O que da gente há no mundo?

rio

Foto: “O que do rio há em mim?”, livro escrito por jovens do bairro Paulo VI, na região noroeste de BH, como resultado do projeto de mesmo nome, idealizado e realizado por Bruna Lubambo, Caio Paranhos, Sâmia Bechelane e Tomás German, com a colaboração de voluntários

 

Tudo se faz para depois ruir. Tudo que é sólido desfaz, desmancha no ar.

Do carro, qualquer sucata abandonada abrigando dengue; da flor despedaçada, o restinho de perfume na mão; da comida boa, alguma coisa no dente e o pensamento já na próxima refeição.

E da gente? Fica túmulo? Cinza? Córnea? Rim?

Existe no mundo um tipo de gente que não cabe em si e faz estender a existência até o outro. Que não vê razão em sermos só um, sozinho, em só sermos, sem sonhos e parceiros. Sem os laços e passos que costuram o irremediável transformando em desenho possível, em caminho, em sensível.

Esse tipo de gente gosta de viver a deixar sementes, ainda que não vá viver para ver uma horta abastada. Ainda que seja pequeno o quintal para cultivo. Ainda que, em vez de chuva, só haja suor para regar.

Gente que dança enquanto atravessa a ponte do individual para o coletivo, do meu para o nosso, do quase para o além. Vivem de luta e de força e de um afeto e fé que tudo permeiam. Fé na gente – que de trocas e transes, se compõe em mistura e corrente.

O saber, o fazer, os sonhos e os sentimentos – só fazem sentido quando compartilhados. Da gente, só fica o que sai de dentro e vai para o mundo. Só o que damos de nós para @s outr@s. Só fica, enfim, o que ainda pode florir na terra – para além do adubo besta que um dia nossos corpos se tornam.