Um jogo para recordar

Foto: Mariana Bazo/Reuters

Foto: Mariana Bazo/Reuters

 

Acho que um bom consenso de partida inesquecível entre o povo brasileiro é a derrota de 7×1 da seleção brasileira para a alemã na Copa do Mundo de 2014. Eu também bem lembro dela. Mas tenho a forte impressão de que vou levar adiante na memória o jogo de futebol feminino entre Brasil e Austrália nas quartas de final das Olimpíadas 2016. Resultado final: 0x0, nenhuma goleada, sem valer medalha, nada que entre no Guinness. Só algo que bateu firme aqui dentro.

Eu já ouvia falar sobre nossa seleção feminina há um tempo. Era só ver um post com a foto de Marta e eu curtia. Mas naquele dia fui de fato assistir ao jogo, interessada nos passes, chutes e contra-ataques como eu não me lembro de já ter estado.

Comecei a atravessar a importante ponte entre o saber e o sentir. Entre a priori e posteriori. Acredito profundamente que representatividade importa, mas naquele jogo isso passou de uma frase a uma sensação percorrendo todo meu corpo.

O jogo estava emocionante por si só; era necessário vencer para seguir para as semi finais e ter chance de medalha. Zero a zero, prorrogação. Eu não estava vendo fulanos correndo feito bobos num campo de futebol. Eu via amigas, sentia todo o esforço delas, vibrava em cada movimento e torcia para que aqueles corações apertados se desamarrassem em alegria.

Fomos para os pênaltis. Eu não queria que elas errassem, não por não querer que o Brasil perdesse; mas eu não queria essa tristeza nelas. Tentava imaginar os tantos corres na vida de cada uma para que tivessem chegado até ali. Tanta gente colocando areia no sonho, tanto descrédito, tanta encheção. E tanta persistência.

Chloe Logarzo, jogadora australiana, acertou o pênalti e comemorou fazendo o símbolo de uma pepeca com as mãos. Meu namorado falou: ó, sapatão. Eu discordei: talvez nem seja. Sim, era. É. Mas na hora o símbolo de uma vagina representava muito mais para mim do que a orientação sexual da atleta. Era autoafirmação e resistência. Era gritar muda e com a cara séria: AQUI É MULHER, MUNDO! Mulher correndo, suando, lutando e metendo gol.

PPK PWR

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Embora ser mulher não se resuma a ter vagina, e tantas mulheres sejam mulheres sem a possuir, naquele momento reinou a pepeca no Maracanã lotado – e, na raridade das raridades, não para o bel prazer dos homens. Cooptando o gesto dela para tudo que pensei e senti, ali ela vibrou acima da diferença de times/países – éramos todas xoxotas fazedoras de gols, ousando ocupar com brilhantismo e garra um território em que tradicionalmente éramos apenas parte da decoração.

Tudo se fez entender dentro de mim com os pênaltis acertados pelas brasileiras. Respiração em suspenso. Bola na rede. Quando elas davam um soco no ar, quando gritavam, quando eram tomadas pelas tantas descargas de felicidade e realização corpo afora, eu pensava: podia ser eu! Imagina que loucura sentir isso tudo. Elas são mulheres como eu. E estão sentindo isso tudo! É real, é possível. É maravilhoso. E elas estão lá.

Do banco da equipe técnica, também lembro de ter ficado tocada pela comemoração de uma moça de cabelo liso, preto, comprido e amarrado num rabo de cavalo. Não sei o nome nem nada, mas a câmera sempre dava uma volta por ela no momento da comemoração. Ela gritava com todas as cordas, abaixava um dos joelhos e erguia o punho no ar seguidas vezes, com força e rigidez. O terreno do esporte era nosso. Seu êxtase, seu brio. Toda sua vibração e catarse. Ali, uma torcedora festiva não figurava apenas uma enfeite, como em tantos jogos masculinos a câmera faz parecer – o lugar e a vitória eram também dela.

Assim, Marta passou de um rosto na minha timeline a uma atleta a qual pude acompanhar. De Bárbara, eu só havia visto uma reportagem no Globo Esporte que destacava a beleza de seus olhos verdes. Eu a vi defender um pênalti decisivo e nossos santos estiveram juntos na proteção. Formiga é agora inspiração e força para enfrentar a sociedade que nos quer descartáveis, inúteis e nulas a partir de uma certa idade – bem nova, diga-se de passagem. Debinha, Andressa Alves, Andressinha, Tamires, Poliana, Fabiana, Mônica, Rafaelle, são agora pessoas queridas, que eu gosto de imaginar sentadas em uma mesa de bar re-contando as partidas, falando alto, rindo largo, livres, elas.

A minha trajetória – que bom – já havia me ensinado que representatividade importa, sim. Que importam Lea T., MC Soffia e Karol Conka. Essa partida veio, no entanto, para reforçar o ensinamento pelos poros, pulsos e olhos. Me sacudiu com o elétrico e poderosíssimo pensamento de que poderia ser eu lá.

Representatividade inspira, faz sonhar e projetar. Faz crer que é possível. Sendo possível, lá chegaremos. Obrigada, time. Eu jamais as esquecerei.


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