Minha vizinha tem preguiça das palavras. Coitada.

vizinha

“Tchau. Te amo.” disse a vizinha antes de bater a porta do apartamento. Um “te amo” tão mecânico que pensei talvez ter ouvido por engano. Devia ser palavra de despedida, não frase de declaração de amor.

Quando eu era adolescente era recorrente. Ele falava “tchau”, eu entedia “te amo”. Ele falava “te amo”, eu entendia “tchau”. Então eu sempre falava “tcham”, para parecer que eu respondi a mesma coisa que ele me disse e não ser melosa ou grossa na hora errada.

Mas, não, com certeza, a vizinha disse “Tchau. Te amo.” e bateu a porta do apartamento. Em seguida, saiu andando em direção ao elevador com a mesma vontade de viver que eu sinto quando estou com bronquite. Eu fui logo atrás – afinal, era esse mesmo o meu destino. Paramos lado a lado enquanto o mesmo ainda não se encontrava no nosso andar.

A vizinha, então, me olhou nos olhos e depois desviou. Preferiu olhar para a porta do elevador do que trocar um breve cumprimento. O que esperar, afinal, de uma pessoa que fala “te amo” por hábito e não por paixão, pensei. Eu, que só falo “eu te amo” por amor mesmo, não deixei por menos. Botei meu melhor sorriso na cara – mesmo que ela não estivesse mais me olhando – e falei “Bom dia!”. Em resposta, ela resmungou alguma coisa da mesma família do “tcham” que eu dizia na adolescência.

Que pessoa desnecessária! Eu refletia enquanto descíamos o elevador. Lembrei-me do dia que atravessei o nosso corredor e ouvi seu namorado – ou será marido? – cantando alegre no chuveiro. O banheiro deles dá para o nosso corredor e essa é a única impressão que eu tenho do rapaz. Meu vizinho é um cara que canta no chuveiro.

Já minha vizinha fala “eu te amo” no automático e não aprendeu que, quando o elevador chega no térreo, a gente segura a porta para a outra pessoa e se despede trocando sorrisos. Alguns, mais simpáticos, até arriscam um “tenha um bom dia!”. Mas ela não.

Minha vizinha sai reto e não se dá ao trabalho de agradecer nem quando o senhor idoso, também morador do nosso prédio, segura o portão com dificuldades para ela passar calada pela portaria. Grossa. Enfim dou bom dia para o porteiro e percebo: meu “bom dia, seu Mário” tem mais sinceridade que o “Tchau. Te amo.” dessa vizinha.

Pobre vizinho cantor de chuveiro. Pobre vizinha que tem preguiça das palavras. Desejo que as coisas melhorem para vocês em breve. De coração.

BH tem metrô sim

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Mudei para BH em 2010 e dei as mãos ao maior dos companheiros: o Google. Eu não sabia a diferença entre Nova Lima e Venda Nova, se a UFMG era perto do Barreiro e não fazia a menor ideia de como chegar na Praça do Papa. Nos tornamos, então, inseparáveis.

Certo dia, novatíssima no bairro Dona Clara, fui convidada para ir ao Boulevard Shopping. Meu amigoogle mandou a letra: caminhada até a estação de metrô 1º de maio – sentido Eldorado – descer na estação Santa Efigênia. Atravessar o rio Arrudas (o querido não especificava como, mas eu imaginava que entre passarela e barco a remo, algum meio haveria). Nóis.

Decoradas as viradas à esquerda e à direita, cheguei em uma rua de terra. Era noite. Caminhei rápido. “Vamos juntas?” ainda não era um movimento/página no Facebook, mas eu já não era besta e me aproximei de uma senhora que por ali também passava. Ela se assustou com meu movimento, eu sorri bege e puxei papo: “aqui é perigoso, moça?”. Passávamos por cima de um córrego (filho do Ribeirão do Onça, hoje sei), água cheia e turva. “Já vi puxarem bolsa de mulher, bater em mulher, diz que jogam corpo nesse pedaço de rio” – foi a resposta que arrepiou os cabelos da noite.

Lá fui eu. Em frente. Depois naquela caralha de passarela alta da estação Santa Efigênia, os carros passando velozes na Andradas, contrários aos colchões felpudos que eu preferia ter sob meus passos. Fui naquela e em mais muitas vezes.

A 1º de maio continua sendo grande amiga, a rua de terra foi asfaltada, agora tem supermercado na esquina, nunca ouvi-vi caso de violência por ali. Fiz estágios nos bairros Floresta e Santa Inês, usando as estações Central e Santa Inês todos os dias. Visitei tio pela estação Horto, peguei carona na PUC pela Gameleira, ocupei a Câmara pela Santa Tereza, trabalhei pela Calafate, manifestei pela Lagoinha, doei sangue pela Vilarinho, passei o domingo com a família depois de descer no Eldorado e fiz compras de Natal no Minas Shopping.

Ouço, no entanto, desde os tempos de faculdade, pérolas sobre o metrô. Lembro quando contei numa roda que havia ido nãoseionde com ele. Um colega, belorizontino, escola particular, zona sul (nada contra, até tenho amigos que são), me disse: “SÉRIO? Mas não é perigoso?” Eu nem soube responder.

E então @s amig@s e colegas dizendo que não existe metrô em BH. “Ah, porque não é metrô, é trem” – bem, eu falo “aprochegar” e “desbeiçado”, então não me importo exatamente com nomenclaturas. Seguimos. “Tem poucas linhas e não atende e {insira aqui palavras educadamente revoltadas} e lkajsanwawbnab e (…) e SAVASSI”. A gente sempre chega na Savassi. Não tem metrô porque não tem metrô – na Savassi.

Ele não só existe como foi visto arrasany no CarnaBelô 2015. Foto: Vinícius Rezende

Ele não só existe como foi visto arrasany no CarnaBelô 2015. Foto: Vinícius Rezende

Se eu estou defendendo o sistema tosco, júnior e insuficiente de trens urbanos de BH/Contagem? Definitivamente não. Sabemos que nosso transporte público maltrata @s trabalhador@s e que um metrô decente poderia nos poupar dos combos de passagem cara & ônibus lotado que demora para chegar no ponto e para chegar em casa. Sabemos que existe uma máfia que nos mantêm enlatados, cansados e pagantes. Mas se BH não tem metrô, eu e uma parte da população andamos surfando numa viagem cósmica maluca nos últimos 6 anos.

Segundo dados da CBTU (Companhia Brasileira de Trens Urbanos), o metrô de BH (ou como queiram chamar) atende 210 mil passageir@s/dia. De acordo com o último censo do IBGE (2010), a capital mineira possui 1,433 milhão de habitantes, o que significa que o trem atenderia 14,65% da população diariamente. Se somarmos a população de Contagem (380 mil pessoas), que é atendida nas estações Cidade Industrial e Eldorado, a porcentagem cai para 11,6%. É muito pouco, realmente. A rede metroferroviária de SP (Metrô, CPTM e ViaQuatro) transporta cerca de 7,5 milhões de pessoas por dia, o que significa 66,3% da população da cidade de São Paulo e 35,38% de toda a Grande São Paulo (que soma 39 municípios).

Acredito, portanto, que a questão que levanto neste texto seja muito mais simbólica que de cunho prático. Sob o prisma da mobilidade urbana talvez atender 11,6% de uma população equivalha a não existir. Mas agora convido quem me lê a uma ficção científica: e se, no lugar de Eldorado-Vilarinho, o metrô fizesse Centro-Jardim Canadá?

Mantemos a Estação Central, que é pra ninguém perder o prumo. Dali, o metrô sobe Bahia, para lá pelo Maletta. Praça da Liberdade. Um pulo no Lourdes. Praça da Savassi. Pátio Savassi. Entra para o Sion, ali pelo Colégio Santa Doroteia. Vai ao Cruzeiro, shopping Plaza Anchieta. Toca para o BH Shopping. Dá uma moral no Belvs. Parada na Torre de Nova Lima. Finaliza no Jardim Canadá, ali perto do Verdemar. Este trajeto equivale em distância ao percurso Eldorado-Vilarinho (cerca de 30km). Levaria trabalhador@s e estudantes também, mas em outras áreas da cidade – onde os privilégios, por acaso, têm mais casa. E aí? Será que ainda assim “não teríamos metrô”?  

Já me contra-argumentaram que, bem, se o metrô de Belo Horizonte não chega na Pampulha, mais famoso complexo turístico da cidade, ele é falho e ponto. Divinha? A estação 1º de maio é vizinha do bairro Dona Clara que, oficialmente, é da regional Pampulha. O metrô tem estação nas zonas norte, oeste, leste, noroeste, nordeste e central. Leva às duas rodoviárias da cidade, à área hospitalar, a universidades como PUC São Gabriel, PUC Coração Eucarístico, Una e CEFET. Vai até uma das cidades da Região Metropolitana pelo mesmo preço (barato) com que roda dentro da capital. Conecta o centro ao extremo norte da cidade. Seu erro maior, no entanto, me parece ser não dar as caras pela zona sul.

Belo Horizonte merece investimentos reais nas linhas de metrô e no transporte público como um todo. Se mover pela cidade de forma eficiente e humana urge. Do Oiapoque à rua Jacuí; passando por todas as zonas, pela Last e também pela Sul – sim, por favor. Só convoco a rapeize belorizontina para o importante deslocamento para o discurso de + metrô, e não só + metrô-para-mim. 😉

Um jogo para recordar

Foto: Mariana Bazo/Reuters

Foto: Mariana Bazo/Reuters

 

Acho que um bom consenso de partida inesquecível entre o povo brasileiro é a derrota de 7×1 da seleção brasileira para a alemã na Copa do Mundo de 2014. Eu também bem lembro dela. Mas tenho a forte impressão de que vou levar adiante na memória o jogo de futebol feminino entre Brasil e Austrália nas quartas de final das Olimpíadas 2016. Resultado final: 0x0, nenhuma goleada, sem valer medalha, nada que entre no Guinness. Só algo que bateu firme aqui dentro.

Eu já ouvia falar sobre nossa seleção feminina há um tempo. Era só ver um post com a foto de Marta e eu curtia. Mas naquele dia fui de fato assistir ao jogo, interessada nos passes, chutes e contra-ataques como eu não me lembro de já ter estado.

Comecei a atravessar a importante ponte entre o saber e o sentir. Entre a priori e posteriori. Acredito profundamente que representatividade importa, mas naquele jogo isso passou de uma frase a uma sensação percorrendo todo meu corpo.

O jogo estava emocionante por si só; era necessário vencer para seguir para as semi finais e ter chance de medalha. Zero a zero, prorrogação. Eu não estava vendo fulanos correndo feito bobos num campo de futebol. Eu via amigas, sentia todo o esforço delas, vibrava em cada movimento e torcia para que aqueles corações apertados se desamarrassem em alegria.

Fomos para os pênaltis. Eu não queria que elas errassem, não por não querer que o Brasil perdesse; mas eu não queria essa tristeza nelas. Tentava imaginar os tantos corres na vida de cada uma para que tivessem chegado até ali. Tanta gente colocando areia no sonho, tanto descrédito, tanta encheção. E tanta persistência.

Chloe Logarzo, jogadora australiana, acertou o pênalti e comemorou fazendo o símbolo de uma pepeca com as mãos. Meu namorado falou: ó, sapatão. Eu discordei: talvez nem seja. Sim, era. É. Mas na hora o símbolo de uma vagina representava muito mais para mim do que a orientação sexual da atleta. Era autoafirmação e resistência. Era gritar muda e com a cara séria: AQUI É MULHER, MUNDO! Mulher correndo, suando, lutando e metendo gol.

PPK PWR

PPK PWR

Embora ser mulher não se resuma a ter vagina, e tantas mulheres sejam mulheres sem a possuir, naquele momento reinou a pepeca no Maracanã lotado – e, na raridade das raridades, não para o bel prazer dos homens. Cooptando o gesto dela para tudo que pensei e senti, ali ela vibrou acima da diferença de times/países – éramos todas xoxotas fazedoras de gols, ousando ocupar com brilhantismo e garra um território em que tradicionalmente éramos apenas parte da decoração.

Tudo se fez entender dentro de mim com os pênaltis acertados pelas brasileiras. Respiração em suspenso. Bola na rede. Quando elas davam um soco no ar, quando gritavam, quando eram tomadas pelas tantas descargas de felicidade e realização corpo afora, eu pensava: podia ser eu! Imagina que loucura sentir isso tudo. Elas são mulheres como eu. E estão sentindo isso tudo! É real, é possível. É maravilhoso. E elas estão lá.

Do banco da equipe técnica, também lembro de ter ficado tocada pela comemoração de uma moça de cabelo liso, preto, comprido e amarrado num rabo de cavalo. Não sei o nome nem nada, mas a câmera sempre dava uma volta por ela no momento da comemoração. Ela gritava com todas as cordas, abaixava um dos joelhos e erguia o punho no ar seguidas vezes, com força e rigidez. O terreno do esporte era nosso. Seu êxtase, seu brio. Toda sua vibração e catarse. Ali, uma torcedora festiva não figurava apenas uma enfeite, como em tantos jogos masculinos a câmera faz parecer – o lugar e a vitória eram também dela.

Assim, Marta passou de um rosto na minha timeline a uma atleta a qual pude acompanhar. De Bárbara, eu só havia visto uma reportagem no Globo Esporte que destacava a beleza de seus olhos verdes. Eu a vi defender um pênalti decisivo e nossos santos estiveram juntos na proteção. Formiga é agora inspiração e força para enfrentar a sociedade que nos quer descartáveis, inúteis e nulas a partir de uma certa idade – bem nova, diga-se de passagem. Debinha, Andressa Alves, Andressinha, Tamires, Poliana, Fabiana, Mônica, Rafaelle, são agora pessoas queridas, que eu gosto de imaginar sentadas em uma mesa de bar re-contando as partidas, falando alto, rindo largo, livres, elas.

A minha trajetória – que bom – já havia me ensinado que representatividade importa, sim. Que importam Lea T., MC Soffia e Karol Conka. Essa partida veio, no entanto, para reforçar o ensinamento pelos poros, pulsos e olhos. Me sacudiu com o elétrico e poderosíssimo pensamento de que poderia ser eu lá.

Representatividade inspira, faz sonhar e projetar. Faz crer que é possível. Sendo possível, lá chegaremos. Obrigada, time. Eu jamais as esquecerei.

O frio me deixa desesperadamente solitária

solidao frio

Eu ando muito melancólica. Com certeza, é por causa do frio. Tem potencializador mais eficiente que esse quando o assunto é nos sentirmos sozinhos? Perdi as contas de quantas panelas de brigadeiro eu preparei (e comi) no último mês, ou de quantas vezes eu chorei porque meus amigos ou familiares não me deram a atenção que eu precisava em determinado momento. Vocês não tem noção da quantidade de briga boba e unilateral em que eu me meti nas últimas semanas por estar melancólica – e ninguém me dar atenção por, obviamente, não ter nada a ver com isso.

Nesse furacão emocional, voltei a recapitular meu último relacionamento como se ele tivesse acabado ontem. Acho que, com isso, eu queria encontrar qualquer comprovação de que existe a chance de, um dia, eu conhecer alguém que tenha entre as suas prioridades me fazer feliz. Alguém que realmente não se importe com o fato de o frio me deixar tão dramática. Uma pessoa que faça as panelas de brigadeiros serem menos urgentes.

Dá para contar nos dedos de uma mão quantas vezes eu me apaixonei. Quem me conhece sabe que, toda vez que esse milagre acontece, meu coração jorra sangue antes de se abrir. Por medo. O coitado já tomou muita porrada e, sabiamente, tem receio de tomar mais. Então, eu nunca soube se as coisas não deram certo porque eu passei tempo demais estancando o sangue antes de aceitar a paixão ou se porque eu realmente não tenho a menor vocação para ser amada.

Para alguém como eu, que costuma não ter a menor paciência para segundos encontros e adora tomar suas próprias decisões sem ninguém meter o dedo, é difícil assumir a falta que faz não ter tido um relacionamento que durou mais de quatro meses. Quando eu era adolescente, eu tinha mais coragem de assumir minha carência. Colocava a solidão na boca de personagens e pronto, tirava o desespero das minhas costas. Agora não, eu guardo para mim. Enrolo-me na coberta e fico torcendo para a angústia passar.

Além dessa covardia, eu acho bonito falar que a gente não precisa de ninguém para ser feliz, que isso de casal é uma coisa que a sociedade nos impõe e da qual precisamos nos livrar. Muito fácil encher a boca para defender essa crença, enquanto tenho uma prateleira lotada de livros de amor e vejo todos os filmes de romance assim que estreiam no cinema.

Por isso,  hoje escrevo aqui para dar um recado para mim mesma. Não tem nada de errado em querer amar e ser amada por mais de quatro meses, no fundo, todo mundo procura por isso. E, definitivamente, não tem nada de errado em não se interessar pela maioria dos caras que você fica. Eles realmente não tem nada a ver com você, a não ser o gosto por cerveja. Desencana. Enquanto o calor não vem, o importante é continuar se divertindo a cada colherada de brigadeiro e se segurar para não desaguar sua solidão em mais nenhuma pessoa querida. Essa melancolia tem nome: frio. Segura que já passa.

Água e cabeça erguida

Urubus no céu, em Crato - CE

Urubus no céu, em Crato – CE

Em 2014 trabalhei indiretamente para a campanha da Dilma nos quatro meses que precederam o primeiro turno. Trabalhei madrugadas, domingos e feriados. Seis dias por semana, com turnos que variavam entre 6 e chegaram a até 12 horas. Engordei uns bons quilos. Comia comida processada loucamente, madrugada adentro. Eu não tinha hora para dormir, mas sempre tinha para acordar. Um dia dirigia de volta para casa às 8h da manhã. Passei pela praça Raul Soares, vi as pessoas se preparando para o dia que começava. Chorei em silêncio.

Minha vida não tinha rotina, nem um ritmo saudável. Eu não fazia nenhum exercício físico e sequer lembrava que isso existia. Os amigos que encontrava eram os fiéis e queridos que aguentavam meus turnos estranhos. Um deles também estava sempre de plantão no jornal em que trabalhava, então vez ou outra uma cerveja casava. Minha irmã estava morando na minha casa, com meu sobrinho que acabava de nascer.  Bati pé no trabalho para acompanhar as 20 horas de trabalho de parto. Mas os dias seguintes foram da costumeira ausência: não troquei fralda, não dei banho, não sabia da dor de barriga ou do sono ou do riso. Não o entendia. Ou eu não estava presente, ou estava cansada demais para realmente participar de forma ativa de algo.

Fiz bons amigos e amigas, claro. Nos apoiávamos uns nos outros. Respiro, trocas, risos. Acho que a capacidade de rir e fazer rir e rir de novo salvou nossa sanidade. Era o que tínhamos, afinal.

Encarei esse trabalho porque quis, porque aceitei o desafio. Mas também porque eu acreditava muito nele. Ao monitorar o que as redes sociais falavam sobre Dilma, encontrávamos comentários machistas e misóginos diariamente. Piadas e memes cruéis, horríveis. Boatos infundados, difamação pura, a maldade materializada virtualmente.

Sabíamos que trabalhávamos para alguém que deveria estar cansada. Que era atacada por todos os lados, todos os dias. Pela oposição, sempre, mas por vezes também pelo próprio partido, por ser tão firme. Tão honesta. Tão certa de si (pode, afinal, uma mulher ser determinada e ter suas próprias convicções e modos de operar?).

Dilma ganhou o primeiro turno, eu larguei o trabalho, fiz as malas e fui rodar um filme no sertão nordestino. A campanha não havia acabado – nem para ela nem para mim. Nas conversas cotidianas com os sertanejos, eu nem precisava assuntar, o Governo logo era tema. Fosse pelo Brasil Alfabetizado, pelo Água para Todos, pelo Bolsa Família, pelo Brasil Sorridente, pelo Mais Médicos, ou só pelo Lula mesmo. Sua foto na parede de um restaurante em Monte Santo, na Bahia, onde comi bode pela primeira vez. Seu nome na boca das pessoas de todos os sete Estados que percorremos.

Monte Santo - BA

Em Monte Santo – BA

Era um prazer – talvez um dos maiores que tive e terei na minha vida – conversar com essas pessoas. Muito mais ouvir do que falar. Escutar o que eu não sabia e nunca saberia – porque era a vida deles, afinal. Aprender sobre as plantas no quintal e também sobre o tempo da seca; sobre a falta que filhos e netos fazem, mas também sobre como eles estavam estudando. Que a vida era dura, mas inevitavelmente bela, e inegavelmente melhor.

Estávamos numa estrada de terra no interior do Pernambuco. Era noite e o sinal das estações de rádio oscilava. Havíamos justificado nossos não-votos em Palmeira dos Índios, Alagoas, e seguido viagem. Eu não trabalhava mais na campanha pela reeleição da Dilma seis dias por semana. Agora eu testemunhava pela palavra das sertanejas e sertanejos a transformação que os governos petistas haviam levado para aquelas pessoas e lugares. Dilma não ser reeleita era agora muito pior – eu não via números, eu via vidas.

Paramos quando uma rádio pegou. Não sei em que ponto do mapa. A apuração dos votos estava quase completa. As ruas de não sei onde estavam vazias, serenas. Dentro das casas as TVs falavam. A pálida luz dos postes virou Sol quando ouvimos: Dilma vencera. Nós vencíamos! Eu, mulher, vencia! Dona Nêga vencia! Seu Fortunato vencia! A senhora analfabeta que, lá em 2010, quando fui mesária em Sete Lagoas, me pediu para ajudá-la a votar na “mulher do Lula”, vencia. As famílias atendidas pelo SUS e pelo Bolsa Família no leste de Minas que visitei em 2012 venciam. A cultura vencia. A educação pública viveria. Os negros e gays poderiam continuar respirando com alguma esperança. Quem sabe os índios? As travestis? Quem sabe a população de rua, a camponesa, quem sabe os quilombolas?

Minha mãe, dona de casa, nove irmãos, mãe e criadora de três filhos, vítima de diversas violências ao longo da vida, me disse: desde o dia em que Dilma ganhou, eles não sossegaram. Não aceitaram. Desde então, estão vivendo para tirá-la de lá.

Lixeira em Canindé de São Francisco - SE

Lixeira em Canindé de São Francisco – SE

Voltei a perder meu sono. Senti raiva e ódio verdadeiros. Me senti mal. Fiquei eufórica, revoltada, mau humorada, desanimada. Instável e impotente. De nada havia valido, então? Não o meu esforço, mas os votos de todas aquelas pessoas? O futuro que elas queriam, sonharam, votaram? Suas vontades, suas necessidades, sua cidadania? Será que nós, 54.501.118 pessoas, podíamos só deixar de existir assim?

Parece que perdi. Mas não perdi só. Perderam pessoas que precisam do Estado, da saúde pública, que só podem ter acesso à educação se ela for pública ou particular com bolsa ou financiada, que precisam de casas e terras, que precisam de nomes sociais, que precisam de água tratada, que precisam da previdência social, que precisam de incentivos para a agricultura familiar, que precisam não ser mortas pela polícia, que precisam comer e comprar gás. Eu perdi, mas, antes de tudo, isso não é sobre mim.

Mano Brown disse que “quem quer o impeachment não está preocupado com o país”. E eu adiciono: nunca esteve. Provavelmente nunca estará. Umbigos engolem olhos e ouvidos.

Fiz o que podia como cidadã, jogaram minha cidadania no lixo. Ouvi estórias com as quais eles não se importam nem vão se importar. A macropolítica do meu país me enche de nojo, da maior falta de empatia que já pude sentir.

Mas decidi voltar a dormir bem, comer bem, passar tempo com minha família, dar colo a minha sobrinha que tem um mês de vida, gostar de café, ler um livro de romance de uma nigeriana, tomar água, ler poesia. Não vou me destruir aos poucos porque eles decidiram que assim seria. Não vou perder meu bom humor, meu brilho, minha paz. Eu não vou perder a fé. Me desanimaram, me desrespeitaram, me diminuíram. Mas eu sou mulher e me refaço. As Mães de Maio estão de pé – como sempre estiveram. Dilma segue de cabeça erguida. A Cidade que Queremos BH é construída todos os dias. O TransENEM vai de vento em popa. Índios e estudantes ocupam vias e plenários. Amanhã, amanhã sempre vai ser outro dia. Que pode ser (mais) amargo para quem precisa do Estado e da democracia. Mas nunca vai ser sujo, vergonhoso, egoísta e nefasto como o amanhã dos golpistas.

Equipe caminhando com Dona Maricô até a casa de Dona Nêga, no povoado de Serra Vermelha

Equipe caminhando com Dona Maricô até a casa de Dona Nêga, no povoado de Serra Vermelha

 

 

A quem interessar possa, breve relato que fiz do Nordeste, em 2014, sobre por que votar em Dilma, com coração e responsabilidade: https://goo.gl/bt8Ig4

O lado bom da crise

privada pvsc

Nunca cursei sequer uma disciplina sobre economia, não travei longos debates sobre, não li nem um livro e fugi de todos os artigos e de algumas reportagens. Sei, no entanto, que parte dessa crise econômica (e também a política, claro) foi forjada por quem nela tem interesse – barões da indústria e do empresariado ávidos por cortar salários, cargos e direitos trabalhistas; a grande mídia dedicada em inflamar o povo contra o atual governo e demais pessoas que só gostam de ter uma boa desculpa para qualquer tipo de impasse. Pois bem. Tanto se falou que ela se fez. A crise real, as imaginárias, e todas as tantas filhas que delas se originaram.

Aqui em casa, a crise, por exemplo, não é de todo filha da crise real. Meu pai perdeu o emprego porque prestava serviço ao antigo governo estadual, psdbista, que foi substituído pelo atual, petista. Com todos os escândalos (muito mais que merecidos, e ainda pequenos diante do tamanho real da merda) envolvendo construtoras e empreiteiras, o setor de engenharia civil não anda às mil maravilhas. E assim meu pai está: em casa, desempregado.

E assim ele voltou a ir à padaria, ao sacolão e ao supermercado. Descobriu um lugar que vende aqueles sacos gigantes de laranja, lá na Lagoa da Pampulha. Ele sabe até que horas o Sol bate onde na casa, e em que lugar as plantas se sentem mais felizes. O encurtamento da grana fez com que ele suspendesse o serviço de TV a cabo. Assim ele reencontrou a TV Brasil, a TV Escola, o Canal Futura e a TV Cultura. Ele leu os últimos livros que comprei, coisa que não fazia há anos. Chegou a colorir desenhos com a irmã, que tem síndrome de Down. Como não podia deixar de ser, ele achou brechas para rir de si e da situação. Olhando minha sobrinha, com 4 dias de vida, constatou: “A gente tá igual. Carecas, sem dente, sem emprego, só comendo e dormindo!”, e ainda conseguiu me entender: “Agora eu tô igual você, fazendo freela, e realmente esse povo não paga…”

Eu que não tente enganar ninguém: meu pai não está feliz. Ele foi criado (pela família, mas muito mais pela sociedade capitalista patriarcal) para trabalhar, sustentar a família, criar os filhos. E só. Sem o trabalho, é como se ele nada fosse, nada valesse. Com os filhos criados, mais um vazio. Ninguém ensinou ao meu pai que ele poderia fazer coisas só porque gostasse, desenvolver habilidades aparentemente inúteis (porque não vendáveis), apreciar o tempo para além do formato de horas-trabalho e a vida para além dos anos necessários de contribuição ao INSS. Ele está se virando para se sentir algo dentro de um sistema que o construiu como produto, criado para usos específicos e com prazo de validade. A re-humanização é penosa.

No entanto, aí estamos todos: nos reinventando. Sou jornalista e faço entregas em domicílio para ajudar no negócio da minha mãe. Viajo por uma estrada erma e lá está, pintado de rosa na porta de madeira: vendemos chup chup. Percebo cada vez mais pessoas comercializando água mineral, pipoca doce, amendoim, raquete elétrica, carregador de celular e etecéteras nos sinais vermelhos. No MOVE, um homem entrou vestido de Elvis Presley, dizendo que está cantando nas ruas para pagar a faculdade de moda da filha – e, de quebra, levar qualquer graça inusitada para os percursos. Bazares, feiras e brechós se multiplicam, incentivando um consumo mais consciente. Artistas antes tímidos colocam seus desenhos na roda para virarem tatuagem, a moça começou a fazer brincos, o outro almofadas, e as broas de fubá e cadernos e quitutes…

Não foi a crise que inventou as pessoas que tem que se virar para sobreviver, nem nunca vai ser certo uns trabalharem tanto e ganharem pouco, enquanto outros nada fazem e se esbaldam. Eu louvo aqui aqueles que não se acomodam. Que não sentam no sofá ou no meio-fio a lamentar a horrível crise que sobre nós se abateu, e nada mais pode ser feito. Prefiro pessoas coloridas, versáteis, dispostas e inventivas, a uma estéril sociedade de graduados que, além dos diplomas, carregam umbigos do tamanho do mundo.

O meu 2016 começa agora

2016

A vida tem dessas. Depois de ondas enormes de felicidade, é preciso lidar com dolorosos períodos de descontentamento. E foi isso que me aconteceu nesse início de ano.

2015 foi um ano completamente transformador e sem nenhum traço de tédio. Eu me mudei de cidade, fiz novos amigos incríveis, enfrentei dois engrandecedores desafios profissionais, participei de eventos espetaculares e fui muito, muito feliz. Tão feliz que ignorei com facilidade as diversas pedras que iam surgindo no meu caminho. Até que a conta chegou.

A intensidade foi tanta que 2015 não terminou no dia 31 de dezembro. Durante os três primeiros meses do que vocês já chamavam de 2016, eu me encontrei em um enorme abismo de finalizações. Basicamente, fui engolida por minha própria ansiedade enquanto experienciava o termino de dois elementos de grande importância na minha vida.

Nesse tempo, precisei suportar os derradeiros meses do projeto ao qual entreguei todo o meu sangue ao longo do ano que se passou, enquanto tentava segurar minhas apreensões em relação ao meu futuro como jornalista. Ao mesmo tempo, precisei lidar com a mente complicado do meu atual ex, que não tinha coragem de me deixar partir, mas também não queria mais ficar ao meu lado.

Por mais que eu pareça forte e já tenha sobrevivido a muitos desastres emocionais, dessa vez, eu fiquei sem forças. Perdi a fome pela primeira vez na vida em janeiro, chorei durante todas as noites de fevereiro e, ao longo de março, tentei controlar as lágrimas que insistiam em saltar dos meus olhos durante o horário de trabalho.

Eu me perdi de mim. Não vou negar que dei algumas risadas sinceras nos últimos três meses, mas a enorme nuvem de desesperança que me rodeava ofuscava as boas lembranças assim que os acontecimentos empolgantes chegavam ao fim.

A minha sorte é que, na vida, longos períodos de sofrimento também costumam ser automaticamente substituídos por ondas de felicidade em abundância. E parece que esse novo mar, agora, está começando a molhar os meus pés. Enfim os resquícios de 2015 ficaram para trás. Finalmente o meu 2016 vai começar.

Pode vir, ano novo! Estou mais forte do que nunca.

8 coisas que você pode fazer contra a corrupção no Brasil sem caminhar ao lado de corruptos

grpbp

Contexto: discussão na internet sobre as manifestações do último 13 de março. Chega-se à conclusão de que há corrupção dos dois (que são mais que dois, mas enfim) lados, e então fui questionada: OK, então, de acordo com seu (que era meu) raciocínio, o correto é não fazer nada (pelo país, etc.)?

Me senti motivada a fazer, portanto, uma lista com uma série de coisas que você (qualquer pessoa) pode fazer pelo Brasil (sem bater na tecla do não fure fila, não tenha carteirinha falsificada), ao invés de ser usado numa marcha de corruptos contra a corrupção.

 

  1. SE LIGUE NAS ELEIÇÕES MUNICIPAIS DESTE ANO

Sim, 2016 é ano de eleições municipais.

1.1. Não vá votar no cunhado do seu tio porque sua tia pediu, sem ter a menor noção de qual o projeto político dele; não vá dar um Google perneta no dia anterior à eleição e escolher o rosto que mais te simpatizou; tenha a responsabilidade de procurar saber qual candidato ou candidata é mais condizente com o que você quer para sua cidade e ESCOLHA ELE OU ELA DE FATO. Não apenas engula o candidato ou candidata de pessoas próximas a você. Escolha alguém que te faça sentir representado (essa pessoa existe, você só não pode ter preguiça de procurar), de quem você vá lembrar o nome e se sentir impelido a acompanhar, saber, cobrar.

1.2. Escolhido o candidato ou candidata, ENGAJE-SE NA CAMPANHA DELE OU DELA. Os últimos tempos tem nos mostrado que política é um assunto para todos, não é mesmo? Afeta a vida de todo mundo. Um dos maiores geradores de corrupção na política brasileira é o financiamento privado de campanhas: uma empresa coloca grana na campanha de alguém, e depois quer uma contrapartida que vem por meio de favores e benefícios dados pela máquina pública (uma vez que a pessoa em questão foi eleita). Nada justo, né? A reforma política (assunto de mais logo) propõe o fim do financiamento privado de campanhas. Quando você ajuda na campanha do seu candidato ou candidata (pela internet, ajudando a panfletar, a divulgar ações e ideias, conversando com pessoas próximas a você, etc) você retira o poder das empresas e o volta para os cidadãos – que é onde ele sempre deveria estar.

1.3. AINDA DÁ TEMPO DE SE FILIAR! Para se candidatar a vereador/a ou prefeito/a, é necessário ser filiado/a a algum partido. Isso pode ser feito até 06 meses antes das próximas eleições – o que, esse ano, significa até 02 de abril. Você pode procurar o partido com o qual mais se identifica, se filiar, e por que não? Se candidatar. Política não é assunto só para homem velho branco. Política também é para jovens, de todas as raças, todos os gêneros, todas as classes.

 

A gente tem essa ferramenta maravilhosa que é a internet em mãos. Façamos bom uso dela.

 

  1. SE DEDIQUE A CAUSAS ESPECÍFICAS

A essa altura, acho que já percebemos que somos todos contra a corrupção, não é mesmo? Nem a pessoa que mais difere do seu pensamento político a defende ou a quer para o país. Então vamos passar dessa fase, e partir para o que queremos para o Brasil, o que não está bom e como podemos melhorar? Não vale mais dizer só que é “contra a corrupção”. É a mesma coisa que dizer “estou respirando”. Estamos todos juntos nessa. Pare e pense o que te incomoda no seu dia-a-dia como cidadão, e parta para a ação nesse sentido.

2.1. Por exemplo: se você não suporta as condições do transporte público, procure movimentos que tem discutido e atuado na área. Em BH existe o Tarifa Zero, que promove reuniões abertas a todas as pessoas e age junto à Justiça e ao poder público por melhorias na mobilidade. O Tarifa Zero e o Movimento Passe Livre existem em diversas outras cidades.

2.2. Se você se preocupa com a educação, dê uma olhada na agenda dos sindicatos de trabalhadores da área. Eles estão sempre lutando por melhorias. Em Minas Gerais, por exemplo, o SindUte batalha há anos pelo pagamento do piso salarial nacional aos professores. São promovidas manifestações, audiências públicas na Assembleia, reuniões e outros atos e, como bem estamos aprendendo, a pressão popular faz toda diferença para chamar atenção ao que está sendo pedido e discutido.

2.3. Se você quer se engajar, mas não sabe exatamente onde nem como, tenha calma e procure os movimentos organizados. Você será bem-vindo em todos eles. Em Belo Horizonte, o Cidade que Queremos (iniciativa nos moldes do Podemos, da Espanha, entre outras inspirações) tem realizado reuniões abertas desde o começo de 2015, discutindo e pensando propostas para várias questões relacionadas à cidade: segurança pública, meio ambiente, cultura, utilização do espaço público, etc. Você pode somar em alguma das áreas, ou só acompanhar as reuniões, reafirmando que a política é feita e vivida por todos os cidadãos.

 

  1. DEFENDA A REFORMA POLÍTICA

 

Pode ser que sua revolta maior e suprema seja mesmo contra a corrupção. E agora? Como já entendemos que a corrupção não é exclusividade de um partido, ou seja, se trocarmos A por B, na atual conjuntura, a corrupção permanece, é necessário pensar (e combater) a corrupção em um nível mais profundo.

Voltamos, portanto, à reforma política. É importante ressaltar, inclusive, que enquanto o país se paralisa em torno do pedido de impeachment da presidenta eleita, outras votações da agenda política não avançam. Ou seja: estamos parados reclamando da corrupção (de maneira hipócrita, uma vez que a pseudo-reclamação parte de pessoas corruptas), enquanto impedimos que as soluções reais para o problema da corrupção sejam discutidas e votadas. (Um pacote de medidas anticorrupção anunciado pela presidenta Dilma no ano passado, por exemplo, continua engavetado na Câmara. Ele foi proposto, mas os deputados parecem estar muito ocupados fazendo algo mais importante do que colocá-lo na pauta.)

 

3.1. Pelo fim do financiamento privado de campanhas, que, como já foi dito, é uma das maiores origens da corrupção no Brasil. É este financiamento que gera a eterna troca de favores entre empresas e políticos, deixando os interesses da população em último plano (se uma concessionária de ônibus financia a campanha de um prefeito, ao calcular o preço da passagem no transporte público, o prefeito vai beneficiar a mobilidade do cidadão ou os lucros da empresa referida?). Nota de curiosidade: a presidenta Dilma Rousseff vetou o financiamento privado de campanhas, que havia sido aprovado (por manobra do deputado Eduardo Cunha) pelo Congresso.

 

3.2. A reforma política tem vários pontos, que você pode conferir nesse infográfico do G1: Entenda a reforma política

 

  1. RESPEITE OS MOVIMENTOS QUE ESTÃO NA RUA ANTES DE VOCÊ

 

Se você está muito orgulhoso/a de ter ido às ruas no último domingo e ter feito valer seu direito de manifestação e liberdade de expressão (inexistentes num regime militar, aliás), respeite os outros movimentos que ocupam as ruas. Não vale achar que quando você está lá tudo é lindo e válido, mas quando são os outros é baderna, gente desocupada que atrapalha seu trânsito e humor. A rua é um espaço para manifestação de todos, e movimentos como o dos Trabalhadores sem Teto e dos LGBTT tem tanto direito de ocupá-la como você.

 

  1. CHEQUE AS INFORMAÇÕES QUE LÊ E COMPARTILHA

 

Essa vem acompanhada de um por favor, por favorzinho: não saia repetindo tudo que lê e ouve por aí. Cheque as informações, procure mais de uma fonte. Acredite: não é porque é jornal tal que ele está falando a verdade – “a verdade”, em si, sequer existe. Existem pontos de vista, interesses, subjetividades. Seu pai, seu chefe, seu colega, seu jornal da hora do almoço, nenhum deles está acima do bem e do mal. Então leia, ouça, assista, até conseguir enxergar quais são os fatos presentes ali. Não é porque você é governista que vai ler o Brasil 247 e tomar aquilo como verdade absoluta; e nem seja a oposição que só se baseia em Revista Veja e Jornal Nacional, por favor. Você não está enriquecendo o debate. Ao se ver pensando ou reproduzindo algo, relembre: de onde isso veio? Eu posso afirmar isso? Ou estou apenas repetindo o que veio não sei de onde? Precisamos ser responsáveis pelo que afirmamos, pelo que compartilhamos. Há muita desinformação sendo disseminada, de todos os lados. Não sejamos usados. Nada que uma busca mais caprichada e atenta no Google não resolva. Ninguém ganha com informações falsas, maldosas, que enganam e manipulam.

 

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Tudo muito bonito, tudo muito bacana, mas nem todo mundo tem tempo, ânimo ou vontade de sair de casa para ir sacar a política lá fora. Então, assim como a última dica (e as outras também, na verdade), aqui vão ações extras, para fazer do conforto do sofá mesmo (o que não é uma atitude cidadã menor):

 

  1. CHEQUE AS INFORMAÇÕES QUE LÊ E COMPARTILHA

 

É sério. Desinformação é mais perigoso que DST. Você não está lendo errado: a dica aparece duas vezes, porque merece destaque.

 

  1. TENHA AUTOCRÍTICA (numa relax, numa tranquila, numa boa)

 

Se tem tanta gente falando em justiça seletiva, em golpe, em volta da ditadura militar, pare e pense: será que não tem nada a ver mesmo? Todas essas pessoas, entre artistas, cientistas políticos, jornalistas, jornaleiros, historiadores, professores, gente à toa, estão todos viajando? A minha verdade é tão grande que eu não posso cogitar o que o outro está dizendo? Mais um problema que o Santo Google resolve. Procure as semelhanças entre o cenário político atual e o do golpe de 1964. Veja como agia e como age a mídia, a oposição, a elite. Chegue às suas próprias conclusões (mas muita calma, humildade e leitura de multifontes até chegar lá).

 

  1. EXPRESSE SUA OPINIÃO

 

As redes sociais são cada vez mais ouvidas. Os partidos e políticos estão nos lendo, sim. Com grandes poderes vem grandes responsabilidades, então além de saber muito bem o que você está escrevendo e defendendo, saiba também que é seu direito – contando que não fira o direito e a identidade de mais ninguém. Jogue limpo nas redes, use argumentos, não xingamentos. Cheque o que escreveu antes de enviar, não empobreça nem personalize o debate. Ninguém ganha com isso. Se precisar, o Humaniza Redes te ajuda a colaborar para um universo virtual mais justo, limpo e democrático.

 

Eu só queria chegar em casa e dormir, mas esbarrei com você no meio do caminho

Depois de uma segunda-feira pesada, daquelas que o tempo passa tão rápido quanto discursos de colação de grau e as obrigações são tão divertidas quanto arrancar o siso, tudo o que eu queria era me teletransportar para casa. Estalar os dedos na redação e – plim! – surgir deitada na minha cama. Contudo, como mera mortal que sou, precisei pegar o metrô e suas baldeações para chegar ao meu apartamento.

Foi então que, como se o dia já não tivesse sido desgastante o suficiente, no meio do caminho, esbarrei com você. Ou melhor, com uma lembrança sua. Te vi ali, na plataforma da Consolação, com a blusa social toda amarrotada, me esperando com a maior cara de sono do mundo. Mesmo visivelmente cansado, seu rosto abriu um sorriso enorme ao me ver. Essa cena poderia salvar o meu dia, se não fosse apenas uma recordação da última vez que você sorriu com sinceridade pra mim. Quatro meses atrás.

Logo o metrô chegou e eu, enfim, voltei para casa sem mais fortes emoções. A noite correu bem, até meu corpo exausto finalmente cair na cama e minha mente resolver, outra vez, te visitar no passado. Naquele dia, o meu plano original era ir a uma festa com meus amigos. Eu nem estava com tanta vontade, queria mesmo era passar a última noite em sua companhia antes de ficarmos duas semanas separados por causa das festas de fim de ano. Porém, você sabe, não sou do tipo que desmarca compromissos.

Então, imagine a minha alegria quando, em comum acordo, eu e meus amigos decidimos cancelar a balada. A primeira coisa que fiz foi te mandar uma mensagem pedindo para me encontrar. Você nem hesitou. Saiu na mesma hora de onde estava e foi me ver. E essa foi a última vez que você me encontrou de imediato, sem se questionar se realmente deveria ir.

Se eu tivesse consciência que aquela seria uma noite de últimas vezes tão importante, com certeza teria te aproveitado melhor. Ao invés disso, passamos a noite discutindo por bobagem, dormimos emburrados um com o outro e, assim, destruímos de vez qualquer possibilidade de sermos felizes juntos. Nós nem percebemos isso, mas foi naquele dia que tudo mudou.

Eu viajei, você viajou. O tempo afastados só piorou tudo. Depois disso, você nunca mais aceitou os meus convites com prontidão. Eu, desesperada, tentei tapar os buracos que cavamos tão profundamente dentro de nós com as nossas inseguranças durante aquelas duas semanas separados. Não funcionou. Eles já estavam entranhados demais e, com o passar das semanas, só se multiplicaram.

Lembrar de tudo isso não faz sentido nenhum agora que, depois de doloridas idas e vindas, o “eu e você” enfim acabou. É bem provável a gente nunca mais se encontre e, toda vez que penso nisso, eu choro um pouquinho. Sua ausência ainda me machuca. Já você, imagino, conseguiu seguir em frente. Nunca mais me ligou de madrugada, nem respondeu às últimas mensagens que mandei.

Eu venho tentando fazer o mesmo, virar a página. Alguns dias são melhores que outros, confesso. E sei que daqui a quatro anos esse sofrimento provavelmente não fará o menor sentido. No entanto, em uma segunda-feira desestimulante como esta, tudo o que eu queria era me encontrar com você na plataforma da Consolação e te dar um abraço tão intenso e demorado quanto as nossas ansiedades. Daquele jeito que fizemos tantas vezes em dias de semana atribulados.

Você não faz ideia de quantos dias ruins foram salvos por noites alegres em sua companhia. No momento, porém, só depende de mim me fazer feliz. Sempre foi assim, afinal. Seu cabelo comprido e suas camisas sociais fazem tanta falta quanto eu imaginava, mas vai passar, eu sei. Toda vez passa. Agora é melhor eu dormir que já são quase três da madruga e essas reflexões não vão me levar a nada. A boa notícia é: amanhã é um novo dia. Melhor que hoje, eu espero. Um pouco mais sonolento, talvez. Definitivamente, sem você.

Amigo seu é coisa séria pois é opção do coração

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Meus irmãos passaram a vida mudando de cidade em cidade, acompanhando pai e mãe. A gente sempre tinha que se adaptar à nova rua, nova vizinhança, nova escola. Uma estratégia de sobrevivência nos ensinou a criar pequenos universos particulares, que poderíamos carregar no bolso, independente de qual fosse o novo destino.

Hoje vejo que o universo do meu irmão foi erguido com tijolos de lealdade, cristais de bom coração, um balde de Lego inteiro de só querer-bem-com-sinceridade. Ele, desde que sei, é daqueles que carrega os poucos e bons, e vai com eles até o fim – não importa se primavera ou se tempestade.

No bolso, hoje sei que o Lucas levou principalmente a si mesmo. Ele nunca deixou de se ser, na escola pública ou na particular, no interior ou na capital, no quintal de cimento, na varanda de ardósia ou no gramado visitado por ETs.

Quando menino, Lucas pegava as caixas de madeira onde se vendiam uvas e as transformava em violão (com gominhas amarelas sendo as cordas) ou em arco e flecha (com o qual ele atacava mansões de marimbondo e nos deixava presos em casa o dia inteiro, esperando a raiva animal passar). Hoje, barbado, casado, ele compra madeira e constrói os próprios móveis.

Lucas (nunca só) cuidava de um bando de cachorros da rua; ocupou uma fábrica de uniformes abandonada e uma casa em ruínas para fazer delas abrigo para os cães. Todos tinham nome e carinho e Pepita, quando teve filhotes (na fábrica), só deixava o Lucas se aproximar. Pepita, Hannah, Eros. Hoje, morando na sua nova casa e pagando seu aluguel, ele faz do seu lar, lar dos animais também. Maggie, Beemo, Link, Kheera, Ragnar.

A gente brincava muito de Lego e ele estava sempre embrenhado em ferramentas; hoje, trabalha projetando peças no papel e no computador. A gente montava um laboratório na garagem para dissecar cogumelos e outras formas de vida; hoje ele tem sua própria loja virtual para vender coisas nerds. A gente saía jogando milho e feijão pelos vasos de planta, querendo ver tudo brotar; hoje ele tem planos de ter uma horta em casa, que eu sei que vai vingar.

Ao invés do tradicional futebol, meu irmão fez capoeira, xadrez e ponto cruz. Ao invés do violão, teve um pandeiro e uma gaita. Quando os jovens pediam uma moto aos pais, meu irmão implorava por um cavalo. Ele que me levou para acampar (não sem me fazer medo), para cachoeiras (não sem fazer bullying pelo meu medo), para o que tem para lá dos muros-seguros.

Ele é dono de um coração que vai de Belo Horizonte até Curitiba, passando por Sete Lagoas, Manaus, Pouso Alegre, Goiânia e mais umas quebradas por aí. Incapaz de fazer um malzinho que seja a qualquer pessoa que seja. Incapaz de não ser leal, de não se dedicar, de não ser bom. De não ser ele, enfim.

Do meu irmão, você sempre vai ouvir o riso. Ele vai falar só quando sentir vontade. Mas o riso – o riso vai sair forte, inteiro, de verdade. Do desenho que você nunca viu, de um caso de anos atrás, de qualquer besteira com o pai. O riso vem e ocupa o ar, a casa, o peito. Vem pelos olhos dele que brilham, passando pelas sardinhas até transbordar, como bolas de gude desaguando de um bolso recheado.