Por mais Anittas e menos Mallus Magalhães no mundo

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Em dezembro de 2014, a cantora Pitty deu uma aula a Anitta sobre empoderamento feminino no programa Altas Horas. Anitta havia dito umas besteiras sobre “mulheres agindo como homens” que eu, como fã da funkeira já nessa época, fiquei meio decepcionada. No entanto, notei que ela apenas reproduzia um discurso ao qual foi submetida diversas vezes e do qual ela mesma era vítima. Continuei acompanhando o seu trabalho e dançando as suas músicas com a mesma empolgação – ainda bem.

Hoje, menos de 3 anos depois, Anitta é um dos maiores símbolos brasileiros de mulher independente e poderosa. Atualmente, ela busca fortemente influenciar outras mulheres a serem donas deus corpos e de suas atitudes. Tenho para mim que, depois desse episódio, ela – empresária de si mesma – foi estudar sobre feminismo, ouvir outras pessoas e, assim, remodelou seus pensamentos. Anitta aprendeu com as críticas e se tornou uma mulher ainda mais completa e inspiradora.

Ela tem a mesma idade de Mallu Magalhães, 24 anos. Essa, por sua vez, demonstra que jamais chegará perto de qualquer evolução. Acompanho e admiro o seu trabalho desde quando ela era zombada por não saber dar entrevistas quando surgiu aos 16 anos de idade. Mais de uma vez, já me disseram que me pareço com ela. Eu costumava, de certa forma, a ficar feliz quando isso acontecia. Assim como Mallu, sou menina branca (eu de classe média, ela bem rica) e me identificava com suas músicas. Muitos das minhas manhãs foram embaladas por “Cena” e “Olha Só Moreno” e o show da Banda do Mar é um dos mais encantadores que já fui na minha vida. Uma pena que agora eu precise deixar isso tudo para trás.

A Mallu não é ídolo que se acompanhe. Quando uma enxurrada de críticas caíram sobre ela devido o racismo presente no clipe “Você Não Presta”, confesso ter tido certa esperança. Ao ver o vídeo pela primeira vez, eu gostei. Até estranhei a presença de tantos corpos negros desnudos em quanto ela, branquinha, estava coberta, mas nada que me impedisse de comentar um coração quando minha amiga publicou o link do Youtube. Achei a música deliciosamente dançante e compreendi que Mallu não tem metade do gingado daqueles dançarinos maravilhosos para se jogar da mesma maneira que eles na dança.

No entanto, eu, menina branca de classe média educada em colégio de elite, li cada uma das críticas que vi espalhadas pelo Facebook – e até me arrisquei a procurar algumas extras no Google. Por ter consciência dos meus privilégios e de como eles influenciam na forma com a qual eu enxergo o mundo, tento diariamente me tornar uma pessoa mais empática com realidade dos outros. Busco reconhecer a luta de cada minoria com a mesma força que luto para que os preconceitos e dificuldades enfrentados pelas mulheres sejam minados da Terra. Ao ler o máximo que pude sobre o assunto, aprendi bastante. Porém, claramente a Mallu não.

A cantora pediu desculpas, manteve o clipe no ar e o mundo continuou rodando. Alguns aceitaram as suas palavras, outros acharam que ela podia ter feito melhor e eu esperei que a tchubaruba aproveitasse a oportunidade para evoluir. Mera ilusão. Na manhã desta sexta-feira (23 de junho), ela foi ao programa Encontro, onde mais uma vez defendeu a produção artística do clipe. “Não foi minha intenção”, disse mais uma vez para se livrar das acusações de racismo. Mallu chegou, inclusive, a dizer que entendia a dor de quem se sentiu ferido. “São argumentos que nunca passaram pela minha cabeça e, por isso, eu fico triste”, lamentou. Tudo cena.

Alguns minutos depois, ela se levantou. Era hora de apresentar ao vivo a música “Você Não Presta”. Antes de soltar a voz, soltou a frase mais imperdoável da semana: ”Essa é para quem é preconceituoso e acha que branco não pode tocar samba”. Sim, depois de tudo que foi escrito e falado direcionado a ela no último mês, Mallu Magalhães optou por aproveitar sua exposição em um dos programas de maior audiência da TV brasileira para denunciar o “racismo reverso” sofrido pelos brancos na música. A quem possa ter dúvida: racismo reverso não existe. Nem na música, nem em lugar nenhum.

Espero sinceramente que a Mallu tenha salvação. Eu, porém, não estou mais disposta a acompanhá-la – ao contrário do tenho feito ao longo de toda a sua carreira. Caso me digam mais uma vez que me pareço com ela, vou abaixar a cabeça e, quem sabe, até pedir desculpas. O mundo não precisa de outras Mallus Magalhães, ele precisa é de mais Anittas, Pittys e Elzas Soares.

Meu museu de estreias mínimas

Primeira vez em Buenos Aires

Primeira vez em Buenos Aires

*Texto escrito em 18/12/2013

Foi logo depois da primeira vez que terminei de verdade meu primeiro namoro de verdade que eu me viciei em primeiras vezes. Li o mundo através de todas as possíveis inaugurações e estreias que ele me apresentava. Em poucos dias vislumbrei meu primeiro acervo, que não incluía plantar uma árvore, escrever um livro ou ter um filho – eu comemorei ter ido a um cinema de rua, bebido no prédio mais antigo da cidade e ido a uma casa de festas que sempre quis conhecer. Eu sabia que tudo era despretensioso e pequeno e só tinha o significado que tinha dentro de mim – e talvez por isso fosse tão grande e saboroso.

Desde então, virou hábito. ‘Qual foi a última vez que você fez alguma coisa pela primeira vez’ pode ser um slogan publicitário barato, mas também um mote de vida, me ajudando a desenhar terças e domingos e sábados-feiras. Colore as dúvidas sobre restaurantes, roupas, projetos. É com um prazer imenso e, ao mesmo tempo, muito singelo, que eu destôo os horários que acordo, durmo, almoço, saio e volto do trabalho; e os caminhos que faço e o transporte que uso e o que quero fazer à noite e o que não quero fazer mais. Um novo sabor de suco e uma nova viagem, um novo bairro e um novo jeito de prender o cabelo, a música que eu nunca tinha ouvido e o pensamento que nunca tinha me ocorrido – é sempre com uma alegria orgânica que eu os abraço para dentro de mim.

Eu devia ter vergonha de não só carregar isso como mochila permanente, mas ainda querer escancarar minhas pequenices na parede do quarto, ocupando lugar concreto no mundo. Mas encaro cada miudeza com orgulho de mãe e só torço para que sejamos infinitos enquanto duremos – eu e minha [primeira] coleção de pequenas grandiosas premières solitárias.

No meu primeiro abuso,

Na 1ª vez, eu só corri. Demorou os segundos de entender, e então a fuga das pernas. Nada em palavras. Nem naquele momento nem nunca depois. Eu tinha 8 anos.

Ele era atendente da locadora onde fui alugar uma fita. Eu tinha acabado de assistir “Spirit: o corcel indomável” e ansiava por outra animação. Ele disse que ia me mostrar um filme que eu ia gostar. Tocou meus peitos de criança, e tudo que fiz foi correr. Sem parar.

Na 2ª vez, depois dos minutos de entender, eu tentei fugir. Ele me segurou com força. Apertava meu peito de criança. Eu tinha 11 anos. Consegui chutar minha bicicleta, que ele segurava, com força para cima dele. E corri. Mas, daquela vez, só até a esquina. Minha bicicleta tinha ficado com ele e eu não estava disposta a deixá-la. Parei em frente à farmácia e o encarei com os olhos. Quando ele ameaçava vir em minha direção, eu entrava na farmácia. Em dado momento ele foi embora. Entrei na farmácia e pedi a uma moça que me olhasse enquanto eu buscava minha bicicleta, que estava na rua de trás, porque eu estava com medo. Ela olhou por mim.

Assédio é crime

Ele não era um desconhecido: era um aluno mais velho do colégio no qual eu estudava, e tive que suportar a existência do seu rosto ainda por anos.

Na faculdade, relatos tóxicos, abusivos e criminosos sobre o mesmo rapaz. Não um rapaz sem amigos, esquecido, a passar batido – pelo contrário. Um sempre rodeado de sorridentes rostos, cheio de histórias, causando constante riso, admiração e conivência dos bróders, e, obviamente, o desejo e a ruína de mulheres desavisadas. De repente descobri o estupro que posso ter sofrido sem saber. Eu apaguei ao lado de um abusador. Meses para me permitir cogitar que, sim, eu posso ter sofrido o que não sei naquela noite.

Recentemente tive que cumprimentar um ex-assediador virtual. Não se chamava assim na época. Eu tinha no máximo 13 anos. Ele é 10 anos mais velho que eu. Me assediava por todos os meios virtuais de então (principalmente MSN), embora eu reiteradamente dissesse que não queria ficar com ele. Uma história comum. Um cara a encher o saco de uma criança/jovem/adulta por mais de ano. Eu achava chato, mas não entendia o tamanho da inadequação daquilo. Anos para entender. Quando o vi, depois de década, um leve enjoo acenou por dentro. Ele se apresentou para mim: “Prazer, Fulano”. Aparentemente, não dá para decorar todas as vítimas que se faz.

 

O tempo de entender. O tempo de assimilar. O tempo de não se odiar por aquilo. O tempo de não querer morrer ou matar. O tempo de entender quem se era, e quais eram as reações possíveis para aquela Camila, naquela idade, naquele contexto, naquele dia. O tempo de conseguir falar.

Quando uma mulher fala, temos acesso a um pedaço da ponta do iceberg que ela, não sem custo, resolve deixar derivar. Abaixo da água, todas as vezes em que não dissemos, em que calamos resignadas. Todos os microassédios a cristalizar formando colônias, corais. Todos os assédios sofridos por todas as mulheres ao nosso redor. Todas as vezes em que sozinhas corremos. antes que qualquer palavra pudesse nos alcançar.

Quando uma mulher fala, podemos nos lembrar que não estamos sozinhas. Não aconteceu com você porque você deu azar, porque se vestia assim, se comportava assado, porque não devia estar fazendo aquilo. Aconteceu porque homens abusam de crianças, de jovens e de adultas. Abusam de nós, das nossas amigas e da nossa família.

Quando uma mulher fala, as palavras venceram algumas corridas internas para chegarem até a boca – e até o texto. É a voz de nós todas. 24 anos para eu conseguir falar.

“13 reasons why” é pesada, mas necessária

*contém spoilers

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Eu não sou especialista. Não estudei psicologia, nem tenho a menor noção de psiquiatria. Então o texto que se segue são apenas impressões de uma garota que já sentiu sentimentos parecidos com os de Hannah Baker, mas, definitivamente, nunca pensou em se matar.

Minha primeira reação ao começar a assistir 13 reasons why foi “cara, que menina mandona”. Peguei bode da Hannah dando ordens e culpando seus colegas por ter se matado. Porém, ainda no primeiro episódio, o quadro mudou de figura.

Hannah deu seu primeiro beijo e, no dia seguinte, já era chamada de vadia pela escola. Foi só um beijo. Ela e o cara haviam tido uma paquera legal, o dia foi divertido e terminou com um beijo rápido no parquinho. Mas a vontade de se encaixar fez com que o menino espalhasse boatos sobre aquela tarde – e isso desencadeou em uma série de outras mentiras que trouxeram consequências graves para a vida da garota.

Continuei a série pensando “legal, muito disso realmente acontece na escola, é importante falar, mas por que a galera está tão chocada?”, até que cheguei na parte pesada. Os relatos de Hannah são doídos de acompanhar, porque são reais. Todas as semanas, garotas bêbadas são estupradas nas escolas e universidades, todos os meses, garotas sóbrias também. No entanto, esses acontecimentos – presenciados e vividos – são apenas a gota d’água final em um mar de desgraça e solidão na história da protagonista da série.

Não sei se você se lembra como se sentia quando era adolescente. Nem sei se, por acaso, seus sentimentos se pareciam com os meus. Mas eu era bem sozinha. Estava sempre rodeada de amigos, entretanto era completamente solitária. Não faço ideia se minha mãe se recorda: em muitas noites, eu chorava pedindo para nos mudarmos de cidade, pois eu não era feliz na minha escola e porque as minhas amizades nunca mais seriam como as que tive na infância.

Isso não quer dizer que eu não fui feliz na adolescência. Eu fui. E muito. Tive momentos inesquecíveis, vivi experiências as quais daria tudo para repetir. Mas eu também sofria. A sensação de me sentir deslocada doía mais do que as piadinhas imbecis dos meus colegas playboys. Em casa, era chamada de mal-humorada e dramática. Na escola, a minha fama era de efusiva, porém o “dramática” continuava me acompanhando.

Por essa razão, cada vez que alguém na série dizia “a Hannah era muito drama e eu não estava afim de lidar com aquilo naquele dia”, eu pensava em mim e nos meus amigos. Certamente, a maioria já teve esse sentimento em relação a mim. Se estou um pouquinho triste, resolvo sozinha. Vejo filmes, como brigadeiro, me maquio de palhaça. Entretanto, quando estou na merda, transbordo. Ninguém dá muita bola, só minha mãe. Quando as crises de choro não passam, ela insiste para que eu ligue para a minha terapeuta. Quatro sessões depois, estou novinha em folha.

Por isso, repito: jamais pensei em me matar. Nunca fui diagnosticada com depressão. No entanto, eu já tive momentos em minha vida em que me senti no fundo o poço, sem esperança – e foi justamente nesses momentos que as pessoas queridas mais se afastaram de mim. Lembro-me apenas de uma vez em que minhas amigas interviram e instistiram para que eu procurasse ajuda. E, de novo, quatro sessões de terapia depois, eu já estava forte novamente.

O problema é que algumas pessoas não conseguem recuperar suas forças da mesma forma que eu consigo. Elas chegam ao fundo do poço e por lá ficam. A reação de quem está por perto, normalmente, é não dar bola. “Isso é drama, já passa”. Não passa. Nem sempre passa. Quem está assim não tem forças nem mesmo para pedir ajuda, quanto mais para se salvar por conta própria. E os amigos se afastarem só torna tudo pior.

Apesar de, inicialmente, não ter gostado da atitude de Hannah de culpar os amigos por seu suicídio, no fim, eu compreendi a importância da forma como a narrativa foi construída. A adolescente fictícia não se matou por causa deles, ela se matou porque muita merda aconteceu enquanto ela passava pela fase mais solitária e insegura da sua vida. Ela se matou porque não dava conta de suportar tudo aquilo sozinha.

É por isso que eu acredito na importância de 13 reasons why ter virado série. Assustou muita gente, não assustou? As linhas de atendimento do CVV foram descobertas por muitas pessoas que precisam de ajuda, enquanto uma galera se atentou para a importância de se estender a mão – o ombro, os ouvidos, o colo e os dois braços – para quem precisa.

Repito: não sou especialista, não sei falar sobre as implicações que a série pode trazer para quem está na beira do abismo. O que sei é que muita gente agora vai pensar duas vezes antes de dizer que um amigo “é muito drama” e simplesmente dar as costas. Os sentimentos negativos não tendem a melhorar. É preciso de um empurrãozinho – e, às vezes, mais do que isso – para que quem está no fundo do poço consiga olhar para cima e reúna forças para retornar ao topo.

Para mim, esta é a mensagem de 13 reasons why: seja um estímulo positivo na vida das pessoas, não o contrário; seus amigos precisam de você. Espero que ninguém se esqueça dela quando o hype chegar ao fim.

Impressões sobre a maternidade por uma não-mãe

Mushake, República Democrática do Congo | 2015

Aldeia de Mushake, República Democrática do Congo, 2015 

 

Sou uma bela tia e venho notando sistematicamente o mundo a se comportar em volta do dueto mãe-bebê. Colhi algumas observações, que compartilho com vocês:

Você tem uma guarda compartilhada com o mundo

O pai da criança pode ser ausente, você pode estar se sentindo sozinha, mas basta colocar os pés na rua para uma legião de pessoas darem palpite sobre seu bebê. Aquela senhora que acaba de passar 12 segundos em frente a sua cria sabe muito mais sobre ela, com certeza! E se preocupa mais, afinal, esse frio de 28º e sua menina sem blusa? Esse calor de rachar e você com ela na rua? Convenhamos, os passantes tem muito a colaborar. São como monges budistas, prontos para te salvar da escuridão com uma sábia frase ao cruzar com você na calçada – embora você só estivesse indo à padaria. Acho que é um direito estabelecido, inclusive. Não precisa nunca ter sido mãe, nunca ter segurado um bebê, ou nem ter olhado direito na cara da progenitora: você tem direito a dar sua opinião sobre a roupa, a saúde, o humor e os cuidados com qualquer bebê que te apareça.

Em muitas tribos indígenas a criação dos novos seres humanos é compartilhada por toda a comunidade. O leite é mamado nos seios que tem leite; princípios, valores e tradições são vividos em conjunto, o que basta para a aprendizagem; as crianças são responsabilidade e continuidade do todo – assim como da natureza.

Nossa sociedade exerce o conceito de ‘comum’ em momentos muito específicos e raros para merecer ser comparada a uma tribo indígena. Passamos a vida de forma egoísta, centrados majoritariamente em nós mesmos e nos esforçando em estender a benevolência ao núcleo familiar. O que vejo nessas intervenções repentinas, por vezes invasivas e quase sempre desnecessárias é mais uma diminuição daquela mulher – invariavelmente – que está ali, cuidando de um bebê. A impressão que fica é que todo cuidado sempre vai ser pouco. Não basta o chapéu, o protetor solar, a meia, o maiô de paetê, a fantasia de Teletubby. Está sempre faltando algo, querida mãe, então vou te dar uma mãozinha.

Mas Camila, as pessoas são fofas, elas estão preocupadas, são tiazonas cheias de amor… tudo bem. Nunca vi minha irmã (a mãe em questão) dar nenhuma má resposta a elas. Imagina que bafo? Uma mãe não aceitar um palpite que nunca pediu! Ficar irritada só porque alguém falou para ela que “o sol está forte”, enquanto ela está embaixo deste exato mesmo sol.

Eu gostaria de retrucar todas, empurrar umas, explodir a cabeça de outras. Talvez exista mesmo um senso de carinho nessa preocupação coletiva e constante, como se um bebê fosse mesmo de todos nós, e por isso queremos todos colaborar para um crescimento saudável e feliz. Mas as pessoas fazem isso e depois dão maus exemplos rua afora. Então, querido mundo, sugiro guardar seu palpite para quando ele realmente puder ser aproveitado.

Você é problema de todos 

Você é uma adulta formada, faz suas escolhas, vive sua vida. Mas agora você é mãe e, de alguma forma, parece que a população tem direito a dar conselhos não-solicitados sobre seu viver. Ninguém quer pagar seus boletos, mas de repente todo mundo se preocupa com sua saúde, suas atividades, tudo o que você faz, come e deixa de comer. É assunto se você bebe ou não, se fuma ou não, se engorda, emagrece, pinta o cabelo, faz pilates, dorme tarde, fica no computador ou sai para se divertir (a lista não tem fim). Você ganha um exército de falsas mães (porque a deusa ajude que sua mãe real esteja fora desse júri), confeccionando suaves relatórios de inspeção ao vivo.

Mas não se preocupe, porque a preocupação também é seletiva. Se você tomar um copo de cerveja, pre-pa-ra, tudo pode acontecer: pequenos gritos, alguém cair de uma cadeira, queixo caído, olhares atravessados, pressão baixa, o mundo ameaça acabar. Mas se você apenas não estiver feliz, talvez ninguém perceba nem pergunte nada a respeito e a barra estará limpa.

O seu bebê é um corrimão

Já deu para entender que não sou exatamente a pessoa mais tolerante que você conhece. Para alguém com temperamento sereno pode ser que tudo isso passe despercebido. A percepção das mães provavelmente é outra – e eu estou aqui a observar.

Observar os sorrisos que um bebê desperta quando passa pela rua. O tanto de luz que vai se acendendo no caminho. É uma sorte de milagre ver quanto amor aquele bebê recebe e emana, só por existir. As pessoas estão sempre prontas para elogios, para se derreter, se desarmar, se abrir em júbilo ao mais despretensioso gesto e som. É lindo e é divino, eu não tenho dúvidas. Por vezes um elogio é seguido de um “que Deus abençoe”, que eu aprendi a achar muito delicado e gentil, pois enche aquela troca de boas intenções e energias.

E às vezes as pessoas tocam os bebês, o que é quase irresistível, lembrando que estamos falando de pezinhos que parecem fofas bisnaguinhas. Existe uma ordem lógica: se aproximar da mãe e do bebê, trocar algumas palavras, abaixar para alcançar a altura da criança, tocar o pezinho, tudo bem, por quê não?

Mas existe quem só chegue do nada e meta a mão na cabeça da criança. Você fica só com o rastro de umas unhas longas bem feitas pintadas de roxo. Uma mão peluda com um relógio prateado. Já foi e vocês nem viram – o bebê acaba de levantar os olhos, tardiamente, à procura de quem fez o afago-relâmpago. Não sei vocês, mas eu não saio colocando a mão nas pessoas por aí. Se você me conhecer e chegar de forma estranha ao topo da minha cabeça, eu vou te dar a real: DON’T TOUCH MY CHAKRA. Qualé, gente? Vocês acreditam no que quiserem, eu também, mas calma lá com essa mão no auge do meu corpo físico, na casa dos meus pensamentos, onde dançam umas luzes coloridas sim. Fico pensando se para um bebê, aprendiz de ser, um toque desses não possa parecer um quase tapa, que não anuncia a chegada e ainda chacoalha as ideias.

As pessoas podem ser gentis e luminosas

Chega de amargura, afinal sou tia da maior fonte de luz que já testemunhei. Por onde Amelie passa, a vida faz sentido: ela é simples e feliz por natureza. Amelie coleciona palavras afetuosas, sorrisos verdadeiramente espontâneos e fagulhas de brilho de quem já poderia ter esquecido como reluzir. Nós vamos pegando todo o bem do caminho, rebarbas coloridas da sorte de testemunhar seres puros pelo mundo.

E quando minha irmã viaja de avião com uma bebê, um carrinho, uma cadeirinha, duas malas e uma bolsa, há quem estenda a mão para ajudar de verdade. Uma senhora que quer emprestar o celular, chamar o táxi, empurrar a bagagem. Quem tenha empatia real e perceba que ela precisa de ajuda para poder fazer um xixi, um despacho ou amarrar o cabelo. Aqui e ali, portas se abrem sozinhas, assentos esvaziam, alguma preferência é dada.

Estatisticamente, não sei se o mundo está mais preocupado em ajudar as mães ou em apenas encher o raio do saco delas. Na dúvida, estenda a mão com verdade e humildade, e mal não fará.

Ainda é tempo de ser feliz em 2016?

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Eu não gostei de 2016. Este, definitivamente, não foi um ano de alegrias. Além das desgraças e más notícias que dominaram o mundo, minha vida também não teve um saldo muito positivo. Posso dizer, com todas as letras, que não vou sentir a menor saudade quando ele acabar.

Veja, enquanto resmungo, tenho plena consciência dos meus privilégios e que milhares de pessoas achariam um ano repleto de brigadeiro e maratonas de séries o paraíso. Sei que levo uma vida boa e sou muito grata por isso – todos os dias. Porém, a verdade é que eu não fui feliz.

Calma, não é o caso de se preocupar comigo. Eu estou bem. Eu só não estou feliz. É claro que ocorreram momentos de alegria e satisfação, mas as noites indo dormir com lágrimas nos olhos foram maioria absoluta em relação àquelas em que pus a cabeça no travesseiro com um leve sorriso no rosto.

A maior conquista deste ano – que seria o ponto mais positivo de todos mesmo se 2016 tivesse sido incrível – foi ter realizado um sonho de adolescência: comecei a trabalhar em uma revista feminina. E não em uma revista feminina qualquer, mas na maior do país. Essa é uma vitória que vale por várias boas notícias. Eu sei. No entanto, além das pessoas queridas que conheci, ela foi a minha única razão concreta de felicidade.

Passei a metade do ano sufocada em um relacionamento que mais parecia um aquário repleto de água e completamente vedado. Perdi a fome pela primeira vez na vida, achei que talvez estivesse ficando louca, e não fui forte o suficiente para me desprender disso. Precisou que ele partisse para outra e desaparecesse para que eu conseguisse seguir em frente.

No meio disso, o projeto ao qual eu dediquei cada gota de energia do meu corpo em 2015 chegou ao fim. Sem feedback, sem justificativa. Precisei me despedir sem saber o motivo e isso talvez tenha me doído mais que as ligações transtornadas do meu ex no meio da madrugada. Não. Pensando bem, definitivamente, me doeu mais. Juntou os dois e eu perdi a motivação para qualquer coisa que não fosse assistir a The Good Wife.

Quando, finalmente, eu parecia forte o suficiente para seguir em frente, nada demais aconteceu. O melhor momento do meu segundo semestre foi meu aniversário. Nisso, devo dizer, tenho muita sorte. Consegui lotar duas comemorações: uma em SP e outra em BH. Nessa hora, a gente vê o quanto de pessoas nos querem bem e isso é tudo na vida. Porém, desde então, 3 meses se passaram e nada demais aconteceu. Parece que minha vida está em stand by, o que significa que a minha maior emoção neste tempo foi assistir a 7 temporadas e um reboot de Gilmore Girls.

E eu não sou do tipo que fica sentada no sofá – apesar de passar muito tempo por lá – esperando as coisas acontecerem. Eu vou atrás. Interajo com desconhecidos, visito lugares inéditos e sei muito bem me divertir comigo mesma. Sou do tipo que caminha dançando na rua enquanto houve música, planeja os encontros da galera e sabe valorizar os pequenos instantes da vida.

Veja bem, a verdade é que, depois de um início de ano infinitamente merda, eu esperava algum tipo de compensação neste final. Alguma surpresa, algo transformador. Não sei se 2016 tem energias para esse tipo de coisa ou se gastou ela toda sendo um ano sofrido para a maioria das pessoas. Aliás, não sei se alguém realmente foi feliz neste ano. Olho ao meu redor e o que vejo são indivíduos exaustos que batalharam muito para levantar da cama ao longo dos últimos meses.

De qualquer forma, não quero que este ano seja uma grande mancha preta com dois ou três pontinhos de glitter dourado em minha vida. Eu gosto de olhar para trás e sentir saudade. Eu aprecio as vinte e quatro horas do dia. Por isso, selo aqui um acordo comigo mesma: o ano ainda tem 31 dias até acabar, dá tempo de virar o jogo. Um mês inteiro para 2016 valer a pena. São 31 oportunidades de chegar em 2017 mais inspirada. Bora aproveitar?

O especial de ‘Gilmore Girls’ era exatamente o que eu precisava neste fim de ano

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Hoje acordei às 14 horas, preparei um bom café e me sentei em frete à televisão. Pedi um delivery de comida chinesa, já que – por algum motivo que desconheço, mas desaprovo profundamente – as pizzarias de SP só fazem entregas a partir das 18 horas. Café e delivery, esse era o único jeito possível de iniciar a minha maratona de Gilmore Girls: Um Ano Para Recordar.

Sou fã da série há três meses e as lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto logo no momento em que apertei o play na Netflix – imagino como deve ter sido para quem se apaixonou pelas mulheres Gilmore há 16 anos. É inverno em Stars Hollow e Lorelai sorri para a neve com a mesma alegria tranquila que eu sorrio quando reúno vários amigos no mesmo programa. Logo chega Rory e as duas começam aquele diálogo veloz, cheio de referências pops e irônia, que tornam a história delas tão gostosa de acompanhar.

Passaram-se 9 anos desde que Luke deu um beijão de reconciliação em Lorelai e Rory saiu para cobrir a campanha do Obama para presidente. A ansiedade em saber o que aconteceu com elas desde então é tão grande quanto a vontade de os quatro episódios do especial durarem para sempre. A história vai se desenrolando e está tudo ali, não falta nada. Parece que é Natal, mas sou apenas eu assistindo TV sozinha em casa enquanto devoro uma caixa de yakissoba e outra de frango empanado. E isso é perfeito.

Lorelai e Rory estão passando por situações que se encaixam perfeitamente com os questionamentos que tenho me feito neste fim de ano. A filha principalmente. Ela entrou para o mundo do jornalismo com os mesmos sonhos que a maioria de nós entra quando embarcamos na profissão. Contar histórias relevantes! Fazer a diferença!! Mudar o mundo!!! Mas é 2016 e as pessoas preferem fazer testes do BuzzFeed e assistir a vídeos de desconhecidos falando sobre a própria vida no YouTube do que ler um bom artigo ou um livro reportagem.

Sou jornalista e não trocaria a minha profissão por nada. Porém, com as redações cada vez menores, morro de medo ser obrigada a encarar um plano B para me sustentar. Eu não tenho um plano B. Além disso, sempre sinto que deveria estar fazendo mais. Trabalhar com produção de conteúdo online é cruel. As pessoas só clicam nas notinhas e listas mais bobas que você faz. Quando, finalmente, tem tempo para produzir uma reportagem relevante, os poucos leitores encontram algum jeito muito cruel de lhe criticar por não ter escrito sobre o tema da forma que elas escreveriam.

Ver a Rory procurando emprego em uma redação aos 32 anos é angustiante. Ela leu todos os livros imagináveis, conhece tudo de cultura pop, é uma mulher curiosa sempre em busca de aperfeiçoamento e sabe escrever um artigo de opinião como ninguém. Desempregada. E não é porque ela não é boa o suficiente, mas porque, hoje em dia, é mais fácil virar uma blogueira mundialmente famosa do que conseguir um emprego na área editorial.

Vê-la nessa situação, me faz questionar ainda mais sobre a minha carreira. Estou no caminho certo? Por que não escrevo um livro? Será que começo a produzir reportagens por conta própria no meu tempo livre? Se me organizar melhor, eu consigo fazer toda a parte gerencial do meu trabalho e ainda produzir matérias relevantes no horário de serviço? E aos 32 anos? Será que, até lá, já terei influenciado positivamente a vida de alguém com minhas palavras? Onde estarei trabalhando? Em que cargo? Já vou ter lançado um livro?

Outro aspecto da vida de Rory é que ela segue enrolada nas questões amorosas. A sociedade nos faz acreditar que, se você não tiver encontrado alguém para passar o resto de sua vida até os 28 anos, você é uma fracassada. Rory – assim como eu – sabe que existem coisas mais importantes que isso. Inclusive, é bom ver sua independência sexual. Ela tem um namorado nos EUA, pega o regularmente ex em Londres e, finalmente, faz sexo casual pela primeira vez. Porém – assim como eu –, Rory fica carente da segurança que um relacionamento estável e cheio de companheirismo trás.

E esse é um ponto que, pelo meu histórico, eu não imagino sendo resolvido na minha vida. Nunca namorei, tive alguns rolos que se estenderam por mais de três anos e sempre me dei muito mal quando me envolvi sentimentalmente com alguém. Porém, quando vejo Lorelai, sei que há esperança. Aquele amor firme e intenso que quase toda menina sonha desde a adolescência – por mais feminista que seja – pode chegar depois dos 32. Para ela chegou. Ver o quanto Luke e Lorelai são companheiros é acalentador. No entanto, a série mostra que, após o casal se beijar no “fim”, por melhor que seja a relação deles, os conflitos nunca acabam. Isso é bom. Estabilidade demais é entediante. Mulheres como eu e as Gilmore não gostam de tédio, afinal.

Já passava das 22 horas quando, depois de muitas lágrimas de alegria e melancolia e alguns aplausos de empolgação, chegou o momento das quatro palavras finais. Aquelas que a criadora Amy Sherman-Palladino guardava há anos – e não aconteceram antes porque ela e o marido não participaram da sétima temporada da série.

(agora é a hora que você para de ler se não tiver assistido ao especial ainda, porque eu não quero ser a pessoa terrível que conta lhe conta isso. você precisa assistir!! – sério, segure a ansiedade)

Rory, enfim, tem um foco profissional: está escrevendo o livro da sua vida. Também colocou um ponto final nos relacionamentos que, claramente, não têm futuro. Lorelai está casada com Luke e bem resolvida com Emily, sua mãe (o momento atual dela é outro que rende um post inteiro!). As duas estão sentadas no coreto na praça central de Stars Hollow e Rory solta: “mãe, eu estou grávida”. Fim.

Eu sorrio. Consigo, finalmente, secar as lágrimas que escorreram ao longo dos quatro episódios. Rory está grávida! Assim como na vida real, ainda tem mais por vir na história das Gilmore. Os desafios nunca acabam. Sinto certo alívio. Não cheguei a nenhuma conclusão sobre minha carreira, muito menos sobre a minha vida amorosa. Gilmore Girls, afinal, não é sobre respostas. Nunca foi. Gilmore Girls é sobre viver, encarar desafios, se decepcionar e, principalmente, aproveitar a sua jornada da melhor maneira possível.

Meu sorriso é o mesmo que Lorelai sorria no início do primeiro episódio do especial, o mesmo que sorrio quando reúno vários amigos. Amanhã a vida continua com todos os seus desafios e questionamentos. As perguntas que, algum dia, tiverem respostas serão prontamente substituídas por mais dúvidas, outras serão mistério para sempre. O importante, enfim, é nunca esquecer de apreciar e curtir os detalhes do percurso. Hoje, por exemplo, foi um dia inteiro de contentamento: delivery, Gilmore Girls e minha própria companhia. Nunca vou me esquecer deste sábado especial.

Finalmente terminei “Gilmore Girls” e posso fazer este desabafo que estava entalado há um tempão

*contém spoilers

rory

A primeira vez que vi “Gilmore Girls” foi no SBT. Eu não sei ao certo quantos anos eu tinha, mas adorava quando ligava a TV e estava passando. Por muitos anos carreguei um carinho pela série, mesmo sem me lembrar de muito mais do que o nome de uns cinco ou seis personagens de destaque. Sempre foi uma história a qual eu quis muito ter visto toda, mas nunca rolou. Até que a Netflix disponibilizou todas as sete temporadas em julho deste ano.

Após diversos sábados e madrugadas de maratona, noites e noites estirada no sofá vidrada na televisão enquanto comia brigadeiro, hoje, enfim, terminei os 152 episódios da história de Rory e Lorelai Gilmore. Ao longo desses três meses, precisei lidar paralelamente com as notícias e boatos gerados pelo revival da série – com estreia no fim deste mês. Logo me chamou a atenção a disputa que o público começou a fazer sobre com qual namorado Rory deveria ficar no especial. Afinal, eu havia acabado de conhecer o Dean e já precisava lidar com o fato de que esse romance adolescente, a qualquer momento, chegaria ao fim e ainda viriam Jess e Logan.

Confesso que, devido às circunstâncias, analisei a ação de cada um dos rapazes ao longo dessas sete temporadas. Foi inevitável! Vocês torciam tanto por eles! Em alguns momentos me perguntava “mas já se passaram nove anos, será que a Rory não conheceu alguém melhor?”, porém, por toda a pressão ao redor, eu sentia como se também precisasse escolher um time – e escolhi. No entanto, quando descobri que a garota recém-formada terminava sozinha porque preferiu se dedicar ao início da sua carreira de jornalismo antes de se prender a alguém, a única coisa que eu consegui pensar foi “sério mesmo pessoal?”.

Uma menina de vinte e dois anos se forma, vai cobrir a campanha completa do Barack Obama para a presidência – todos sabemos o resultado político e jornalístico disso – e vocês estão preocupados em descobrir com qual ex-namorado de mais de nove anos atrás ela vai ficar? É isso mesmo? Não sei como foi a vida amorosa de vocês até o fim da faculdade, mas eu espero imensamente que, daqui uns anos, eu não precise escolher entre nenhum dos meus exs desse período para as pessoas ficarem felizes por mim.

Assim como Rory, sou jornalista. Assim como a maioria dos seres humanos, sonho, sim, em encontrar, algum dia, isso que a sociedade vende como amor. Não tive muita sorte nos meus casos amorosos e sei que são tempos difíceis para os apaixonados por fatos do cotidiano e por grandes histórias do mundo real. Porém, sinceramente, se eu pudesse escolher entre consertar o jornalismo ou o meu coração, eu escolheria mil vezes o jornalismo.

Não sei se vocês acompanharam a mesma Rory que eu, mas tenho certeza que aquela menina que vimos crescer ao longo de sete temporadas também escolheria o jornalismo. Ela termina a série a caminho de uma das maiores coberturas da história do jornalismo americano. O que acontece depois? Ela é contratada por algum jornal impresso, como sempre sonhou? Segue em publicações online? Tenta outras mídias? Quais assuntos ela cobre? Já fez reportagens premiadas? Definitivamente, foi essa a história que ficou em aberto.

É claro que tenho interesse em saber como fica seu coração. Eu sou uma das maiores fã de histórias românticas do mundo. Sei que, em algumas noites e finais de semanas, faz a maior falta ter quem te dê afeto e que, só de olhar nos seus olhos, mostre o quanto você é importante. Tenho consciência: por mais bonito que soe, nossas batalhas e vitórias pessoais não enchem o nosso coração por completo. No fim, todo mundo sonha em ser feliz no amor – e torce para que seus personagens favoritos também sejam. Só fiquei preocupada de, durante os últimos meses, os únicos spoilers de “Gilmore Girls” que recebi terem sido sobre Dean, o Jess e o Logan. A série fala sobre tanta coisa a mais!

Espero que a Rory, agora com 32 anos, tenha encontrado um companheiro ou, então, acabe conhecendo alguém bacana nesse revival. Pode até ser algum dos caras do passado, vai saber! Meu ponto é: as pessoas precisam lembrar que o mundo é mais do que encontrar a metade da sua laranja ou não morrer sozinho.  Colocar a felicidade toda de alguém nas mãos de outra pessoa não é justo. Nunca é demais lembrar que você consegue conquistar valiosas alegrias por conta própria. E eu não estou falando de ser consagrado na profissão ou de encher o bolso de dinheiro, mas de correr atrás dos seus sonhos. Seja eles quais forem.

A minha música favorita aos 15 anos era uma apologia ao estupro

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“Toca Aninha Sem Tesão” eu dizia para qualquer amigo meu que pegasse o violão. A maioria não conhecia essa música, muito menos a banda que tocava ela: Faichecleres. Eu, do alto da minha virgindade, adorava o som sacana dos caras. Um pouco culpa da sonoridade retrô do rock n’ roll de suas canções, mais culpa ainda da minha enorme libido enrustida de adolescente. “Toca Aninha Sem Tesão” eu insistia, até que alguns amigos se arriscaram a aprender seus acordes só para me fazer mais feliz na rodinha de violão.

A batida frenética mal iniciava e eu já começava a delirar, pulando a cada fim de riff e chacoalhando os quadris como se estivesse em um baile dos anos 1960. “Sempre que eu chego mais perto, você pede pra eu parar… rá ráa, rá ráa, rá-rá rá-rá rá-ráaa” começava a letra. Fosse na rodinha de violão ou no meu quarto, eu enchia os pulmões para entoar cada palavra em alto e bom som. “Vem cheia de não me toques, cachorro tire as mãos de mim… E não dá, não há tempo a perde-ê-er”, continuava…

Eu gostava muitto dessa música e a batucava na carteira da oitava série – a última da primeira fileira à direita da sala – enquanto cantarolava sua letra no meio da aula de matemática. O João Pedro, que sentava na minha frente, me mandava calar a boca e sempre acabava levando esporro da professora, já que eu a convencia de que era ele quem estava fazendo barulho na hora errada. Logo ele também desistiu de lutar contra o meu fascínio pela canção e, no fim, acabou aprendendo a cantá-la também.

Eu tinha 15 anos. Eu não fazia ideia de que estava idolatrando uma composição sobre estupro. As frases eram claras, eu que não entendia muito bem. “Pois sei que fantasias sujas explodem dentro de você… Cansei, cansei de me humilha-á-ar” – prosseguia o vocalista – “e agora nem que seja a força, nem que chore sem parar, ninguém vai te ouvir gritar”, então o resto da banda fazia um coro à la Beatles em Twist And Shout: “aaah!, ahhh!!, áaaah!!!”. O trio cantarolava os gritos da vítima de estupro. Era isso que aquele barulho ilustrava. Eu cantarolava junto.

E antes que me perguntem: sim, eu sabia o que era estupro. Eu já tinha medo de ser estuprada. Eu tenho medo de ser estuprada desde que a minha babá disse estar acontecendo alguns casos de estupro em BH. Ela me contou bem assim, à caminho da natação: tem alguns homens transando à força com mulheres aqui na cidade e fugindo por uma mata tipo essa aqui do bairro. Eu tinha 9 anos e, desde então, eu tenho medo de andar perto de matas que – supostamente – facilitam a fuga de estupradores. Então, é claro que, oito anos após esse episódio, eu tinha consciência do que era um estupro. Eu só não entendia muito bem.

Naquela época, na oitava série, aos 15 anos, eu tinha para mim que estupro era uma coisa que ocorria na rua. Você estava andando e – vrá! – um filho da puta desconhecido aparecia, te encurralava em algum beco e te largava lá, violada, com uma vergonha tão grande que você não conseguia pensar em mais nada, só em tirar a própria vida. Eu não tinha noção que o estupro, na maioria das vezes, parte de algum conhecido: de um parente, de um colega ou, até mesmo, do seu namorado. Eu não sabia que Aninha Sem Tesão era um apelido escroto para uma menina que, simplesmente, não queria transar com o eu lírico da música.

E chegava o refrão: “Aninha sem tesão, não vejo condição, é superficial / e a minha intenção, é te dar meu coração, e não te fazer mal / Eu bebo teu licor, Aninha sem pudor / Tu come meu mingau au au, não vai fazer dodói / Uh uh uh…” O estupro era romantizado. Eu percebia que o cara estava sendo babaca ao prometer o coração à menina. Era claro para mim que o eu lírico estava falando aquilo só para ela querer transar com ele. Eu achava graça na canalhice dele. Eu me divertia. Eu continuava a cantar: “uaú shubi duba lá bá uába, uaú shubi duba lá bá uába…”, de novo, “uaú shubi duba lá bá uába, uaú shubi duba lá bá uába… Hey!” e vinha o solo de guitarra.

Passaram-se um ano, dois, e eu continuei gostando da canção. Mais para a frente, quando o shuffle do iTunes me surpreendia com ela, era sempre uma alegria muito grande. Eu nunca pulava para a próxima. Passaram-se três, quatro anos, e nada mudou. Foi só no início deste ano, dez anos depois, que eu entendi do que Aninha Sem Tesão se tratava. Demorou isso tudo para eu compreender seu real significado. Poderia, inclusive, ter demorado ainda mais se o assunto não tivesse entrado no debate cotidiano graças às feministas (e eu me incluo nessa).

Foi foda admitir que minha música favorita aos 15 anos era sobre estupro. Foi triste me dar conta que eu me divertia com uma letra tão explícita sobre violência sexual. Porém, apesar dessa dose de decepção com minha ingenuidade adolescente, foi importante ter, enfim, essa compreensão. Ficou claro, de uma vez por todas, que ouvir a experiência do outro é fundamental para compreendermos, cada vez mais, as nossas próprias vivências. Ouvir o outro nos torna mais humanos e, principalmente, nos torna mais nos mesmos.

A minha música favorita aos 15 anos era uma apologia ao estupro. Não é mais. A única coisa que eu posso fazer agora é: trabalhar para que eu continue nessa constante evolução – e a nossa sociedade também.

Minha vizinha tem preguiça das palavras. Coitada.

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“Tchau. Te amo.” disse a vizinha antes de bater a porta do apartamento. Um “te amo” tão mecânico que pensei talvez ter ouvido por engano. Devia ser palavra de despedida, não frase de declaração de amor.

Quando eu era adolescente era recorrente. Ele falava “tchau”, eu entedia “te amo”. Ele falava “te amo”, eu entendia “tchau”. Então eu sempre falava “tcham”, para parecer que eu respondi a mesma coisa que ele me disse e não ser melosa ou grossa na hora errada.

Mas, não, com certeza, a vizinha disse “Tchau. Te amo.” e bateu a porta do apartamento. Em seguida, saiu andando em direção ao elevador com a mesma vontade de viver que eu sinto quando estou com bronquite. Eu fui logo atrás – afinal, era esse mesmo o meu destino. Paramos lado a lado enquanto o mesmo ainda não se encontrava no nosso andar.

A vizinha, então, me olhou nos olhos e depois desviou. Preferiu olhar para a porta do elevador do que trocar um breve cumprimento. O que esperar, afinal, de uma pessoa que fala “te amo” por hábito e não por paixão, pensei. Eu, que só falo “eu te amo” por amor mesmo, não deixei por menos. Botei meu melhor sorriso na cara – mesmo que ela não estivesse mais me olhando – e falei “Bom dia!”. Em resposta, ela resmungou alguma coisa da mesma família do “tcham” que eu dizia na adolescência.

Que pessoa desnecessária! Eu refletia enquanto descíamos o elevador. Lembrei-me do dia que atravessei o nosso corredor e ouvi seu namorado – ou será marido? – cantando alegre no chuveiro. O banheiro deles dá para o nosso corredor e essa é a única impressão que eu tenho do rapaz. Meu vizinho é um cara que canta no chuveiro.

Já minha vizinha fala “eu te amo” no automático e não aprendeu que, quando o elevador chega no térreo, a gente segura a porta para a outra pessoa e se despede trocando sorrisos. Alguns, mais simpáticos, até arriscam um “tenha um bom dia!”. Mas ela não.

Minha vizinha sai reto e não se dá ao trabalho de agradecer nem quando o senhor idoso, também morador do nosso prédio, segura o portão com dificuldades para ela passar calada pela portaria. Grossa. Enfim dou bom dia para o porteiro e percebo: meu “bom dia, seu Mário” tem mais sinceridade que o “Tchau. Te amo.” dessa vizinha.

Pobre vizinho cantor de chuveiro. Pobre vizinha que tem preguiça das palavras. Desejo que as coisas melhorem para vocês em breve. De coração.