Nunca mais vai ter Copa?

copa

Copa do Mundo FIFA 2006. Não lembro o dia, nem contra quem o Brasil jogaria, mas lembro que Belo Horizonte se pintou de verde e amarelo. Se pintou em apitos, buzinas, bandeiras, abraços, sorrisos, camisetas e bastante tinta (no rosto, no cabelo, nas ruas). A Av. do Contorno praticamente parada, mas em festa. Logo mais, a seleção brasileira ia entrar em campo. Isso deixava todos enlouquecidamente felizes. Todos, menos um.

Enquanto a cidade sorria, um carro preto parou, por alguns minutos, ao lado do meu. Dentro dele, um rapaz de vinte e poucos anos com a cara amarrada usava óculos escuros e roupa preta. Com o som alto, ele escutava uma música nada festiva, que escapava por seu vidro fechado. Não precisei observar por muito tempo para concluir: ele devia ser a única pessoa infeliz naquela tarde ensolarada. Dentre tanto verde e amarelo (e um pouco de azul), uma gota de preto. Uma gota solitária que nunca saiu da minha cabeça. Como ele podia estar infeliz? Era dia de jogo do Brasil na Copa do Mundo! Era dia de comemorar.

30 de outubro de 2007. Brasil é ratificado pela FIFA como país-sede da Copa do Mundo 2014. Que alegria! Eu e minha mãe pulamos abraçadas, meus vizinhos gritaram pelas janelas – muitas vezes, muito alto – “ÉEEE DO BRASIIIL, PORRA!”, meu pai chegou do trabalho mais sorridente do que de costume, eu imaginei o quanto seríamos felizes em 2014 e me perguntei onde será que o rapaz de preto iria se esconder dessa vez.

Janeiro de 2010. Fui aprovada no vestibular de Comunicação Social da UFMG. Eu só pensava no quanto eu era sortuda. Ia me formar em jornalismo logo antes da Copa do Mundo. Da Copa do Mundo em meu país. Quantas vezes sonhei em um dia ir aos jogos logo ali no Mineirão, comemorar todas as partidas de todos os países, e receber os gringos com muito pão de queijo e um bocado de boa vontade. A vista era melhor do que eu imaginara. Eu ia participar da festa de dentro. Eu ia colaborar para que o mundo recebesse as informações do nosso Carnaval fora de época. Eu e todos os meus colegas teríamos emprego para começar nossas carreiras pós-faculdade. Começaríamos em plena Copa do Mundo no país do futebol. Que maravilha! Trabalhar e celebrar, tudo ao mesmo tempo.

2014. Não sei mais aplaudir esse espetáculo. Receber a FIFA em casa tem sido assustador. Um vizinho que chega botando banca, impondo as suas regras, gastando nosso dinheiro suado guardado no potinho, e ainda acha ruim. O pior disso tudo: a gente sabia que ele era assim e implorou por sua visita. Prometemos mundos e fundos e imaginamos que esse esforço seria recompensado. Esse devia ser o empurrão que faltava para o Brasil ir para a frente.

“A FIFA está chegando e está trazendo o resto do mundo para nos visitar, chega de enrolação, vamos por em prática o que já devia ter sido feito e, de quebra, arranjar emprego para grande parte da nossa população”. Que ilusão! Não compreendo se nos faltou competência ou se foi má vontade. O fato é que o pouco que mudou, ao meu ver, mudou para pior. Tem aeroporto quebrado até hoje, a três semanas da Copa. Imagino que o rapaz de preto já sabia disso tudo, há muito tempo, antes do Brasil ser eleito.

Copa do Mundo FIFA 2014. Onde estarei? Provavelmente cobrindo as manifestações contra a FIFA, enquanto minha família, meus amigos, meus vizinhos, e o mundo inteiro se abraça e grita “GOOOOOOOOOL”. Estarei exercendo minha profissão sem receber um centavo por isso, mas ciente de que é ali que precisam de mim, dando voz ao outro grito do povo. Um grito que tentarão a todo custo calar para não assustar as visitas. Um grito ao qual eu não dava tanta atenção há quatro anos atrás, mas que, como jornalista recém-formada, percebo ser meu papel ajudar a ecoar.

Ciente e orgulhosa dos meus deveres como jornalista e como cidadã brasileira, uma lágrima escorre no meu peito da mesma forma que aquele carro preto tentava atravessar a Av. do Contorno em 2006. Será que rompi com a FIFA de vez? Será que nunca mais comemorarei um gol da seleção brasileira? Eu gosto de futebol. Eu amo o meu país. Eu adoro comemorar. Será que essas três paixões, algum dia, se encontrarão novamente – e confortavelmente – em meu peito? Espero um dia ter razões para que, sim, os jogos da seleção brasileira voltem a ser motivo de celebração e orgulho. No país, no mundo e em mim.