O lado bom da crise

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Nunca cursei sequer uma disciplina sobre economia, não travei longos debates sobre, não li nem um livro e fugi de todos os artigos e de algumas reportagens. Sei, no entanto, que parte dessa crise econômica (e também a política, claro) foi forjada por quem nela tem interesse – barões da indústria e do empresariado ávidos por cortar salários, cargos e direitos trabalhistas; a grande mídia dedicada em inflamar o povo contra o atual governo e demais pessoas que só gostam de ter uma boa desculpa para qualquer tipo de impasse. Pois bem. Tanto se falou que ela se fez. A crise real, as imaginárias, e todas as tantas filhas que delas se originaram.

Aqui em casa, a crise, por exemplo, não é de todo filha da crise real. Meu pai perdeu o emprego porque prestava serviço ao antigo governo estadual, psdbista, que foi substituído pelo atual, petista. Com todos os escândalos (muito mais que merecidos, e ainda pequenos diante do tamanho real da merda) envolvendo construtoras e empreiteiras, o setor de engenharia civil não anda às mil maravilhas. E assim meu pai está: em casa, desempregado.

E assim ele voltou a ir à padaria, ao sacolão e ao supermercado. Descobriu um lugar que vende aqueles sacos gigantes de laranja, lá na Lagoa da Pampulha. Ele sabe até que horas o Sol bate onde na casa, e em que lugar as plantas se sentem mais felizes. O encurtamento da grana fez com que ele suspendesse o serviço de TV a cabo. Assim ele reencontrou a TV Brasil, a TV Escola, o Canal Futura e a TV Cultura. Ele leu os últimos livros que comprei, coisa que não fazia há anos. Chegou a colorir desenhos com a irmã, que tem síndrome de Down. Como não podia deixar de ser, ele achou brechas para rir de si e da situação. Olhando minha sobrinha, com 4 dias de vida, constatou: “A gente tá igual. Carecas, sem dente, sem emprego, só comendo e dormindo!”, e ainda conseguiu me entender: “Agora eu tô igual você, fazendo freela, e realmente esse povo não paga…”

Eu que não tente enganar ninguém: meu pai não está feliz. Ele foi criado (pela família, mas muito mais pela sociedade capitalista patriarcal) para trabalhar, sustentar a família, criar os filhos. E só. Sem o trabalho, é como se ele nada fosse, nada valesse. Com os filhos criados, mais um vazio. Ninguém ensinou ao meu pai que ele poderia fazer coisas só porque gostasse, desenvolver habilidades aparentemente inúteis (porque não vendáveis), apreciar o tempo para além do formato de horas-trabalho e a vida para além dos anos necessários de contribuição ao INSS. Ele está se virando para se sentir algo dentro de um sistema que o construiu como produto, criado para usos específicos e com prazo de validade. A re-humanização é penosa.

No entanto, aí estamos todos: nos reinventando. Sou jornalista e faço entregas em domicílio para ajudar no negócio da minha mãe. Viajo por uma estrada erma e lá está, pintado de rosa na porta de madeira: vendemos chup chup. Percebo cada vez mais pessoas comercializando água mineral, pipoca doce, amendoim, raquete elétrica, carregador de celular e etecéteras nos sinais vermelhos. No MOVE, um homem entrou vestido de Elvis Presley, dizendo que está cantando nas ruas para pagar a faculdade de moda da filha – e, de quebra, levar qualquer graça inusitada para os percursos. Bazares, feiras e brechós se multiplicam, incentivando um consumo mais consciente. Artistas antes tímidos colocam seus desenhos na roda para virarem tatuagem, a moça começou a fazer brincos, o outro almofadas, e as broas de fubá e cadernos e quitutes…

Não foi a crise que inventou as pessoas que tem que se virar para sobreviver, nem nunca vai ser certo uns trabalharem tanto e ganharem pouco, enquanto outros nada fazem e se esbaldam. Eu louvo aqui aqueles que não se acomodam. Que não sentam no sofá ou no meio-fio a lamentar a horrível crise que sobre nós se abateu, e nada mais pode ser feito. Prefiro pessoas coloridas, versáteis, dispostas e inventivas, a uma estéril sociedade de graduados que, além dos diplomas, carregam umbigos do tamanho do mundo.