Manoela não coloca mais pimenta no arroz

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Era sexta-feira e ela resolveu que não passaria o batom vermelho de sempre. De boca seca e coração vazio, não esperava nada da noite, apenas duas doses bem fortes de tequila e quatro copos de catuaba. Não estava interessada em conhecer ninguém, nem queria ser reconhecida. Cansou de ser quem era e resolveu ser qualquer outra pessoa. Sozinha, sexta-feira a noite, de cara limpa e coração vazio.

Manoela outrora fora sonhadora, cozinhava torta de maçã todas as terças-feiras e fazia bombons de morango para presentear as amigas. Nunca negou um abraço e adorava ter companhia. Sentia prazer até bebendo um copo de água gelada. Curtia até ficar de fossa. Mais do que tudo: gostava de gente. Pena que ninguém nunca soube valorizar isso.

Cansada de temperar sua vida sozinha, desistiu da ideia de que as coisas um dia seriam diferentes. Perdeu o encanto por finais de tarde no parque, por filmes de amor e por lanchonetes retrô. Parou até de escrever. Desiludida, não gostava mais de abraços e, da vida, não esperava mais nada. Só duas doses bem fortes de tequila e quatro copos de catuaba.