Javier sabe muito bem o que não quer

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Javier tinha só cinco anos de idade, mas já sabia que não queria ser piloto de avião. Ele tinha medo de altura e achava aquele chapéu bem esquisito. Aos oito, descobriu que não gostava de comer atum. Ficava imaginando o peixe sendo esmagado dentro da lata e morria de dó. Pobrezinho. Aos doze percebeu que não gostava de falar espanhol, embora fosse filho de um e sua pronúncia fosse perfeita. Azafata, perejil, manzana. Achava desconfortável o jeito que a língua se mexia durante a fala.

Javier cresceu e, hoje, aos 26, sabe dizer quase tudo que não gosta, mas não sabe citar uma só coisa pela qual tenha se encantado. Nem meia. Estudou direito porque seu pai quis, namorou a Flávia porque ela gostava muito dele, só nunca soube dizer o que ele queria de verdade. Nunca brigou pelo controle da TV.

Javier tem vergonha de gostar desde que comeu cupcake de morango com glacê de chocolate e falaram para ele que aquilo era coisa de mulherzinha. Ele só tinha quatro anos de idade. Tinha gostado do cupcake e falaram que ele não podia. “Deixa isso para sua irmã”. Desde então, ele nunca mais gostou de nada, porque gostar tinha gosto de repressão.