O tempo de Kika

kika2Eu chego em casa, tranco a porta enquanto dou ‘boa noite’ e em três passadas monstras atravesso a sala, deixo a bolsa no quarto, já vou para o próximo item da lista: tomar banho, comer, terminar um trabalho, um projeto, um engasgo, um namoro. Ela ainda termina de processar que estou – ou teria sido só um vulto rasgando a casa?

‘Oi, Cacá! Que bom você chegou. Me dê um beijo?’. A frase de Kika flutua no ar. Voltar na sala, ganhar um abraço apertado, um beijo melado e dar um outro beijo leva segundos – os mesmos que gasto lendo qualquer besteira no celular. Minha cabeça, vez fervida, vez em outra galáxia, ainda hesita em se jogar no corredor – burra que é. Os segundos de Kika são de outra ordem. Não-feitos para o homem contar.

Desde que Érica é Érica, tudo funciona dentro de um sistema. Acordar entre 8h e 9h, tomar café, trocar de roupa, arrumar a cama, jogar paciência e outros jogos. Almoço, Video Show, Vale a Pena Ver De Novo, banho – sempre, sempre antes que anoiteça. Chamar meu pai quando o Jornal Nacional começa, mesmo que ele não tenha feito nada com esse convite nos últimos tantos meses. Lavar a calcinha e pendurar no varal, passar os cremes e óleos e pomadas, perguntar se ela está cheirosa depois do banho e se quem ligou mandou um beijo para ela. Me perguntar se estou bem e como foi o dia. Tudo regrado, ensaiado e diariamente encenado – com um rigor e uma disciplina que meus compromissos jamais viram.

Ainda assim, há tempo para o beijo fora de hora. Sempre. Há exceção quando no meio da novela eu resolvo chamar para o parque e ela dá uma última olhada para a TV antes de me sorrir um ‘é claro’. Há disposição para a caminhada a qualquer tempo, mesmo que pareça que vai chover lá fora.

O tempo se recusa a passar para ela como para mim. Uma criança eternizada dentro de um corpo que insiste em passar dos 40 – mas, mais que isso, uma existência que caminha sobre os minutos como que sobre flores e não pedras. Ela não se debate, não agoniza, não desespera. Só é, em simplicidade. Em harmonia que ignora os ponteiros, mesmo jurando que só acorda antes das 9h e que enquanto a novela das oito não acabar, ainda é cedo. O banho é um ritual budista e o sono é templo sagrado. Mas nenhum abraço e amor e afeto atrasa.

O beijo da Kika dura mais que o de muito casal recém-apaixonado. O olhar de muitos graus de miopia dela vê na gente o que nem mãe e terapeuta vêem. Ela sabe quando a gente precisa de carinho e de uma boa dose de amor não-cronometrado – porque esse tempo é sempre. E tanto. Igual ao coração dela.