Carolina, meu amor

carol

De tanto você pedir, eu finalmente nasci. A Buty tinha o Rafa, a Nati tinha a Lu, e só você, de todas as primas, não uma “rirmãzinha”. Fez bico, fez greve, fez de tudo. Não ia sossegar enquanto não tivesse a sua própria pirralha. Conseguiu. De tanto você pedir, eu vim. Quatro anos e oito meses depois. Toda gorducha. Cheguei com um patins amarelo de quatro rodas para te presentear. Você ficou encantada. Seus olhos pareciam duas jabuticabas e me olhavam com curiosidade. Lá estava eu, uma “rirmã” todinha só para você.

Eu não me lembro de nada disso. Porém a mamãe lembra e sempre me contava essa história com muita alegria. Você gostava de mim antes mesmo de eu nascer. Você sempre me quis. Talvez seja por isso que me trate como se fosse sua filha. Até hoje. E eu reclamo, reclamo, reclamo, mas isso faz parte do seu amor de irmã mais velha, eu sei. De irmã que dividiu os pais, antes só seus, comigo. E dividiu os brinquedos, o espaço no sofá, os primos, os avós e até a babá. E divide até hoje. Roupa, banheiro, família… Só o sofá que, hoje em dia, você gosta de ocupar todo sozinha. Mete a cabeça no meu colo, o pé no colo do papai, e a mamãe fica apertadinha no canto esquerdo. Um sofá enorme, a seu dispor. E a gente reclama, mesmo adorando ter sua companhia enquanto assistimos novela.

Quando crianças, você me irritava – algumas vezes de propósito, outras vezes sem querer – e eu partia para cima. Compensava minha falta de argumentos distribuindo tapas e socos em você. Você nunca me bateu de volta. Eu lembro que fiquei muito assustada quando percebi isso. Mesmo eu te batendo quase diariamente, você nunca revidou. Adorava me provocar, mas não tinha a intenção de me machucar. Nunca teve. Anos mais tarde, voltando de uma cachoeira, você disse para o seu namorado “ajuda a Clara a subir, prefiro ela fora de perigo do que eu”. Mais uma vez me constrangi pela sua proteção. Eu também não queria você em perigo. Também trocaria a minha vida pela sua. Eu também te amo a esse ponto.

Te ver chorando após terminar o namoro no Ensino Médio foi uma das piores sensações que senti na minha vida. Você no banheiro, encharcada de água e choro. Eu senti seu desespero dentro de mim. Quis transformar a sua dor em uma paz intensa. Mas não consegui. Fiquei abraçada te ouvindo chorar. Tinha certeza que vocês voltariam. Não voltaram. Desacreditei no amor romântico pela primeira vez. Entretanto, no dia em que eu terminei meu último relacionamento, você me contou que estava namorando com o Gus. E, desde então, vocês vem me ensinando que esse tipo de amor existe sim. Que ele é maior do que se imagina. Que ele é bom. A paz que eu quis tanto que preenchesse o seu coração anos atrás, finalmente tomou conta de você por inteiro. Para sempre. E essa é uma das minhas maiores alegrias.

Já o nosso amor, não é tão tranquilo. São 22 anos e cinco meses de convivência. É muita história, muita saudade, muito medo de te perder. Você viveu quase cinco anos sem mim. Eu nunca existi sem você. Comecei a existir dentro da sua vontade. Sou metade você desde sempre. Mesmo quando morou Londres, mesmo quando eu te imitei, você esteve ao meu lado. Agora você é adulta e eu – apesar de fugir – já sou quase uma. Algumas coisas vão mudar. Você vai se casar, eu quero morar fora, talvez me case, o papai e a mamãe vão morrer de saudades. E eu também. Vamos ter filhos. Nossas próprias famílias. Os Natais vão ser complicados. Tentaremos almoçar juntos em alguns domingos, talvez eu te mande e-mails diários e você continue me ligando após o expediente, com a voz mansa e uma falta de assunto danada, mas feliz em estar ouvindo a minha voz.

A verdade é que seremos para sempre irmãs, algumas pessoas continuarão a confundir nossos nomes e datas de aniversário, outras vão continuar se referindo a mim como “a irmã da Carol Novais”. E eu vou ter muito orgulho disso tudo, como sempre tive. Eu amo você e escrevo este texto para que você nunca duvide disso. E para que se lembre de tudo que fomos, de tudo que somos e de tudo que ainda vamos ser. Obrigada por ter me querido. Também te quero muito. Feliz 27º aniversário.