Meu museu de estreias mínimas

Primeira vez em Buenos Aires

Primeira vez em Buenos Aires

*Texto escrito em 18/12/2013

Foi logo depois da primeira vez que terminei de verdade meu primeiro namoro de verdade que eu me viciei em primeiras vezes. Li o mundo através de todas as possíveis inaugurações e estreias que ele me apresentava. Em poucos dias vislumbrei meu primeiro acervo, que não incluía plantar uma árvore, escrever um livro ou ter um filho – eu comemorei ter ido a um cinema de rua, bebido no prédio mais antigo da cidade e ido a uma casa de festas que sempre quis conhecer. Eu sabia que tudo era despretensioso e pequeno e só tinha o significado que tinha dentro de mim – e talvez por isso fosse tão grande e saboroso.

Desde então, virou hábito. ‘Qual foi a última vez que você fez alguma coisa pela primeira vez’ pode ser um slogan publicitário barato, mas também um mote de vida, me ajudando a desenhar terças e domingos e sábados-feiras. Colore as dúvidas sobre restaurantes, roupas, projetos. É com um prazer imenso e, ao mesmo tempo, muito singelo, que eu destôo os horários que acordo, durmo, almoço, saio e volto do trabalho; e os caminhos que faço e o transporte que uso e o que quero fazer à noite e o que não quero fazer mais. Um novo sabor de suco e uma nova viagem, um novo bairro e um novo jeito de prender o cabelo, a música que eu nunca tinha ouvido e o pensamento que nunca tinha me ocorrido – é sempre com uma alegria orgânica que eu os abraço para dentro de mim.

Eu devia ter vergonha de não só carregar isso como mochila permanente, mas ainda querer escancarar minhas pequenices na parede do quarto, ocupando lugar concreto no mundo. Mas encaro cada miudeza com orgulho de mãe e só torço para que sejamos infinitos enquanto duremos – eu e minha [primeira] coleção de pequenas grandiosas premières solitárias.


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