texto foi se esboçando metalinguístico dentro de mim – eu queria vir justamente falar do que me engoliu e de como eu tive que me vomitar de volta. Então hoje o mundo me empurrou de cabeça nessas linhas, sem escapatória. Eu precisava vir falar não apenas que é preciso inventar tempo para ser feliz, mas que tudo isso requer coragem.

Com o fim de cada tarde vem o cansaço de um corpo que carrega a si e a uma mochila de dissabores do mundo nas costas. Olhos acinzentados pelas cores que o dia negou, pescoço rijo de quem ficou horas demais sem olhar em volta. Mas com o fim da tarde vem também a paleta imprevisível de nuvens e poluções e sóis e céus. Minha chance de tacar o rosto na janela e respirar – vento sujo, vapor quente, mas vida em forma de ar.

E é quando eu passo a construir meu tempo. Convencer a mim e ao relógio de que somos amigos, precisamos caber num abraço, precisamos parar para ser – por qualquer instante, vendo as luzes do viaduto, o pipoqueiro ensacar a pipoca, as árvores secas colorirem o chão de laranja.

O tempo, enfim – disse eu para mim – é de dentro para fora. Nunca o contrário. O contrário faz a gente acreditar que realmente não dá, que amor só com hora marcada, sorvete só no final de semana, felicidade só para quem tá com a vida ganha.

Não que ser feliz não exija esforço. Hoje saí do trabalho irradiando qualquer alegria, reparei no amarelo do Sol, conversei com o Carlos que vende os livros que encontra no lixo e encontrei a Pretinha, dormindo estrebuchada no meio da calçada. Era mais uma bela Praça da Estação ao por do sol – até que aquele garoto me mostrou aquela faca e me disse aquelas coisas e parte de mim tremeu, e a outra parte também. Tive medo do que ele faria comigo e depois do que a polícia faria com ele. Troquei o sorriso besta por um choro angustiado, de quem foi vítima de uma outra vítima, mais perdida e calejada.

Mas voltei aqui para falar, lembra? Que é preciso coragem. Para continuar não mudando de calçada. Para ainda preferir vidros abertos ao ar condicionado. Para olhar para o céu, mesmo que isso te torça o pé. Para seguir em frente vendo fragmentos de cor no concreto, espaços vagos entre os ponteiros e cultivar o que de melhor a gente conseguir, dentro e fora do peito.