Dos descompassos da vida

Danilo gostava de se apaixonar. Foi crescendo entre um namoro e outro e outro, e, talvez por isso mesmo, nunca amadureceu. Tinha necessidade de companhia, sentia falta de quem o esquentasse na cama. Não tinha paciência, não sabia esperar.

Analice sempre quis se apaixonar, mas sofreu muito nas duas vezes que entregou seu coração. Ensinou, então, o coração a nunca mais disparar ao receber mensagem. Decidiu ser feliz por si só, viver de gargalhadas momentâneas, longe de promessas e expectativas.

Conheceram-se numa tarde de pouco sol, muita vodka e rostos desconhecidos. Quando não se viam, trocavam mensagens. Analice ficou feliz de encontrar alguém para as noites de quinta-feira. Danilo pensou ter encontrado um novo amor.

Analice não tinha espaço no peito para emoticons de coração e ligações alcoolizadas de madrugada. Danilo não tinha tempo para perder. Percebeu que não conseguiria entrar na lista de paixões que Analice plastificou e deixou de lado por tempo indeterminado, resolveu entrar na de decepções.

Transformou as lembranças das últimas semanas de primavera em enormes interrogações. Não deixou nem um rastro de felicidade. Não quis seguir na amizade. Pegou toda a simpatia com a qual encantou a menina e, com uma frase, a embalou dentro de um saco de estupidez. Não ganhou nada com isso. Agora, enche a cara e pede desculpas para as paredes que também conheceram Analice.

Ela, que já não tinha nada a perder, apenas lamenta. “Menos um”. Ainda bem que o mundo é grande.