Crônica é para fazer carinho, não para alimentar o ódio

cronica

Na adolescência, eu sempre lia a última página da revista primeiro, porque é lá que costumavam morar as crônicas. Os melhores livros que li na escola eram copilados de histórias curtinhas, escritas por alguns dos melhores jornalistas-escritores que o Brasil já teve, sobre a vida deles. Os sentimentos deles. As pessoas que convivem com eles. Sobre eles.

Eu, sentada na última fileira do canto esquerdo da sala da sétima série, ficava imaginando o tanto que ia ser legal quando eu tivesse minha própria coluna para escrever crônicas sobre a minha própria vida. E que legal ia ser as pessoas lerem meus textos curtos e pensarem “nossa, isso acontece mesmo!”, “puts, igual a mim!” ou, quem sabe até, chorarem em empatia.

No fim da adolescência, fundei este blog. Os melhores textos que escrevi foram feitos após términos de relacionamento – bendito é o coração partido, rei da inspiração, que me faz usar com facilidade um tantão de letrinhas para libertar de dentro todo o sentimento que me sufoca a cada história de amor estraçalhada. Outros que se destacaram foram sobre a morte da minha cadela, o meu medo de ser estuprada e meus ataques de carência. Todos textos sobre mim.

Ah, e imaginem só a minha alegria toda vez que um inbox chegava dizendo “esse seu texto aqui parece até que fui eu que escrevi”! Em certas ocasiões, fui abordada na Savassi e na faculdade. “Chorei muito seu texto sobre a cachorrinha” (!). “Tive um ex igual ao seu” (!!). “Você me entende” (!!!). A satisfação de descobrir que traduziu involuntariamente o sentimento de alguém é ainda mais fascinante do que a sensação de terem inconscientemente traduzido os seus sentimentos.

Já faz tempo, no entanto, que ando incomodada com minha falta de dedicação a mim mesma. Passo o dia todo escrevendo – afinal, sou jornalista –, mas os relatos pessoais têm sido cada vez mais raros (e me fazem enorme falta). Até que, na sexta passada, quando li as últimas páginas de “Trinta e Poucos”, do Antônio Prata, tomei uma decisão: toda segunda-feira vou escrever aqui no blog. No mais tardar, terça ou quarta. Mas vou escrever. Afinal, não tenho coluna em publicação nenhuma – como sonhava acordada na adolescência – mas tenho este blog. E um blog, para existir de fato, precisa ser atualizado. Mais que isso: eu, para existir de fato, preciso escrever minhas crônicas e contos.

Enfim, chegou o grande dia. A primeira segunda-feira de muitas frutíferas que virão. E, neste dia de grande importância para mim (e para o Cunha, que vai ser julgado, e para o Paulo Zulu, que postou um nude frontal no Instagram), o assunto mais falado foi justamente uma crônica. Em sua coluna na Folha, Gregório Duvivier fez uma homenagem ao seu namoro com Clarice Falcão. Uma homenagem com ares de gratidão e uma pitadinha de marketing, já que eles estão lançando um filme juntos (e o título do filme estava no título da coluna).

Eu a li logo pela manhã. Achei bonita. Leve. Dei uma choradinha. Tão bonito quem sabe valorizar o amor vivido, pensei. Tão triste que o amor normalmente se transforme em ódio, reflito toda vez que algum amigo termina o namoro ou algum parente se divorcia. Sequei as lágrimas. Compartilhei o link da coluna no Facebook e fui cuidar do meu ganha pão. Assunto encerrado.

Engano meu. A crônica virou polêmica. Uma crônica açucarada, com grande dose dos clichês gregorianos e falconianos – que eu, fã dos trabalhos da família dela e admiradora das criações dele, claro, adorei –, virou fogo cruzado. “É marketing, seus troxas!”. “É um texto abusivo, de um cara abusivo!”. “Esquerdomacho de merda!”. Centenas de acusações foram feitas ao autor, nenhuma prova das acusações me foi entregue quando solicitei – comentei em muito tópico perguntando onde leram aquilo (afinal, não gosto de gostar de gente babaca), ninguém me retornou com a fonte –, defenderam incessantemente Clarice sem que ela precisasse (ou quisesse) ser defendida.

Virou uma guerra, virou ódio.
Virou desgaste.

Era uma crônica.

Uma crônica sobre afeto. Sobre gratidão. Com uma pitadinha de marketing, é verdade. Mas uma crônica. E o que é, afinal, uma crônica, se não o gênero textual mais doce já criado? O que é uma crônica, se não um diário escrito com gracejos e certa dose de ironia para ser aberto ao público?

Crônica combina com café coado e pão de queijo quentinho. Crônica não combina com fúria. Nem com suposições hostis.

Crônica tem a ver com empatia.

(Não devia ser tão difícil de entender)

Reencontro

reencontro

Fazia dois anos que eles não se viam. Dois anos. Dois anos parece pouco tempo quando não é com a gente. Quando é, dizem, parece uma eternidade. Os primeiros meses não seguem a diante e, nos seguintes, a demora do reencontro dá lugar à uma ausência sempre presente. Até que, sem perceber, somos libertados dessa ausência e a vida segue. Segue solta, com cara de oportunidades. Pelo menos foi assim com Clarice e Matheus.

Assim até o dia que se reencontraram. Inesperadamente, na festa de aniversário de um amigo do Matheus que namorava a prima de Clarice. Eles não sabiam dessa coincidência até coincidentemente terem aparecido sábado, 18 de outubro, às 17h, na casa de Alessandro. Alessandro, amigo de Matheus há 8 meses e namorado de Renata, prima de Clarice, há 5. Renata não sabia da amizade, Alessandro não sabia do romance, mas essa história é sobre Clarice e Matheus que não se viam há dois anos e se reencontraram por acaso na entrada do banheiro de uma festa de aniversário.

A última vez que tinham se visto foi para se despedirem. Depois de 7 meses dividindo o sofá em noites de chuva, viajando para festivais de cinema e experimentando a maior quantidade de petit gateau já experimentada na história dos amantes de petit gateau, Clarice foi morar com a mãe em Nova York. Por mais que precisasse do Matheus, ela precisava mais de um emprego. E a verdade é que ela nem tinha consciência dessa necessidade afetiva&espiritual até ver ele saindo pela porta de seu apartamento depois de passarem uma tarde quarta-feira se despedindo. Na quinta embarcou para a cidade que nunca dorme, onde ficou por um ano e oito meses até ser transferida de volta para sua cidade natal. Ao voltar, pensou em Matheus, mas seria muita loucura se ele ainda pensasse nela, nem que fosse de vez em quando como ela ainda pensava nele. Muita loucura depois de muito tempo distantes, então Clarice não o avisou que estava voltando para o apartamento de porta azul e cheiro de canela.

Na quinta-feira depois da despedida, Matheus comeu o petit gateau favorito de Clarice sozinho, na sexta à noite choveu e seu sofá vazio fez a saudade aumentar. Dois anos depois, ainda pensava, mesmo que de vez em quando, como seria se Clarice tivesse ficado, ou como seria se ele também tivesse partido. Pensava rápido e sem autorização dele mesmo, pois sabia que “e ses” não mudam nada, nem fazem feliz. Já não tinha vontade de saber sobre a vida dela, há mais de um ano não conversavam por Facebook, também tinha parado de seguir as atualizações da ex-namorada, mas, uma vez ou outra, sentia sua falta.

Dois anos depois. 18 de outubro. Aniversário do Alessandro. Se reencontraram. Na entrada do banheiro. Clarice tinha deixado o cabelo crescer, Matheus já não usava mais a barba. Ela parecia mais magra, ele parecia mais bronzeado. As alturas continuavam as mesmas, no tamanho exato para se encaixarem. E como queriam se encaixar. E como se desejaram naquele momento. Como se o desejo pouco desejado dos últimos meses tivesse virado um desejo enorme, um desejo só. Clarice ficou sem fala, Matheus sem ação. Respiraram fundo.

“Quanto tempo!”
“Como você está?”
“Não sabia que você estava no Brasil”
“Pois é, fazem quatro meses que fui transferida”
“Hmm…”
“É…”
“Bem, bem vinda de volta”
“Obrigada”
.
.
.
.
.
“Err… Preciso ir ao banheiro, depois conversamos”
“Tá, tá bom…”

Clarice desistiu de ir ao banheiro, Matheus ficou por lá um tempo ajeitando as ideias. Ao longo da festa, trocaram olhares desviados e quase-sorrissos, mas nenhum abraço. Voltaram para casa com uma ausência maior que a da despedida. Clarice quis chorar, Matheus quis telefonar. Respiraram fundo.

Fim de ano sem fim

fimdeanosemfim

Mais um dezembro. Mais um fim de ano. E nada concluído. Nada. Tudo em transformação. Tudo em progresso. Tudo no ar. Sem fim. Sem conclusão. Sem previsão. Tudo no meio. Divido. Separado. Começando.

E eu aqui. Com pressa. Com saudade. Curiosa. Preocupada. Como serão os próximos 365 dias? Como será o próximo dezembro? Como serei? Paciência. Estamos em transição.