Conheci Los Hermanos no banco de trás do carro

Apesar de apaixonada, nunca fui entendida de música. Carrego uma clave de sol no ombro esquerdo na certeza de que essa paixão é eterna. Já até fiz algumas aulas, mas passo longe de qualquer entendimento técnico. Meu sentimento é tudo que levo, tudo que me basta para seguir firme na crença de que sou alucinada pelas melhores bandas do mundo.

E vem da minha paixão por música, totalmente de paixão e música, a minha conexão com Los Hermanos. Vem dos meus 15 anos de idade e da fase que meu amor se encontrava mais puro, quase intocado talvez. Do som do carro da minha irmã, que nunca havia sido referência musical para mim, mas que naquela tarde ecoava palavras que não podiam ser de ninguém além de minhas. Tão minhas que eu precisava conhecer um pouco mais, mesmo já conhecendo tudo.

Fui além e me descobri neles. Em quatro caras que carregavam meu sentimento há anos e nunca haviam me tocado, mas que com Sentimental me invadiram para sempre. Descobri meu amor em palavras e melodia, descobri que ele já havia sido descoberto e escancarado para o mundo, faltando apenas alguém para compartilhar.

Decidi que Los Hermanos era a banda da minha vida, ou pelo menos dos meus próximos quinze anos, e, poucas semanas depois, eles entraram em hiato indefinido. Por alguns dias fiquei completamente desolada. Tão jovens, eu, a banda, e já fadados a jamais nos encontrarmos. Mais um amor platônico, mais um desencontro.

Mero engano. Pelo contrário: nosso encontro já havia acontecido aquele dia, naquele carro. Los Hermanos se tornou minha melhor companhia. Os tive como consolo para desamores, me apaixonei por entoarem suas canções. Só nunca encontrei esse tal de amor que, com toda certeza, haverá de entendê-los para ser meu. Carrego, então, neles esse sentimento. Carregam, então, eles o meu sentimento. São meus companheiros, são parte de mim.

Enquanto milhares pessoas se deslocaram para São Paulo para assistir aos mestres do Kraftwerk e se realizarem em uma apresentação inesquecível do Radiohead, eu só queria era escutar ao vivo a poesia que eu pensei que jamais teria a honra de visualizar sendo dita. Uma chance que, talvez, jamais se repetiria. Peguei meus 17 anos, meu melhor sorriso e, acompanhada por irmã e primo, fui expandir meus sentimentos. Inesquecível, indescritível. Os tive de novo no SWU do ano seguinte e aqui a acolá um ou outro dos caras acabou dando as caras por BH.

BH a que retornaram unidos sábado passado. Um sábado que virou história para centenas de pessoas. Sábado, domingo e segunda. Shows lotados em uma cidade que sentia saudades de tê-los reunidos. Um público diverso. Iniciantes, gente das antigas, todos com um sorriso no rosto e um coração cheio de sentimentos para serem expandidos, escancarados. Sentimentos já compartilhados.

É que para se conectar com Los Hermanos é necessário sentir. E uma frase deles em que nos reconhecemos é o suficiente para nos conectarmos por completo, basta amar do jeito mais sincero. E por compartilhar o sentimento, amo um pouco mais todos que estiveram comigo ali naquele sábado efervescente: irmã, amigos, Camelo, Amarante, Medina, Barba, jovens, adultos, idosos, solteiros, casados. Apaixonados. Gente interessada em palavras sinceras. Nem que seja um pouco, nem que seja só às vezes. Nem que tenha sido apenas naquela noite de sábado.