O especial de ‘Gilmore Girls’ era exatamente o que eu precisava neste fim de ano

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Hoje acordei às 14 horas, preparei um bom café e me sentei em frete à televisão. Pedi um delivery de comida chinesa, já que – por algum motivo que desconheço, mas desaprovo profundamente – as pizzarias de SP só fazem entregas a partir das 18 horas. Café e delivery, esse era o único jeito possível de iniciar a minha maratona de Gilmore Girls: Um Ano Para Recordar.

Sou fã da série há três meses e as lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto logo no momento em que apertei o play na Netflix – imagino como deve ter sido para quem se apaixonou pelas mulheres Gilmore há 16 anos. É inverno em Stars Hollow e Lorelai sorri para a neve com a mesma alegria tranquila que eu sorrio quando reúno vários amigos no mesmo programa. Logo chega Rory e as duas começam aquele diálogo veloz, cheio de referências pops e irônia, que tornam a história delas tão gostosa de acompanhar.

Passaram-se 9 anos desde que Luke deu um beijão de reconciliação em Lorelai e Rory saiu para cobrir a campanha do Obama para presidente. A ansiedade em saber o que aconteceu com elas desde então é tão grande quanto a vontade de os quatro episódios do especial durarem para sempre. A história vai se desenrolando e está tudo ali, não falta nada. Parece que é Natal, mas sou apenas eu assistindo TV sozinha em casa enquanto devoro uma caixa de yakissoba e outra de frango empanado. E isso é perfeito.

Lorelai e Rory estão passando por situações que se encaixam perfeitamente com os questionamentos que tenho me feito neste fim de ano. A filha principalmente. Ela entrou para o mundo do jornalismo com os mesmos sonhos que a maioria de nós entra quando embarcamos na profissão. Contar histórias relevantes! Fazer a diferença!! Mudar o mundo!!! Mas é 2016 e as pessoas preferem fazer testes do BuzzFeed e assistir a vídeos de desconhecidos falando sobre a própria vida no YouTube do que ler um bom artigo ou um livro reportagem.

Sou jornalista e não trocaria a minha profissão por nada. Porém, com as redações cada vez menores, morro de medo ser obrigada a encarar um plano B para me sustentar. Eu não tenho um plano B. Além disso, sempre sinto que deveria estar fazendo mais. Trabalhar com produção de conteúdo online é cruel. As pessoas só clicam nas notinhas e listas mais bobas que você faz. Quando, finalmente, tem tempo para produzir uma reportagem relevante, os poucos leitores encontram algum jeito muito cruel de lhe criticar por não ter escrito sobre o tema da forma que elas escreveriam.

Ver a Rory procurando emprego em uma redação aos 32 anos é angustiante. Ela leu todos os livros imagináveis, conhece tudo de cultura pop, é uma mulher curiosa sempre em busca de aperfeiçoamento e sabe escrever um artigo de opinião como ninguém. Desempregada. E não é porque ela não é boa o suficiente, mas porque, hoje em dia, é mais fácil virar uma blogueira mundialmente famosa do que conseguir um emprego na área editorial.

Vê-la nessa situação, me faz questionar ainda mais sobre a minha carreira. Estou no caminho certo? Por que não escrevo um livro? Será que começo a produzir reportagens por conta própria no meu tempo livre? Se me organizar melhor, eu consigo fazer toda a parte gerencial do meu trabalho e ainda produzir matérias relevantes no horário de serviço? E aos 32 anos? Será que, até lá, já terei influenciado positivamente a vida de alguém com minhas palavras? Onde estarei trabalhando? Em que cargo? Já vou ter lançado um livro?

Outro aspecto da vida de Rory é que ela segue enrolada nas questões amorosas. A sociedade nos faz acreditar que, se você não tiver encontrado alguém para passar o resto de sua vida até os 28 anos, você é uma fracassada. Rory – assim como eu – sabe que existem coisas mais importantes que isso. Inclusive, é bom ver sua independência sexual. Ela tem um namorado nos EUA, pega o regularmente ex em Londres e, finalmente, faz sexo casual pela primeira vez. Porém – assim como eu –, Rory fica carente da segurança que um relacionamento estável e cheio de companheirismo trás.

E esse é um ponto que, pelo meu histórico, eu não imagino sendo resolvido na minha vida. Nunca namorei, tive alguns rolos que se estenderam por mais de três anos e sempre me dei muito mal quando me envolvi sentimentalmente com alguém. Porém, quando vejo Lorelai, sei que há esperança. Aquele amor firme e intenso que quase toda menina sonha desde a adolescência – por mais feminista que seja – pode chegar depois dos 32. Para ela chegou. Ver o quanto Luke e Lorelai são companheiros é acalentador. No entanto, a série mostra que, após o casal se beijar no “fim”, por melhor que seja a relação deles, os conflitos nunca acabam. Isso é bom. Estabilidade demais é entediante. Mulheres como eu e as Gilmore não gostam de tédio, afinal.

Já passava das 22 horas quando, depois de muitas lágrimas de alegria e melancolia e alguns aplausos de empolgação, chegou o momento das quatro palavras finais. Aquelas que a criadora Amy Sherman-Palladino guardava há anos – e não aconteceram antes porque ela e o marido não participaram da sétima temporada da série.

(agora é a hora que você para de ler se não tiver assistido ao especial ainda, porque eu não quero ser a pessoa terrível que conta lhe conta isso. você precisa assistir!! – sério, segure a ansiedade)

Rory, enfim, tem um foco profissional: está escrevendo o livro da sua vida. Também colocou um ponto final nos relacionamentos que, claramente, não têm futuro. Lorelai está casada com Luke e bem resolvida com Emily, sua mãe (o momento atual dela é outro que rende um post inteiro!). As duas estão sentadas no coreto na praça central de Stars Hollow e Rory solta: “mãe, eu estou grávida”. Fim.

Eu sorrio. Consigo, finalmente, secar as lágrimas que escorreram ao longo dos quatro episódios. Rory está grávida! Assim como na vida real, ainda tem mais por vir na história das Gilmore. Os desafios nunca acabam. Sinto certo alívio. Não cheguei a nenhuma conclusão sobre minha carreira, muito menos sobre a minha vida amorosa. Gilmore Girls, afinal, não é sobre respostas. Nunca foi. Gilmore Girls é sobre viver, encarar desafios, se decepcionar e, principalmente, aproveitar a sua jornada da melhor maneira possível.

Meu sorriso é o mesmo que Lorelai sorria no início do primeiro episódio do especial, o mesmo que sorrio quando reúno vários amigos. Amanhã a vida continua com todos os seus desafios e questionamentos. As perguntas que, algum dia, tiverem respostas serão prontamente substituídas por mais dúvidas, outras serão mistério para sempre. O importante, enfim, é nunca esquecer de apreciar e curtir os detalhes do percurso. Hoje, por exemplo, foi um dia inteiro de contentamento: delivery, Gilmore Girls e minha própria companhia. Nunca vou me esquecer deste sábado especial.


Finalmente terminei “Gilmore Girls” e posso fazer este desabafo que estava entalado há um tempão

*contém spoilers

rory

A primeira vez que vi “Gilmore Girls” foi no SBT. Eu não sei ao certo quantos anos eu tinha, mas adorava quando ligava a TV e estava passando. Por muitos anos carreguei um carinho pela série, mesmo sem me lembrar de muito mais do que o nome de uns cinco ou seis personagens de destaque. Sempre foi uma história a qual eu quis muito ter visto toda, mas nunca rolou. Até que a Netflix disponibilizou todas as sete temporadas em julho deste ano.

Após diversos sábados e madrugadas de maratona, noites e noites estirada no sofá vidrada na televisão enquanto comia brigadeiro, hoje, enfim, terminei os 152 episódios da história de Rory e Lorelai Gilmore. Ao longo desses três meses, precisei lidar paralelamente com as notícias e boatos gerados pelo revival da série – com estreia no fim deste mês. Logo me chamou a atenção a disputa que o público começou a fazer sobre com qual namorado Rory deveria ficar no especial. Afinal, eu havia acabado de conhecer o Dean e já precisava lidar com o fato de que esse romance adolescente, a qualquer momento, chegaria ao fim e ainda viriam Jess e Logan.

Confesso que, devido às circunstâncias, analisei a ação de cada um dos rapazes ao longo dessas sete temporadas. Foi inevitável! Vocês torciam tanto por eles! Em alguns momentos me perguntava “mas já se passaram nove anos, será que a Rory não conheceu alguém melhor?”, porém, por toda a pressão ao redor, eu sentia como se também precisasse escolher um time – e escolhi. No entanto, quando descobri que a garota recém-formada terminava sozinha porque preferiu se dedicar ao início da sua carreira de jornalismo antes de se prender a alguém, a única coisa que eu consegui pensar foi “sério mesmo pessoal?”.

Uma menina de vinte e dois anos se forma, vai cobrir a campanha completa do Barack Obama para a presidência – todos sabemos o resultado político e jornalístico disso – e vocês estão preocupados em descobrir com qual ex-namorado de mais de nove anos atrás ela vai ficar? É isso mesmo? Não sei como foi a vida amorosa de vocês até o fim da faculdade, mas eu espero imensamente que, daqui uns anos, eu não precise escolher entre nenhum dos meus exs desse período para as pessoas ficarem felizes por mim.

Assim como Rory, sou jornalista. Assim como a maioria dos seres humanos, sonho, sim, em encontrar, algum dia, isso que a sociedade vende como amor. Não tive muita sorte nos meus casos amorosos e sei que são tempos difíceis para os apaixonados por fatos do cotidiano e por grandes histórias do mundo real. Porém, sinceramente, se eu pudesse escolher entre consertar o jornalismo ou o meu coração, eu escolheria mil vezes o jornalismo.

Não sei se vocês acompanharam a mesma Rory que eu, mas tenho certeza que aquela menina que vimos crescer ao longo de sete temporadas também escolheria o jornalismo. Ela termina a série a caminho de uma das maiores coberturas da história do jornalismo americano. O que acontece depois? Ela é contratada por algum jornal impresso, como sempre sonhou? Segue em publicações online? Tenta outras mídias? Quais assuntos ela cobre? Já fez reportagens premiadas? Definitivamente, foi essa a história que ficou em aberto.

É claro que tenho interesse em saber como fica seu coração. Eu sou uma das maiores fã de histórias românticas do mundo. Sei que, em algumas noites e finais de semanas, faz a maior falta ter quem te dê afeto e que, só de olhar nos seus olhos, mostre o quanto você é importante. Tenho consciência: por mais bonito que soe, nossas batalhas e vitórias pessoais não enchem o nosso coração por completo. No fim, todo mundo sonha em ser feliz no amor – e torce para que seus personagens favoritos também sejam. Só fiquei preocupada de, durante os últimos meses, os únicos spoilers de “Gilmore Girls” que recebi terem sido sobre Dean, o Jess e o Logan. A série fala sobre tanta coisa a mais!

Espero que a Rory, agora com 32 anos, tenha encontrado um companheiro ou, então, acabe conhecendo alguém bacana nesse revival. Pode até ser algum dos caras do passado, vai saber! Meu ponto é: as pessoas precisam lembrar que o mundo é mais do que encontrar a metade da sua laranja ou não morrer sozinho.  Colocar a felicidade toda de alguém nas mãos de outra pessoa não é justo. Nunca é demais lembrar que você consegue conquistar valiosas alegrias por conta própria. E eu não estou falando de ser consagrado na profissão ou de encher o bolso de dinheiro, mas de correr atrás dos seus sonhos. Seja eles quais forem.


A minha música favorita aos 15 anos era uma apologia ao estupro

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“Toca Aninha Sem Tesão” eu dizia para qualquer amigo meu que pegasse o violão. A maioria não conhecia essa música, muito menos a banda que tocava ela: Faichecleres. Eu, do alto da minha virgindade, adorava o som sacana dos caras. Um pouco culpa da sonoridade retrô do rock n’ roll de suas canções, mais culpa ainda da minha enorme libido enrustida de adolescente. “Toca Aninha Sem Tesão” eu insistia, até que alguns amigos se arriscaram a aprender seus acordes só para me fazer mais feliz na rodinha de violão.

A batida frenética mal iniciava e eu já começava a delirar, pulando a cada fim de riff e chacoalhando os quadris como se estivesse em um baile dos anos 1960. “Sempre que eu chego mais perto, você pede pra eu parar… rá ráa, rá ráa, rá-rá rá-rá rá-ráaa” começava a letra. Fosse na rodinha de violão ou no meu quarto, eu enchia os pulmões para entoar cada palavra em alto e bom som. “Vem cheia de não me toques, cachorro tire as mãos de mim… E não dá, não há tempo a perde-ê-er”, continuava…

Eu gostava muitto dessa música e a batucava na carteira da oitava série – a última da primeira fileira à direita da sala – enquanto cantarolava sua letra no meio da aula de matemática. O João Pedro, que sentava na minha frente, me mandava calar a boca e sempre acabava levando esporro da professora, já que eu a convencia de que era ele quem estava fazendo barulho na hora errada. Logo ele também desistiu de lutar contra o meu fascínio pela canção e, no fim, acabou aprendendo a cantá-la também.

Eu tinha 15 anos. Eu não fazia ideia de que estava idolatrando uma composição sobre estupro. As frases eram claras, eu que não entendia muito bem. “Pois sei que fantasias sujas explodem dentro de você… Cansei, cansei de me humilha-á-ar” – prosseguia o vocalista – “e agora nem que seja a força, nem que chore sem parar, ninguém vai te ouvir gritar”, então o resto da banda fazia um coro à la Beatles em Twist And Shout: “aaah!, ahhh!!, áaaah!!!”. O trio cantarolava os gritos da vítima de estupro. Era isso que aquele barulho ilustrava. Eu cantarolava junto.

E antes que me perguntem: sim, eu sabia o que era estupro. Eu já tinha medo de ser estuprada. Eu tenho medo de ser estuprada desde que a minha babá disse estar acontecendo alguns casos de estupro em BH. Ela me contou bem assim, à caminho da natação: tem alguns homens transando à força com mulheres aqui na cidade e fugindo por uma mata tipo essa aqui do bairro. Eu tinha 9 anos e, desde então, eu tenho medo de andar perto de matas que – supostamente – facilitam a fuga de estupradores. Então, é claro que, oito anos após esse episódio, eu tinha consciência do que era um estupro. Eu só não entendia muito bem.

Naquela época, na oitava série, aos 15 anos, eu tinha para mim que estupro era uma coisa que ocorria na rua. Você estava andando e – vrá! – um filho da puta desconhecido aparecia, te encurralava em algum beco e te largava lá, violada, com uma vergonha tão grande que você não conseguia pensar em mais nada, só em tirar a própria vida. Eu não tinha noção que o estupro, na maioria das vezes, parte de algum conhecido: de um parente, de um colega ou, até mesmo, do seu namorado. Eu não sabia que Aninha Sem Tesão era um apelido escroto para uma menina que, simplesmente, não queria transar com o eu lírico da música.

E chegava o refrão: “Aninha sem tesão, não vejo condição, é superficial / e a minha intenção, é te dar meu coração, e não te fazer mal / Eu bebo teu licor, Aninha sem pudor / Tu come meu mingau au au, não vai fazer dodói / Uh uh uh…” O estupro era romantizado. Eu percebia que o cara estava sendo babaca ao prometer o coração à menina. Era claro para mim que o eu lírico estava falando aquilo só para ela querer transar com ele. Eu achava graça na canalhice dele. Eu me divertia. Eu continuava a cantar: “uaú shubi duba lá bá uába, uaú shubi duba lá bá uába…”, de novo, “uaú shubi duba lá bá uába, uaú shubi duba lá bá uába… Hey!” e vinha o solo de guitarra.

Passaram-se um ano, dois, e eu continuei gostando da canção. Mais para a frente, quando o shuffle do iTunes me surpreendia com ela, era sempre uma alegria muito grande. Eu nunca pulava para a próxima. Passaram-se três, quatro anos, e nada mudou. Foi só no início deste ano, dez anos depois, que eu entendi do que Aninha Sem Tesão se tratava. Demorou isso tudo para eu compreender seu real significado. Poderia, inclusive, ter demorado ainda mais se o assunto não tivesse entrado no debate cotidiano graças às feministas (e eu me incluo nessa).

Foi foda admitir que minha música favorita aos 15 anos era sobre estupro. Foi triste me dar conta que eu me divertia com uma letra tão explícita sobre violência sexual. Porém, apesar dessa dose de decepção com minha ingenuidade adolescente, foi importante ter, enfim, essa compreensão. Ficou claro, de uma vez por todas, que ouvir a experiência do outro é fundamental para compreendermos, cada vez mais, as nossas próprias vivências. Ouvir o outro nos torna mais humanos e, principalmente, nos torna mais nos mesmos.

A minha música favorita aos 15 anos era uma apologia ao estupro. Não é mais. A única coisa que eu posso fazer agora é: trabalhar para que eu continue nessa constante evolução – e a nossa sociedade também.


Minha vizinha tem preguiça das palavras. Coitada.

vizinha

“Tchau. Te amo.” disse a vizinha antes de bater a porta do apartamento. Um “te amo” tão mecânico que pensei talvez ter ouvido por engano. Devia ser palavra de despedida, não frase de declaração de amor.

Quando eu era adolescente era recorrente. Ele falava “tchau”, eu entedia “te amo”. Ele falava “te amo”, eu entendia “tchau”. Então eu sempre falava “tcham”, para parecer que eu respondi a mesma coisa que ele me disse e não ser melosa ou grossa na hora errada.

Mas, não, com certeza, a vizinha disse “Tchau. Te amo.” e bateu a porta do apartamento. Em seguida, saiu andando em direção ao elevador com a mesma vontade de viver que eu sinto quando estou com bronquite. Eu fui logo atrás – afinal, era esse mesmo o meu destino. Paramos lado a lado enquanto o mesmo ainda não se encontrava no nosso andar.

A vizinha, então, me olhou nos olhos e depois desviou. Preferiu olhar para a porta do elevador do que trocar um breve cumprimento. O que esperar, afinal, de uma pessoa que fala “te amo” por hábito e não por paixão, pensei. Eu, que só falo “eu te amo” por amor mesmo, não deixei por menos. Botei meu melhor sorriso na cara – mesmo que ela não estivesse mais me olhando – e falei “Bom dia!”. Em resposta, ela resmungou alguma coisa da mesma família do “tcham” que eu dizia na adolescência.

Que pessoa desnecessária! Eu refletia enquanto descíamos o elevador. Lembrei-me do dia que atravessei o nosso corredor e ouvi seu namorado – ou será marido? – cantando alegre no chuveiro. O banheiro deles dá para o nosso corredor e essa é a única impressão que eu tenho do rapaz. Meu vizinho é um cara que canta no chuveiro.

Já minha vizinha fala “eu te amo” no automático e não aprendeu que, quando o elevador chega no térreo, a gente segura a porta para a outra pessoa e se despede trocando sorrisos. Alguns, mais simpáticos, até arriscam um “tenha um bom dia!”. Mas ela não.

Minha vizinha sai reto e não se dá ao trabalho de agradecer nem quando o senhor idoso, também morador do nosso prédio, segura o portão com dificuldades para ela passar calada pela portaria. Grossa. Enfim dou bom dia para o porteiro e percebo: meu “bom dia, seu Mário” tem mais sinceridade que o “Tchau. Te amo.” dessa vizinha.

Pobre vizinho cantor de chuveiro. Pobre vizinha que tem preguiça das palavras. Desejo que as coisas melhorem para vocês em breve. De coração.


BH tem metrô sim

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Mudei para BH em 2010 e dei as mãos ao maior dos companheiros: o Google. Eu não sabia a diferença entre Nova Lima e Venda Nova, se a UFMG era perto do Barreiro e não fazia a menor ideia de como chegar na Praça do Papa. Nos tornamos, então, inseparáveis.

Certo dia, novatíssima no bairro Dona Clara, fui convidada para ir ao Boulevard Shopping. Meu amigoogle mandou a letra: caminhada até a estação de metrô 1º de maio – sentido Eldorado – descer na estação Santa Efigênia. Atravessar o rio Arrudas (o querido não especificava como, mas eu imaginava que entre passarela e barco a remo, algum meio haveria). Nóis.

Decoradas as viradas à esquerda e à direita, cheguei em uma rua de terra. Era noite. Caminhei rápido. “Vamos juntas?” ainda não era um movimento/página no Facebook, mas eu já não era besta e me aproximei de uma senhora que por ali também passava. Ela se assustou com meu movimento, eu sorri bege e puxei papo: “aqui é perigoso, moça?”. Passávamos por cima de um córrego (filho do Ribeirão do Onça, hoje sei), água cheia e turva. “Já vi puxarem bolsa de mulher, bater em mulher, diz que jogam corpo nesse pedaço de rio” – foi a resposta que arrepiou os cabelos da noite.

Lá fui eu. Em frente. Depois naquela caralha de passarela alta da estação Santa Efigênia, os carros passando velozes na Andradas, contrários aos colchões felpudos que eu preferia ter sob meus passos. Fui naquela e em mais muitas vezes.

A 1º de maio continua sendo grande amiga, a rua de terra foi asfaltada, agora tem supermercado na esquina, nunca ouvi-vi caso de violência por ali. Fiz estágios nos bairros Floresta e Santa Inês, usando as estações Central e Santa Inês todos os dias. Visitei tio pela estação Horto, peguei carona na PUC pela Gameleira, ocupei a Câmara pela Santa Tereza, trabalhei pela Calafate, manifestei pela Lagoinha, doei sangue pela Vilarinho, passei o domingo com a família depois de descer no Eldorado e fiz compras de Natal no Minas Shopping.

Ouço, no entanto, desde os tempos de faculdade, pérolas sobre o metrô. Lembro quando contei numa roda que havia ido nãoseionde com ele. Um colega, belorizontino, escola particular, zona sul (nada contra, até tenho amigos que são), me disse: “SÉRIO? Mas não é perigoso?” Eu nem soube responder.

E então @s amig@s e colegas dizendo que não existe metrô em BH. “Ah, porque não é metrô, é trem” – bem, eu falo “aprochegar” e “desbeiçado”, então não me importo exatamente com nomenclaturas. Seguimos. “Tem poucas linhas e não atende e {insira aqui palavras educadamente revoltadas} e lkajsanwawbnab e (…) e SAVASSI”. A gente sempre chega na Savassi. Não tem metrô porque não tem metrô – na Savassi.

Ele não só existe como foi visto arrasany no CarnaBelô 2015. Foto: Vinícius Rezende

Ele não só existe como foi visto arrasany no CarnaBelô 2015. Foto: Vinícius Rezende

Se eu estou defendendo o sistema tosco, júnior e insuficiente de trens urbanos de BH/Contagem? Definitivamente não. Sabemos que nosso transporte público maltrata @s trabalhador@s e que um metrô decente poderia nos poupar dos combos de passagem cara & ônibus lotado que demora para chegar no ponto e para chegar em casa. Sabemos que existe uma máfia que nos mantêm enlatados, cansados e pagantes. Mas se BH não tem metrô, eu e uma parte da população andamos surfando numa viagem cósmica maluca nos últimos 6 anos.

Segundo dados da CBTU (Companhia Brasileira de Trens Urbanos), o metrô de BH (ou como queiram chamar) atende 210 mil passageir@s/dia. De acordo com o último censo do IBGE (2010), a capital mineira possui 1,433 milhão de habitantes, o que significa que o trem atenderia 14,65% da população diariamente. Se somarmos a população de Contagem (380 mil pessoas), que é atendida nas estações Cidade Industrial e Eldorado, a porcentagem cai para 11,6%. É muito pouco, realmente. A rede metroferroviária de SP (Metrô, CPTM e ViaQuatro) transporta cerca de 7,5 milhões de pessoas por dia, o que significa 66,3% da população da cidade de São Paulo e 35,38% de toda a Grande São Paulo (que soma 39 municípios).

Acredito, portanto, que a questão que levanto neste texto seja muito mais simbólica que de cunho prático. Sob o prisma da mobilidade urbana talvez atender 11,6% de uma população equivalha a não existir. Mas agora convido quem me lê a uma ficção científica: e se, no lugar de Eldorado-Vilarinho, o metrô fizesse Centro-Jardim Canadá?

Mantemos a Estação Central, que é pra ninguém perder o prumo. Dali, o metrô sobe Bahia, para lá pelo Maletta. Praça da Liberdade. Um pulo no Lourdes. Praça da Savassi. Pátio Savassi. Entra para o Sion, ali pelo Colégio Santa Doroteia. Vai ao Cruzeiro, shopping Plaza Anchieta. Toca para o BH Shopping. Dá uma moral no Belvs. Parada na Torre de Nova Lima. Finaliza no Jardim Canadá, ali perto do Verdemar. Este trajeto equivale em distância ao percurso Eldorado-Vilarinho (cerca de 30km). Levaria trabalhador@s e estudantes também, mas em outras áreas da cidade – onde os privilégios, por acaso, têm mais casa. E aí? Será que ainda assim “não teríamos metrô”?  

Já me contra-argumentaram que, bem, se o metrô de Belo Horizonte não chega na Pampulha, mais famoso complexo turístico da cidade, ele é falho e ponto. Divinha? A estação 1º de maio é vizinha do bairro Dona Clara que, oficialmente, é da regional Pampulha. O metrô tem estação nas zonas norte, oeste, leste, noroeste, nordeste e central. Leva às duas rodoviárias da cidade, à área hospitalar, a universidades como PUC São Gabriel, PUC Coração Eucarístico, Una e CEFET. Vai até uma das cidades da Região Metropolitana pelo mesmo preço (barato) com que roda dentro da capital. Conecta o centro ao extremo norte da cidade. Seu erro maior, no entanto, me parece ser não dar as caras pela zona sul.

Belo Horizonte merece investimentos reais nas linhas de metrô e no transporte público como um todo. Se mover pela cidade de forma eficiente e humana urge. Do Oiapoque à rua Jacuí; passando por todas as zonas, pela Last e também pela Sul – sim, por favor. Só convoco a rapeize belorizontina para o importante deslocamento para o discurso de + metrô, e não só + metrô-para-mim. 😉


Crônica é para fazer carinho, não para alimentar o ódio

cronica

Na adolescência, eu sempre lia a última página da revista primeiro, porque é lá que costumavam morar as crônicas. Os melhores livros que li na escola eram copilados de histórias curtinhas, escritas por alguns dos melhores jornalistas-escritores que o Brasil já teve, sobre a vida deles. Os sentimentos deles. As pessoas que convivem com eles. Sobre eles.

Eu, sentada na última fileira do canto esquerdo da sala da sétima série, ficava imaginando o tanto que ia ser legal quando eu tivesse minha própria coluna para escrever crônicas sobre a minha própria vida. E que legal ia ser as pessoas lerem meus textos curtos e pensarem “nossa, isso acontece mesmo!”, “puts, igual a mim!” ou, quem sabe até, chorarem em empatia.

No fim da adolescência, fundei este blog. Os melhores textos que escrevi foram feitos após términos de relacionamento – bendito é o coração partido, rei da inspiração, que me faz usar com facilidade um tantão de letrinhas para libertar de dentro todo o sentimento que me sufoca a cada história de amor estraçalhada. Outros que se destacaram foram sobre a morte da minha cadela, o meu medo de ser estuprada e meus ataques de carência. Todos textos sobre mim.

Ah, e imaginem só a minha alegria toda vez que um inbox chegava dizendo “esse seu texto aqui parece até que fui eu que escrevi”! Em certas ocasiões, fui abordada na Savassi e na faculdade. “Chorei muito seu texto sobre a cachorrinha” (!). “Tive um ex igual ao seu” (!!). “Você me entende” (!!!). A satisfação de descobrir que traduziu involuntariamente o sentimento de alguém é ainda mais fascinante do que a sensação de terem inconscientemente traduzido os seus sentimentos.

Já faz tempo, no entanto, que ando incomodada com minha falta de dedicação a mim mesma. Passo o dia todo escrevendo – afinal, sou jornalista –, mas os relatos pessoais têm sido cada vez mais raros (e me fazem enorme falta). Até que, na sexta passada, quando li as últimas páginas de “Trinta e Poucos”, do Antônio Prata, tomei uma decisão: toda segunda-feira vou escrever aqui no blog. No mais tardar, terça ou quarta. Mas vou escrever. Afinal, não tenho coluna em publicação nenhuma – como sonhava acordada na adolescência – mas tenho este blog. E um blog, para existir de fato, precisa ser atualizado. Mais que isso: eu, para existir de fato, preciso escrever minhas crônicas e contos.

Enfim, chegou o grande dia. A primeira segunda-feira de muitas frutíferas que virão. E, neste dia de grande importância para mim (e para o Cunha, que vai ser julgado, e para o Paulo Zulu, que postou um nude frontal no Instagram), o assunto mais falado foi justamente uma crônica. Em sua coluna na Folha, Gregório Duvivier fez uma homenagem ao seu namoro com Clarice Falcão. Uma homenagem com ares de gratidão e uma pitadinha de marketing, já que eles estão lançando um filme juntos (e o título do filme estava no título da coluna).

Eu a li logo pela manhã. Achei bonita. Leve. Dei uma choradinha. Tão bonito quem sabe valorizar o amor vivido, pensei. Tão triste que o amor normalmente se transforme em ódio, reflito toda vez que algum amigo termina o namoro ou algum parente se divorcia. Sequei as lágrimas. Compartilhei o link da coluna no Facebook e fui cuidar do meu ganha pão. Assunto encerrado.

Engano meu. A crônica virou polêmica. Uma crônica açucarada, com grande dose dos clichês gregorianos e falconianos – que eu, fã dos trabalhos da família dela e admiradora das criações dele, claro, adorei –, virou fogo cruzado. “É marketing, seus troxas!”. “É um texto abusivo, de um cara abusivo!”. “Esquerdomacho de merda!”. Centenas de acusações foram feitas ao autor, nenhuma prova das acusações me foi entregue quando solicitei – comentei em muito tópico perguntando onde leram aquilo (afinal, não gosto de gostar de gente babaca), ninguém me retornou com a fonte –, defenderam incessantemente Clarice sem que ela precisasse (ou quisesse) ser defendida.

Virou uma guerra, virou ódio.
Virou desgaste.

Era uma crônica.

Uma crônica sobre afeto. Sobre gratidão. Com uma pitadinha de marketing, é verdade. Mas uma crônica. E o que é, afinal, uma crônica, se não o gênero textual mais doce já criado? O que é uma crônica, se não um diário escrito com gracejos e certa dose de ironia para ser aberto ao público?

Crônica combina com café coado e pão de queijo quentinho. Crônica não combina com fúria. Nem com suposições hostis.

Crônica tem a ver com empatia.

(Não devia ser tão difícil de entender)


Um jogo para recordar

Foto: Mariana Bazo/Reuters

Foto: Mariana Bazo/Reuters

 

Acho que um bom consenso de partida inesquecível entre o povo brasileiro é a derrota de 7×1 da seleção brasileira para a alemã na Copa do Mundo de 2014. Eu também bem lembro dela. Mas tenho a forte impressão de que vou levar adiante na memória o jogo de futebol feminino entre Brasil e Austrália nas quartas de final das Olimpíadas 2016. Resultado final: 0x0, nenhuma goleada, sem valer medalha, nada que entre no Guinness. Só algo que bateu firme aqui dentro.

Eu já ouvia falar sobre nossa seleção feminina há um tempo. Era só ver um post com a foto de Marta e eu curtia. Mas naquele dia fui de fato assistir ao jogo, interessada nos passes, chutes e contra-ataques como eu não me lembro de já ter estado.

Comecei a atravessar a importante ponte entre o saber e o sentir. Entre a priori e posteriori. Acredito profundamente que representatividade importa, mas naquele jogo isso passou de uma frase a uma sensação percorrendo todo meu corpo.

O jogo estava emocionante por si só; era necessário vencer para seguir para as semi finais e ter chance de medalha. Zero a zero, prorrogação. Eu não estava vendo fulanos correndo feito bobos num campo de futebol. Eu via amigas, sentia todo o esforço delas, vibrava em cada movimento e torcia para que aqueles corações apertados se desamarrassem em alegria.

Fomos para os pênaltis. Eu não queria que elas errassem, não por não querer que o Brasil perdesse; mas eu não queria essa tristeza nelas. Tentava imaginar os tantos corres na vida de cada uma para que tivessem chegado até ali. Tanta gente colocando areia no sonho, tanto descrédito, tanta encheção. E tanta persistência.

Chloe Logarzo, jogadora australiana, acertou o pênalti e comemorou fazendo o símbolo de uma pepeca com as mãos. Meu namorado falou: ó, sapatão. Eu discordei: talvez nem seja. Sim, era. É. Mas na hora o símbolo de uma vagina representava muito mais para mim do que a orientação sexual da atleta. Era autoafirmação e resistência. Era gritar muda e com a cara séria: AQUI É MULHER, MUNDO! Mulher correndo, suando, lutando e metendo gol.

PPK PWR

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Embora ser mulher não se resuma a ter vagina, e tantas mulheres sejam mulheres sem a possuir, naquele momento reinou a pepeca no Maracanã lotado – e, na raridade das raridades, não para o bel prazer dos homens. Cooptando o gesto dela para tudo que pensei e senti, ali ela vibrou acima da diferença de times/países – éramos todas xoxotas fazedoras de gols, ousando ocupar com brilhantismo e garra um território em que tradicionalmente éramos apenas parte da decoração.

Tudo se fez entender dentro de mim com os pênaltis acertados pelas brasileiras. Respiração em suspenso. Bola na rede. Quando elas davam um soco no ar, quando gritavam, quando eram tomadas pelas tantas descargas de felicidade e realização corpo afora, eu pensava: podia ser eu! Imagina que loucura sentir isso tudo. Elas são mulheres como eu. E estão sentindo isso tudo! É real, é possível. É maravilhoso. E elas estão lá.

Do banco da equipe técnica, também lembro de ter ficado tocada pela comemoração de uma moça de cabelo liso, preto, comprido e amarrado num rabo de cavalo. Não sei o nome nem nada, mas a câmera sempre dava uma volta por ela no momento da comemoração. Ela gritava com todas as cordas, abaixava um dos joelhos e erguia o punho no ar seguidas vezes, com força e rigidez. O terreno do esporte era nosso. Seu êxtase, seu brio. Toda sua vibração e catarse. Ali, uma torcedora festiva não figurava apenas uma enfeite, como em tantos jogos masculinos a câmera faz parecer – o lugar e a vitória eram também dela.

Assim, Marta passou de um rosto na minha timeline a uma atleta a qual pude acompanhar. De Bárbara, eu só havia visto uma reportagem no Globo Esporte que destacava a beleza de seus olhos verdes. Eu a vi defender um pênalti decisivo e nossos santos estiveram juntos na proteção. Formiga é agora inspiração e força para enfrentar a sociedade que nos quer descartáveis, inúteis e nulas a partir de uma certa idade – bem nova, diga-se de passagem. Debinha, Andressa Alves, Andressinha, Tamires, Poliana, Fabiana, Mônica, Rafaelle, são agora pessoas queridas, que eu gosto de imaginar sentadas em uma mesa de bar re-contando as partidas, falando alto, rindo largo, livres, elas.

A minha trajetória – que bom – já havia me ensinado que representatividade importa, sim. Que importam Lea T., MC Soffia e Karol Conka. Essa partida veio, no entanto, para reforçar o ensinamento pelos poros, pulsos e olhos. Me sacudiu com o elétrico e poderosíssimo pensamento de que poderia ser eu lá.

Representatividade inspira, faz sonhar e projetar. Faz crer que é possível. Sendo possível, lá chegaremos. Obrigada, time. Eu jamais as esquecerei.


O frio me deixa desesperadamente solitária

solidao frio

Eu ando muito melancólica. Com certeza, é por causa do frio. Tem potencializador mais eficiente que esse quando o assunto é nos sentirmos sozinhos? Perdi as contas de quantas panelas de brigadeiro eu preparei (e comi) no último mês, ou de quantas vezes eu chorei porque meus amigos ou familiares não me deram a atenção que eu precisava em determinado momento. Vocês não tem noção da quantidade de briga boba e unilateral em que eu me meti nas últimas semanas por estar melancólica – e ninguém me dar atenção por, obviamente, não ter nada a ver com isso.

Nesse furacão emocional, voltei a recapitular meu último relacionamento como se ele tivesse acabado ontem. Acho que, com isso, eu queria encontrar qualquer comprovação de que existe a chance de, um dia, eu conhecer alguém que tenha entre as suas prioridades me fazer feliz. Alguém que realmente não se importe com o fato de o frio me deixar tão dramática. Uma pessoa que faça as panelas de brigadeiros serem menos urgentes.

Dá para contar nos dedos de uma mão quantas vezes eu me apaixonei. Quem me conhece sabe que, toda vez que esse milagre acontece, meu coração jorra sangue antes de se abrir. Por medo. O coitado já tomou muita porrada e, sabiamente, tem receio de tomar mais. Então, eu nunca soube se as coisas não deram certo porque eu passei tempo demais estancando o sangue antes de aceitar a paixão ou se porque eu realmente não tenho a menor vocação para ser amada.

Para alguém como eu, que costuma não ter a menor paciência para segundos encontros e adora tomar suas próprias decisões sem ninguém meter o dedo, é difícil assumir a falta que faz não ter tido um relacionamento que durou mais de quatro meses. Quando eu era adolescente, eu tinha mais coragem de assumir minha carência. Colocava a solidão na boca de personagens e pronto, tirava o desespero das minhas costas. Agora não, eu guardo para mim. Enrolo-me na coberta e fico torcendo para a angústia passar.

Além dessa covardia, eu acho bonito falar que a gente não precisa de ninguém para ser feliz, que isso de casal é uma coisa que a sociedade nos impõe e da qual precisamos nos livrar. Muito fácil encher a boca para defender essa crença, enquanto tenho uma prateleira lotada de livros de amor e vejo todos os filmes de romance assim que estreiam no cinema.

Por isso,  hoje escrevo aqui para dar um recado para mim mesma. Não tem nada de errado em querer amar e ser amada por mais de quatro meses, no fundo, todo mundo procura por isso. E, definitivamente, não tem nada de errado em não se interessar pela maioria dos caras que você fica. Eles realmente não tem nada a ver com você, a não ser o gosto por cerveja. Desencana. Enquanto o calor não vem, o importante é continuar se divertindo a cada colherada de brigadeiro e se segurar para não desaguar sua solidão em mais nenhuma pessoa querida. Essa melancolia tem nome: frio. Segura que já passa.


Água e cabeça erguida

Urubus no céu, em Crato - CE

Urubus no céu, em Crato – CE

Em 2014 trabalhei indiretamente para a campanha da Dilma nos quatro meses que precederam o primeiro turno. Trabalhei madrugadas, domingos e feriados. Seis dias por semana, com turnos que variavam entre 6 e chegaram a até 12 horas. Engordei uns bons quilos. Comia comida processada loucamente, madrugada adentro. Eu não tinha hora para dormir, mas sempre tinha para acordar. Um dia dirigia de volta para casa às 8h da manhã. Passei pela praça Raul Soares, vi as pessoas se preparando para o dia que começava. Chorei em silêncio.

Minha vida não tinha rotina, nem um ritmo saudável. Eu não fazia nenhum exercício físico e sequer lembrava que isso existia. Os amigos que encontrava eram os fiéis e queridos que aguentavam meus turnos estranhos. Um deles também estava sempre de plantão no jornal em que trabalhava, então vez ou outra uma cerveja casava. Minha irmã estava morando na minha casa, com meu sobrinho que acabava de nascer.  Bati pé no trabalho para acompanhar as 20 horas de trabalho de parto. Mas os dias seguintes foram da costumeira ausência: não troquei fralda, não dei banho, não sabia da dor de barriga ou do sono ou do riso. Não o entendia. Ou eu não estava presente, ou estava cansada demais para realmente participar de forma ativa de algo.

Fiz bons amigos e amigas, claro. Nos apoiávamos uns nos outros. Respiro, trocas, risos. Acho que a capacidade de rir e fazer rir e rir de novo salvou nossa sanidade. Era o que tínhamos, afinal.

Encarei esse trabalho porque quis, porque aceitei o desafio. Mas também porque eu acreditava muito nele. Ao monitorar o que as redes sociais falavam sobre Dilma, encontrávamos comentários machistas e misóginos diariamente. Piadas e memes cruéis, horríveis. Boatos infundados, difamação pura, a maldade materializada virtualmente.

Sabíamos que trabalhávamos para alguém que deveria estar cansada. Que era atacada por todos os lados, todos os dias. Pela oposição, sempre, mas por vezes também pelo próprio partido, por ser tão firme. Tão honesta. Tão certa de si (pode, afinal, uma mulher ser determinada e ter suas próprias convicções e modos de operar?).

Dilma ganhou o primeiro turno, eu larguei o trabalho, fiz as malas e fui rodar um filme no sertão nordestino. A campanha não havia acabado – nem para ela nem para mim. Nas conversas cotidianas com os sertanejos, eu nem precisava assuntar, o Governo logo era tema. Fosse pelo Brasil Alfabetizado, pelo Água para Todos, pelo Bolsa Família, pelo Brasil Sorridente, pelo Mais Médicos, ou só pelo Lula mesmo. Sua foto na parede de um restaurante em Monte Santo, na Bahia, onde comi bode pela primeira vez. Seu nome na boca das pessoas de todos os sete Estados que percorremos.

Monte Santo - BA

Em Monte Santo – BA

Era um prazer – talvez um dos maiores que tive e terei na minha vida – conversar com essas pessoas. Muito mais ouvir do que falar. Escutar o que eu não sabia e nunca saberia – porque era a vida deles, afinal. Aprender sobre as plantas no quintal e também sobre o tempo da seca; sobre a falta que filhos e netos fazem, mas também sobre como eles estavam estudando. Que a vida era dura, mas inevitavelmente bela, e inegavelmente melhor.

Estávamos numa estrada de terra no interior do Pernambuco. Era noite e o sinal das estações de rádio oscilava. Havíamos justificado nossos não-votos em Palmeira dos Índios, Alagoas, e seguido viagem. Eu não trabalhava mais na campanha pela reeleição da Dilma seis dias por semana. Agora eu testemunhava pela palavra das sertanejas e sertanejos a transformação que os governos petistas haviam levado para aquelas pessoas e lugares. Dilma não ser reeleita era agora muito pior – eu não via números, eu via vidas.

Paramos quando uma rádio pegou. Não sei em que ponto do mapa. A apuração dos votos estava quase completa. As ruas de não sei onde estavam vazias, serenas. Dentro das casas as TVs falavam. A pálida luz dos postes virou Sol quando ouvimos: Dilma vencera. Nós vencíamos! Eu, mulher, vencia! Dona Nêga vencia! Seu Fortunato vencia! A senhora analfabeta que, lá em 2010, quando fui mesária em Sete Lagoas, me pediu para ajudá-la a votar na “mulher do Lula”, vencia. As famílias atendidas pelo SUS e pelo Bolsa Família no leste de Minas que visitei em 2012 venciam. A cultura vencia. A educação pública viveria. Os negros e gays poderiam continuar respirando com alguma esperança. Quem sabe os índios? As travestis? Quem sabe a população de rua, a camponesa, quem sabe os quilombolas?

Minha mãe, dona de casa, nove irmãos, mãe e criadora de três filhos, vítima de diversas violências ao longo da vida, me disse: desde o dia em que Dilma ganhou, eles não sossegaram. Não aceitaram. Desde então, estão vivendo para tirá-la de lá.

Lixeira em Canindé de São Francisco - SE

Lixeira em Canindé de São Francisco – SE

Voltei a perder meu sono. Senti raiva e ódio verdadeiros. Me senti mal. Fiquei eufórica, revoltada, mau humorada, desanimada. Instável e impotente. De nada havia valido, então? Não o meu esforço, mas os votos de todas aquelas pessoas? O futuro que elas queriam, sonharam, votaram? Suas vontades, suas necessidades, sua cidadania? Será que nós, 54.501.118 pessoas, podíamos só deixar de existir assim?

Parece que perdi. Mas não perdi só. Perderam pessoas que precisam do Estado, da saúde pública, que só podem ter acesso à educação se ela for pública ou particular com bolsa ou financiada, que precisam de casas e terras, que precisam de nomes sociais, que precisam de água tratada, que precisam da previdência social, que precisam de incentivos para a agricultura familiar, que precisam não ser mortas pela polícia, que precisam comer e comprar gás. Eu perdi, mas, antes de tudo, isso não é sobre mim.

Mano Brown disse que “quem quer o impeachment não está preocupado com o país”. E eu adiciono: nunca esteve. Provavelmente nunca estará. Umbigos engolem olhos e ouvidos.

Fiz o que podia como cidadã, jogaram minha cidadania no lixo. Ouvi estórias com as quais eles não se importam nem vão se importar. A macropolítica do meu país me enche de nojo, da maior falta de empatia que já pude sentir.

Mas decidi voltar a dormir bem, comer bem, passar tempo com minha família, dar colo a minha sobrinha que tem um mês de vida, gostar de café, ler um livro de romance de uma nigeriana, tomar água, ler poesia. Não vou me destruir aos poucos porque eles decidiram que assim seria. Não vou perder meu bom humor, meu brilho, minha paz. Eu não vou perder a fé. Me desanimaram, me desrespeitaram, me diminuíram. Mas eu sou mulher e me refaço. As Mães de Maio estão de pé – como sempre estiveram. Dilma segue de cabeça erguida. A Cidade que Queremos BH é construída todos os dias. O TransENEM vai de vento em popa. Índios e estudantes ocupam vias e plenários. Amanhã, amanhã sempre vai ser outro dia. Que pode ser (mais) amargo para quem precisa do Estado e da democracia. Mas nunca vai ser sujo, vergonhoso, egoísta e nefasto como o amanhã dos golpistas.

Equipe caminhando com Dona Maricô até a casa de Dona Nêga, no povoado de Serra Vermelha

Equipe caminhando com Dona Maricô até a casa de Dona Nêga, no povoado de Serra Vermelha

 

 

A quem interessar possa, breve relato que fiz do Nordeste, em 2014, sobre por que votar em Dilma, com coração e responsabilidade: https://goo.gl/bt8Ig4


O lado bom da crise

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Nunca cursei sequer uma disciplina sobre economia, não travei longos debates sobre, não li nem um livro e fugi de todos os artigos e de algumas reportagens. Sei, no entanto, que parte dessa crise econômica (e também a política, claro) foi forjada por quem nela tem interesse – barões da indústria e do empresariado ávidos por cortar salários, cargos e direitos trabalhistas; a grande mídia dedicada em inflamar o povo contra o atual governo e demais pessoas que só gostam de ter uma boa desculpa para qualquer tipo de impasse. Pois bem. Tanto se falou que ela se fez. A crise real, as imaginárias, e todas as tantas filhas que delas se originaram.

Aqui em casa, a crise, por exemplo, não é de todo filha da crise real. Meu pai perdeu o emprego porque prestava serviço ao antigo governo estadual, psdbista, que foi substituído pelo atual, petista. Com todos os escândalos (muito mais que merecidos, e ainda pequenos diante do tamanho real da merda) envolvendo construtoras e empreiteiras, o setor de engenharia civil não anda às mil maravilhas. E assim meu pai está: em casa, desempregado.

E assim ele voltou a ir à padaria, ao sacolão e ao supermercado. Descobriu um lugar que vende aqueles sacos gigantes de laranja, lá na Lagoa da Pampulha. Ele sabe até que horas o Sol bate onde na casa, e em que lugar as plantas se sentem mais felizes. O encurtamento da grana fez com que ele suspendesse o serviço de TV a cabo. Assim ele reencontrou a TV Brasil, a TV Escola, o Canal Futura e a TV Cultura. Ele leu os últimos livros que comprei, coisa que não fazia há anos. Chegou a colorir desenhos com a irmã, que tem síndrome de Down. Como não podia deixar de ser, ele achou brechas para rir de si e da situação. Olhando minha sobrinha, com 4 dias de vida, constatou: “A gente tá igual. Carecas, sem dente, sem emprego, só comendo e dormindo!”, e ainda conseguiu me entender: “Agora eu tô igual você, fazendo freela, e realmente esse povo não paga…”

Eu que não tente enganar ninguém: meu pai não está feliz. Ele foi criado (pela família, mas muito mais pela sociedade capitalista patriarcal) para trabalhar, sustentar a família, criar os filhos. E só. Sem o trabalho, é como se ele nada fosse, nada valesse. Com os filhos criados, mais um vazio. Ninguém ensinou ao meu pai que ele poderia fazer coisas só porque gostasse, desenvolver habilidades aparentemente inúteis (porque não vendáveis), apreciar o tempo para além do formato de horas-trabalho e a vida para além dos anos necessários de contribuição ao INSS. Ele está se virando para se sentir algo dentro de um sistema que o construiu como produto, criado para usos específicos e com prazo de validade. A re-humanização é penosa.

No entanto, aí estamos todos: nos reinventando. Sou jornalista e faço entregas em domicílio para ajudar no negócio da minha mãe. Viajo por uma estrada erma e lá está, pintado de rosa na porta de madeira: vendemos chup chup. Percebo cada vez mais pessoas comercializando água mineral, pipoca doce, amendoim, raquete elétrica, carregador de celular e etecéteras nos sinais vermelhos. No MOVE, um homem entrou vestido de Elvis Presley, dizendo que está cantando nas ruas para pagar a faculdade de moda da filha – e, de quebra, levar qualquer graça inusitada para os percursos. Bazares, feiras e brechós se multiplicam, incentivando um consumo mais consciente. Artistas antes tímidos colocam seus desenhos na roda para virarem tatuagem, a moça começou a fazer brincos, o outro almofadas, e as broas de fubá e cadernos e quitutes…

Não foi a crise que inventou as pessoas que tem que se virar para sobreviver, nem nunca vai ser certo uns trabalharem tanto e ganharem pouco, enquanto outros nada fazem e se esbaldam. Eu louvo aqui aqueles que não se acomodam. Que não sentam no sofá ou no meio-fio a lamentar a horrível crise que sobre nós se abateu, e nada mais pode ser feito. Prefiro pessoas coloridas, versáteis, dispostas e inventivas, a uma estéril sociedade de graduados que, além dos diplomas, carregam umbigos do tamanho do mundo.